População do Japão segue caindo, e só não é pior por causa dos imigrantes

O Japão tem 126,93 milhões de habitantes. É o dado divulgado pelo governo do país em abril, um número preocupante. Afinal, foi registrada uma queda de 299 mil japoneses em relação ao ano anterior, uma redução gigantesca de habitantes. A população total da terceira maior economia do mundo só não caiu mais porque houve a chegada de 136 mil imigrantes.

É o sexto ano seguido em que a população do Japão diminui. Esse fenômeno ocorre devido ao envelhecimento do país. Segundo o mesmo levantamento do governo, 27,3% da população tem mais de 65 anos, enquanto que apenas 60,3% tem entre 15 e 64 anos, a idade economicamente ativa, pior marca desde 1951, quando o país ainda sofria o efeito da Segunda Guerra Mundial.

Um plano do primeiro-ministro Shinzo Abe era estabilizar a população japonesa em cerca de 100 milhões em 2060. Com isso, a economia do país estaria mais sustentável em relação à sua produção e, principalmente, à capacidade de manter o sistema previdenciário. No entanto, projeções já apontam que a tendência é que a população caia para patamares menores que o desejado pelo governo.

Mas outra questão que está se tornando mais forte na sociedade japonesa, e pode crescer ainda mais de acordo com esses números, é o aumento da diversidade. Afinal, a quantidade de japoneses está diminuindo, mas o fluxo de imigrantes é crescente. Não vai demorar para gaijins (não-japoneses) se tornarem um grupo demograficamente relevante e forte.

Lançaram um sushi de Kit Kat. E não foi invencionice brasileira, foi no Japão mesmo

Brasileiro não tem muita cerimônia com comida. Gosta de inventar coisas diferentes, como comer arroz e feijão com macarrão, até cometer crimes inafiançáveis, como colocar ketchup na pizza. Alguns puristas reclamam – e até têm razão dependendo do caso (o da pizza) – e constantemente citam o jeitão estilo livre de se formular sushis por aqui. Sushi de tudo quanto é coisa, atentados que fariam um japonês considerar a hipótese de declarar guerra ao Brasil. Mas, o que fazer com essa tese quando lançam um sushi de Kit Kat no Japão?

Isso mesmo, um sushi com chocolate. A iguaria está disponível nos sabores atum, ouriço do mar e ovo, mas o sabor mesmo é bem diferente. Apesar da presença de folha de alga, são doces com ingredientes como arroz, chocolate branco, framboesa, melão, mascarpone e abóbora para simular a imagem de um sushi tradicional. 

O lançamento marcou a inauguração da primeira loja de rua da Kit Kat, no bairro de Ginza, Tóquio, em 2 de fevereiro. O pacote com os três sabores custava 3 mil ienes, ou US$ 26, mas se esgotou (foram produzidos em quantidade limitada).

Tudo bem, esse caso é de algo bem pontual, de uma marca de chocolate querendo promover uma nova unidade de sua loja. No entanto, essa história de que japonês é sacrossanto quando se trata de suas comidas tradicionais é mito. Ainda que restaurantes tradicionais mantenham padrões mais rígidos, estabelecimentos voltados para jovens ou turistas não têm medo de inventar moda.

O amigo Guilherme Pinheiro esteve no Japão em 2016 e postou uma pequena série de fotos de cardápios anunciando sushis inusitados. Veja:

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O fato de haver sushis inusitados no Japão não significa que eles sejam populares e largamente consumidos (esse vídeo do Yo Ban Boo, por exemplo, mostra o estranhamento de um jovem japonês com os sabores “japoneses” do Brasil), mas eles existem. Do mesmo jeito que existe pizzas de sabores esquisitos na Itália (mais em lugares para crianças e jovens), que cerveja com frutas é largamente consumida na Alemanha e que os brasileiros, ao contrário do que creem muitos estrangeiros, não veem problema em trocar o limão e a cachaça por outra fruta ou bebida na caipirinha.

Tóquio começa a testar drones para ajudar a população em desastres

Shinjuku é o centro administrativo e empresarial de Tóquio. O bairro tem 330 mil habitantes, número discreto perto das 3,5 milhões de pessoas que circulam na estação de metrô local, a mais movimentada do mundo. Com tanta gente vivendo, trabalhando ou passando pela região, ela é considerada uma das mais delicadas da capital do Japão no caso de algum desastre. E inspirou as autoridades japonesas a desenvolver drones para o auxílio da população em casos de emergência.

No último sábado, foram realizados os primeiros testes com a tecnologia. O projeto prevê o uso de drones para sobrevoar uma área que precisa de evacuação, fazendo imagens que ajudem a identificar pontos com problemas, transmitindo alertas e encaminhando as pessoas para locais seguros. Nos ensaios, os técnicos verificaram o impacto das correntes de vento (a região de Shinjuku tem vários arranha-céus), a qualidade das imagens captadas, o efeito na área das ondas de rádio emitidas, o funcionamento do sistema de voo autônomo e se as pessoas no solo conseguiam entender as orientações sonoras vindas do equipamento.

A ideia surgiu justamente pelas dificuldades de se evacuar a região de Shinjuku após o terremoto seguido de tsunami em 11 de março de 2011. Na época, as autoridades tiveram dificuldades de darem instruções adequadas para as centenas milhares de pessoas que estavam na região. Agentes foram enviados para os pontos mais importantes do bairro, mas não havia como ter uma visão mais ampla da área, incluindo as ruas menores. Além disso, a comunicação entre eles foi bastante complicada.

O cuidado com desastres naturais é tão grande que Shinjuku já tem uma área designada para receber as pessoas que tiverem de deixar seus prédios (o Parque Central) e um possível quartel de comando para os trabalhos de orientação, resgate e auxílio à população (a Universidade Kogakuin). A sede do governo metropolitano de Tóquio também fica no bairro.

O inverno ainda está forte, mas Japão já prevê quando as cerejeiras florescerão

O inverno no Japão não é dos mais gentis. Para esta segunda, dia 23, a previsão é de máxima de 7ºC e mínima de -2ºC em Tóquio, mas os termômetros ficarão entre -4 e -13 em Sapporo, ao norte do país. Isso porque o final de janeiro já tem uma melhora em relação a dezembro. Como o verão também não é muito agradável, com muito calor e umidade, os japoneses gostam mesmo é da primavera. Temperaturas agradáveis, nada de neve, chuvas moderadas e, principalmente, cerejeiras cheias de flores para tingir de rosa as paisagens.

A floração da cerejeira é um dos símbolos da chegada da primavera, o que faz com que seja muito aguardada pelos japoneses. Festas são organizadas em diversas cidades, jardins se preparam para exibi-las da forma mais exuberante possível e, claro, turistas de dentro e fora do Japão se programam para ver esse espetáculo. Por isso, meteorologistas e botânicos buscam antecipar em meses a descoberta de quando a sakura (nome da flor da cerejeira em japonês) aparecerá em cada região do país.

Na última semana, saiu a primeira previsão da floração de 2017. A Japan Meteorological Corp. informou que as cerejeiras devem florescer a partir de 22 de março em Tóquio (microclima de metrópole) e a partir do dia seguinte nas cidades mais quentes, ao sul. Essa data avança de acordo com o clima de cada região, até o norte da ilha de Hokkaido, que só deve ver a sakura em 10 de maio. Por essa previsão, as flores devem desabrochar uma semana antes do normal.

Primeira previsão para a floração das cerejeiras no Japão em 2017
Primeira previsão para a floração das cerejeiras no Japão em 2017

O relatório é bastante detalhado, mesmo na versão em inglês, com mapa (acima) e tabela por distritos, e a própria empresa de meteorologia recomenda o acompanhamento periódico de sua página, para ver qualquer atualização dessa previsão.

Da língua à sinalização, o Japão já se prepara para se fazer entender nos Jogos Olímpicos de 2020

A comunicação com milhões de estrangeiros é um dos desafios perenes do turismo no Japão. Ainda que a população seja conhecida pelo esforço e simpatia na tentativa de receber bem, o conhecimento do inglês ainda é restrito no arquipélago. Um problema grave quando se pensa que a escrita também é um desafio e Tóquio está a três anos e meio de receber o maior evento poliesportivo do planeta. Mas os japoneses já estão se mexendo. E em várias áreas da comunicação.

A primeira meta é fazer que todos os 90 mil voluntários (estimativa do comitê organizador) consigam atender aos visitantes. Para isso, sete universidades especializadas em estudos internacionais e de idiomas (espalhadas por Chiba, Kioto, Kobe, Nagasaki, Nagoia, Osaka e Tóquio) uniram forças para realizar programas bienais de ensino de idiomas. O programa é centrado em ferramentas básicas para tradução e interpretação e abrange inicialmente cinco idiomas: inglês, chinês, espanhol, coreano e português (sim, português).

Os cursos são voltados não apenas às línguas em si, mas também à cultura, religião, esportes e temas na área de hospitalidade. A intenção não é apenas haver uma conversa, mas evitar que surjam ruídos por diferenças na forma de japoneses e estrangeiros interpretarem cada situação. Quem pretende trabalhar em setores mais específicos, como atendimento médico, também está recebendo cursos de idiomas focados nesses temas.

Outra preocupação dos japoneses é permitir que um estrangeiro se oriente facilmente pelo país. O Japão ganhou fama entre visitantes de ter placas divertidas, quase um cartum (até há um blog sobre isso), mas o problema maior é o padrão adotado para a sinalização, diferente do internacional. Ainda que muitos símbolos sejam intuitivos, outros alguns podem criar confusão.

Por isso, o governo criou um comitê para revisar todos os símbolos do padrão japonês, que toma como base uma linguagem criada em 1964 justamente para a primeira vez que Tóquio recebeu os Jogos Olímpicos. Alguns pictogramas serão criados, enquanto outros serão substituídos pelo utilizado internacionalmente.

Em estabelecimentos comerciais, a adoção dos novos símbolos não será obrigatória, apenas recomendada. A dúvida é grande em casas termais, os onsen, que consideram que a marca atual já é consagrada e não vêem motivos para troca pelo símbolo mundial.

Símbolo de casas termais adotado no Japão (à esquerda) e o internacional (à direita)
Símbolo de casas termais adotado no Japão (à esquerda) e o internacional (à direita)

 

Japão quer usar referências de mangás para impulsionar turismo

Nada de samurais, ninjas, gueixas, pagodes ou lutadores de artes marciais. Durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, o grande símbolo que Tóquio usou para promover a próxima edição do evento foi Mario. A tradição milenar ficou de lado, a nova ordem do Japão, ao menos na hora de vender sua imagem ao exterior, é promover seu impacto na cultura jovem. Por isso, as cidades do país já começam a buscar novas formas de atrair turistas. No caso, olhando nas histórias em quadrinhos e os desenhos animados.

VEJA: O que Tóquio vai fazer para os Jogos Olímpicos de 2020 (e o que já tem pronto)

A recém-criada Japan Anime Tourism Association lançou um concurso para eleger até dezembro 88 locais em cidades japonesas com referências a mangás e animes. Pode ser tanto do cenário de alguma história até estátuas homenageando personagens ou criadores, passando por museus na área e até a estúdios onde séries são criadas. O objetivo é criar roteiros turísticos específicos para fãs.

É um mercado com potencial já testado. Algumas cidades japonesas investem nesse tipo de referência para atrair visitantes. Sakaiminato, por exemplo, aproveitou o fato de ser a terra do criador de mangás Shigeru Mizuki para criar uma rua com 153 estátuas de seus personagens. Uma forma de atrair turistas e fãs do artista. No comércio, alguns shoppings ergueram enormes réplicas de heróis das séries para chamar a atenção dos consumidores.

Portão de Washinomiya Jinja em famosa cena da série Lucky Star. O original está no alto dessa página (Reprodução)
Portão de Washinomiya Jinja em famosa cena da série Lucky Star. O original está no alto dessa página (Reprodução)

A iniciativa faz parte de um projeto maior, que tenta mudar a forma de o Japão se inserir como potência mundial. Ao invés de se impor pela força do dinheiro (apesar dos anos de estagnação, é a terceira maior economia do planeta), o país quer reforçar sua influência no dia a dia do mundo moderno.

Em 2002, o governo japonês criou a marca “Cool Japan”,  que visa promover a imagem do arquipélago como uma superpotência cultural. Há motivos de sobra para justificar essa condição: videogames, animes, mangás, karaokes, moda, arquitetura, tecnologia e culinária produzidos no Japão conquistaram milhões de fãs no mundo. Mas, com a aproximação dos Jogos Olímpicos de 2020, o momento é de intensificar essa campanha.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Há imóvel sobrando em Tóquio, mas aluguéis não caem. Por quê?

População em declínio, economia que não decola há décadas, deflação constante, aumento violento de oferta de unidades. Todo o cenário do mercado imobiliário de Tóquio indica uma queda acentuada de preços nos alugueis. Mas não é o que acontece. O preço segue estável, e isso se deve a como japoneses mais ricos querem deixar algo a seus filhos.

O Japão é um dos países que taxa com mais força os herdeiros. Em 2015, houve uma reforma na lei de herança, elevando para até 55% o imposto. Ou seja, dependendo de quanto é o montante dessa herança, a cada 100 ienes de uma pessoa que morre, apenas 45 ficam para seus filhos. Transferir os bens não é uma possibilidade de contornar o caso, pois foi criado também um imposto para “presentes” de valores acima de 1,1 milhões de ienes (US$ 10,7 mil) anuais.

Uma das exceções previstas na lei de herança está nos imóveis. Casas e apartamentos residenciais colocados para locação têm 50% de desconto em relação ao imposto geral. Isso incentivou japoneses com alto poder aquisitivo a investir no mercado imobiliário como forma de proteger seus bens para seus filhos.

Incorporadores criaram empreendimentos para esse público, construindo unidades e prometendo faturamento mensal mínimo aos investidores. Com isso, o proprietário do imóvel não perde dinheiro, mesmo que as residências permaneçam vazias. Isso criou uma explosão na construção de edifícios residenciais.

A construção de unidades voltadas a futuros moradores caiu 7,9%, mas houve crescimento de 20,1% no lançamento de apartamentos e casas para aluguel. O governo japonês estima que 430 mil novas unidades tenham sido disponibilizadas entre abril de 2015 e abril de 2016 no país.

Essa oferta é incompatível com a procura. Em todo o Japão, há 8,2 milhões de unidades vazias. Em Tóquio, o índice de vacância é de 33,7%, ficando ainda maior em partes da região metropolitana da capital, como Kanagawa (35,5%) e Chiba (34,1%). Mesmo assim, o valor médio do tsubo – unidade de medida japonesa equivalente a dois tatames, ou 3,3 m² – é de 8.633 ienes, praticamente o mesmo de nove anos atrás, 9 mil ienes.

O mercado de aluguel está se alimentando de investimentos não ligados à lógica de oferta e procura, mas outro fator também força o preço para cima. Muitos desses empreendimentos residenciais são erguidos em áreas ocupadas por casas que também estavam disponível eventuais inquilinos. A maior parte desses imóveis eram antigos, com estrutura de madeira. Os novos imóveis têm mais tecnologia construtiva, com valor médio mais alto.

De qualquer modo, já surgem manifestações em Tóquio pedindo uma política imobiliária que evite essa distorção, aumentando o salário mínimo ou forçando o valor dos alugueis a responderem mais à relação entre oferta e procura. Até porque o cenário atual já cria problemas sociais: japoneses jovens de classe média ou média-baixa estão demorando mais para sair da casa dos pais e se casar. Para um país que tem uma das populações mais envelhecidas do mundo, incentivar a formação de novas famílias é de importância estratégica para o futuro.

 

Olimpíada de Tóquio já prepara seu legado: a energia do hidrogênio

A indústria tem investido no desenvolvimento de carros com energia limpa, mas esse mercado ainda sofre um obstáculo: a infraestrutura. O público desses veículos sempre será limitado enquanto houver pouca oferta de locais para reabastecimento. O Japão já tomou a dianteira nos postos de recarga de automóveis elétricos e agora quer fazer o mesmo para os movidos a hidrogênio. Mais que isso, querem usar essa tecnologia para a matriz energética do país. E pretendem usar os Jogos Olímpicos para isso.

LEIA MAIS: Japão já tem mais ponto de recarga de carro elétrico que posto de gasolina

Criar postos de reabastecimento de hidrogênio é muito mais caro e trabalhoso que unidades de recarga para baterias, utilizadas pelos carros elétricos. Além disso, normas de segurança exigem o dobro de distância de outros edifícios na comparação com postos de gasolina tradicionais. Isso explica por que os veículos movidos a hidrogênio demoram mais para decolar (não é trocadilho com o fato de foguetes terem essa mesma fonte de energia). Era necessário um fato novo que permitisse abater o investimento nessa área. E é isso o que a Olimpíada oferece.

Algumas obras para os Jogos de Tóquio, marcados para 2020, já estão em andamento segundo uma reportagem do site norte-americano CityLab. O plano dos japoneses é fazer da Vila Olímpica um bairro todo adaptado à energia produzida por hidrogênio. Um bairro novo, com 6 mil apartamentos comercializados ao público depois das competições, é possível planejar a ocupação de espaço e a infraestrutura pensando nessa lógica. A ideia não é apenas para os veículos, mas também para a energia elétrica utilizada no bairro. Já foi separado um fundo de US$ 350 milhões apenas para isso.

Clarity, modelo movido a hidrogênio da Honda, tem seu motor convertido para bateria para iluminar árvores de Natal em, shopping de Tóquio (AP Photo/Koji Sasahara)
Clarity, modelo movido a hidrogênio da Honda, tem seu motor convertido para bateria para iluminar árvores de Natal em, shopping de Tóquio (AP Photo/Koji Sasahara)

A ideia do Japão é reforçar o papel do hidrogênio – que produz energia elétrica a partir da eletrólise do hidrogênio, um processo que não polui por ter como subproduto apenas água – na matriz energética do país. Para o país, seria uma opção interessante, pois a produção de eletricidade teve um baque com as medidas que restringem as usinas nucleares após o acidente de Fukushima, aumentando a dependência de combustível fóssil. Para piorar, todo o petróleo, carvão e gás natural usado no arquipélago precisa ser importado.

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No entanto, a escolha não é tão simples assim. Ainda que ele não seja poluente, há quem conteste a ideia de “energia limpa” do hidrogênio pelo seu processo de produção. Além disso, carros elétricos já estão mais estabelecidos – e baratos – no mercado internacional, ainda que os movidos a hidrogênio tenham mais autonomia e sejam reabastecidos/recarregados mais rapidamente. Montadoras japonesas estão entre as que mais investem nas duas tecnologias.

Ainda não dá para saber se o plano japonês dará certo. Mas usar as obras necessárias para os Jogos Olímpicos como forma de impulsioná-lo é interessante. Algo que nem todas as sedes do evento souberam fazer.

Governantes, parem de construir estádios com dinheiro público

O que é? O Coliseu do Sertão, uma das obras mais extravagantes dos últimos tempos no Brasil, começou a ser pintado em Alto Santo-CE. Na mesma semana, a Confederação Brasileira de Futebol informa que pode realizar o jogo Brasil x Uruguai no estádio do Arruda, em Recife, e a NFL (liga de futebol americano) vê três clubes pedirem para mudar de sede porque suas cidades relutavam em bancar a construção de novos estádios. Três histórias, de características muito diferentes entre elas, que mostram que o poder público não deve se meter a botar dinheiro em arenas para esporte profissional, mas continua fazendo isso.

Se você construir, ele (nem sempre) virá

Alto Santo está ganhando um novo marco. A cidade do interior cearense começou a pintura da fachada do Coliseu do Sertão, estádio com arquitetura inspirada no xará romano e um custo acima de R$ 1,5 milhão. Tudo para ter uma arena de 20 mil lugares para ser a casa do futebol (e de outros eventos) na cidade de 16 mil habitantes. Isso mesmo, não é erro de digitação. O estádio tem capacidade maior que a população local.

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A obra do estádio – chamado oficialmente Arena Coliseu Mateus Aquino – chamou a atenção da imprensa nacional por sua extravagância. Ainda mais considerando que o Alto Santo Esporte Clube, único time profissional da cidade, estava inativo desde 2008. Acabou retornando em 2015, na terceira divisão do Ceará, para justificar o investimento em um estádio.

Obs.: Veja mais sobre o coliseu aqui. É uma pérola.

O Coliseu do Sertão está marcado como exemplo de obra faraônica, algo comum na história da gestão pública brasileira. Mas suas características caricatas não devem ofuscar o fato de que projetos como esses são comuns em todo o mundo, inclusive em grandes cidades. O que ocorreu em vários estádios da Copa do Mundo de 2014, com arenas incrivelmente superdimensionadas, e até em países em que o esporte profissional é um setor economicamente relevante.

Esse último é o caso dos Estados Unidos. Na última semana, a NFL (liga de futebol americano profissional) encerrou uma longa disputa entre Oakland Raiders, St. Louis Rams e San Diego Chargers. As três equipes estavam descontentes com seus antiquados estádios. Os donos dos clubes consideravam que uma arena nova atrairia mais público e aumentaria o faturamento. Era a desculpa necessária para abandonar suas sedes e se mudar para Los Angeles, segunda maior cidade dos EUA (que, incrivelmente, está sem time na liga há 20 anos).

ENTENDA: A NFL tomou a melhor decisão possível: Los Angeles é dos Rams

No final das contas, os Rams foram selecionados para ir a LA, com a possibilidade de os Chargers seguirem os mesmos passos. A equipe (ou as equipes) mandará suas partidas em um estádio que será construído com recursos da iniciativa privada, o que é merecedor de elogios. No entanto, esse é o final relativamente feliz de um processo que teve, durante todas as etapas anteriores, inúmeras chantagens dos dirigentes com os prefeitos de suas cidades. Tanto que St. Louis chegou a apresentar uma proposta de novo estádio construído a partir de verbas públicas, tudo para manter seu representante na NFL.

A conta dos governantes norte-americanos é semelhante à dos brasileiros que achavam justificável bancar as obras de estádios modernos para a Copa: eles permitem o desenvolvimento de um time local forte, que geraria riqueza (e impostos) pelo dinheiro que movimentaria, e dão à cidade um palco para eventos culturais de grande porte. O problema é que, muitas vezes, essa conta não fecha.

No Brasil, estádios de Natal, Manaus, Cuiabá e Brasília já sofrem com dificuldades de se viabilizar economicamente. O futebol local não cresceu (em Natal, o problema é que o clube mais popular da cidade, o ABC, já tinha sua própria casa) e não houve um boom de eventos para pagar as contas.

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Mesmo onde o futebol local gera recursos para supostamente viabilizar obras mais pesadas há problemas. No Rio de Janeiro, a concessionária que administrava o estádio o devolveu ao governo estadual. Em São Paulo, o Corinthians está com dificuldade de bancar as parcelas de sua nova casa. Em Pernambuco, a arena em São Lourenço da Mata raramente lota e, para se viabilizar, estabeleceu um aluguel alto demais para receber Brasil x Uruguai nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. Com isso, o jogo, programado para março, pode ser realizado no Arruda, um estádio grande, mas antigo.

Nos Estados Unidos é um pouco diferente, ainda que a conclusão seja semelhante. É comum clubes profissionais ameaçarem mudar de sede como forma de convencer as prefeituras a construírem novos estádios com recursos públicos. Muitas acabam cedendo.

É relativamente fácil medir o tamanho do esporte norte-americano como setor econômico, o que ajuda a explicar por que investir em uma nova arena dá retorno. Ainda mais com a quantidade de eventos extras realizados nas grandes cidades do país mais rico do planeta. O problema é: com ligas bilionárias, formadas por clubes bilionários pertencentes a empresários bilionários, por que o poder público é que tem de pagar pelos estádios?

O caso dos Rams mostra isso. Stan Kroenke, dono do time, tinha nas mãos a possibilidade de ficar em St. Louis com um estádio novo, pago pelo governo local. Mas decidiu se mudar para Los Angeles, para uma arena que terá de bancar com seu próprio bolso. Tudo porque ele sabe que a diferença econômica entre a cidade californiana e a do Missouri é tão grande que ele terá mais lucro se gastar no estádio.

O resultado disso é que construir estádios não é uma saída interessante para a cidade em quase nenhum caso. Se o esporte profissional local gera riqueza suficiente para dar retorno ao investimento, ele próprio deveria bancar sua estrutura. Se a ideia é apostar em um crescimento no futuro, algum empreendedor que se apresente para bancar essa aposta.

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Para o poder público, obras de instalações esportivas só são realmente válidas se houver interesse social nas instalações. Por exemplo, para incentivar a prática de esportes que não conseguem se sustentar com as próprias pernas ou para dar apoio a políticas mais amplas de educação e cultura. Ainda assim, o custo precisa ser proporcional ao retorno que o espaço dará à sociedade, sem extravagâncias ou luxos.

O Japão mostra bem isso. Os milhões gastos em estádios para a Copa do Mundo de 2002 se pagaram com a realização de diversas competições escolares. Isso foi possível porque trata-se de um raro país em que a população dá apoio forte ao esporte no ensino fundamental e médio. E, mesmo assim, os japoneses abandonaram o primeiro projeto para o estádio principal dos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio, porque o custo estimado de sua construção era muito alto. Preferiram jogar fora a proposta e buscar uma outra, dentro da realidade econômica de sua capital.

Por isso, os gestores públicos precisam entender que não faz sentido gastar dinheiro do contribuinte com estádios. E a sociedade tem de se lembrar disso para cobrar seus governantes.