Japão faz primeiro teste com passageiros em ônibus autônomos

Um pequeno veículo, quase um cubo com rodas, com capacidade para apenas 12 pessoas trafegando lentamente em um pequeno trecho de uma estrada remota. Foi assim, discretamente, que começaram os testes com passageiros do ônibus autônomo que o Japão pretende colocar em operação. O experimento foi realizado neste domingo (13) na província de Akita, no norte do país.

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O veículo, chamado Robot Shuttle (algo como “fretado robô”), fez um vaivém em um percurso de 400 metros em uma estrada regional, trafegando a apenas 10 km/h. A circulação de carros normais foi interrompida durante o teste. O ônibus – na verdade, um micro-ônibus – foi desenvolvido pela empresa francesa EasyMile e usa GPS, sensores e câmeras para se movimentar e evitar obstáculos. Dentro dele, podem ficar seis pessoas sentadas e outras seis em pé. Não há cabine para motoristas ou volante.

Apesar de já haver planos pelo mundo de utilizar ônibus autônomos em grandes cidades, os planos japoneses são mais discretos, o que até explica a natureza do teste deste domingo. O projeto é ter o Robot Shuttle operacional apenas em 2025, atendendo a áreas remotas e de baixa densidade populacional, onde o custo de transporte fica particularmente alto pela falta de escala.

Nessas regiões, como Akita, até 40% da população ultrapassa os 65 anos de idade e tem dificuldade de locomoção. Pelo mesmo motivo, as autoridades também incentivam o desenvolvimento de serviços entregues via drones para as pessoas idosas.

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No entanto, o próximo passo do Robot Shuttle não tem os moradores mais antigos como alvo. O objetivo é usar essa tecnologia para promover a economia local. Em 2020, o governo de Akita pretende ter o veículo autônomo levando turistas em passeios em torno do Lago Tazawa.

Japão quer usar referências de mangás para impulsionar turismo

Nada de samurais, ninjas, gueixas, pagodes ou lutadores de artes marciais. Durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, o grande símbolo que Tóquio usou para promover a próxima edição do evento foi Mario. A tradição milenar ficou de lado, a nova ordem do Japão, ao menos na hora de vender sua imagem ao exterior, é promover seu impacto na cultura jovem. Por isso, as cidades do país já começam a buscar novas formas de atrair turistas. No caso, olhando nas histórias em quadrinhos e os desenhos animados.

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A recém-criada Japan Anime Tourism Association lançou um concurso para eleger até dezembro 88 locais em cidades japonesas com referências a mangás e animes. Pode ser tanto do cenário de alguma história até estátuas homenageando personagens ou criadores, passando por museus na área e até a estúdios onde séries são criadas. O objetivo é criar roteiros turísticos específicos para fãs.

É um mercado com potencial já testado. Algumas cidades japonesas investem nesse tipo de referência para atrair visitantes. Sakaiminato, por exemplo, aproveitou o fato de ser a terra do criador de mangás Shigeru Mizuki para criar uma rua com 153 estátuas de seus personagens. Uma forma de atrair turistas e fãs do artista. No comércio, alguns shoppings ergueram enormes réplicas de heróis das séries para chamar a atenção dos consumidores.

Portão de Washinomiya Jinja em famosa cena da série Lucky Star. O original está no alto dessa página (Reprodução)
Portão de Washinomiya Jinja em famosa cena da série Lucky Star. O original está no alto dessa página (Reprodução)

A iniciativa faz parte de um projeto maior, que tenta mudar a forma de o Japão se inserir como potência mundial. Ao invés de se impor pela força do dinheiro (apesar dos anos de estagnação, é a terceira maior economia do planeta), o país quer reforçar sua influência no dia a dia do mundo moderno.

Em 2002, o governo japonês criou a marca “Cool Japan”,  que visa promover a imagem do arquipélago como uma superpotência cultural. Há motivos de sobra para justificar essa condição: videogames, animes, mangás, karaokes, moda, arquitetura, tecnologia e culinária produzidos no Japão conquistaram milhões de fãs no mundo. Mas, com a aproximação dos Jogos Olímpicos de 2020, o momento é de intensificar essa campanha.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Inflação durante grandes eventos é mais nociva do que parece

É a oportunidade de ouro, quase literalmente. Um grande evento vem para a sua cidade, pessoas de todo o mundo chegam com dólares e euros para gastar. Hora de tirar a lei da oferta e da procura do bolso e elevar os preços para faturar o máximo possível.

Trata-se de uma sequência de eventos comuns em locais que recebem grandes eventos internacionais, em diversos países. Mas há um limite do bom senso, em que o reajuste se torna eticamente discutível. Um problema que se tornou recorrente no Brasil nos últimos anos, quando foi sede da Rio+20 (2012), Jornada Mundial da Juventude (2013), Copa do Mundo (2014) e Jogos Olímpicos (2015).

A Cerimônia de Abertura da Rio-2016 ocorreu nesta sexta, mas já surgiram relatos de preços extorsivos em parte do comércio e do setor de hospedagem. São notícias muito semelhantes às que vimos há dois anos na Copa do Mundo, envolvendo várias cidades brasileiras.

Preço da comida no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Preço da comida no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Por uma lógica de mercado, o comerciante está liberado para praticar o preço que quiser e, eventualmente, terá como retorno a fuga de clientes. Mas, quando quase todo um setor adota essa medida, o consumidor está cercado. No caso de turistas, mais vulneráveis pelo pouco conhecimento da área e dos preços normalmente adotados, é difícil buscar opções.

Algumas das maiores cidades brasileiras entenderam que a organização de eventos é uma fonte de renda importante, por atrair turistas, negócios e investimentos. Por isso, é preciso também trabalhar para entender que receber continuamente feiras, congressos, competições esportivas e espetáculos musicais dependem de entender o funcionamento desse setor. E elevar agressivamente os preços só afastam organizadores e visitantes. E ainda atingem os locais.

Preço dos picolés no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Preço dos picolés no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Turista não é necessariamente um estrangeiro endinheirado que aproveitou seus recursos de sobra para atravessar o mundo. Turista também pode ser alguém com dinheiro contado, pode ser um outro brasileiro e pode até ser seu vizinho. Afinal, os pontos turísticos do forasteiro são os pontos de lazer do nativo.

Na época da Rio+20, o governo federal chegou a intervir para reduzir o preço das diários dos hotéis, pois membros de delegações estrangeiras estavam desistindo de vir ao Brasil. Durante a Copa do Mundo, vários comerciantes e até donos de imóveis cobravam quantias irreais para alugar suas casas para emissoras de TVs interessadas em montar estúdios próximos a estádios ou mesmo para torcedores. Acabaram ficando na mão.

É um pouco o pensamento, alimentados pelas próprias autoridades, de achar que grandes eventos são como ganhar na loteria, o momento mágico em que chegará um dinheiro fácil e rápido para resolver a vida de todos. Seria muito melhor investir em longo prazo, e construir a imagem de uma cidade ou um país adequado para receber o resto do mundo.

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Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Projetaram teleférico para turistas admirarem arquitetura de Chicago

Tem virado moda grandes cidades criarem planos de teleféricos como opção de transporte. Em cidades como Medellín, Rio de Janeiro e La Paz, essa tecnologia fazia sentido pelo modo como ela ajuda a integrar comunidades localizadas em morros. No entanto, foi proposta como alternativa em Washington, Cidade do México, Toronto e Nova York. Na última semana, foi a vez de Chicago apresentar seu projeto. Mas, ao menos, não vendem a ideia como transporte de massa.

Laurence Geller e Lou Raizin, dois empresários locais, apresentaram ao Choose Chicago, instituição que trata de questões de turismo e convenções na cidade, o projeto de uma linha de teleférico como mais um atrativo turístico. O Skyline (nome com duplo sentido e bem espirituoso) passaria pelas pelo centro, dando ao visitante uma vista aérea da elogiada arquitetura da terceira maior cidade norte-americana.

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A ideia do teleférico não seria apenas oferecer um novo ponto de vista, mas ele próprio ser uma atração. “Caímos sempre na mesma questão: qual é nosso diferencial? Onde está nossa Torre Eiffel? Nosso Big Ben? Essas ideias são nossas tentativas de responder essa questão e pretendem começar uma conversa sobre o que é Chicago e qual gostaríamos que fosse nossa reputação no futuro”, comentou Raizin em entrevista ao jornal Chicago Tribune. Segundo Geller, a nova atração atrairia 1,4 milhão de turistas por ano (em 2015, a cidade recebeu 50 milhões de visitantes).

Claro, eles tentam vender sua ideia. Chicago tem seus ícones, como a Willis Tower (ex-Sears Tower e ex-edifício mais alto do mundo), o Millenium Park, o Chicago Theater e a vista dos prédios a partir do Lago Michigan. Até o jazz e o blues podem servir de símbolos, ainda que não sejam físicos. Mas convencer a prefeitura e a população que o teleférico mudaria a cidade de patamar é importante quando se estima que o custo de implantação seria de US$ 250 milhões, parte dele bancado com verba pública.

Pelo projeto, a linha de teleférico poderia levar até 3 mil pessoas por hora e suas cabines foram desenhadas pelos arquitetos David Marks e Julia Barfield, os mesmos da London Eye (famosa roda gigante de Londres). Raizin e Geller calculam que, em valores de hoje, o ingresso do passeio ficaria em US$ 20, o mesmo da subida à Willis Tower e ao John Hancock Center, os dois edifícios mais altos da cidade.

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O Skyline em si parece um passeio interessante para quem já estiver em Chicago. A arquitetura local merece ser vista, mas há várias questões que motivam desconfiança da população e da mídia. Poucos acreditam na promessa que o teleférico funcionaria durante todo o ano, pois o inverno é bastante rigoroso. O vento também é apontado como um possível obstáculo. A Windy City (Cidade dos Ventos) não tem esse apelido à toa, ainda que as rajadas vindas do Lago Michigan não coloquem Chicago entre as dez cidades com piores ventos dos Estados Unidos.

Outro problema é visual. O espaço aéreo do Loop (centro) já está congestionado devido ao metrô, que se ergue em estruturas metálicas e serpenteia pelas principais avenidas. Mais uma estrutura, ainda que passando por outras vias, poderia causar rejeição.

Por isso, os investidores devem ter dificuldades para convencer a população a aprovar o uso de dinheiro público no projeto. Mas, se eles conseguirem viabilizá-lo econômica e tecnicamente e não houver rejeição à existência dessa nova atração, pode ser interessante.

China diversifica mais sua pauta de exportação: agora tem até policial

Eles estão por todos os lados, normalmente andando em grupos, com máquinas fotográficas em local de rápido acesso e dispostos a gastar muito dinheiro, de souvenires descartáveis a artigos de luxo. Chineses são presença constante em regiões muito turísticas na Europa, sobretudo Itália e França, um fenômeno que já começa a causar problemas… a eles. Por isso, o governo italiano teve uma ideia inusitada: utilizar policiais chineses nas regiões de maior fluxo de turistas.

Desde esta segunda, o patrulhamento nos pontos turísticos de Roma e Milão é feito por equipes que misturam agentes italianos e chineses. Essa política será adotada até o próximo dia 13. O período é curto, mas se encaixa com a época do Dia do Trabalho, uma das temporadas em que mais se tira férias na China (as outras duas são o ano novo, em fevereiro, e a semana do Dia Nacional, em outubro, quando a tradição é reunir a família).

A missão principal dos policiais chineses é justamente ajudar esses milhares de turistas. As autoridades italianas perceberam que, por falta de informação ou de familiaridade com a cultura ocidental, muitos deles se perdiam, não sabiam como recorrer a serviços aos quais tinham direito e, principalmente, se tornavam alvos fáceis de assaltantes ou golpistas.

Para aumentar o sentido de segurança desses turistas, os agentes chineses usarão sua farda tradicional, como se estivessem em Pequim ou Xangai. A ideia faz sentido pela operação em si, mas não surpreenderá se alguns italianos se sentirem incomodados pela presença de autoridades policiais de um país estrangeiro trabalhando com fardas em suas cidades.

O convênio foi firmado em setembro de 2015. Nos últimos meses, os departamentos de polícia dos dois países trocaram informações e experiências, além de treinar os agentes que trabalhariam nessas equipes mistas. Claro, os policiais chineses que participam do programa tinham como um dos requisitos iniciais a fluência em italiano.

O impacto dessa aproximação pode ir além do turismo. Angelino Alfano, ministro do interior da Itália, já deu pistas de que a política pode se estender a outros campos. “Pode abrir uma colaboração importante entre os dois países na troca de informações na luta contra o terrorismo e o crime organizado.” O ministro da segurança pública chinês, Liao Jingrong, fez coro: “É um ponto de partida para estimular a cooperação entre os dois países no desenvolvimento econômico”.

Uma das áreas que mais interessa a Itália é o combate à fabricação de produtos falsificados, sobretudo bolsas, roupas, relógios e outros artigos de luxo.

Temporada do turismo cria pressão para refugiados em porto da Grécia

A Páscoa ortodoxa será comemorada neste domingo, 1º de maio. Normalmente, é uma data esperada ansiosamente em Pireu. O feriado tradicionalmente marca o início da temporada de cruzeiros, e milhares de visitantes chegam à cidade portuária como parada para as centenas de passeios por Atenas, ilhas gregas ou pelo Mediterrâneo. Mas em 2016 será diferente. Os turistas são bem-vindos, mas ainda não se sabe direito como recepcioná-los.

Pireu é vizinha a Atenas e tem o maior porto da Grécia. Com isso, seu porto deixou de ser apenas uma parada para cruzeiros e ponto de referência da maior marinha mercante do mundo. O local também se tornou o local de chegada de milhares de refugiados que tentam se afastar das guerras em seus países – principalmente Síria e Afeganistão – para reconstruir a vida na Europa. Durante meses, a cidade grega era uma passagem, mas, nas últimas semanas, se tornou em abrigo provisório.

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Pela sua posição geográfica em relação ao Oriente Médio, a Grécia é um caminho natural desse ciclo migratório. Os refugiados chegam em terras gregas pensando em seguir o rumo para o norte, atravessando os Bálcãs até chegar à Alemanha. No entanto, essa rota foi interrompida nas últimas semanas. Bulgária, Macedônia e Albânia fecharam suas fronteiras para os imigrantes, que se viram presos na Grécia.

Rapidamente, a quantidade de refugiados em Atenas e Pireu se tornou maior do que as cidades podem acomodar, ainda mais considerando a situação econômica delicadíssima que vive a Grécia. Com isso, tendas foram erguidas no porto de Pireu, que se transformou em um campo de refugiados. Uma situação longe do ideal, em que há carência de serviços e até de segurança. Mas que pode ficar perto de insustentável com a chegada dos turistas.

O governo tem se mostrado compreensivo – ainda que visivelmente despreparado – com os refugiados e há elogios à solidariedade da maioria da população local (ainda que a crise também tenha impulsionado o crescimento do Alvorada Dourada, um partido de extrema-direita). Não houve grande pressão para impedir a chegada deles, tampouco forçar seu deslocamento.

Um elemento que ajuda os imigrantes é o próprio passado da Grécia. A Guerra Greco-Turca (1919 a 1922) foi marcada por limpeza étnica, resultando em milhares de mortes e um acordo de troca de população no final do conflito. Assim, 500 mil muçulmanos – de origem grega e turca – que viviam na Grécia foram enviados para a Turquia, que mandou 1,5 milhão de ortodoxos – de etnia grega ou turca. Assim, boa parte da população grega atual descende de pessoas que chegaram a sua própria terra como refugiadas e tiveram de reconstruir sua vida.

No entanto, as condições dos sírios e afegãos se deterioram. Há relatos de doenças, brigas (até com uso de facas) e fome. A falta de perspectivas também abaixa o ânimo dos refugiados, que não encontram muitas possibilidades de se inserir em um país que já vive uma crise econômica.

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Nesse cenário, oferecer boas condições para a chegada dos turistas não pode ser vista como uma ação fútil, inversão de prioridades ou ignorar o sofrimento de muita gente logo ao lado. Os visitantes injetam bilhões de euros na economia grega, o que representa um alívio para a enorme indústria de turismo local – o que pode até criar oportunidades de trabalho temporário para alguns refugiados.

Desde março as autoridades criam novos espaços para abrigar os refugiados. Os estádios de beisebol e hóquei na grama, dois elefantes brancos dos Jogos Olímpicos de 2004, já estão cheios de tendas. Mas muitos não querem sair do porto, com medo de serem deslocados para regiões afastadas de Atenas – onde estão as poucas oportunidades econômicas palpáveis – e de olho na infraestrutura de transportes, que ajudaria em uma rápida viagem ao norte caso Macedônia, Albânia ou Bulgária reabram suas fronteiras.

A meta do governo é que todos os refugiados de Pireu estejam abrigados em outros lugares da Grande Atenas até este domingo. Que isso não seja apenas – mais um – deslocamento, mas uma ida a locais com condições e oportunidades melhores.

Obs.: Se você se vira bem no inglês, confira essa reportagem do Guardian e essa do Huffington Post, mostrando o dia a dia de refugiados no porto de Pireu.

Até Las Vegas percebeu que não dá para viver só de carros

Assim que o turista faz o check in no hotel, recebe um mapa. Não é um mapa da cidade, com eventuais dicas das principais atrações na região, é um mapa do hotel. E eles são bastante necessários, pois é o jeito de não se perder no meio de centenas de mesas e máquinas de jogos, dezenas de lojas e restaurantes, auditórios, arenas e corredores para todos os lados. Os hotéis-cassinos que desenham a paisagem da Strip, principal avenida de Las Vegas, foram feitos para o visitante satisfazer todas as suas necessidades em um único local. Se precisar passear, há ônibus fretados para alguns locais ou precisa apelar ao táxi ou Uber.

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Transporte público não parece combinar com esse mundo da abundância e do perdularismo. No meio de tantas luzes piscantes, sósias do Elvis Presley e montanha-russa vertical, espera-se ver veículos extravagantes como uma limousine Hummer, uma Ferrari que sacie o desejo de um turista com crise de meia-idade ou um caminhão-balada. E, nesse aspecto, Las Vegas nunca decepciona.

O problema é que o mundo real não é feito dessa excentricidade. A cidade não vive apenas do turista que vai ao deserto do Nevada para apostar. A segunda maior fonte de renda da capital do jogo são os congressos e feiras, que usam o apelo turístico para atrair mais visitantes. E muitos deles não chegam pensando em gastar seus dólares desnecessariamente. Se somar esse público com a população local, que precisa fazer o trajeto casa-trabalho diariamente, percebe-se o crescimento da demanda por transporte público de massa.

Homem fantasiado de Elvis Presley carrega réplica de placa de Las Vegas (AP Photo/Julie Jacobson)
Homem fantasiado de Elvis Presley carrega réplica de placa de Las Vegas (AP Photo/Julie Jacobson)

Nesta semana, a prefeitura de Las Vegas divulgou um projeto para tornar a cidade mais verde, com um centro mais agradável e, principalmente, uma linha de VLT (veículo leve sobre trilhos) ligando o centro, a Strip e o aeroporto Internacional McCarran. A medida aliviria o trânsito nas avenidas que fazem esse trajeto, além de dar mais autonomia aos moradores e turistas, que deixam de depender de táxi, Uber, carros alugados ou ônibus oferecidos pelos hotéis.

A medida é vista como estrategicamente importante para manter Las Vegas como um dos principais centros de eventos. A cidade teme a concorrência com Orlando, que já inaugurou seu sistema de transporte de massa e conta com dois atrativos similares à capital dos cassinos: está em uma área que raramente neva (ou seja, pode receber eventos no inverno) e tem alto potencial turístico.

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O plano do VLT de Las Vegas ainda é incipiente e nem há um projeto. As estimativas iniciais é que o sistema custe entre US$ 2,1 e 12,5 bilhões, uma faixa de valores incomodamente larga. As autoridades calculam que ela traria muitos ganhos com a manutenção ou crescimento de eventos, além da redução de trânsito e do incentivo do comércio de bairro, outra coisa que parece não ter espaço em uma cidade em que um quarteirão com apenas dois hotéis chega a ter 800 metros de extensão.

Florença impõe cota mínima de comida local em restaurantes do centro

Turistas muitas vezes precisam de soluções práticas. Curtir a culinária do local visitado é normalmente a preferência, mas há momentos em que uma refeição rápida é a melhor alternativa. Menos em Florença. A capital da Toscana, região no centro-norte da Itália, criou uma lei para limitar a quantidade de comida forasteira oferecida no centro histórico da cidade.

A determinação da prefeitura é que qualquer estabelecimento novo na área de alimentação terá, obrigatoriamente, 70% de produtos regionais. Cada item deverá ser produzido na Toscana e ter no máximo dois intermediários entre o produtor e o consumidor. Para a definição de “produtos típicos”, é utilizado o catálogo de produtos agroalimentares tradicionais e o de certificados de denominação de origem protegida e indicação geográfica protegida. Os restaurantes e os alimentari (pequenos mercados especializados em produtos alimentares) já existentes não estarão sujeitos a essa regulação.

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De acordo com o assessor de desenvolvimento econômico da cidade, Giovanni Bettarini, o objetivo é proteger o pequeno comerciante e a cultura florentina. “Queremos que em Florença vença a qualidade. Uma escolha que estamos levando adiante em todos os setores, a partir da aprovação do regulamento para o centro histórico, ao trabalho nos mercados e no turismo”, afirmou em entrevista ao jornal La Repubblica. “Não podemos deixar que o comércio seja destruído, porque é uma parte dos valores e da identidade desta cidade.”

O representante da prefeitura deixa escapar uma ideia comum entre os italianos que só o país tem “comida boa de verdade”. Mas, cutucadas nas outras culinárias à parte, o alvo dessa medida são pequenos estabelecimentos de comida rápida que tanto agradam turistas com pouco tempo e dinheiro. Ainda que a gastronomia seja um atrativo turístico da Itália (ainda mais na Toscana, uma das regiões com mais farta produção de ingredientes de altíssima qualidade), muitos visitantes procuram opções mais práticas.

Esse tipo de comércio geralmente tem origem não-italiana, de redes internacionais de fast food a barracas de imigrantes do Oriente Médio que servem kebab (churrasco grego), algo bastante comum em cidades turísticas europeias. Por isso, medidas que obrigam a venda de ingredientes produzidos localmente e de receitas tradicionais de Florença ou da Toscana limitam diretamente a capacidade de ação desses estabelecimentos.

A estratégia dos florentinos soa exagerada, mas faz sentido dentro da relação dos italianos com sua culinária. A Itália é uma das nações que mais líderes do Slow Food (“Comida Lenta”, movimento que valoriza pratos com ingredientes orgânicos, locais, respeitando o meio ambiente e preparados de forma a valorizar o sabor) e tem quase uma compulsão por criar denominações de origem para seus ingredientes e pratos regionais. Há dez dias, a Comissão Nacional Italiana na Unesco (órgão das Nações Unidas para educação, ciência e cultura) decidiu apresentar a candidatura da pizza napolitana para se tornar um novo Patrimônio Cultural Imaterial da entidade.

De qualquer modo, a decisão de Florença não deixa de ser uma limitação ao trabalho de futuros comerciantes, e pode acabar tirando a quantidade de opções de turistas e florentinos que trabalham ou moram no centro. Além disso, por criar um modelo que incentive indiretamente os restaurantes, acaba reduzindo a quantidade de opções econômicas na cidade, que pode ganhar um rótulo de destino de alimentação mais cara.

A onda de gastronomia representa uma boa oportunidade para Belém

O que é? O público da TV Liberal, afiliada da Globo em Belém, elegeu o Ver-o-Peso como o maior símbolo da capital paraense. Um sinal da importância do mercado para a cidade, e que serve de lembrete de como ele tem um potencial para projetar a cidade, sobretudo em um momento em que a gastronomia virou um tema da moda no mundo.

Viver novas experiências, conhecer sabores inéditos

“A última fronteira gastronômica mundial.” É um título pomposo, que até soa exagerado, mas deve ser respeitado quando o responsável por ele é um dos maiores chefs do mundo. Foi assim que o espanhol Ferran Adrià se referiu à Amazônia, uma grande região do planeta com uma enorme biodiversidade, que proporciona milhares de ingredientes desconhecidos de muitas pessoas de fora. O que inclui mesmo no resto do Brasil. Bom para as pessoas que vivem na região e conhecem esses sabores. Melhor ainda para as cidades que puderem usar essa fama para capitalizar na onda mundial por gastronomia.

A comida demorou um pouco para virar tema da moda no Brasil, pelo menos em massificação. Ela veio nos últimos anos, e teve grande impulso com a criação da nossa versão do programa Masterchef. De qualquer modo, a TV a cabo já trazia programas desde a década passada, trazendo para uma parte do público brasileiro todo o crescimento desse assunto em diversos países do mundo.

Essa onda criou um novo público, o de entusiastas da comida. Pessoas que querem incluir experiências culinárias no seu dia a dia, incluindo nas férias. Vários lugares do mundo ganharam projeção, sejam países antes ignorados (Vietnã), regiões (Sichuan, China), cidades (Nova Orleans-EUA) ou mesmo estabelecimentos comerciais (Macelleria Cecchini, Panzano-ITA). O Brasil já tem suas referências, como o restaurante DOM e as churrascarias rodízio. Mas a tal “última fronteira gastronômica mundial” segue de fora. E, se for para se trabalhar nisso, já há um candidato natural.

O brasileiro Alex Atala apresenta o Ver-o-Peso ao espanhol Ferran Adrià. Os dois estão entre os melhores chefs do mundo (Divulgação)
O brasileiro Alex Atala apresenta o Ver-o-Peso ao espanhol Ferran Adrià. Os dois estão entre os melhores chefs do mundo (Divulgação)

O Mercado Ver-o-Peso, em Belém, já tem projeção no meio turístico. Localizado em um edifício histórico à beira da Baía do Guajará, é um dos pontos turísticos da capital paraense, foi visitado por alguns chefs internacionais que resolveram conhecer os tais sabores da Amazônia e até tem festival gastronômico. Nesta semana, foi eleito pelo público da TV Liberal, afiliada belenense da Rede Globo, como o principal símbolo dos 400 anos de Belém, que serão completados em 12 de janeiro de 2016. O mercado deixou para trás o Círio de Nazaré, o Túnel das Mangueiras, o Forte do Presépio e o bairro da Cidade Velha.

No entanto, a divulgação do espaço ainda é discreta. Sabe-se que o prédio do Ver-o-Peso tem valor histórico e que se encontra produtos diferentes do Mercadão de São Paulo ou do Mercado Central de Belo Horizonte. No entanto, não se faz um trabalho para mostrar o quão especial aquele lugar pode ser, o quão inédita seria a experiência de quem o visitasse (e não há nada que a geração atual mais ame do que “viver experiências inéditas”). Como fazer isso? Divulgação tradicional (publicidade), mas levar chefs famosos e a mídia para conhecer, levar chefs paraenses para eventos pelo resto do Brasil e o mundo, criar novas receitas com ingredientes locais e torná-los conhecidos como o açaí ficou.

Claro que pouca gente, no Brasil ou no mundo, faria uma viagem até Belém apenas por causa de seu mercado. Mas ele seria o chamariz principal para puxar todas as demais atrações da cidade, e não são poucas. Em um mundo que talvez nunca tenha falado e valorizado tanto a boa comida, a capital paraense tem uma oportunidade muito boa para se projetar.

Decoração de Natal é mais do que trânsito: pode virar dinheiro

O que é? É um final de ano meio chocho. Em clima de crise, muitas cidades brasileiras não fizeram tantos investimentos para se decorar com motivos natalinos. Uma situação particularmente marcante em São Paulo, onde o tradicional palco da Avenida Paulista não foi montado por falta de patrocínio. Para muitos, é um tipo de investimento a fundo perdido. Mas perde-se a oportunidade de reforçar a capital paulista como um centro natalino no Brasil.

O turismo natalino

Congestionamentos e mais congestionamentos. O paulistano está acostumado a lidar com o tráfego lento, mas em dezembro a situação é particularmente mais crítica. Só tem uma coisa que pode piorar a confusão nas ruas – e irritar ainda mais os motoristas: a inauguração da decoração de Natal no Parque do Ibirapuera e na Avenida Paulista. Curiosos começam a transitar em ritmo lento para ver as luzes, e os demais reclamam da dose extra de lentidão.

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Por isso, houve até um alívio de parte da população ao ver que a maior cidade brasileira entrou menos no clima natalino em 2015. Não houve o palco na Paulista e o comércio foi mais discreto nas decorações. Mas ver a decoração de Natal apenas como um elemento que piora o trânsito é olhar para uma parte pequena do cenário.

Ônibus com luzes de Natal passa em frente à árvore de Natal do Parque do Ibirapuera (Sidnei Santos/SPTrans)
Ônibus com luzes de Natal passa em frente à árvore de Natal do Parque do Ibirapuera (Sidnei Santos/SPTrans)

Em um ambiente cada vez mais agressivo é cético, é difícil imaginar uma grande cidade brasileira imersa no conceito de “espírito natalino”. É muito mais comum encontrar pessoas irritadas com a fila nas lojas e nos supermercados para comprar presentes ou ingredientes para a ceia do que corais infantis espalhando “Bate o Sino” pelas ruas. Mas o Natal ainda é uma data importante e simbólica para muita gente, pela origem religiosa ou apenas por afinidade com todas as tradições que giram em torno desse feriado.

Há muitas pessoas que aproveitam essa época do ano para reforçar o sentimento natalino passeando ou viajando. As grandes cidades brasileiras – e São Paulo em particular – não têm capitalizado com isso. Tratam a decoração de Natal apenas como algo a se fazer para marcar o ano, mas não percebem a oportunidade que aquilo representa.

Um ponto que atrapalha é o clima, claro. No imaginário de qualquer pessoa no mundo ocidental, o Natal se relaciona com frio, neve, um velhinho barbudo com roupa para enfrentar o inverno polar e talvez a família reunida em uma sala aquecida por uma lareira. É a imagem que vem do hemisfério norte e a absorvemos no Brasil, por maior que seja o sofrimento de qualquer pessoa que passa horas de calor por ter arranjado um bico de fim de ano como Papai Noel.

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Por isso, muitos brasileiros que gostam de Natal e têm maior poder aquisitivo aproveitam a segunda quinzena de dezembro para viajar a Nova York, Londres ou Orlando/Disney. Se for um profissional no turismo natalino, pode desbravar os mercados de Natal das Alemanha ou de Estrasburgo (França), considerado o melhor da Europa. Claro que o destino vale por si só, mas o clima natalino e a possibilidade de compras contribuem. Não à toa, há muita decoração e eventos culturais e até esportivos, além de investimento do comércio em receber esses consumidores que vêm de fora.

A Regent Street, em Londres, decorada para o Natal
A Regent Street, em Londres, decorada para o Natal

Nenhuma cidade brasileira concorre diretamente com essas por motivos óbvios, mas elas podem atrair o próprio brasileiro que não tem condição de atravessar o mundo. Isso já foi descoberto por cidades serranas como Gramado (RS), Campos do Jordão (SP) e Monte Verde (MG), sobretudo pelo apelo da temperatura mais amena que a média do verão brasileiro. No entanto, as grandes cidades podem aproveitar isso. E São Paulo surgiria como uma das principais candidatas.

A capital paulista já ganhou destaque na última década pelas decorações natalinas, inclusive em edifícios residenciais. Já é comum moradores da periferia ou de outras cidades próximas a São Paulo irem até o Parque do Ibirapuera, à Avenida Paulista ou aos shoppings para verem as luzes. E isso nem sempre tem a ver com as pessoas que ficam passando de carro e tornando o trânsito mais lento.

A isso se soma o fato de São Paulo não ser um destino típico de verão, algo mais comum para o Réveillon, e ter um comércio muito forte. Mesmo que a pessoa queira passar o dia 24 e 25 de dezembro com a família, ela teria motivos para passar pela capital paulista em algum momento em dezembro para curtir esse clima e comprar presentes que talvez ela não encontre em sua cidade (ou encontre a preços mais altos).

Presépio no Conjunto Nacional, galeria na Avenida Paulista (Ubiratan Leal/Outra CIdade)
Presépio no Conjunto Nacional, galeria na Avenida Paulista (Ubiratan Leal/Outra CIdade)

De acordo com uma pesquisa da SP Turis, órgão que gere as políticas de turismo na cidade, 11% dos visitantes das atrações natalinas são de outras cidades e 13,3% dos paulistanos que estavam em alguma dessas atrações estavam hospedando parentes de outras cidades. São números interessantes, mas que poderiam ser ainda maiores.

A prefeitura divulgou a programação de Natal da cidade com várias atividades, mas falta a cidade se colocar mais abertamente como um dos grandes destinos natalinos do Brasil. Há condições para isso, desde que todos (sobretudo a população) veja o Natal como um dos grandes eventos do calendário da cidade e pare de reclamar um pouco do trânsito.