A canção que vai da vida na Somália ao terremoto no Haiti

Porto Príncipe parecia um cenário de guerra, talvez pior. O terremoto de 12 de janeiro de 2012 destruiu a capital do Haiti, derrubando do Palácio Presidencial até milhares de edifícios por todos os lados. Foram 160 mil mortos (número não oficial), 300 mil feridos e 1,5 milhão de desabrigados, além de 250 mil imóveis em ruínas. O desafio dos haitianos não era nada diferente do enfrentado por populações que vivem em conflitos armados.

O rapper K’naan, que passou toda sua infância em Mogadíscio, Somália, sabia bem como era isso. A capital somali foi inspiração para uma de suas composições mais famosas, Wavin’ Flag. A música se arrasta em tom que varia do melancólico ao refrão redentor, falando da tendência violenta do ambiente social, da pobreza, a luta para comer e o desejo de sobreviver para um dia ter a verdadeira liberdade. Como é Mogadíscio, como é Porto Príncipe.

Após o terremoto, um grupo de artistas canadenses formou o grupo “Young Artists for Haiti” para regravar a música e reverter o faturamento para os esforços de reconstrução do Haiti. A inspiração era as campanhas de cantores ingleses (Band Aid) e de americanos (USA for Africa, que lançou “We Are the World”) para ajudar a Etiópia nos anos 80. A nova versão de Wavin’ Flag teve a participação de 50 artistas, incluindo Drake, Nelly Furtado, Avril Lavigne, Justin Bieber e Pierre Bouvier (da banda Simple Plan).

A música chegou ao primeiro lugar nas paradas canadenses, mas ficou um pouco ofuscada no resto do mundo por outra versão. A Coca-Cola encomendou uma nova versão de Wavin’ Flag, com uma letra mais festiva e evocando um tema mais esportivo e mundial, para suas campanhas de divulgação da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. A versão acabou se consagrando como um dos hinos do torneio ao lado de “Waka Waka (This Time for Africa)”, de Shakira, mas gerou algumas críticas dos fãs de K’naan pelo uso comercial de uma música que tem origem muito diferente da celebração futebolística.

Ouça a versão original de Wavin’ Flag (neste link tem a tradução da letra):

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.

Como a tragédia do Haiti serve de alerta para as cidades brasileiras

Tragédias no Haiti parecem sempre ter zeros a mais no final. Foram cerca de 1.000 mortos pela passagem do furacão Matthew na última semana, com cerca de 175.000 desabrigados. Em 2010, um terremoto foi ainda mais devastador: 160.000 mortos, 300.000 feridos, 1.500.000 (caso você tenha se perdido nos zeros, é 1,5 milhão) de desabrigados. Entre um desastre e outro, uma epidemia de cólera já atingiu 720.000 pessoas, matando 9.000 delas.

A natureza tem sido cruel com os haitianos, mas muitos dos zeros nas estatísticas se devem a motivos bastante humanos. Por mais forte que sejam furacões e terremotos, a quantidade de danos está diretamente ligada à vulnerabilidade econômica, social e estrutural dos lugares atingidos. Sobretudo nas cidades, onde há maior concentração de pessoas e, por isso, são os lugares em que se produzem a maior parte dos trágicos números após grandes desastres naturais.

O Haiti é um grande exemplo disso. Sua infraestrutura nunca foi problemática, mas se deteriorou demais após décadas de guerra pelo poder. Além disso, o crescimento urbano sem planejamento e realizado em diversos momentos de crises humanitárias fez que grandes áreas das principais cidades (em geral as mais pobres) não tivessem capacidade de resistir aos desastres aos quais o país está sujeito.

Em 2010, um terremoto destruiu boa parte das cidades haitianas, inclusive a capital Porto Príncipe. O tremor foi forte, 7 graus na escala de magnitude, mas a destruição (160 mil mortos, 250 mil casas – incluindo o palácio presidencial – destruídas) foi desproporcional. O terremoto de Tohoku, norte do Japão, em 2011 teve magnitude 9 e matou pouco menos de 16 mil pessoas (10% do total de mortes no Haiti no ano anterior), incluindo as vítimas dos tremores e do tsunami que devastou a região.

Hospital na cidade de Les Cayes (AP Photo/Rebecca Blackwell via Outra Cidade)
Hospital na cidade de Les Cayes (AP Photo/Rebecca Blackwell via Outra Cidade)

O terremoto de 2010 criou um ambiente ainda mais propício a tragédias, por fez a infraestrutura e o desenvolvimento das cidades haitianas retrocederem algumas décadas. A falta de saneamento levou a uma epidemia de cólera. E, com 55 mil pessoas ainda vivendo em abrigos provisórios, a falta de estrutura para resistir a um furacão é ainda menor, até porque não há infraestrutura viária e transporte suficiente para milhares de pessoas deixarem suas casas e buscarem regiões mais seguras, como ocorreu no sul dos Estados Unidos dias depois.

“O Haiti é provavelmente o exemplo mais extremo de vulnerabilidade a um grande desastre, de qualquer tipo”, comentou o diretor do Centro de Preparação para Desastres da Universidade de Columbia, Irwin Redlener, em entrevista ao site Market Place.

Ainda que o caso do haiti seja especialmente grave, pela junção de problemas históricos, econômicos e estruturais, ele serve de alerta para vários outros países com déficit nessas áreas. Inclusive o Brasil.

Os brasileiros se vangloriam do fato de essa região do globo não sofrer com furacões, vulcões e terremotos, mas isso não deixa o País livre de desastres, alguns provocados pela natureza, outros pelo homem. Tragédias como a provocada pelas chuvas no Morro do Bumba (Niteroi) em 2010 e na Serra Fluminense em 2011 ou pelo rompimento de uma barragem em Mariana, Minas Gerais, mostraram como as cidades brasileiras são vulneráveis a tragédias. Muitas das mortes poderiam ser evitadas com planejamento e infraestrutura mais adequada para prever essa possibilidade.

A tragédia do Haiti precisa ser conhecida e lamentada. Mas também precisa ser vista como alerta.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.