Da língua à sinalização, o Japão já se prepara para se fazer entender nos Jogos Olímpicos de 2020

A comunicação com milhões de estrangeiros é um dos desafios perenes do turismo no Japão. Ainda que a população seja conhecida pelo esforço e simpatia na tentativa de receber bem, o conhecimento do inglês ainda é restrito no arquipélago. Um problema grave quando se pensa que a escrita também é um desafio e Tóquio está a três anos e meio de receber o maior evento poliesportivo do planeta. Mas os japoneses já estão se mexendo. E em várias áreas da comunicação.

A primeira meta é fazer que todos os 90 mil voluntários (estimativa do comitê organizador) consigam atender aos visitantes. Para isso, sete universidades especializadas em estudos internacionais e de idiomas (espalhadas por Chiba, Kioto, Kobe, Nagasaki, Nagoia, Osaka e Tóquio) uniram forças para realizar programas bienais de ensino de idiomas. O programa é centrado em ferramentas básicas para tradução e interpretação e abrange inicialmente cinco idiomas: inglês, chinês, espanhol, coreano e português (sim, português).

Os cursos são voltados não apenas às línguas em si, mas também à cultura, religião, esportes e temas na área de hospitalidade. A intenção não é apenas haver uma conversa, mas evitar que surjam ruídos por diferenças na forma de japoneses e estrangeiros interpretarem cada situação. Quem pretende trabalhar em setores mais específicos, como atendimento médico, também está recebendo cursos de idiomas focados nesses temas.

Outra preocupação dos japoneses é permitir que um estrangeiro se oriente facilmente pelo país. O Japão ganhou fama entre visitantes de ter placas divertidas, quase um cartum (até há um blog sobre isso), mas o problema maior é o padrão adotado para a sinalização, diferente do internacional. Ainda que muitos símbolos sejam intuitivos, outros alguns podem criar confusão.

Por isso, o governo criou um comitê para revisar todos os símbolos do padrão japonês, que toma como base uma linguagem criada em 1964 justamente para a primeira vez que Tóquio recebeu os Jogos Olímpicos. Alguns pictogramas serão criados, enquanto outros serão substituídos pelo utilizado internacionalmente.

Em estabelecimentos comerciais, a adoção dos novos símbolos não será obrigatória, apenas recomendada. A dúvida é grande em casas termais, os onsen, que consideram que a marca atual já é consagrada e não vêem motivos para troca pelo símbolo mundial.

Símbolo de casas termais adotado no Japão (à esquerda) e o internacional (à direita)
Símbolo de casas termais adotado no Japão (à esquerda) e o internacional (à direita)

 

Japão quer usar referências de mangás para impulsionar turismo

Nada de samurais, ninjas, gueixas, pagodes ou lutadores de artes marciais. Durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, o grande símbolo que Tóquio usou para promover a próxima edição do evento foi Mario. A tradição milenar ficou de lado, a nova ordem do Japão, ao menos na hora de vender sua imagem ao exterior, é promover seu impacto na cultura jovem. Por isso, as cidades do país já começam a buscar novas formas de atrair turistas. No caso, olhando nas histórias em quadrinhos e os desenhos animados.

VEJA: O que Tóquio vai fazer para os Jogos Olímpicos de 2020 (e o que já tem pronto)

A recém-criada Japan Anime Tourism Association lançou um concurso para eleger até dezembro 88 locais em cidades japonesas com referências a mangás e animes. Pode ser tanto do cenário de alguma história até estátuas homenageando personagens ou criadores, passando por museus na área e até a estúdios onde séries são criadas. O objetivo é criar roteiros turísticos específicos para fãs.

É um mercado com potencial já testado. Algumas cidades japonesas investem nesse tipo de referência para atrair visitantes. Sakaiminato, por exemplo, aproveitou o fato de ser a terra do criador de mangás Shigeru Mizuki para criar uma rua com 153 estátuas de seus personagens. Uma forma de atrair turistas e fãs do artista. No comércio, alguns shoppings ergueram enormes réplicas de heróis das séries para chamar a atenção dos consumidores.

Portão de Washinomiya Jinja em famosa cena da série Lucky Star. O original está no alto dessa página (Reprodução)
Portão de Washinomiya Jinja em famosa cena da série Lucky Star. O original está no alto dessa página (Reprodução)

A iniciativa faz parte de um projeto maior, que tenta mudar a forma de o Japão se inserir como potência mundial. Ao invés de se impor pela força do dinheiro (apesar dos anos de estagnação, é a terceira maior economia do planeta), o país quer reforçar sua influência no dia a dia do mundo moderno.

Em 2002, o governo japonês criou a marca “Cool Japan”,  que visa promover a imagem do arquipélago como uma superpotência cultural. Há motivos de sobra para justificar essa condição: videogames, animes, mangás, karaokes, moda, arquitetura, tecnologia e culinária produzidos no Japão conquistaram milhões de fãs no mundo. Mas, com a aproximação dos Jogos Olímpicos de 2020, o momento é de intensificar essa campanha.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

O que Tóquio vai fazer para os Jogos de 2020 (e o que já tem pronto)

Shinzo Abe não é o chefe de governo mais popular do mundo. Longe disso. O primeiro ministro japonês sofre com a dificuldade de fazer a economia de seu país recuperar o crescimento e por defender ideias como o aumento no investimento militar. Mas, aos olhos do mundo, o líder da terceira nação mais rica do planeta  é um senhor simpático que topou aparecer no meio do Maracanã fantasiado de Mario. Tóquio aproveitou bem seus oito minutos durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2016, realizados no Rio de Janeiro, e deixou uma mostra do que pretendem fazer para a próxima edição, em 2020.

Pelo clima apresentado no último domingo, no Rio, a capital japonesa tentará mostrar uma cara jovem, leve e pop. Mas esse deve ser o clima e a linguagem adotada. Na organização dos Jogos em si, os japoneses estão demonstrando muito cuidado para serem austeros e olharem no passado. No caso, na Olimpíada de 1964, também realizada em Tóquio e marco para a mudança da imagem internacional do país, da nação destruída pós-guerra para a futura líder mundial no processo tecnológico e industrial.

Veja abaixo o que Tóquio prepara para receber o maior evento poliesportivo do planeta, e como muita coisa já está pronta há mais de 50 anos.

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Se quiser dar um passeio aéreo pela Tóquio de 2020, confira o vídeo abaixo, com um resumo das estruturas olímpicas da capital japonesa.