Símbolo do nazismo se torna o maior campo de refugiados da Alemanha

Um terminal de passageiros em formato de águia, com hangares semicirculares formando as asas. Uma decoração imponente, feita para impressionar os visitantes. O Tempelhof não foi reformado na década de 1930 apenas para ser o principal aeroporto de Berlim. Foi idealizado como um símbolo de força a quem desembarcava na Alemanha nazista, além de um estádio para apresentações militares promovidas pelo governo de Adolf Hitler.

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Os acontecimentos históricos sempre acompanharam a trajetória desse local na região centro-sul da capital alemã. O nome vem da Idade Média, quando o terreno pertencia a cavaleiros templários. Depois, se tornou palco de apresentações do Exército prussiano e campo de pouso a partir da Primeira Guerra Mundial. No período entreguerras, esteve ao lado do Croydon (Londres) e Le Bourget (Paris) como ícones do crescimento da aviação civil europeia. E, durante a Guerra Fria, foi a principal comunicação entre Berlim Ocidental – ilhada por um muro – e o resto do mundo.

O novo capítulo da trajetória do Tempelhof também reflete o momento histórico que a Alemanha vive. O aeroporto foi desativado em 2008 e, desde então, foi utilizado como parque, também recebendo feiras, congressos, shows e até corrida de carro. Agora, é a vez de receber milhares de refugiados que chegam diariamente do Oriente Médio, sobretudo fugindo dos conflitos que devastam Síria, Afeganistão e Iraque.

Já há centenas de migrantes acomodados em tendas e boxes instalados nos gigantescos hangares do aeroporto, mas ainda há obras para ampliar a capacidade e melhorar as acomodações, com mais infraestrutura de higiene pessoal, alimentação, escola, creche e até área de lazer. A projeção dos alemães é que o Tempelhof consiga receber até 7 mil pessoas, mas sempre como um ponto de passagem, dando abrigo a refugiados enquanto eles não conseguem emprego e moradia fixa para reiniciar a vida no novo país.

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Segundo os responsáveis pelos projetos do Tempelhof, não há intenção de descaracterizar o local para transformá-lo definitivamente em abrigo. O edifício do terminal de passageiros é tombado e não deixará de ter as características de um antigo aeroporto. Também havia um plano de destruir os hangares para aumentar o espaço verde no parque. Desse modo, a transformação do Tempelhof em habitações permanentes não está nos planos.

Tem algo de irônico ver que a estrutura idealizada por um governo que perseguia não-germânicos está sendo usada para ajudar estrangeiros a entrarem na sociedade alemã. Mas não é o primeiro uso humanitário do Tempelhof. Entre os tantos episódios históricos vividos no aeroporto está seu uso durante o Bloqueio de Berlim entre 1948 e 49. Quando a União Soviética restringiu a movimentação de civis na cidade, o exército americano passou a sobrevoar Berlim Oriental, despejando itens de primeira necessidade (como combustível e comida) para a população. Os hangares do aeroporto eram usados para armazenar e embarcar os suprimentos.

Nada de separar: metrópole dividida entre México e EUA quer integração

O que é? San Diego e Tijuana estão no extremo oeste da divisa entre Estados Unidos e México. As duas cidades formam uma mancha urbana que reúne quase 5 milhões de pessoas. É comum moradores de uma irem à outra para trabalhar, estudar ou resolver coisa do dia a dia. Uma viagem sempre demorada pelo fato de que, no meio do caminho, têm de passar por postos de imigração. Mas uma passarela permitirá uma maior integração entre os dois lados, facilitando aos residentes nos EUA acessarem o aeroporto do lado mexicano.

Soluções para uma metrópole binacional

Donald Trump tem sido o candidato mais caricato da campanha à presidência dos Estados Unidos. O empresário baseia sua candidatura a frases fortes e polêmicas, com tom que soa exageradamente conservador até para uma parte dos eleitores conservadores. Ainda assim, tem conseguido se manter como um dos concorrentes mais fortes do Partido Republicano. Um de seus alvos preferenciais são os imigrantes mexicanos, a ponto de se propor uma construção de um grande muro na fronteira entre os dois países. Mas uma passarela inaugurada na última quarta mostra como o caminho é integrar, não dividir.

CIDADES x FRONTEIRAS: Nem o Muro de Berlim impedia a passagem do metrô

Foi inaugurado na última quarta o Cross Border Xpress, o terminal de passageiros do aeroporto de Tijuana localizado em San Diego. É exatamente isso: uma parte das instalações de um aeroporto mexicano em território americano. Uma obra que os dois lados sabiam ser necessária, mas que levou mais de 25 anos para sair do papel.

Imagem de satélite da região metropolitana San Diego-Tijuana. A linha vermelha marca a fronteira (Google Earth/Outra Cidade)
Imagem de satélite da região metropolitana San Diego-Tijuana. A linha vermelha marca a fronteira (Google Earth/Outra Cidade)

O aeroporto General Abelardo L. Rodríguez está localizado na região nordeste de Tijuana, a apenas alguns metros da fronteira com os Estados Unidos. Ele é bastante útil para quem quer ir ao México, pois oferece voos para locais não ligados a cidades americanas e os preços de viagens domésticas das companhias aéreas mexicanas são muito competitivos.

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No Sul da Califórnia, é uma possibilidade particularmente atraente. Milhões de mexicanos ou americanos de origem mexicana vivem entre San Diego e Los Angeles e voltam regularmente para visitar a família no México durante as férias ou feriados importantes. Todas essas pessoas eram obrigadas a pegar voos nos Estados Unidos – pegando mais caro e/ou fazendo mais conexões – ou tinham de encarar o sempre demorado e tenso – às vezes, hostil – posto de imigração terrestre na fronteira.

Obs.: Há três pontos de passagem entre San Diego e Tijuana. O San Ysidro é o posto de imigração terrestre mais movimentado do mundo, com mais de 40 milhões de pessoas indo de um lado ao outro por ano. Filas quilométricas são comuns nos dias de grande movimento.

É isso que o Cross Border Xpress elimina. Há anos as prefeituras das duas cidades chegaram à conclusão que era necessário ampliar a integração urbana e econômica. O aeroporto era uma possibilidade óbvia, pois traria benefícios rápidos os dois lados da fronteira: San Diego aumenta sua competitividade como ponto de passagem para quem quer ir ao México e Tijuana vê aumento do movimento de seu aeroporto.

Vista aérea do Cross Border XPress, com a ponte passando sobre o muro da fronteira e o terminal do aeroporto em Tijuana à esquerda
Vista aérea do Cross Border XPress, com a ponte passando sobre o muro da fronteira e o terminal do aeroporto em Tijuana à esquerda

O funcionamento é simples. Um terminal de passageiros comum foi construído do lado americano da fronteira. O passageiro pode estacionar seu carro nos EUA ou ir de transporte público normal. Faz o check in ainda em solo americano e atravessa a fronteira por uma ponte que passa por cima do muro da fronteira. Aí, é só se direcionar aos portões de embarque do aeroporto de Tijuana.

É um passo pequeno ainda diante de toda a questão entre México e Estados Unidos. Mas a parceria entre San Diego e Tijuana mostra como a força das regiões metropolitanas é maior que um muro, e que entender cidades vizinhas como uma só, buscando soluções conjuntas, é fundamental para o desenvolvimento de ambas.