Veja como é a chuva de bombardeios de drones americanos no Paquistão

Barack Obama está em seu último dia como presidente dos Estados Unidos. Foram oito anos no poder, com uma política externa de altos e baixos, que deve ficar marcada pela retomada das relações diplomáticas com Cuba, a morte de Osama bin Laden, o acordo nuclear com o Irã e o Prêmio Nobel da Paz que ele recebeu, mas que também teve a falta de habilidade de lidar com as consequências de movimentos político-militares resultantes da Primavera Árabe e os bombardeios com drones no Oriente Médio.

Essa última questão nem recebe tanta atenção nos debates aqui no Brasil, mas deveria. Os Estados Unidos têm usado sistematicamente drones para entrar e bombardear território estrangeiro. O objetivo é atacar eventuais focos terroristas (sobretudo Taliban e Al-Qaeda), mas esses ataques fazem muitas vítimas civis. As Nações Unidas já afirmaram que essas ações violam a soberania do país atacado e um relatório da Anistia Internacional expressa preocupação que se tratem de crimes de guerra.

A política dos bombardeios de drones surgiu em 2004, durante o governo de George W. Bush, mas se intensificou fortemente com Obama, sobretudo em seu primeiro mandato, entre 2009 e 2012, com pico no segundo semestre de 2010. Para mostrar isso, o CityLab montou um mapa com a linha do tempo dos ataques a drones no norte do Paquistão, próximo à fronteira com o Afeganistão (atenção: não é a região em que Bin Laden foi pego. O líder da Al-Qaeda estava em Abbottabad, ao norte de Islamabad).

Dá para ter uma ideia boa de como os bombardeios se intensificaram em um determinado período. Também é possível selecionar datas para ver o acumulado em um período (a imagem do alto da página, por exemplo, somou todos os ataques durante a era Obama).

A matéria do CityLab tem mais detalhes sobre o mapa e vale uma conferida. Se você quiser apenas uma versão maior do gráfico, clique aqui.

O encontro de Obama, Abe, Pearl Harbor e Sadako Sasaki

Sadako Sasaki era uma garota de Hiroshima que tinha dois anos quando a bomba atômica explodiu em sua cidade, em 6 de agosto de 1945. Em 1954, ela teve diagnosticada uma leucemia, consequência da radiação à qual foi exposta nove anos antes. Sadako foi internada em fevereiro de 1955 e, em agosto, ouviu de um colega de quarto que quem dobrasse mil tsurus (o famoso pássaro de origami) teria direito a fazer um pedido.

A jovem começou a usar todo o papel que encontrasse disponível para uma última tentativa de pedir pela cura, mas não resistiu. Faleceu em outubro de 1955, aos 12 anos, com 644 origamis dobrados. Seus amigos fizeram mil tsurus, que foram enterrados com a estudante. Uma estátua em sua homenagem foi erguida no Parque Memorial da Paz de Hiroshima e, todo 6 de agosto, crianças deixam origamis aos pés da imagem da garota.

O uso da bomba atômica na Segunda Guerra Mundial é bastante polêmico e só pode ser completamente entendido se os argumentos mais comuns (a estratégia de guerra) estiverem acompanhados do lado humano. Por isso, o encontro entre Barack Obama, presidente dos EUA, e Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão, na última terça não foi histórico apenas por marcar o 75º aniversário do ataque a Pearl Harbor, estopim da entrada norte-americana na guerra. Foi também a oportunidade de ambos estarem juntos de um origami de Sadako Sasaki.

Os dois líderes visitaram o Memorial do USS Arizona, encouraçado da marinha norte-americana atacado pelos japoneses em dezembro de 1941. Lá, puderam ver um dos tsurus da garota de Hiroshima, parte do acervo do museu desde setembro de 2013, quando foi doado pela Fundação Legado de Sadako como símbolo de paz e reconciliação.

A família Sasaki guardou os origamis de Sadako após sua morte e cedeu alguns como gestos de paz. A simplicidade da trajetória da garota e sua luta inglória contra os efeitos da radiação não pode ser esquecida jamais. E nem é preciso ir até o Japão ou ao Havaí para ter mais contato com essa história. Entre os tsurus doados pelos familiares da menina, um está no Brasil, na Assembleia Legislativa de São Paulo, desde 2015. O fato é conhecido por pouca gente, um problema compreensível. Uma peça como essa, por seu valor histórico, merecia ser exposta ao público, em um local destinado para isso. Como diria Indiana Jones, “isso pertence a um museu”.

A canção do migrante que virou símbolo da metrópole

O nome da música já explica muito o que ela se tornou: “Sweet Home Chicago”, “Doce Lar Chicago”. É natural que um blues com esse nome acabe se tornando um dos símbolos musicais da grande metrópole do Meio-Oeste dos EUA. No entanto, a relação da música com a cidade é muito diferente do que pode parecer. Não é uma canção de exaltação, sobre o quanto o autor se sente bem e acolhido em um determinado lugar. É sobre um trabalhador migrante. O que diz muito sobre a história de Chicago, do autor da música e do blues.

Chicago cresceu no século 19 como um porto que escoava a produção agrícola do sul, que vinha pelos barcos que subiam o rio Mississippi até St. Louis e depois seguiam de trem. Por isso, o contato da cidade com o sul sempre foi grande, um processo que se intensificou na Grande Migração (primeira metade do século 20), quando Chicago foi destino de centenas de milhares de trabalhadores rurais negros que abandonaram o sul para tentar a sorte nas grandes cidades. Junto com suas famílias e seus poucos pertences, levaram sua música, como o jazz e blues, nascidos entre comunidades ao longo do Rio Mississippi.

Muitas canções de blues falavam da vida de migração, de arrumar as malas para ir de uma cidade a outra, de sentir saudades de um lugar. Robert Johnson, talvez a primeira grande estrela do blues e também um filho do rio Mississippi, pegou uma das músicas e adaptou a letra. Incluiu menções a Chicago e Califórnia, dois destinos comuns dos migrantes do sul na década de 1930. Assim nascia “Sweet Home Chicago”.

A versão original tem um estilo de blues do Delta do Mississippi, composto basicamente por violão, gaita e um vocal que sai quase dolorido da boca do cantor. A letra não traz nada de especial a Chicago, até menciona mais vezes a Califórnia. Mas era blues, e blues é a cara de Chicago. A música foi “chicagonizada”, substituindo as citações californianas por “same old place” (“mesmo velho lugar”) e ganhando o estilo de blues da metrópole do Illinois, com instrumentos elétricos, bandas e um espírito mais dinâmico, eventualmente até alegre.

É essa a versão conhecida hoje, que tem como uma de suas referências a interpretação de John Belushi e Dan Aykroyd no filme “Os Irmãos Caras-de-Pau” (Blues Brothers), mas foi interpretada até por Barack Obama em uma sessão com astros como BB King e Mick Jagger na Casa Branca. Nada de se estranhar, pois o presidente americano é havaiano, mas fez sua vida profissional em Chicago.

Confira (e compare) três diferentes versões de Sweet Home Chicago: a de Robert Johnson, a dos Blues Brothers e a de Barack Obama.

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.