A canção do migrante que virou símbolo da metrópole

O nome da música já explica muito o que ela se tornou: “Sweet Home Chicago”, “Doce Lar Chicago”. É natural que um blues com esse nome acabe se tornando um dos símbolos musicais da grande metrópole do Meio-Oeste dos EUA. No entanto, a relação da música com a cidade é muito diferente do que pode parecer. Não é uma canção de exaltação, sobre o quanto o autor se sente bem e acolhido em um determinado lugar. É sobre um trabalhador migrante. O que diz muito sobre a história de Chicago, do autor da música e do blues.

Chicago cresceu no século 19 como um porto que escoava a produção agrícola do sul, que vinha pelos barcos que subiam o rio Mississippi até St. Louis e depois seguiam de trem. Por isso, o contato da cidade com o sul sempre foi grande, um processo que se intensificou na Grande Migração (primeira metade do século 20), quando Chicago foi destino de centenas de milhares de trabalhadores rurais negros que abandonaram o sul para tentar a sorte nas grandes cidades. Junto com suas famílias e seus poucos pertences, levaram sua música, como o jazz e blues, nascidos entre comunidades ao longo do Rio Mississippi.

Muitas canções de blues falavam da vida de migração, de arrumar as malas para ir de uma cidade a outra, de sentir saudades de um lugar. Robert Johnson, talvez a primeira grande estrela do blues e também um filho do rio Mississippi, pegou uma das músicas e adaptou a letra. Incluiu menções a Chicago e Califórnia, dois destinos comuns dos migrantes do sul na década de 1930. Assim nascia “Sweet Home Chicago”.

A versão original tem um estilo de blues do Delta do Mississippi, composto basicamente por violão, gaita e um vocal que sai quase dolorido da boca do cantor. A letra não traz nada de especial a Chicago, até menciona mais vezes a Califórnia. Mas era blues, e blues é a cara de Chicago. A música foi “chicagonizada”, substituindo as citações californianas por “same old place” (“mesmo velho lugar”) e ganhando o estilo de blues da metrópole do Illinois, com instrumentos elétricos, bandas e um espírito mais dinâmico, eventualmente até alegre.

É essa a versão conhecida hoje, que tem como uma de suas referências a interpretação de John Belushi e Dan Aykroyd no filme “Os Irmãos Caras-de-Pau” (Blues Brothers), mas foi interpretada até por Barack Obama em uma sessão com astros como BB King e Mick Jagger na Casa Branca. Nada de se estranhar, pois o presidente americano é havaiano, mas fez sua vida profissional em Chicago.

Confira (e compare) três diferentes versões de Sweet Home Chicago: a de Robert Johnson, a dos Blues Brothers e a de Barack Obama.

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.

Projetaram teleférico para turistas admirarem arquitetura de Chicago

Tem virado moda grandes cidades criarem planos de teleféricos como opção de transporte. Em cidades como Medellín, Rio de Janeiro e La Paz, essa tecnologia fazia sentido pelo modo como ela ajuda a integrar comunidades localizadas em morros. No entanto, foi proposta como alternativa em Washington, Cidade do México, Toronto e Nova York. Na última semana, foi a vez de Chicago apresentar seu projeto. Mas, ao menos, não vendem a ideia como transporte de massa.

Laurence Geller e Lou Raizin, dois empresários locais, apresentaram ao Choose Chicago, instituição que trata de questões de turismo e convenções na cidade, o projeto de uma linha de teleférico como mais um atrativo turístico. O Skyline (nome com duplo sentido e bem espirituoso) passaria pelas pelo centro, dando ao visitante uma vista aérea da elogiada arquitetura da terceira maior cidade norte-americana.

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A ideia do teleférico não seria apenas oferecer um novo ponto de vista, mas ele próprio ser uma atração. “Caímos sempre na mesma questão: qual é nosso diferencial? Onde está nossa Torre Eiffel? Nosso Big Ben? Essas ideias são nossas tentativas de responder essa questão e pretendem começar uma conversa sobre o que é Chicago e qual gostaríamos que fosse nossa reputação no futuro”, comentou Raizin em entrevista ao jornal Chicago Tribune. Segundo Geller, a nova atração atrairia 1,4 milhão de turistas por ano (em 2015, a cidade recebeu 50 milhões de visitantes).

Claro, eles tentam vender sua ideia. Chicago tem seus ícones, como a Willis Tower (ex-Sears Tower e ex-edifício mais alto do mundo), o Millenium Park, o Chicago Theater e a vista dos prédios a partir do Lago Michigan. Até o jazz e o blues podem servir de símbolos, ainda que não sejam físicos. Mas convencer a prefeitura e a população que o teleférico mudaria a cidade de patamar é importante quando se estima que o custo de implantação seria de US$ 250 milhões, parte dele bancado com verba pública.

Pelo projeto, a linha de teleférico poderia levar até 3 mil pessoas por hora e suas cabines foram desenhadas pelos arquitetos David Marks e Julia Barfield, os mesmos da London Eye (famosa roda gigante de Londres). Raizin e Geller calculam que, em valores de hoje, o ingresso do passeio ficaria em US$ 20, o mesmo da subida à Willis Tower e ao John Hancock Center, os dois edifícios mais altos da cidade.

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O Skyline em si parece um passeio interessante para quem já estiver em Chicago. A arquitetura local merece ser vista, mas há várias questões que motivam desconfiança da população e da mídia. Poucos acreditam na promessa que o teleférico funcionaria durante todo o ano, pois o inverno é bastante rigoroso. O vento também é apontado como um possível obstáculo. A Windy City (Cidade dos Ventos) não tem esse apelido à toa, ainda que as rajadas vindas do Lago Michigan não coloquem Chicago entre as dez cidades com piores ventos dos Estados Unidos.

Outro problema é visual. O espaço aéreo do Loop (centro) já está congestionado devido ao metrô, que se ergue em estruturas metálicas e serpenteia pelas principais avenidas. Mais uma estrutura, ainda que passando por outras vias, poderia causar rejeição.

Por isso, os investidores devem ter dificuldades para convencer a população a aprovar o uso de dinheiro público no projeto. Mas, se eles conseguirem viabilizá-lo econômica e tecnicamente e não houver rejeição à existência dessa nova atração, pode ser interessante.

AT&T quer tomar a frente na indústria de cidades inteligentes

O que é? Uma das maiores empresas de tecnologia do mundo anunciou uma parceria com diversas outras companhias e com três metrópoles norte-americanas para trabalhar em sistemas de cidades inteligentes. O objetivo é tomar a dianteira em um mercado cujo valor já foi estimado em US$ 1,5 trilhão.

Concorrentes unidos, ao menos por enquanto

Quanto vale ser a responsável por todos os sistemas de monitoramento e operação de uma metrópole como Chicago? E de Nova York? Tóquio? E Paris, Madri, São Paulo, Bangcoc, Sydney, Buenos Aires, Johanesburgo, Toronto e Moscou? A ideia de cidades inteligentes não é apenas um conceito para a gestão pública, é também uma gigantesca indústria ainda pouco explorada. Por isso, é preciso levar muito a sério quando uma gigante tecnológica como a AT&T anuncia um pacote de parcerias para entrar firme nesse mercado.

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Foi o que ocorreu no Developer Summit, evento realizado na última semana em las Vegas em paralelo à CES (Consumer Electronic Showcase, um dos principais congressos de tecnologia do planeta). A empresa norte-americana será a responsável pelos sistemas de inteligência de Atlanta, Chicago e Dallas. O acordo é tão grande que, para efetivá-lo, a AT&T firmou parcerias com outras grandes empresas, como Cisco, Ericsson, GE, Qualcomm e a IBM.

O acordo com essa última é que causa alguma estranheza, pois a IBM tem suas próprias ambições em cidades inteligentes e seria um potencial concorrente. Segundo Glenn Lurie, CEO de mobilidade da AT&T, as duas empresas pretendem trabalhar em conjunto nesse momento. “Em algumas cidades, seremos o agregador dos sistemas. Em outras, eles já estão trabalhando e nos chamarão para cuidarmos da conectividade do sistema. É uma área nova, teremos de ser flexíveis”, comentou durante o evento.

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O projeto prevê implantação, monitoramento, o processamento e a integração dos mais diversos dados da cidade, como tráfego, distribuição de energia, pontos de vazamento no sistema de distribuição de água e esquinas em que ocorrem crimes. Tudo em tempo real. “As cidades estão procurando o retorno desse investimento”, afirmou Lurie. Ele se refere ao quanto essas soluções podem gerar em economia aos governos, tanto pela redução de direta alguns custos operacionais quanto pela detecção mais rápida de problemas (e redução dos prejuízos)

É uma promessa ousada. As soluções para cidades inteligentes estão em desenvolvimento e todos (poder público, sociedade e empresas de tecnologia) ainda estão aprendendo qual a melhor forma de usar a infinidade de informações existentes. O valor desse mega-acordo da AT&T não foi divulgado, mas uma consultoria já projetou que o mercado total pode valer algo em torno de US$ 1,5 trilhão. Por isso, ser um dos primeiros a entrar com força nessa indústria pode ser bastante lucrativo.