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Tag: Terrorismo

É fácil entender qual interesse de um terrorista ao escolher Barcelona para realizar um atentado. É uma das cidades mais famosas e turísticas do mundo, e qualquer ação teria uma repercussão muito maior do que se fosse em outro lugar. Foi o que aconteceu nesta quinta, quando uma van avançou pelas Ramblas (calçadão mais movimentado da capital catalã), matando 13 pessoas, vindas de nove países diferentes.

Nesse momento de dor, é bom lembrar como Barcelona e o mundo estão conectados e de quando essa relação começou. Foi nos Jogos Olímpicos de 1992, e essa amizade entre o planeta e os barceloneses já foi tema de um texto nosso, ainda na época do Outra Cidade. Vale dar uma relida.

Tirar sarro da ideia de baixar a cabeça é a melhor coisa que Londres poderia fazer

“Londres está combalida, de luto, cabisbaixa, vazia.” Esses são os clichês básicos da cobertura jornalística para retratar o clima na capital britânica após o atentado que matou sete pessoas e feriu 48 no último sábado. Seria compreensível, pois é o tipo de evento que deixa uma comunidade traumatizada, ainda mais porque ocorreu apenas duas semanas após um outro ataque terrorista em Manchester. Mas os londrinos não aceitaram esses relatos. Ainda bem.

Quando surgiram as primeiras reportagens, sobretudo na imprensa norte-americana, sobre uma cidade “combalida”, os ingleses fizeram o que fazem de melhor: piadas. As redes sociais foram palco da campanha #ThingsThatLeaveBritainReeling (#CoisasQueDeixamAGrãBretanhaCombalida em português), em que britânicos mencionavam coisas que atingem os costumes locais – como esquentar o chá no micro-ondas ou ficar parado no lado esquerdo da escada rolante – como reais motivos de tristeza.

É a melhor coisa que Londres e os londrinos poderiam fazer. Claro, ninguém está ignorando a gravidade dos atentados ou fazendo pouco da tristeza de quem foi vítima dos ataques. Mas a cidade, como uma comunidade, não pode se deixar abalar. Ela tem de se mostrar mais forte, ela tem de mostrar aos terroristas que nenhuma ação deles será capaz de mudar seu jeito de ser. Afinal, atingir o moral de uma população e fazê-la de refém é o objetivo dos atentados.

Os londrinos podem tomar como exemplo a história de sua própria cidade. Ao longo de séculos, Londres já sobreviveu a casos muito mais traumáticos: a Guerra Civil Inglesa (século 17), o Grande Incêndio de 1666, os bombardeios alemães na Segunda Guerra Mundial e os diversos ataques terroristas do IRA (Exército Republicano Irlandês) nas décadas de 1960 a 80.

É preciso mais que três infelizes atacando em uma noite de sábado para abalar a capital inglesa. A não ser que, ao invés de facas, eles levassem xícaras, água, um saquinho de chá e… micro-ondas.

Ataques a mesquitas praticamente dobram nos EUA em 2017

Estamos apenas em março, nem um terço do ano foi completado, e já foram registrados 33 ataques a mesquitas em todos os Estados Unidos. Para se ter uma ideia do que isso representa, é quase o dobro do registrado entre 1º de janeiro e 20 de março de 2016 (17 incidentes). Um sinal claro de que o clima no país tem sido mais hostil aos muçulmanos nos últimos meses.

O levantamento é do Conselho de Relações Americano-Islâmicas, e considera qualquer tipo de ataque, de incêndio criminoso a pichação com palavras ofensivas. Os incidentes não se limitam a pequenas cidades conservadoras do interior, mas até a grandes cidades como Nova York, Atlanta e Denver.

A CNN (de onde reproduzi o mapa abaixo) publicou a lista completa. Vale a pena conferir.

Mapa com localização das mesquitas que foram atacadas nos EUA em 2017 (Reprodução)

Mapa com localização das mesquitas que foram atacadas nos EUA em 2017 (Reprodução)

Paris perdeu 1,5 milhão de turistas em 2016 (algo a ver com o terrorismo?)

Janeiro de 2015, a redação do jornal Charlie Hebdo, em Paris, é invadida por um terrorista descontente com a forma de o veículo retratar Maomé e vários cartunistas são mortos. Novembro do mesmo ano, uma série de atentados ocorre na capital francesa, matando mais de cem pessoas em alvos que foram de uma casa de shows a um estádio de futebol. Era esperado que tudo isso impactasse o turismo na cidade. E realmente impactou.

Números divulgados pelo Comitê Regional de Turismo mostra que hotéis na Île-de-France (região em torno de Paris) tiveram uma queda de 1,5 milhão de pessoas hospedadas de 2015 para 2016. Apesar de o índice anunciado não vir com uma pesquisa que justifique o declínio, o medo do terrorismo é apontado como causa mais provável.

O impacto nos números nacionais é nítido. A França recebeu 85 milhões de turistas estrangeiros em 2015, número que caiu para em torno de 82,5 milhões em 2016. A queda parisiense é mais da metade da queda de todo o país, que ainda teve o atentado terrorista em Nice em julho último.

Ainda assim, há motivos para otimismo. Por mais significativa que seja a queda de turistas, ela ainda é proporcionalmente pequena dentro do total recebido pela França (menos de 5%). O próprio comitê admitiu que a queda foi menor que a esperada.

De qualquer forma, o país continua sendo o principal destino turístico de estrangeiros no mundo. Os números globais só saem em março, mas os Estados Unidos, segundos colocados no ranking da Organização Mundial de Turismo, receberam 77,5 milhões em 2015 e é improvável que tenham ganhado 6 milhões em um ano.

Veja como é a chuva de bombardeios de drones americanos no Paquistão

Barack Obama está em seu último dia como presidente dos Estados Unidos. Foram oito anos no poder, com uma política externa de altos e baixos, que deve ficar marcada pela retomada das relações diplomáticas com Cuba, a morte de Osama bin Laden, o acordo nuclear com o Irã e o Prêmio Nobel da Paz que ele recebeu, mas que também teve a falta de habilidade de lidar com as consequências de movimentos político-militares resultantes da Primavera Árabe e os bombardeios com drones no Oriente Médio.

Essa última questão nem recebe tanta atenção nos debates aqui no Brasil, mas deveria. Os Estados Unidos têm usado sistematicamente drones para entrar e bombardear território estrangeiro. O objetivo é atacar eventuais focos terroristas (sobretudo Taliban e Al-Qaeda), mas esses ataques fazem muitas vítimas civis. As Nações Unidas já afirmaram que essas ações violam a soberania do país atacado e um relatório da Anistia Internacional expressa preocupação que se tratem de crimes de guerra.

A política dos bombardeios de drones surgiu em 2004, durante o governo de George W. Bush, mas se intensificou fortemente com Obama, sobretudo em seu primeiro mandato, entre 2009 e 2012, com pico no segundo semestre de 2010. Para mostrar isso, o CityLab montou um mapa com a linha do tempo dos ataques a drones no norte do Paquistão, próximo à fronteira com o Afeganistão (atenção: não é a região em que Bin Laden foi pego. O líder da Al-Qaeda estava em Abbottabad, ao norte de Islamabad).

Dá para ter uma ideia boa de como os bombardeios se intensificaram em um determinado período. Também é possível selecionar datas para ver o acumulado em um período (a imagem do alto da página, por exemplo, somou todos os ataques durante a era Obama).

A matéria do CityLab tem mais detalhes sobre o mapa e vale uma conferida. Se você quiser apenas uma versão maior do gráfico, clique aqui.

Quinze anos depois, o 11 de Setembro ainda é caso de saúde pública

O ataque ao World Trade Center é normalmente listado como o maior atentado terrorista da história. Os números usados para justificar esse “título” é o de mortes: 2.763, sendo 2.606 nas Torres Gêmeas (somando quem estava nos edifícios e resgatistas), 147 entre passageiros e tripulação dos dois aviões utilizados como mísseis e dez terroristas. Mas há um índice muito mais impressionante, e que mostra como a tragédia, ocorrida há exatos 15 anos, ainda é muito viva no dia a dia de Nova York. São mais de 70 mil pessoas que passam por tratamento por problemas de saúde causados diretamente pelos ataques.

Quando as Torres Gêmeas caíram, vários quarteirões do bairro de Baixa Manhattan (ou Lower Manhattan, como preferirem) foram cobertos por poeira. Mas, na nuvem cinza que avançou imparável sobre pessoas e imóveis, havia 1 milhão de toneladas de materiais de construção moído, muitos deles altamente tóxicos, como amianto, chumbo, fibra de vidro, mercúrio e gás freon. Tudo isso foi inalado por dezenas de milhares de pessoas já em 11 de setembro de 2001 e nos dias seguintes.

Para piorar o cenário, os resgatistas que ficaram no trabalho de busca por sobreviventes e remoção dos escombros no Marco Zero ficaram trabalhando em um ambiente ainda mais tóxico devido aos incêndios que ocorriam devido ao combustível dos aviões (91 mil litros) e os que eram utilizados no sistema elétrico e de aquecimento no WTC (870 mil litros). Esses focos apareceram durante os primeiros três meses de trabalho no local.

Pela natureza dos materiais envolvidos, havia um sério risco do desenvolvimento de doenças respiratórias e/ou câncer, mesmo que em médio prazo. As autoridades fizeram acompanhamento, inclusive convocando pessoas que tivessem entrado em contato com a poeira tóxica para exames. No entanto, a Agência de Proteção Ambiental, um órgão federal, era evasiva ao falar sobre os riscos de respirar aquele ar.

Nuvens de fumaça durante trabalhos de escavação no WTC um mês após o atentado de 11 de Setembro (AP Photo/Stan Honda via Outra Cidade)

Nuvens de fumaça durante trabalhos de escavação no WTC um mês após o atentado de 11 de Setembro (AP Photo/Stan Honda via Outra Cidade)

Desse modo, foi preciso um processo da família do policial James Zadroga, resgatista no WTC que desenvolveu um câncer no pulmão e morreu em 2005, para se tomar uma atitude mais concreta. Em 2011, foi criado o Fundo Zadroga de Compensação e Saúde para o 11 de Setembro e o Programa de Saúde do World Trade Center.

Os programas garantem tratamento para todas as vítimas e indenização para as que não puderam continuar trabalhando. No ano passado, já eram 70 mil pessoas inscritas no Programa de Saúde, cerca de 21 mil delas por problemas ligados à inalação de material tóxico (um outro grande contingente de vítimas atendidas são as que desenvolveram problemas psicológicos). E, como as doenças muitas vezes se apresentam em médio ou longo prazo, a cada ano surgem milhares de novos pacientes e vários cânceres que não estavam listados como possivelmente relacionados ao atentado.

Por isso, a prefeitura de Nova York mantém uma página para informar qualquer pessoa que suspeite que seja uma vítima tardia do 11 de Setembro, inclusive abrindo as portas para entender qualquer novo problema que esteja surgindo. Porque o atentado que mais matou pessoas na história continua atingindo a cidade. Mas não é mais um caso de segurança, é de saúde pública.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

O que Bruxelas fez de errado para se tornar berço de terrorismo

Bruxelas tem bons elementos para ser vista como uma cidade mundial, um ponto de encontro de culturas. A capital belga tem dois idiomas oficiais, unindo flamengos e valões, é sede da Otan e de várias instituições da União Europeia e tem a bolsa de valores mais antiga do mundo. Além disso, fica no meio do caminho entre as três grandes potências econômicas e militares da Europa: França, Reino Unido e Alemanha, todas localizadas a poucas horas de trem. Mas Bruxelas ganha terreno pelo lado oposto, como o nascedouro de terroristas no continente. Ainda mais depois de atentados terroristas que mataram ao menos 30 pessoas nesta terça (22).

LEIA MAIS:
– De que forma o estado de alerta afeta o dia a dia de Bruxelas
Bruxelas já sofre com a imagem de berço do terrorismo europeu

Isso ocorre devido a uma dinâmica que se instalou na capital belga, tanto na (falta de) administração local quanto na inserção de parte de sua população. E parte disse se deve justamente ao fato de Bruxelas ser o que ela é: a capital bilíngue de uma nação dividida por dois grandes grupos étnicos e linguísticos.

O norte da Bélgica, Flanders, tem maioria holandesa. O sul, Valônia, é francês. Há ainda uma província de língua alemã, mas ela é pouco relevante nesse caso. Nos últimos anos, o debate entre os dois lados se acirrou. O partido nacionalista flamengo ganhou força, enquanto os valões perderam espaço no governo federal. O país chegou até a viver um impasse político e teve de ser administrado por um governo tampão no começo dessa década.

Com a polarização crescente entre suas duas metades, a Bélgica ganhou mais lideranças comprometidas com as questões regionais. Em várias questões, é como se fossem dois países sob a mesma bandeira. E, no meio disso, está Bruxelas. A capital está geograficamente na área holandesa, mas é muito próxima à divisa com a Valônia. Para tornar a situação mais confusa, os dois idiomas são oficiais, mas 85% da população fala francês.

Essa condição deixou os bruxelenses em um vácuo. A cidade é governada por conta própria, o que traz problemas nas questões em que é necessário haver a colaboração de esferas mais altas de poder. Caso de segurança. A cidade acabou criando pontos vulneráveis dentro de sua comunidade, e o terrorismo soube se aproveitar disso.

Investigar e combater crime organizado e terroristas exige articulação entre diversas áreas, capacidade de comunicação com as regiões vizinhas e, principalmente, troca de informação com outras nações. Com um país dividido e uma capital quase autônoma, os belgas têm mais dificuldades de identificar possíveis focos de tensão.

O bairro de Molenbeek é o símbolo disso. Habitado majoritariamente por imigrantes, se tornou ponto de chegada para muitos muçulmanos que tentam a vida na Bélgica. A baixa capacidade de ação das autoridades fez que a qualidade de vida e dos serviços públicos se tornasse abaixo da média. Há mais desemprego, moradias em piores condições e policiamento ineficaz. Além disso, muitos desses recém-chegados têm mais dificuldades de serem absorvidos em uma cidade que é culturalmente dividida até para os nativos.

NO ESPORTE: Molenbeek, o bairro belga que virou sinônimo de terrorismo, mas também é fértil ao futebol

Claro que a maioria dos indivíduos em Molenbeek são pessoas que apenas buscam uma vida melhor, mas um terrorista vê no bairro um ótimo esconderijo. É fácil se camuflar no meio de tantos imigrantes e há uma oferta grande de jovens socialmente vulneráveis – pouca perspectiva, pouco sentimento de pertencer àquela comunidade, predisposição a se encantar pelo discurso de algum líder carismático ou que prometa futuro melhor –, mais suscetíveis a se radicalizarem.

A falta de presença das autoridades é tão grande que até falsificar documentos é fácil. Em entrevista a um jornal belga, um jovem de Molenbeek conta como um francês de origem marroquina mudou-se para o bairro e não teve problemas para conseguir outra identidade. Adotar um nome diferente é uma ferramenta poderosa para um criminoso de qualquer esfera agir por baixo dos radares da polícia.

Salah Abdelsalam, um dos suspeitos principais de participar dos atentados de Paris em 2015, é preso em uma casa no bairro de Molenbeek, Bruxelas (VTM via AP)

Salah Abdelsalam, um dos suspeitos principais de participar dos atentados de Paris em 2015, é preso em uma casa no bairro de Molenbeek, Bruxelas (VTM via AP)

Por isso, a quantidade de ataques terroristas em que Molenbeek aparece é significativo. Em 2004, um dos autores do atentado a bomba na estação de trem de Atocha, em Madri, era do bairro. De lá também saiu um homem que sacou uma AK-47 dentro de um trem que ia de Amsterdã para Paris e do atirador que atacou pessoas no Museu Judaico de Bruxelas.

Com o atentado de Paris em novembro passado e o desta terça, são cinco casos ligados a Molenbeek, um número desproporcional ao tamanho da comunidade e ao tamanho de Bruxelas em comparação com metrópoles maiores em França, Inglaterra e Alemanha. E tudo isso sem considerar as ações de belgas que deixaram seu país para se alistar ao Estado Islâmico. A Bélgica é o país com mais membros do EI per capita da Europa.

APÓS PARIS: O terrorismo faz o cotidiano da cidade como refém. Como lidar com isso?

O terrorismo mudou de figura na virada do século. Incrivelmente, a Europa Ocidental vive uma época de poucas mortes causadas pelo terror. No entanto, o caráter mudou. Nas décadas de 1970, 80 e 90, os casos eram numerosos, mas sempre ligados a questões locais. O Reino Unido era o principal alvo, seguido de Espanha e Itália. Nos três casos, eram ações locais (IRA, ETA e grupos extremistas de direita e esquerda). Esse gráfico mostra isso perfeitamente.

Desde o processo de paz com o IRA na Irlanda do Norte e do ETA no País Basco, os ataques normalmente têm motivações internacionais. São mais raros, mas muito violentos para causar um grande número de baixas.

Com esse terrorismo mais internacional, é preciso de instituições capazes de atuar nesse nível de complexidade. A Bélgica está falhando, pela dificuldade de articulação de suas autoridades à incapacidade de integrar melhor algumas comunidades de sua capital. Problemas difíceis de resolver, pois exigiriam uma nova dinâmica política e social.

Bruxelas já sofre com a imagem de berço do terrorismo europeu

O que é? Diversos casos de terrorismo na Europa nos últimos anos tiveram uma coisa em comum: o bairro de Molenbeek, em Bruxelas. Dessa área da capital belga saíram os responsáveis por muitos atentados, inclusive os que atingiram Paris no final de 2015. Isso deixou uma imagem ruim de Bruxelas na comunidade internacional, e a prefeitura da cidade começa a agir para evitar um prejuízo que pode chegar a € 350 milhões.

Os belgas querem conversar

Disque +32 280 84 727 e espere. Se tiver sorte, alguém atenderá a ligação. Você não sabe quem é, e nem precisa. Basta saber que será alguém que está caminhando por alguma praça e ouviu o telefone tocar. Uma pessoa que talvez não fale seu idioma, mas que está tocando seu dia a dia como qualquer um em qualquer cidade do mundo.

Essa é a mensagem da prefeitura de Bruxelas ao criar a campanha Call Brussels. Pessoas em qualquer lugar do mundo ligam para o número do parágrafo anterior. A ligação cairá em um dos três telefones públicos criados para o projeto: no Mont des Arts, centro da cidade, na Praça Flagey, na zona sul, e na Praça Communale, no bairro de Molenbeek. A ideia é que todos percebam que a capital belga é uma cidade comum, com pessoas comuns. Mesmo em Molenbeek.

ATENTADO EM PARIS: Terrorismo faz o cotidiano da cidade como refém. Como lidar com isso?

Nos últimos meses, tem sido difícil passar essa mensagem. O bairro árabe de Bruxelas foi o centro do planejamento dos ataques terroristas a Paris em novembro último. Mais que isso: de lá saíram ainda os responsáveis de ao menos três outros atentados nos últimos anos. Molenbeek ganhou rapidamente a fama de berço do terrorismo europeu, o que acabou extrapolando para a cidade como um todo.

Telefone da campanha Call Brussels no Mont des Arts, centro de Bruxelas

Telefone da campanha Call Brussels no Mont des Arts, centro de Bruxelas

Bruxelas é uma bela cidade e se orgulha da Grand Place (considerada pelos locais como a mais bonita da Europa, e talvez seja mesmo), mas turisticamente costuma viver à sombra das vizinhas Brugges e Amsterdã. Por isso, muita gente no resto do mundo não tinha um conceito muito claro do que era a capital belga. No máximo, que era sede de várias instituições da União Europeia. Para muitos, as histórias sobre as condições de vida da comunidade árabe e como isso criou um caldeirão de violência que as autoridades não conseguem parar, foram as primeira informações mais forte sobre o dia a dia na cidade. Uma imagem nada agradável.

Isso causou problemas imediatos. Em dezembro, mês seguinte aos atentados de Paris, o movimento de turistas em Bruxelas caiu em 20% em relação ao mesmo período de 2014. O prejuízo pode chegar a € 320 milhões, de acordo com estimativas de entidades empresariais locais.

Para evitar que isso ocorra, os belgas querem conversar com o mundo e mostrar que são pessoas normais, que gostam de receber os outros e trocar experiências.

Terrorismo faz o cotidiano da cidade como refém. Como lidar com isso?

O que é? Os ataques a Paris nesta sexta (13) levantam novamente a discussão sobre como combater o terrorismo, uma forma de ofensiva que usa as atividades cotidianas da cidade para se camuflar antes de dar o bote. Por enquanto, as soluções mais usadas são aumentar a vigilância, mas esse caminho é criticado por intimidar a população, mesmo um cidadão comum.

O cidadão como refém psicológico

O show de rock, um jogo de futebol, a viagem diária do metrô, um passeio no shopping, a reunião de pauta de um jornal, o avião que acabou de decolar, uma peça de teatro, a pessoa jogando o lixo no cesto, turistas em um hotel de alto padrão, crianças na escola, uma festa de fim de ano. Cenas cotidianas de qualquer grande cidade no mundo, situações que passam despercebidas normalmente, até que alguém resolve utilizá-las como armas. Foi assim em Paris nesta sexta, como já foi em Londres, Madri, Nova York, Tel-Aviv, Buenos Aires, Moscou, Mumbai, Belfast, Beslan, Lima e tantas outras cidades, atacadas pelos diversos grupos terroristas, com as mais diferentes motivações.

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O grande problema do terrorismo está aí. Salvo casos extremos, como na queda do World Trade Center no 11 de Setembro, eles não causam quantidade de vítimas tão grandes se comparados com ofensivas militares tradicionais. Despejar uma bomba com alto poder de destruição em uma área muito adensada pode matar muito mais gente do que a invasão da casa noturna parisiense Bataclan (112  na mais recente contagem oficial) ou na estação de trem madrilena de Atocha (191). Mas ataques de forças militares estão dentro da dinâmica de uma guerra, são mais previsíveis. O terrorismo despreza essa lógica. Ele pode acontecer a qualquer momento, vindo de qualquer lado, sem aviso prévio.

Torcedores ficam no gramado para se proteger depois de atentados ao redor do Stade de France durante o amistoso França 2x0 Alemanha (AP Photo/Michel Euler)

Torcedores ficam no gramado para se proteger depois de atentados ao redor do Stade de France durante o amistoso França 2×0 Alemanha (AP Photo/Michel Euler)

O terrorismo se camufla na cidade, e por isso ele tem um efeito psicologicamente tão forte. Ele pode provocar paranoia, fazer qualquer pessoa achar que o vizinho é o próximo homem-bomba e que nem pegar o ônibus para ir ao trabalho é uma tarefa inofensiva. Em uma metrópole, com tantas pessoas realizando as mais diversas atividades cotidianas todos os dias, esse efeito é potencialmente maior.

Aí fica um desafio: o combate ao terrorismo tem como objetivo final desestruturar e deter os grupos que usam desse expediente para reivindicar suas causas. Mas, muitas vezes, os passos iniciais acabam envolvendo o dia a dia das pessoas e como transformar as atividades corriqueiras da sociedade. E esse momento é delicado, pois as autoridades ainda não descobriram como lidar com o risco de ataques sem atingir o cotidiano do cidadão comum, que, no final das contas, é apenas a vítima em potencial do terrorista.

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Até a década de 1990, as medidas antiterroristas que mais atingiam a liberdade individual tinham ligação com o cuidado em largas malas e mochilas em lugares públicos e cuidados extras com cestos de lixo nas ruas. Mas ataque recentes, como o 11 de Setembro nos Estados Unidos em 2001 e as explosões no metrô e em um ônibus em Londres em 2005, mudaram o nível de atenção. Como saber se alguém está fazendo algo errado em um canto qualquer da cidade? Oras, vigiando o que todo mundo está fazendo o tempo todo.

As grandes cidades norte-americanas e Londres instalaram câmeras de vigilância em milhares de ruas. A polícia tem acesso às imagens e pode identificar qualquer comportamento suspeito. Essa política até foi satirizada em um episódio do desenho Simpsons (abaixo vai um trecho, infelizmente só encontrei em inglês).

Claro que as autoridades não têm condições de observar cada canto da cidade 24 horas por dia, mas não é esse o objetivo. A política precisa apenas convencer que existe a possibilidade de vigilância total e tem um parentesco com o panóptico, uma proposta do jurista e filósofo Jeremy Bentham.

Em 1785, o inglês elaborou o que considerava o modelo ideal de prisão. As celas ficariam dispostas em um edifício circular. O vigia ficaria em uma estrutura no centro. A grande sacada é que, pelo projeto dessa torre de vigilância, o segurança poderia observar todas as celas sem que pudesse ser visto. O princípio é sempre deixar o detendo na dúvida se estava ou não sendo observado e, por isso, evitaria que tomasse atitudes proibidas. O mesmo modelo poderia ser adotado em outras construções, como um supervisor observando a produção em uma fábrica.

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O panóptico nunca foi construído como Bentham imaginou porque, apesar de sua potencial eficiência, ele era considerado desumano (sim, já no século 18). Ainda assim, seu princípio sobreviveu e está por trás de como o Grande Irmão (Big Brother) comanda o estado fictício de Oceania no livro “1984”, de George Orwell. Hoje, essa ideia alimenta os diversos circuitos fechados de TV pelo mundo, das ruas de Nova York à loja no centro de qualquer cidade brasileira. Só a sensação de que alguém pode o observar já é suficiente para mudar seu comportamento, sobretudo se há intenção de fazer algo condenável.

Central de vigilância da política londrina, criado após o atentado terrorista de 2005 (AP Photo/Lefteris Pitarakis)

Central de vigilância da polícia londrina, criado após o atentado terrorista de 2005 (AP Photo/Lefteris Pitarakis)

A aplicação disso em uma prisão já causou polêmica, mas estender para toda uma cidade abre espaço para muito mais debate. Afinal, um defensor de punições mais rigorosas a criminosos pode defender a ideia de que detentos não têm direito de reclamar de excesso de vigilância. Mas, quando se coloca toda uma cidade sob observação, muitos inocentes se sentem injustamente expostos ou intimidados.

Para uma sociedade como a brasileira, que vive com altíssimos índices de violência urbana, discutir esse tema parece bobagem. Mas, na Inglaterra, suprimir direitos individuais é algo delicado. Tanto que Tony Blair teve de encarar muitas críticas e eventualmente abandonar um projeto de segurança que consistia em… obrigar as pessoas a andar com um documento de identificação.

Por enquanto, os parisienses evitaram essa medida. Mas possivelmente haverá quem proponha medidas para intensificar a vigilância na cidade como forma de evitar novos ataques terroristas. Talvez seja a melhor solução em curto prazo. Mas bom mesmo seria se alguém descobrisse um caminho que não deixasse os moradores das grandes cidades como reféns psicológicos de ninguém, nem dos terroristas, nem das autoridades.

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