VÍDEO: Qual a extensão do incêndio na Califórnia? Bem, ele fez Los Angeles parecer Mordor

Os californianos estão cada vez mais acostumados em lidar com incêndios na mata. O tempo seco e os ventos são um ambiente propício para a propagação das chamas, que muitas vezes chegam a regiões habitadas e causam mortes e forçam o deslocamento de pessoas. É o que está acontecendo nesta semana, com o fogo se aproximando de Los Angeles e criando imagens quase cinematográficas.

Veja esse vídeo feito por um angelino que estava na Interstate 405, uma das principais vias expressas da Grande LA, indo ao trabalho. Parece que ele está indo para Mordor fazer uma reunião de negócios com Sauron.

A cena é assustadora e perigosa, tanto que a via foi interditada nesse trecho. Em teoria, uma grande via como essa pode funcionar como uma barreira para as chamas e impedir o avanço do incêndio. No entanto, se o vento estiver forte demais, o fogo pode atravessar a pista e ser reiniciado do outro lado.

Como a tragédia do Haiti serve de alerta para as cidades brasileiras

Tragédias no Haiti parecem sempre ter zeros a mais no final. Foram cerca de 1.000 mortos pela passagem do furacão Matthew na última semana, com cerca de 175.000 desabrigados. Em 2010, um terremoto foi ainda mais devastador: 160.000 mortos, 300.000 feridos, 1.500.000 (caso você tenha se perdido nos zeros, é 1,5 milhão) de desabrigados. Entre um desastre e outro, uma epidemia de cólera já atingiu 720.000 pessoas, matando 9.000 delas.

A natureza tem sido cruel com os haitianos, mas muitos dos zeros nas estatísticas se devem a motivos bastante humanos. Por mais forte que sejam furacões e terremotos, a quantidade de danos está diretamente ligada à vulnerabilidade econômica, social e estrutural dos lugares atingidos. Sobretudo nas cidades, onde há maior concentração de pessoas e, por isso, são os lugares em que se produzem a maior parte dos trágicos números após grandes desastres naturais.

O Haiti é um grande exemplo disso. Sua infraestrutura nunca foi problemática, mas se deteriorou demais após décadas de guerra pelo poder. Além disso, o crescimento urbano sem planejamento e realizado em diversos momentos de crises humanitárias fez que grandes áreas das principais cidades (em geral as mais pobres) não tivessem capacidade de resistir aos desastres aos quais o país está sujeito.

Em 2010, um terremoto destruiu boa parte das cidades haitianas, inclusive a capital Porto Príncipe. O tremor foi forte, 7 graus na escala de magnitude, mas a destruição (160 mil mortos, 250 mil casas – incluindo o palácio presidencial – destruídas) foi desproporcional. O terremoto de Tohoku, norte do Japão, em 2011 teve magnitude 9 e matou pouco menos de 16 mil pessoas (10% do total de mortes no Haiti no ano anterior), incluindo as vítimas dos tremores e do tsunami que devastou a região.

Hospital na cidade de Les Cayes (AP Photo/Rebecca Blackwell via Outra Cidade)
Hospital na cidade de Les Cayes (AP Photo/Rebecca Blackwell via Outra Cidade)

O terremoto de 2010 criou um ambiente ainda mais propício a tragédias, por fez a infraestrutura e o desenvolvimento das cidades haitianas retrocederem algumas décadas. A falta de saneamento levou a uma epidemia de cólera. E, com 55 mil pessoas ainda vivendo em abrigos provisórios, a falta de estrutura para resistir a um furacão é ainda menor, até porque não há infraestrutura viária e transporte suficiente para milhares de pessoas deixarem suas casas e buscarem regiões mais seguras, como ocorreu no sul dos Estados Unidos dias depois.

“O Haiti é provavelmente o exemplo mais extremo de vulnerabilidade a um grande desastre, de qualquer tipo”, comentou o diretor do Centro de Preparação para Desastres da Universidade de Columbia, Irwin Redlener, em entrevista ao site Market Place.

Ainda que o caso do haiti seja especialmente grave, pela junção de problemas históricos, econômicos e estruturais, ele serve de alerta para vários outros países com déficit nessas áreas. Inclusive o Brasil.

Os brasileiros se vangloriam do fato de essa região do globo não sofrer com furacões, vulcões e terremotos, mas isso não deixa o País livre de desastres, alguns provocados pela natureza, outros pelo homem. Tragédias como a provocada pelas chuvas no Morro do Bumba (Niteroi) em 2010 e na Serra Fluminense em 2011 ou pelo rompimento de uma barragem em Mariana, Minas Gerais, mostraram como as cidades brasileiras são vulneráveis a tragédias. Muitas das mortes poderiam ser evitadas com planejamento e infraestrutura mais adequada para prever essa possibilidade.

A tragédia do Haiti precisa ser conhecida e lamentada. Mas também precisa ser vista como alerta.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Londres relembra seu maior incêndio queimando uma maquete da cidade

Centenas de londrinos vão para a beira do rio Tâmisa. É uma noite de domingo e todos tinham um objetivo: ver sua cidade ser consumida pelo fogo até ficar em cinzas. Claro, não a Londres real, mas uma réplica de 120 metros de comprimento construída para celebrar o 350º aniversário de uma das maiores tragédias da história inglesa, o Grande Incêndio de 1666.

As chamas tiveram início em uma padaria, mas uma união entre adensamento enorme, construções cheias de materiais inflamáveis e demora na resposta das autoridades permitiram que elas se espalhassem pelo centro de Londres. Após quatro dias, de 2 a 5 de setembro, o fogo destruiu 87 igrejas (incluindo a Catedral de São Paulo) e 13 mil casas, deixando 70 mil londrinos sem ter onde morar.

Apesar da destruição, a quantidade de vítimas fatais foi baixa. Os números oficiais são de seis mortos, ainda que possivelmente mais pessoas tenham perdido a vida sem que fossem contabilizada pelas autoridades. A residência da família real, na região de Westminster, não foi atingida.

O incêndio foi um marco na história da cidade. O centro de Londres foi reconstruído dentro do mesmo plano urbanístico original, mas com modificações fundamentais para assegurar a segurança da cidade: melhorias de higiene, ruas mais largas, cais mais acessíveis ao longo do Tâmisa, nenhum imóvel obstruindo o acesso ao rio e edificações com tijolos e pedras no lugar de madeira.

Para relembrar os 350 anos do incêndio, o artista norte-americano David Best e a empresa Artichoke desenvolveram uma instalação. Foi construída uma grande maquete de madeira da cidade e, na noite de 4 de setembro de 2016, foi colocado fogo em uma das edificações. Os londrinos curiosos não tiveram de esperar quatro dias, apenas pouco mais de uma hora para ver a reprodução de sua cidade virar cinzas.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

A história da cidade que nasceu das cinzas de Chernobyl

Uma cidade diferente de outras europeias, mesmo as mais modernas. O modelo urbano foi todo feito pensando no século 21, ou no que o mundo da década de 1980 achava que seria o século 21. Tudo é planejado, com cada bairro tendo um estilo próprio, de acordo com seu idealizador. Há muita infraestrutura de lazer, como instalações esportivas, clínicas, centro para jovens, e cerca de 80% das residências são em apartamentos. Slavutych não parece um município ucraniano comum. E não é. Ela só existe por causa do pior acidente nuclear da história.

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A história dessa cidade começou há exatos 30 anos, quando o reator número 4 da usina nuclear de Chernobyl explodiu durante testes de segurança. O acidente causou 31 mortes imediatas, mais 64 por efeito imediato da radiação e pode chegar a 4 mil considerando efeitos prolongados dela. Todas as ocupações em um raio de 30 km da usina tiveram de ser evacuadas, o que incluiu os municípios de Prypiat, principal base de operações da instalação, e Chernobyl (atual Chornobyl, na grafia ucraniana), foram evacuadas.

Prypiat virou uma cidade fantasma. Todas as suas edificações foram abandonadas e o local se transformou em uma mostra em escala real de quanto tempo leva para a natureza tomar conta do espaço construído pelo homem. Em 1986, o município tinha 49 mil habitantes. A maioria fugiu, mas alguns queriam ou precisavam ficar. Afinal, os outros reatores da usina não foram desativados e eram necessários operadores especializados e funcionários administrativos.

Por isso, o governo da União Soviética decidiu construir uma cidade nova, a 50 km da usina – ou seja, fora da Zona de Exclusão –, para abrigar as famílias que deixaram Prypiat. Foram chamados construtores e arquitetos de oito repúblicas soviéticas – Armênia, Azerbaijão, Estônia, Geórgia, Letônia, Lituânia, Rússia e Ucrânia – para projetar os bairros. Cada um ganhou as características regionais de seus projetistas e o nome da capital de suas repúblicas. O local recebeu o nome de Slavutych, nome eslavo do rio Dnieper, e seus primeiros habitantes chegaram em outubro de 1988, dois anos após o início das obras.

Desde então, a cidade passou a seguir uma dinâmica própria. Toda sua economia girava em torno da usina de Chernobyl, responsável por 85% do orçamento municipal. A cidade foi planejada para ter muitas estruturas para crianças, que formavam cerca de 20% da população de Prypiat. Por isso, Slavutych tem seis jardins de infância, quatro escolas secundárias, um grande colégio de ensino médio e uma escola de arte infantil. Muita coisa para uma cidade que teve apenas 11 mil habitantes em seus primeiros anos e chegou a 25 mil no início deste século.

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A infraestrutura e a estabilidade econômica oferecia boa qualidade de vida para os habitantes de Slavutych, mas as marcas do acidente nuclear nunca deixaram seus habitantes. A incidência de doenças relacionadas a radiação e problemas de tireoide são muito acima do normal. Pessoas que se alimentaram de alimentos produzidos na região tendem a sofrer mais, ainda mais depois que surgiu uma lenda local de que a vodca limpa o corpo da radioatividade, fazendo que muita gente não se importasse tanto com a origem de sua comida.

A situação econômica começou a piorar na virada do século. Aos poucos, a usina nuclear foi desativada. O reator 2 parou em 1991, após um incêndio. O número 1 fechou em 1996 e o 3, o último ainda operacional, em 2000. Na época, 9 mil pessoas trabalhavam em Chernobyl, apenas 3 mil mantiveram o emprego (exclusivamente com manutenção e monitoramento das instalações).

Mas o fechamento da usina criou uma outra atividade econômica: o turismo. Slavutych se tornou a principal base de empresas que organizam visitas guiadas a Prypiat e à Zona de Exclusão. Não é o suficiente para compensar a queda de investimento, mas ajudará a cidade a não ter o destino de sua antecessora: a de se tornar uma cidade-fantasma.

A indiferença à morte mostra como é frágil nosso sentido de comunidade

O Brasil vive um momento particular de sua história recente. Nos últimos anos, milhões de pessoas foram às ruas defender as mais diversas causas, mas principalmente pedir por mudanças para melhorar o país. Essa participação da população é fundamental, pois reforça o sentido de comunidade dos indivíduos e o quanto eles são capazes de se indignar com os problemas que as cercam. Mas esta quinta nos mostrou o quanto ainda é preciso melhorar. Uma ciclovia recém-inaugurada caiu, os corpos de duas vítimas do acidente foram colocados na praia, e algumas pessoas continuaram jogando futebol a poucos metros dali, como se nada ocorrera.

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Certamente aqueles rapazes não poderiam fazer nada para ajudar as vítimas e talvez tivessem pouco a acrescentar em uma investigação. Mas se alienar de tal forma do que ocorre ao redor, ficar indiferente à morte de duas pessoas, mostra um sentido de comunidade ainda frágil. Deixar de lado suas tarefas – nem que seja jogar altinha com os amigos, um lazer mais que legítimo – para dedicar seu tempo e sua mente à sua cidade ou ao seu país ainda é tratado como um esforço por muitos.

Esse é um grave problema em diversas sociedades, e o Brasil está entre elas. Crescem os exemplos de pessoas fazendo trabalho comunitário, de serviço voluntário ou de luta por melhorias. Mas ainda há um individualismo exagerado, que pode estar escondido por trás de um “o importante é eu me dar bem” e se expor no momento em que nem a morte de duas pessoas a poucos metros muda seu humor, ou sua vontade de jogar bola.

Não é uma questão de crucificar os rapazes que ficam na altinha, porque eles só refletem um comportamento que vemos no dia a dia. As cidades brasileiras têm milhares de problemas, de falta de oportunidades econômicas à falta de qualidade na prestação de serviços públicos, passando por violência urbana e planejamento fraco. Ninguém precisa ser o herói e sair nas ruas tentando resolver tudo, acabar com o crime, consertar as ruas, dar emprego a quem não tem, fazer o atendimento a quem está na fila do hospital público e ainda salvar a vida das vítimas da queda da ciclovia Tim Maia. Mas a indiferença aos problemas, quaisquer que sejam, mostra o rompimento da ligação entre alguns indivíduos e o resto da sociedade.

As comunidades que formam o Brasil só melhorarão quando as pessoas se sentirem pertencentes a ela e se envolverem da forma que acharem melhor. Que seja agindo ou apenas reclamando. Só não é possível ficar indiferente, desumanizado.

Na tragédia da ciclovia do Rio, sabemos quem não tem culpa: a onda

O mundo de olho no Brasil devido a um grande evento esportivo. Houve grande investimento na infraestrutura das sedes e o ritmo das obras foi intenso em diversos pontos. Avenidas, pontes, túneis e passarelas por todos os lados, mas algumas delas não duraram para ver o encerramento do tal grande evento, e ainda deixaram vítimas.

É o enredo da ciclovia Tim Maia que desabou nesta quinta, matando ao menos duas pessoas no Rio de Janeiro. Mas é possível usá-lo para falar do viaduto da avenida Dom Pedro I, em Belo Horizonte, que caiu no meio da Copa do Mundo, cinco dias antes da capital mineira ver o Brasil perder de 7 a 1 para a Alemanha,e matou duas pessoas. Também dá para aproveitar esse roteiro para a viga do monotrilho de São Paulo, que desabou na Avenida Roberto Marinho (Águas Espraiadas) e matou um operário três dias antes da capital paulista abrir a Copa.

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O caso de BH e de São Paulo entram na conta de acidente de obra, mas a tragédia carioca ocorreu com uma construção já entregue e em uso. Um uso recente: a ciclovia da avenida Niemeyer foi inaugurada em 17 de janeiro, pouco mais de três meses atrás, e não dá para dizer que estava desgastada por falta de manutenção. E não é um caso isolado. O estádio Nílton Santos, o Engenhão, recebeu os Jogos Pan-Americanos de 2007, vários jogos de futebol (é a casa do Botafogo) e está designado como sede do atletismo na Olimpíada de 2016, mas foi interditado por quase dois anos por falha na estrutura da cobertura. A vila de atletas do Pan, com apartamentos vendidos ao público após o evento, teve áreas interditadas por erros de projeto.

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Esse fenômeno não é exclusivo das obras ligadas direta ou indiretamente aos grandes eventos esportivos. O Brasil tem um longo histórico de construções de infraestrutura que apresentam problemas pouco depois de inauguradas. Algo que se potencializa se há algum motivo para encurtar o prazo de entrega. E a pressa é potencialmente cruel com a boa engenharia: ela pode levar a um projeto que não contemple todas as situações possíveis, a um controle de qualidade menos apurado, a controle de segurança no trabalho mais relaxado, a uma execução com margens de segurança mais estreitas.

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É um problema crônico, e que muitas vezes é esquecido porque as autoridades têm interesse em não o atacar. Afinal, toda a dinâmica de obras públicas no Brasil entraria em xeque. Mais fácil buscar algum bode expiatório ou criar um culpado abstrato, como um fenômeno da natureza.

Um caso pequeno e pouco lembrado serve para ilustrar isso. Veja o trecho de uma reportagem da Folha de São Paulo de 12 de julho de 1997:

“Um buraco de cerca de 30 cm de comprimento por 25 cm de largura apareceu no viaduto República da Armênia, no Brooklin (zona sudoeste). A obra, que liga a avenida dos Bandeirantes à marginal Pinheiros, foi inaugurada há apenas dez meses.

A falha no concreto que recobre a pista fica junto à faixa central, no início da descida. Ela tem cerca de 15 cm de profundidade, e deixa parcialmente à mostra a estrutura de ferro da parte superior do piso.

Cerca de 20 metros adiante, no sentido da marginal, existe outro buraco com aproximadamente a mesma profundidade”.

O viaduto República da Armênia foi inaugurado às pressas no final de 1996, a tempo de ser utilizado na campanha eleitoral (Paulo Maluf era o prefeito e tentava eleger Celso Pitta como seu sucessor). Na época, a secretaria de vias públicas descartou erro na construção do viaduto. Os problemas estruturais teriam sido causados pelo tráfego pesado de caminhões.

Quem conhece São Paulo sabe que um viaduto que faz a ligação entre a avenida dos Bandeirantes e a marginal Pinheiros terá, obrigatoriamente, circulação de caminhões e veículos pesados. É a natureza desse trajeto, rota básica na ligação entre o interior e o litoral. Se um viaduto nessa área não resiste a esse tipo de tráfego, o erro não é do tráfego, mas do viaduto. Pode ser um problema de projeto ou de execução, provavelmente possibilitados por um erro de fiscalização, mas de utilização ou operação não é.

Helicóptero busca vitimas de desabamento de ciclovia no Rio de Janeiro (AP Photo/Felipe Dana)
Helicóptero busca vitimas de desabamento de ciclovia no Rio de Janeiro (AP Photo/Felipe Dana)

O viaduto da zona sul de São Paulo foi interditado e recuperado antes de algo mais grave acontecer. Infelizmente, não foi o caso da ciclovia da avenida Niemeyer. As primeiras informações dão conta que o mar estava de ressaca, com ondas mais altas que o normal. Algumas teriam atingido a estrutura da ciclovia, que não aguentou.

Bem, ressaca no mar carioca é um fato da natureza: ela não ocorre todo dia, mas vai ocorrer algumas vezes. Qualquer obra de infraestrutura naquela região precisa ter uma estrutura que preveja isso. A ressaca não atinge apenas uma ciclovia, como nesta quinta. Já pegou carros estacionados, como ocorreu com o roqueiro Raul Seixas nos anos 80. O mar danificou seu carro, e uma certeza ele tinha: que a culpa não era da onda.

Cinco anos depois, Japão não sabe o que fazer com ruínas do tsunami

Onze de março é uma data dolorida para os japoneses. Nessa data, em 2011, um terremoto seguido por tsunami devastou o litoral nordeste de Honshu, a principal ilha do país. As províncias de Miyagi e Iwate foram as mais atingidas, em uma devastação que destruiu cidades, a infraestrutura e levou a vida de quase 20 mil pessoas. Para piorar, o desastre abalou as instalações da usina atômica de Fukushima, que passou a vazar radiação no segundo pior acidente nuclear da história.

Passaram-se cinco anos, e o Japão ainda tenta cicatrizar as feridas. Até hoje há buscas por corpos dos 2.561 desaparecidos. Dos cerca de 100 mil moradores da prefeitura (equivalente a província, não confundir com prefeitura municipal) de Fukushima que tiveram de evacuar suas casas após o desastre nuclear, 18.322 ainda vivem em abrigos provisórios. Além disso, a Tepco, empresa responsável pela usina, não sabe como acessar o material radioativo que continua vazando.

Mas a situação mais intrigante ocorre nas ruínas das cidades atingidas pelas ondas que atingiram dez metros naquela manhã. As casas menores foram destruídas e arrastadas, mas vários prédios permaneceram em pé. Suas estruturas resistiram como esqueletos, enquanto paredes e interior se renderam ao tsunami. A maior parte das cidades já foi limpa e está em reconstrução, mas algumas dessas construções sobreviventes não foram tocadas.

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Cerca de 100 mil pessoas – normalmente japoneses de outras regiões – já visitaram as cidades destruídas para um “estudo de desastre”, conhecer o local da tragédia para entender que erros foram cometidos e devem ser evitados no futuro. Esse movimento ganhou o apelido de “turismo negro”, porque obviamente há um componente meio mórbido nessa história.

Sendai decidiu preservar a escola usada como abrigo para 300 pessoas. Tomioka manteve a estação de trem com o painel indicando os trens que passariam naquele 11 de março. Mas há caso em que a população está dividida.

Em Otsuchi, o famoso barco que pousou sobre uma casa (foto acima) foi retirado, claro. Mas o prefeito Kozo Hirano decidiu demolir definitivamente e reconstruir a antiga sede do governo municipal. No entanto, os vereadores vetaram a proposta, mantendo o edifício em que morreram 40 pessoas, incluindo o prefeito da época, Koki Kato.

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Um grupo de estudantes apresentou um pedido coletivo para que todas as ruínas da cidade sejam mantidas para a posteridade. A situação é comparada com a do Memorial da Paz de Hiroshima, restos do prédio da prefeitura que foi destruído na explosão da bomba atômica de 1945. Curiosamente, foram necessários 20 anos de discussões até decidir-se pela transformação do prédio em monumento.

Em uma cultura que valoriza tanto pela preservação da memória dos antepassados e não tem medo de se lembrar dos momentos de dor, essa discussão tem sentido. Ainda mais porque, se a vida de tantas pessoas ainda não voltou ao normal, os cinco anos do tsunami podem parecer pouco tempo para entender o impacto da tragédia.