Governantes, parem de construir estádios com dinheiro público

O que é? O Coliseu do Sertão, uma das obras mais extravagantes dos últimos tempos no Brasil, começou a ser pintado em Alto Santo-CE. Na mesma semana, a Confederação Brasileira de Futebol informa que pode realizar o jogo Brasil x Uruguai no estádio do Arruda, em Recife, e a NFL (liga de futebol americano) vê três clubes pedirem para mudar de sede porque suas cidades relutavam em bancar a construção de novos estádios. Três histórias, de características muito diferentes entre elas, que mostram que o poder público não deve se meter a botar dinheiro em arenas para esporte profissional, mas continua fazendo isso.

Se você construir, ele (nem sempre) virá

Alto Santo está ganhando um novo marco. A cidade do interior cearense começou a pintura da fachada do Coliseu do Sertão, estádio com arquitetura inspirada no xará romano e um custo acima de R$ 1,5 milhão. Tudo para ter uma arena de 20 mil lugares para ser a casa do futebol (e de outros eventos) na cidade de 16 mil habitantes. Isso mesmo, não é erro de digitação. O estádio tem capacidade maior que a população local.

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A obra do estádio – chamado oficialmente Arena Coliseu Mateus Aquino – chamou a atenção da imprensa nacional por sua extravagância. Ainda mais considerando que o Alto Santo Esporte Clube, único time profissional da cidade, estava inativo desde 2008. Acabou retornando em 2015, na terceira divisão do Ceará, para justificar o investimento em um estádio.

Obs.: Veja mais sobre o coliseu aqui. É uma pérola.

O Coliseu do Sertão está marcado como exemplo de obra faraônica, algo comum na história da gestão pública brasileira. Mas suas características caricatas não devem ofuscar o fato de que projetos como esses são comuns em todo o mundo, inclusive em grandes cidades. O que ocorreu em vários estádios da Copa do Mundo de 2014, com arenas incrivelmente superdimensionadas, e até em países em que o esporte profissional é um setor economicamente relevante.

Esse último é o caso dos Estados Unidos. Na última semana, a NFL (liga de futebol americano profissional) encerrou uma longa disputa entre Oakland Raiders, St. Louis Rams e San Diego Chargers. As três equipes estavam descontentes com seus antiquados estádios. Os donos dos clubes consideravam que uma arena nova atrairia mais público e aumentaria o faturamento. Era a desculpa necessária para abandonar suas sedes e se mudar para Los Angeles, segunda maior cidade dos EUA (que, incrivelmente, está sem time na liga há 20 anos).

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No final das contas, os Rams foram selecionados para ir a LA, com a possibilidade de os Chargers seguirem os mesmos passos. A equipe (ou as equipes) mandará suas partidas em um estádio que será construído com recursos da iniciativa privada, o que é merecedor de elogios. No entanto, esse é o final relativamente feliz de um processo que teve, durante todas as etapas anteriores, inúmeras chantagens dos dirigentes com os prefeitos de suas cidades. Tanto que St. Louis chegou a apresentar uma proposta de novo estádio construído a partir de verbas públicas, tudo para manter seu representante na NFL.

A conta dos governantes norte-americanos é semelhante à dos brasileiros que achavam justificável bancar as obras de estádios modernos para a Copa: eles permitem o desenvolvimento de um time local forte, que geraria riqueza (e impostos) pelo dinheiro que movimentaria, e dão à cidade um palco para eventos culturais de grande porte. O problema é que, muitas vezes, essa conta não fecha.

No Brasil, estádios de Natal, Manaus, Cuiabá e Brasília já sofrem com dificuldades de se viabilizar economicamente. O futebol local não cresceu (em Natal, o problema é que o clube mais popular da cidade, o ABC, já tinha sua própria casa) e não houve um boom de eventos para pagar as contas.

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Mesmo onde o futebol local gera recursos para supostamente viabilizar obras mais pesadas há problemas. No Rio de Janeiro, a concessionária que administrava o estádio o devolveu ao governo estadual. Em São Paulo, o Corinthians está com dificuldade de bancar as parcelas de sua nova casa. Em Pernambuco, a arena em São Lourenço da Mata raramente lota e, para se viabilizar, estabeleceu um aluguel alto demais para receber Brasil x Uruguai nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. Com isso, o jogo, programado para março, pode ser realizado no Arruda, um estádio grande, mas antigo.

Nos Estados Unidos é um pouco diferente, ainda que a conclusão seja semelhante. É comum clubes profissionais ameaçarem mudar de sede como forma de convencer as prefeituras a construírem novos estádios com recursos públicos. Muitas acabam cedendo.

É relativamente fácil medir o tamanho do esporte norte-americano como setor econômico, o que ajuda a explicar por que investir em uma nova arena dá retorno. Ainda mais com a quantidade de eventos extras realizados nas grandes cidades do país mais rico do planeta. O problema é: com ligas bilionárias, formadas por clubes bilionários pertencentes a empresários bilionários, por que o poder público é que tem de pagar pelos estádios?

O caso dos Rams mostra isso. Stan Kroenke, dono do time, tinha nas mãos a possibilidade de ficar em St. Louis com um estádio novo, pago pelo governo local. Mas decidiu se mudar para Los Angeles, para uma arena que terá de bancar com seu próprio bolso. Tudo porque ele sabe que a diferença econômica entre a cidade californiana e a do Missouri é tão grande que ele terá mais lucro se gastar no estádio.

O resultado disso é que construir estádios não é uma saída interessante para a cidade em quase nenhum caso. Se o esporte profissional local gera riqueza suficiente para dar retorno ao investimento, ele próprio deveria bancar sua estrutura. Se a ideia é apostar em um crescimento no futuro, algum empreendedor que se apresente para bancar essa aposta.

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Para o poder público, obras de instalações esportivas só são realmente válidas se houver interesse social nas instalações. Por exemplo, para incentivar a prática de esportes que não conseguem se sustentar com as próprias pernas ou para dar apoio a políticas mais amplas de educação e cultura. Ainda assim, o custo precisa ser proporcional ao retorno que o espaço dará à sociedade, sem extravagâncias ou luxos.

O Japão mostra bem isso. Os milhões gastos em estádios para a Copa do Mundo de 2002 se pagaram com a realização de diversas competições escolares. Isso foi possível porque trata-se de um raro país em que a população dá apoio forte ao esporte no ensino fundamental e médio. E, mesmo assim, os japoneses abandonaram o primeiro projeto para o estádio principal dos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio, porque o custo estimado de sua construção era muito alto. Preferiram jogar fora a proposta e buscar uma outra, dentro da realidade econômica de sua capital.

Por isso, os gestores públicos precisam entender que não faz sentido gastar dinheiro do contribuinte com estádios. E a sociedade tem de se lembrar disso para cobrar seus governantes.

Interlagos é exceção: autódromos serão raridade em metrópoles

O que é? São Paulo prepara-se para receber mais uma edição do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1. Trata-se do maior evento esportivo anual da cidade, responsável por atrair milhares de turistas de outras regiões brasileiras e até de outros países. Esses números são usados para justificar o alto investimento da prefeitura em Interlagos, mas essa realidade é muito específica à capital paulista. Cada vez mais, os autódromos sofrem para sobreviver nas metrópoles.

O mercado expulsa as corridas de carro

São milhões e milhões, parece que a cada ano é mais. A prefeitura de São Paulo está sempre investindo em melhorias no Autódromo de Interlagos. A última, que teve início em 2014 e só será finalizada para o GP do Brasil de Fórmula 1 de 2016, custará R$ 144 milhões e deixará a boxes, área de imprensa e paddock completamente novos, com estrutura compatível com as exigências atuais da categoria. Mas, vale a pena gastar tanto dinheiro em um circuito?

De certa forma, vale. Mas vale só porque esses gastos mantêm a F1 na capital paulista. Todo ano, os diferentes prefeitos divulgaram números e mais números que mostrariam quão importante a categoria é para a cidade. De fato, milhares de turistas de outras regiões do Brasil e do exterior viajam a São Paulo para ver o GP do Brasil. O impacto nos hotéis e restaurantes da região da Avenida Paulista/Jardins e na Zona Sul em geral é palpável.

ESTÁDIOS: Pacaembu deve servir a quem precisa dele, não virar arena moderna

A conta pode até mudar um pouco e, em anos em que as intervenções exigidas são maiores (como nesse período 2014-16), não fechar, mas, no geral, ainda é importante para a cidade manter a corrida como forma de divulgação da cidade e movimentação da indústria do turismo. Até porque os paulistas perderam muito espaço para o Rio de Janeiro na rota dos eventos esportivos internacionais, principalmente por causa dos investimentos ligados aos Jogos Olímpicos de 2016.

Vista aérea de Interlagos, com bairros cercando quase todo o autódromo
Vista aérea de Interlagos, com bairros cercando quase todo o autódromo

Claro que a realização da F1 não é a única responsável pelo retorno do investimento. Interlagos também se viabiliza porque sua tradição e a força econômica de São Paulo movimentam o espaço, seja com corridas de categorias nacionais e regionais, cursos de pilotagem, festivais de música ou como parque público. Além disso, criou um comércio voltado ao automobilismo em torno do circuito, com lojas de equipamentos para corrida e de autopeças para carros de competição e escolas de pilotagem. Mas o cenário para outras pistas pelo Brasil é bem diferente. E a tendência é que as cidades acabem os expulsando.

Um autódromo ocupa uma área gigantesca. Interlagos, por exemplo, tem quase 1 milhão de metros quadrados, mais de cinco complexos do Maracanã. Para uma grande cidade, sempre alvo do mercado imobiliário e pela briga por espaço, uma área desse tamanho é preciosa. Para o poder público, é um local que pode ter inúmeras funções com mais interesse social que corridas de carros. Para a iniciativa privada, é um terreno com alto potencial de exploração imobiliária. Há, por exemplo, tem um bairro de alto padrão entre o circuito e a represa de Guarapiranga, e muito investidor adoraria expandir essa região com um grande condomínio.

ESPORTE E CIDADE: O Brasil precisa ver o esporte como meio de integrar pessoas e cidades

Com o automobilismo vivendo um mau momento de popularidade, algo que pode ser visto mais pela dificuldade de sobrevivência das categorias nacionais do que pela audiência da F1 na Globo, é difícil justificar a manutenção de vários desses autódromos em metrópoles. Jacarepaguá foi largado pelo poder público até se transformar no Parque Olímpico do Rio de Janeiro. O autódromo Nélson Piquet, em Brasília, está em péssimo estado e chegou a ser usado como terreno auxiliar do canteiro das obras de reconstrução do estádio Mané Garrincha para a Copa do Mundo de 2014. O autódromo de Curitiba, privado, constantemente emite um comunicado negando especulações de que seria vendido para incorporadoras explorarem seu terreno, em São José dos Pinhais (cidade vizinha à capital paranaense).

Obs.: falo em “queda de popularidade do automobilismo” com pesar. Vejo corridas de carros desde os seis anos (o faço até hoje) e fui editor de um site especializado no tema (o Tazio) por dois anos.

Os autódromos que vivem com menos ameaças a sua existência estão no interior ou em cidades com menos pressão imobiliária, casos de Guaporé, Velopark e Tarumã (todos no RS), Cascavel (PR), Caruaru (PE) e Campo Grande. Londrina é uma exceção, com um autódromo no meio da cidade.

Esse fenômeno não é brasileiro. Na Europa e nos Estados Unidos, a maioria dos autódromos está localizada em cidades pequenas (Hockenheim-ALE, Silverstone-ING, Daytona-EUA, Suzuka-JAP, Spa-Francorchamps-BEL), fora da área conturbada das metrópoles (Homestead/Miami-EUA, Barcelona-ESP) ou dentro de um espaço maior, como um parque urbano (Cidade do México, Montreal-CAN, Melbourne-AUS e Monza-ITA).

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Circuito de Spa-Francorchamps, no interior da Bélgica
Circuito de Spa-Francorchamps, no interior da Bélgica

Esse tipo de situação só deve se agravar. O automobilismo como esporte tem perdido popularidade pelo mundo e esse trajeto pode diminuir ainda mais a quantidade de eventos. Com a disputa crescente por espaço, será difícil um circuito privado se viabilizar como negócio e um circuito público se justificar como investimento de interesse social.

Quem gosta e trabalha com automobilismo precisa colocar essa questão na agenda para o futuro. Caso contrário, terá de pegar a estrada da próxima vez que quiser ver uma corrida. Nas grandes cidades, só casos excepcionais como Interlagos se justificarão.

O Brasil precisa ver o esporte como meio de integrar pessoas e cidades

O que? São Paulo terá mais uma edição da Virada Esportiva neste fim de semana (24 e 25). O evento não tem grande repercussão e mesmo a adesão muitas vezes é modesta, o que mostra como ainda há dificuldade de se entender a importância do esporte na sociedade. Não apenas como lazer, mas como atividade que promove integração entre as pessoas.

O esporte como ferramenta de interação

Acontece a cada quatro anos e não deve ser diferente em 2016: o mundo se reúne para os Jogos Olímpicos, o Brasil acaba conquistando uma quantidade de medalhas inferior ao que a mídia e a torcida quer (o que não significa que estejam fora de nossa realidade) e haverá os discursos de como o esporte não tem apoio no País. Ainda que o fato de a edição do ano que vem ter sede no Rio de Janeiro deva aumentar a quantidade de pódios brasileiros, a chance de algum nível de decepção existe.

O caminho mais tradicional é falar da falta de apoio ao esporte na escola, com infraestrutura deficiente e sucateamento das aulas de educação física. Isso é verdade, mas não é apenas no sistema educacional que a atividade esportiva não recebe a importância devida. Não há esporte suficiente no dia a dia das cidades brasileiras. E, por isso, iniciativas como a Virada Esportiva (que ocorre neste fim de semana em São Paulo, mas tem equivalentes em outras cidades) precisam de mais atenção e carinho.

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O Pacaembu deve servir a quem precisa dele, e não virar arena moderna

O esporte tem importância econômica (as competições geram dinheiro e empregos, além de criar caminhos para uma ascensão social rara no Brasil) e educacional (incentivam crianças a permanecerem na escola) inegáveis e fáceis de compreender. No entanto, nem sempre se olha para ele como uma ferramenta de interação social.

Qualquer esporte se desenvolveu pela necessidade das pessoas de criarem jogos para diversão e socialização. O palco original disso não eram estádios, ginásios ou outras praças esportivas. Muito menos a casa das pessoas. Era a rua, a praça, o parque, a margem dos rios e outros espaços públicos que permitissem a prática de uma modalidade qualquer (que o digam o pessoal do skate e do parkour). O esporte ajuda a dar vida às cidades, ajuda as pessoas a interagirem com ela.

A cidade retribui o favor, dando um sentido àquelas atividades, mesmo no esporte profissional (onde a obrigação de vencer pode tirar um pouco o sentido lúdico). Veja abaixo um trecho do texto de apresentação do Outra Cidade nos sites irmãos Trivela e ExtraTime, falando da relação íntima entre centros urbanos e prática esportiva:

O esporte como entendemos hoje só existe com as cidades. As brincadeiras e jogos primitivos só puderam se transformar em competições e espetáculos para entreter um grupo grande de pessoas quando há pessoas reunidas para dar suporte a isso. As primeiras civilizações sempre estiveram ligadas ao surgimento de concentrações urbanas e, dentro delas, de esportes para divertir praticantes e torcedores.

Em esportes coletivos, os mais populares do mundo hoje, isso se torna ainda mais importante. Equipes representam um lugar, uma comunidade, uma cultura, uma ideia. A ligação com um grupo de pessoas é fundamental para a sustentação de qualquer equipe, do Flamengo ao New England Patriots, do Coritiba ao Real Madrid, do XV de Jaú ao Los Angeles Lakers, do Newcastle ao Boston Red Sox.

Por isso, não há esporte sem a cidade. Ela cria os cenários em que o esporte tem vida como prática, como diversão, como tema de conversa, como ponto de encontro entre rivais. E um ambiente urbano mais saudável certamente tem impacto no esporte.

Entender o papel de um evento como a Virada Esportiva é fundamental para qualquer ideia que se tenha de uma cidade mais humana. Porque o esporte não deve ser visto apenas como competição e educação. Ele também é urbanismo.

Serviço
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Pacaembu deve servir a quem precisa dele, não virar arena moderna

O que é?

O estádio do Pacaembu foi construído em 1940 como o grande palco do futebol em São Paulo. Seu papel diminuiu com o tempo, mas até 2014 ele era bastante utilizado, sobretudo como casa do Corinthians. Com a inauguração de uma arena própria e os términos das obras do estádio do Palmeiras, o estádio mais central da capital paulista não tem usuário permanente. A prefeitura fez um chamamento público para atrair grupos interessados em administrar o complexo em forma de concessão. Ubiratan Leal argumenta que o estádio precisa continuar sendo um estádio, mas não para grandes clubes. Ele precisa ser uma maternidade de torneios e competições.

Libertadores da várzea

Gente e mais gente chega, muito mais do que qualquer um esperava. São 16,3 mil pessoas, todas se dirigindo ao estádio do Pacaembu no último 20 de setembro. Eram torcedores de Jardim Brasil e Sedex que iam empurrar seus times na decisão da primeira edição da Copa Libertadores da Várzea. O primeiro venceu por 4 a 3 nos pênaltis após empate por 1 a 1 no nono jogo de mais público do futebol brasileiro naquele fim de semana. Um feito incrível para o esporte amador, e que chama a atenção para um dos rumos que o estádio mais tradicional da capital paulista pode tomar.

Desde o segundo semestre de 2014, quando o Corinthians inaugurou sua arena em Itaquera e o Palmeiras reinaugurou a sua em Perdizes, o estádio mais antigo de São Paulo não tem um usuário permanente. A prefeitura da capital luta para manter essa estrutura viva. Em janeiro deste ano, foi feito um chamamento público para atrair potenciais investidores. A empresa que apresentar a melhor proposta explorará comercialmente o estádio, em troca de arcar com reforma, modernização e manutenção do espaço.

Entre outras coisas, a empresa que gerir o Pacaembu terá de:

– restaurar o centro poliesportivo (o clube localizado atrás do estádio e que faz parte do complexo);
– propor um modelo de exploração comercial do estádio como espaço multiuso que privilegie atividades esportivas (ainda que tenha margem para realizar eventos de outra natureza que ajudem a gerar receitas);
– estacionamento com 2 mil vagas;
– wi-fi gratuito para 40 mil torcedores;
– restaurar, modernizar e manter a tribuna do prefeito; e
– recuperar todo o estádio, o deixando apto a receber competições internacionais de acordo com as exigências da Fifa.

Seriam intervenções significativas e, principalmente, custosas. A própria prefeitura estima em R$ 300 milhões os investimentos. De fato, o estádio teria nível internacional para receber grandes eventos. Mas há uma desproporção dos itens acima com algumas das condições apresentadas. Por exemplo:

– o concessionário deverá manter nas mãos do município o centro poliesportivo e a tribuna do prefeito;
– o nome do estádio não poderá ser negociado comercialmente;
– a prefeitura terá direito ao uso gratuito do estádio para dez eventos dentro do calendário anual do município (desde que não se choque com o futebol profissional); e
– continua o impasse em relação ao uso do estádio para a realização de shows (vetada por liminar obtida por moradores da região há dez anos).

De um ponto de vista comercial, é difícil viabilizar os gastos necessários sem ter uso tão frequente da estrutura. Uma saída seria fazer uma parceria com o Santos, que poderia usar o Pacaembu como sua principal casa e conseguiria colocar entre 25 e 30 partidas por ano com público médio de 15 a 20 mil. Caso contrário, a conta não fecha. E é fácil entender o motivo.

O eventual concessionário teria a obrigação de tornar o Pacaembu um estádio de alto nível para a realização de eventos de uma forma que o município mantivesse o caráter público. As duas coisas são positivas, mas o histórico de gestão de arenas no Brasil é desencorajador. Muitas são deficitárias, mesmo em condições economicamente muito mais favoráveis às que o Pacaembu teria sob concessão. Não à toa, apenas três empresas apresentaram propostas para gerir o estádio páulistano, metade do que a própria prefeitura considerava ideal.

O futuro do estádio não é como uma arena moderna. As grandes receitas em estádios estão em manter uma agenda recheada de grandes eventos esportivos e shows. No momento, não há um grande clube disposto a assumi-lo como sua casa (o Santos até considera utilizá-lo mais, mas continuaria mandando parte de seus jogos na Vila Belmiro). Pior, a agenda de show é nula por causa da Justiça, e derrubar a liminar da associação de moradores do (bairro) Pacaembu não mudaria nada. O Allianz Parque já virou o grande palco para apresentações internacionais. A casa do Palmeiras tem capacidade de público e localização similares ao estádio municipal, mas ganha em infraestrutura.

O destino do Pacaembu talvez seja servir a quem precisa dele hoje, e não buscar quem já está em outro momento. O Santos é um caso claro, que já foi mencionado várias vezes aqui de tão óbvio. Assim como abrigar Corinthians, Palmeiras e São Paulo quando suas casas estiverem emprestadas para um show ou outro evento. Mas há outros caminhos. O Flamengo já falou em mandar alguns jogos na capital paulista, aproveitando seus torcedores na cidade. O futebol amador e o feminino também podem realizar partidas esporádicas que tenham apelo acima do normal de público, como mostrou a Libertadores da Várzea e os torneios internacionais de futebol feminino. O rúgbi e o futebol americano são dois esportes em crescimento que poderiam usar o Pacaembu também (o que vai acontecer no caso do primeiro, com um amistoso entre Brasil e Alemanha marcado para dezembro). O UFC é polêmico, mas também levaria bom público em um evento especial anual.

Marta faz gol de pênalti em Pacaembu lotado para ver Brasil e Canadá decidirem torneio de futebol feminino em 2010 (Divulgação/SportPromotion)
Marta faz gol de pênalti em Pacaembu lotado para ver Brasil e Canadá decidirem torneio de futebol feminino em 2010 (Divulgação/SportPromotion)

O caráter do Pacaembu é público, e o que ele precisa é de investidores dispostos a abraçar essa característica e fazer melhorias compatíveis com esse perfil comercial. Ele tem um apelo natural por sua história, capacidade e localização. Não pela modernidade.

Por isso, apesar de bem intencionadas, as propostas de transformar o estádio em parque, como às vezes é cogitado, ou em arena multiuso não levam em conta sua estrutura, sua história e o potencial de incubar torneios e criar memórias esportivas, o que também é um serviço à sociedade. O Pacaembu tem de emprestar seu brilho esportivo a quem precisa dele. Afinal, um estádio municipal pode servir aos cidadãos não apenas como arquibancada – mas como palco. É o lugar para quem vive em São Paulo brilhar.

Uma curiosidade histórica

A várzea virou uma imagem tão forte no mundo do futebol que muita gente nem relaciona o termo com seu significado real. Para torcedores e jogadores, “várzea” é um campo em más condições, feito de forma improvisada para a prática de partidas amadoras (normalmente em bairros da periferia das grandes cidades). Um sentido bem distante de planície de inundação, uma área em torno de corpos d’água que alaga na época das chuvas. Um exemplo é o Rio Nilo, cujas várzeas serviram da área de cultivo que possibilitou o surgimento de uma das primeiras grandes civilizações da humanidade.

Digressões egípcias à parte, a várzea geográfica virou a várzea do futebol devido a um local de São Paulo. A Várzea do Carmo era uma região alagadiça em torno do rio Tamanduateí, onde atualmente está a Rua do Gasômetro e o Parque Dom Pedro. Naquele espaço foi realizada a primeira partida de futebol oficialmente reconhecida do Brasil, entre funcionários da Companhia de Gás e da Companhia Ferroviária. O duelo foi organizado por Charles Miller (introdutor do esporte no Brasil e atacante dos ferroviários naquela tarde) em 18 de fevereiro de 1895. Com a estruturação do futebol, os clubes passaram a ter seus estádios e a Várzea do Carmo passou a ser utilizada por equipes sem campo próprio. E aí a “várzea” virou sinônimo de futebol amador.

A cidade que tanto gosta de um concreto canalizou seus rios e acabou com suas áreas alagadiças na década de 1960. A várzea futebolística também agoniza devido à explosão imobiliária que diminuiu muito o espaço para campos amadores, inclusive nos bairros mais afastados do centro. Mas o futebol amador respira, ele quer respirar. A final da Libertadores amadora mostra isso.