Para combater o zika, cidade americana quer atrair morcegos

North Hempstead é um município de 220 mil habitantes, a maior parte deles de classe média, na região metropolitana de Nova York. Até o momento, não teve nenhum caso de zika registrado, mas já está preocupada com o verão e a possibilidade de a doença alcançar sua população. Por isso, começou a botar em prática seu plano para combater o vírus que tem causado tantos danos no Brasil. Um plano para lá de criativo.

A prefeitura está instalando abrigos para morcegos nos parques e praças da cidade. O objetivo é atrair os animais que se instalaram em casas e nas cidades vizinhas e torcer para que seu apetite ajude no controle da população de mosquitos de North Hempstead.

Os especialistas consultados pelas autoridades calculam que cada morcego tenha capacidade de devorar cerca de mil insetos por hora. Não há registro da presença do Aedes aegypti no estado de Nova York, mas há uma população considerável do Aedes albopictus, espécie que também pode transmitir a dengue e o zika.

A medida combate os mosquitos, mas também aumenta a presença dos quirópteros em áreas públicas. Mas isso não preocupa a prefeitura. “Há nove espécies de morcegos no estado de Nova York, mas nenhuma delas se alimenta com sangue”, afirmou Liliana Dávalos, professora do departamento de ecologia e evolução da Universidade Stony Brook em entrevista ao New York Times. Além disso, menos de 0,5% dos morcegos dos Estados Unidos têm o vírus da raiva.

A prefeitura até se cercou de argumentos técnicos, mas a questão é ver como a população lidará com a situação. Ainda mais se surgir uma superpopulação de morcegos pelas praças da cidade.

Estudo descarta ideia de que vírus do zika entrou no Brasil durante a Copa

Milhões de pessoas chegando ao Brasil para ver futebol, festejar, injetar alguns milhões na nossa indústria do turismo e serem picadas pelo Aedes aegypti. É fácil perceber como a Copa do Mundo de 2014 está diretamente relacionada à entrada do vírus da febre zika no País. Só que… não está. É o que identificou um estudo realizado por 57 cientistas de diversas nacionalidades sobre como a doença chegou em território brasileiro e se espalhou.

A versão de que a Copa do Mundo de 2014 ou uma competição de canoagem realizada no Rio de Janeiro em agosto do mesmo ano teriam sido os vetores do zika era sustentada pela cronologia conhecida. Os primeiros casos identificados da doença datam de maio do ano passado, e o próprio Ministério da Saúde sustentava a tese de que o vírus teria entrado no Brasil entre o segundo semestre de 2014 e o começo de 2015. Considerando o fluxo de turistas vindo de todas as partes do globo, incluindo Polinésia Francesa e Sudeste Asiático, regiões que tiveram surtos recentes do zika, para ver o Mundial de futebol, era fácil ligar os pontos.

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É essa linha do tempo que caiu por terra no estudo “Zika virus in the Americas: Early epidemiological and genetic findings” (“Vírus zika nas Américas: primeiras descobertas epiodemiológicas e genéticas”), publicado na revista Science na última semana. A pesquisa, que contou com a participação de cientistas de Brasil (do Instituto Adolfo Lutz, da Fundação Oswaldo Cruz, do Instituto Evandro Chagas, do Ministério da Saúde e da Universidade Estadual de Feira de Santana), Reino Unido, Canadá e Estados Unidos, fez o mapa genético do vírus em diferentes pacientes para se definir uma trajetória de contaminação.  Outro objetivo da pesquisa era descobrir em que momentos da gestação o zika pode causar danos ao desenvolvimento do feto.

Mãe segura bebê com microcefalia em Alcantil, Paraíba (AP Photo/Felipe Dana)
Mãe segura bebê com microcefalia em Alcantil, Paraíba (AP Photo/Felipe Dana)

Foram coletadas amostras em sete pacientes brasileiros: quatro casos comuns, um de um bebê que nasceu com microcefalia, um de um adulto que morreu de complicações de encefalite após contrair o zika e um de uma pessoa que havia doado sangue. Os dados genéticos foram comparados com nove casos em outros países: seis no surto recente nas Américas, um na Polinésia Francesa, um na Tailândia e um nas Ilhas Cook.

Os dados mostraram que o vírus encontrado no Brasil é muito semelhante ao das Américas, e bastante diferente do caso tailandês. Isso é consistente com a versão de que a epidemia de zika nas Américas teve início no Brasil, aonde ela provavelmente teria chegado por meio de poucos portadores, eventualmente um só.

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Pela análise das mutações sofridas, os cientistas estabeleceram como momento dessa entrada seria entre maio e dezembro de 2013, um ano antes do imaginado até então. O motivo dessa demora em detectar a doença seria o pequeno número de casos nos primeiros meses, induzindo médicos a diagnosticá-los como dengue.

A cronologia descoberta pelo estudo descarta a versão de que a Copa do Mundo teria sido o vetor do zika, mas abre a possibilidade para a Copa das Confederações. Até porque o torneio, disputado em junho de 2013, teve a participação da seleção do Taiti, um dos locais que mais sofreram com o zika naquele ano. E os taitianos fizeram uma partida em Recife, uma das cidades que mais sofrem com a epidemia. No entanto, o surto da doença na Polinésia Francesa ocorreu do final de 2013, depois da realização do torneio de futebol.

Seleção taitiana agradece apoio da torcida brasileira após perder para o Uruguai na Arena Pernambuco, na Grande Recife (AP Photo/Eugene Hoshiko)
Seleção taitiana agradece apoio da torcida brasileira após perder para o Uruguai na Arena Pernambuco, na Grande Recife (AP Photo/Eugene Hoshiko)

Por isso, os pesquisadores tratam como improvável que o vírus tenha entrado no Brasil durante a Copa das Confederações. Para eles, a maior chance é que o zika foi transmitido a partir de um turista comum. Entre o segundo semestre de 2013 e o começo de 2014, houve um aumento de 50% no número de visitantes de regiões afetadas pelo zika em relação aos 12 meses anteriores. Só das Filipinas, foram mais de mil visitantes mensais em 2013. A pesquisa não tem dados suficientes do vírus filipino, mas aprofundar as análises genéticas e cruzar com dados de voos e cruzeiros com esses turistas pode apontar os prováveis pontos de entrada da doença em solo brasileiro.

As informações tiram o zika da lista de legados negativo da Copa do Mundo do Brasil, e isso é importante. Não pelo evento esportivo em si – ainda mais porque o Rio de Janeiro sediará outro em agosto, os Jogos Olímpicos –, mas porque dá mais elementos para compreender onde e como a doença chegou ao País e quanto tempo levou para o primeiro caso se transformar em epidemia. Um dado fundamental para o desenvolvimento de vacinas e futuras políticas de saúde pública para controle dos vetores de transmissão.

Como a capital nacional da dengue tenta combater o Aedes aegypti

Várias cidades brasileiras têm sofrido com o Aedes aegypti e o verão. As chuvas da estação mais úmida do ano em boa parte do País tem criado vários pontos com acúmulo de água parada, criando o cenário ideal para a reprodução do mosquito transmissor de dengue, zika e chicungunha. Mas, na capital nacional da dengue, o problema é o oposto: a falta de água.

A cidade mineira de Campanário tem 3.733 habitantes e 442 casos de suspeitas de dengue. Isso representa 11,8% da população, ou 6.215 a cada 100 mil habitantes, um índice maior que o de qualquer outra cidade brasileira. Das grandes cidades brasileiras, a que teve mais casos registrados foi Belo Horizonte, com 431 a cada 100 mil habitantes (ou 6% da média campanariense).

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A repórter Carolina Cotta, do jornal Estado de Minas, esteve em Campanário e escreveu uma ótima reportagem sobre o que levou essa pequena cidade ao topo do ranking negativo de dengue no Brasil. Recomendamos fortemente que vocês cliquem aqui e entendam o cenário completo da dengue nessa pequena cidade do interior mineiro.

Localizada a 300 km ao norte de BH, Campanário está em uma das regiões mais secas de Minas Gerais. Isso torna o abastecimento de água intermitente, o que motiva a população a reservar sempre que possível. É comum os moradores terem tambores e caixas d’água cheios em casa, criando locais ideais para a reprodução do Aedes aegypti.

A boa notícia é que, aos poucos, já houve redução do número de novos casos. Ao ver tantos conhecidos contraírem a doença, muitos campanarienses se convenceram a tampar as caixas d’água e tambores em casa. Mas ainda há o que melhorar, como contou José Elias de Meira, coordenador da Fundação Nacional de Saúde na cidade, ao Estado de Minas: “Tem casa em que a gente entra, coloca o larvicida e, quando viramos as costas ,vemos o morador jogando a água tratada fora. Aqui, o problema é a seca e a mente das pessoas.”

Combate ao Aedes aegypti precisa entrar nas pautas urbanas

O que é? O Aedes aegypti já era conhecido do brasileiro por ser o vetor de transmissão da dengue. Nos últimos meses, o repertório de doenças espalhadas com a ajuda do mosquito aumentou com o crescimento de casos de zika e chikungunya. O combate ao inseto se dá por diversos caminhos, mas o principal é a busca de casa em casa por focos de reprodução. Mas não dá para jogar tudo nas costas da população, sobretudo em bairros mais carentes. As cidades precisam fazer sua parte.

Os criadouros não estão apenas nas casas

Todos precisam fazer sua parte, cada um com suas pequenas ações, e isso torna a missão tão complexa. O combate ao surto de dengue, zika e chikungunya passa pela eliminação de seu transmissor, o Aedes aegypti (o pernilongo-rajado, mas incrivelmente foi o nome científico que se consagrou), e de pequenas quantidades de água parada que ele usa para desenvolver suas larvas. Aí, qualquer prato de vaso ou acúmulo de chuva em um pedaço quebrado no piso do quintal já vira um foco de reprodução do inseto. Mas pensar apenas nisso é jogar demais a responsabilidade nas costas da população, sobretudo nas periferias, e esquecer o papel que as autoridades precisam ter nesse processo.

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O Aedes aegypti tem grande capacidade de adaptação. Sabe conviver em áreas urbanas, utiliza qualquer pequeno foco de água parada (mesmo do tamanho de uma tampinha de refrigerante) e seus ovos resistem por até um ano em locais secos. Por mais que se esforce, uma pessoa comum terá muita dificuldade em deixar sua casa 100% livre de focos de reprodução do inseto, ainda mais no chuvoso verão brasileiro.

Por isso, as autoridades tentam motivar ou forçar a população a fazer uma varredura doméstica. Em Castilho e em Bebedouro, as prefeituras prometeram prêmios para os moradores que tiverem as casas aprovadas após vistoria da secretaria de saúde. Outras cidades preferem uma abordagem mais agressiva, prometendo multas a quem tiver focos de reprodução do Aedes em sua residência. Em São Paulo, a prefeitura até criou uma lei permitindo os agentes sanitários a entrarem à força em imóveis que forem potenciais criadouros do mosquito.

Esse caminho já teve resultado no passado. Nas décadas de 1930 e 1950, quando o grande perigo carregado pelo Aedes aegypti era a febre amarela, fortes campanhas de vistoria de casa em casa praticamente erradicaram o mosquito do País. Foi também o que ocorreu em Cingapura, país tropical que tem baixa incidência de doenças transmitidas pelo pernilongo-rajado.

O problema é que o combate residência a residência já não é mais suficiente para o Brasil. De acordo com a secretaria de saúde do Paraná, 45% dos focos de reprodução do inseto estão em depósitos de lixo, muitos deles em terrenos baldios e restos de construção. O número poderia ser ainda maior se o estudo considerasse lixões e margens de rios e córregos, também repletas de lixos. Outros criadouros importantes, sobretudo em Curitiba, são carros, ônibus e caminhões cobertos por lonas se tornaram em alvos dos mosquitos.

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Eliminar o Aedes aegypti exige uma política maior das autoridades. Não é apenas uma questão de campanha da secretaria de saúde, é preciso reestruturar o sistema de saneamento e de coleta de lixo, sobretudo nos bairros mais carentes. Afinal, não adianta pedir para as pessoas a cuidarem de suas casas se, do lado de fora da porta, o lixo é jogado em um terreno baldio por falta de coleta regular e um córrego acumula água parada por falta de canalização. Em um passo de prazo maior, seria possível criar políticas para diminuir o número de imóveis e de automóveis abandonados ou subutilizados.

Diversas outras medidas seriam possíveis e necessárias. E essa visão mais ampla precisa entrar na pauta das prefeituras e governos estaduais. No fim deste ano teremos eleições municipais. Será interessante ver se os candidatos levantarão planos mais complexos de combate ao Aedes aegypti ou se continuarão contando com campanhas para as pessoas tirarem a água acumulada no vaso do quintal.