O ressentimento do operário de Detroit com Wall Street

Mais uma eleição presidencial se passou nos Estados Unidos e o mapa seguiu as mesmas características dos pleitos mais recentes: os democratas ganham nos grandes centros urbanos, os republicanos vencem no interior. A diferença está na vantagem que cada um consegue nas áreas em que domina e em quão urbana ou rural é a população de cada estado. Dessa vez, foi melhor para os republicanos. Donald Trump venceu, e uma das razões foi o aumento de votos para seu partido no Rust Belt, faixa entre o nordeste e o Meio-Oeste americano, próximo aos Grandes Lagos, onde a desindustrialização americana deixou um rastro de fábricas fechadas e trabalhadores desempregados.

Detroit é um grande símbolo disso. A capital do automóvel sofreu com a mudança das fábricas para outros lugares, e o município chegou a decretar falência. Hillary Clinton venceu na cidade, mas com uma vantagem menor que Barack Obama há quatro anos (37 pontos percentuais, contra 47). Na região metropolitana, a diferença foi ainda menor (em Flint, foi por 9 pontos, enquanto Obama bateu Mitt Romney por 28). Assim, a Grande Detroit não deu aos democratas uma grande vantagem, e o interior sacramentou a vitória republicana no estado.

Essa migração de votos das áreas industriais foi uma marca da eleição. E uma música retrata bem o fenômeno: “Shuttin’ Detroit Down”, de John Rich. O cantor country reforça o contraste entre o operário da fábrica do Meio-Oeste, que trabalha por décadas na mesma empresa, e o engravatado de Nova York. O segundo perde dinheiro por fazer bobagem no mercado financeiro, e quem paga o pato é o primeiro, que vive no “mundo real” e fica até “sem dinheiro para morrer”. Enquanto isso, os políticos em Washington sustentam os banqueiros.

ENTENDA: Priorizar os carros parecia natural para Detroit, mas foi sua ruína

Rich é uma figura conhecida pelo posicionamento político. Declaradamente republicano, já ajudou a criar músicas para a campanha de vários candidatos do partido, sobretudo no Tennessee, seu estado natal. Não fez isso com Donald Trump, a quem conheceu quando participou do “Celebrity Apprendice”, versão de “O Aprendiz” com celebridades. Trump foi o apresentador. Por isso, a letra reflete bastante o discurso dos republicanos sobre a situação do Rust Belt. Um discurso que teve muita aceitação neste ano, e que fez a diferença na definição do futuro presidente dos Estados Unidos.

Veja o clipe de “Shuttin’ Detroit Down”. Aqui tem a letra original, em inglês.

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.

Um jogo demorado fez o metrô de Washington ser xingado em rede nacional

O jogo chegava ao final e a tensão crescia. O duelo valia uma vaga na semifinal do campeonato para o vencedor, e as férias antecipadas para o perdedor. Técnicos vão fazendo substituições para ter as melhores condições para a vitória e a torcida local já temia pelo pior quando via a reação da equipe adversária. De repente, os torcedores se unem em um grito, que pôde ser ouvido até pelos que acompanhavam a partida pela TV: “O metrô é uma droga! O metrô é uma droga!”.

Parece um jeito meio estranho de se manifestar durante um evento esportivo, mas foi o que ocorreu nesta quinta durante o jogo entre Washington Nationals e Los Angeles Dodgers na liga de beisebol dos Estados Unidos. Na reta final do encontro, parte dos 43.936 torcedores abandonaram o que acontecia em campo por alguns instantes para desabafar contra o sistema de transporte público da capital norte-americana.

A força do protesto foi grande, mas já se esperava alguma manifestação. O estopim foi a negativa da administração do metrô de estender o horário de funcionamento da linha que atende ao estádio dos Nationals. Quem quisesse voltar para casa, teria de chegar à estação mais próxima às 11h40, sendo que a perspectiva era de a partida terminar bem depois desse horário (o jogo demorou 4h32, um recorde, e terminou apenas à 0h32 de sexta).

Esse tipo de conflito é comum no Brasil. Na capital paulista, o metrô concordou em estender o horário de funcionamento para permitir o retorno de torcedores após jogos de futebol. Ainda assim, é comum ver pessoas deixando o estádio nos minutos finais para voltar para casa. Não houve essa possibilidade em Washington e, como a partida era decisiva, ninguém abandonou seu assento. Por isso, a imprensa local chegou até a brincar com isso, fazendo reportagens sobre quais as opções para sair do estádio dos Nationals, indo de pagar US$ 200 por uma vaga de estacionamento colocada até alugar um quarto no Airbnb (afinal, saía mais barato passar a noite fora de casa que estacionar o carro).

Placar eletrônico avisa torcedores do horário de funcionamento do metrô em Washington (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais via Outra Cidade)
Placar eletrônico avisa torcedores do horário de funcionamento do metrô em Washington (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais via Outra Cidade)

Seria um caso pontual, mas o metrô de Washington ganhou fama de pior dos Estados Unidos. E aí se justifica a manifestação em massa contra o sistema.

A pontualidade é a menor das grandes cidades americanas. Além disso, em março, foi descoberta uma série de problemas elétricos que colocavam em risco a segurança dos usuários. Os danos eram tão grandes que não foi possível fazer a manutenção convencional, de madrugada. Todas as linhas tiveram de ser fechadas por um dia inteiro, e ainda há quem defenda que essa medida drástica precisará ser repetida em breve. Um ano antes, um usuário morreu após um trem ficar parado por 40 minutos no túnel, com fumaça dentro dos vagões. Em 2009, um acidente entre duas composições deixou nove mortos.

Não à toa, o número de usuários tem caído no metrô, por mais que a prefeitura de Washington anuncie de políticas de incentivo ao transporte público. Aproveitar um jogo com quase 45 mil torcedores seria uma boa maneira de trazer novas pessoas aos trens. Mas acabou virando mais um motivo para deixar o público ressentido por ficar na mão e precisar usar o táxi e o Uber. Até porque todos estavam de cabeça quente com a derrota de virada – e a eliminação – do time da cidade.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Igreja protesta contra ciclofaixa por “infringir liberdade de religião”

Debates e mais debates, reuniões públicas, assembleias e muita discussão. Há mais de um ano o governo da cidade de Washington tenta finalizar o projeto de ciclofaixas para a área leste do centro. A ideia é criar corredores no sentido norte-sul para os ciclistas, ligando dois, já instalados, no sentido leste-oeste. Como é comum nessas conversas, há vários opositores à ideia. Normalmente se alega piora no tráfego, impacto no comércio local ou custo de implantação. Mas, no caso da capital dos Estados Unidos, o problema é afetar a “liberdade de religião”.

Foi essa a alegação apresentada pela United House of Prayer for All People (Uhop, ou “Casa Unida das Orações para Todas as Pessoas”, em tradução livre) ao conselho municipal para não apenas rejeitar a ciclofaixa, mas também colocá-la como inconstitucional. O motivo é que duas das ruas que teriam espaço exclusivo para bicicletas passam ao lado do quarteirão da igreja.

O principal alvo é o corredor da rua 6, utilizada pelos fieis da Uhop para estacionar seus carros. Nos dias mais movimentados, é comum parar o carro em 45º para ganhar ainda mais espaço. A proposta inicial do corredor para ciclistas não eliminaria necessariamente a possibilidade de se estacionar na rua, mas impossibilitaria o estacionamento a 45º e diminuiria uma das faixas para a circulação de carros.

De acordo com a Uhop, a obra simplesmente não é necessária. “Bicicletas circulam livremente e com segurança no Distrito de Colúmbia em todos os 90 anos de história da United House of Prayer, sem nenhuma faixa protegida para bicicletas e sem infringir os direitos religiosos da igreja”, argumenta a instituição na carta apresentada à administração da capital americana. Um pastor chegou a dizer que a ciclofaixa era um câncer que destruiria a igreja.

O protesto da Uhop foi apresentado em setembro de 2015. A discussão sobre os corredores norte-sul se arrasta desde então. O município se comprometeu a apresentar as três propostas finais para análise pública entre fevereiro e abril deste ano. Ainda não o fez.