Nem a destruição da Guerra da Síria impediu Homs de celebrar o Natal

Homs era a terceira maior cidade da Síria no início da década, com mais de 800 mil habitantes. Até que ela se tornou um ponto estratégico na Guerra da Síria em 2011. Dominada pela oposição do governo de Bashar al-Assad, ela foi cercada e se tornou cenário das mais diversas cenas de barbárie. Isso seguiu até dezembro de 2015, com a rendição do que restava das forças de oposição a Assad.

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Dois anos depois, a vida está longe de voltar ao normal. A população da cidade é estimada em apenas 200 mil e quase tudo tem de ser reconstruído, de edificações à infraestrutura básica (a energia elétrica ainda depende de geradores). Mas isso não impediu os cristãos locais — cerca de 30% da população até a guerra — se unissem aos muçulmanos para celebrar o Natal.

Então, fiquem hoje com o vídeo do canal alemão Deutsche Welle com o acendimento da árvore de Natal no centro de Homs. Ela diz muito sobre o que essa data representa, independentemente de crença religiosa.

ONU adota resolução histórica para proteger patrimônio cultural

Destruição do partimônio cultural em Palmira, Síria (Unesco/Francesco Bandarin)
Destruição do partimônio cultural em Palmira, Síria (Unesco/Francesco Bandarin)

O Conselho de Segurança da ONU aprovou, no último dia 24, a sua primeira resolução sobre a proteção do patrimônio cultural em conflitos armados. O documento, adotado por unanimidade, encoraja a criação de uma “rede de locais seguros” nos países de origem desse patrimônio.

Veja a nota completa na Nova Escola

Ganhe algumas horas brincando nesse mapa com o fluxo migratório mundial

Um mapa animado e interativo sobre um tema relevante. Impossível resistir à tentação e ficar horas e horas explorando cada faísca de informação. É o caso dessa maravilha abaixo, um desenho com o fluxo migratório de todos os países do planeta entre 2010 e 2015, de acordo com dados da ONU.

Além de mostrar quais as rotas mais recorrentes (Síria-Turquia, México-Estados Unidos, Sudão-Sudão do Sul, Afeganistão-Paquistão, Malásia-Singapura), permite conferir a situação de cada nação. Basta clicar na bola de cada país e ver o saldo da migração por nação (o Brasil, por exemplo, recebeu 102.123 a mais de imigrantes do que teve de brasileiros que se mudaram para o exterior) e com quais lugares houve essa troca de população.

O trabalho é do ótimo Metrocosm, que será mencionado por aqui várias vezes no futuro. O mapa acompanha um post interessante analisando alguns dos dados, enfocando mais nos países de língua inglesa.

Esse mapa não é novo (aliás, aqui tem a versão tela cheia), mas o Rodínia não tinha como falar dele na época de sua publicação, em junho de 2016, porque o blog nem existia. Mas agora ele existe, e se vê na obrigação moral de mostrar isso para quem ainda não tinha visto.

Aproveitem.

Dica do amigo Matias Pinto, apresentador do obrigatório podcast Xadrez Verbal.

A música do dia que Alepo apareceu para salvar seus vizinhos da fome

Moradores de Alepo querem – e precisam – ser ouvidos, e usaram todas as ferramentas possíveis para mostrar a realidade da cidade que foi destruída por ficar no meio da disputa entre grupos de oposição e o governo de Bashar al-Asad. Vídeos pipocaram nas redes sociais, com seus autores muitas vezes dizendo que aquela poderia ser sua última mensagem. Uma tragédia humanitária que atinge a cidade que, por séculos, foi referência em comércio, arquitetura histórica e gastronomia. E também na música.

A cidade mais populosa da Síria (antes da guerra) é a capital da moachaha, estilo musical surgido no califado ibérico do Império Omíada. Alguns dos principais nomes da música árabe tradicional nasceram ou iniciaram suas carreiras em Alepo. Caso de Sabah Fakhri, um dos responsáveis pela recuperação da popularidade da moachaha no Oriente Médio.

Uma das interpretações mais famosas de Fakhri é sua versão de “Al-Rozana”, uma música que fala de sua Alepo. No caso, de como Alepo apareceu para salvar Beirute de uma grande fome no início do século passado. Quando a atual capital libanesa (na época, ainda uma cidade do Império Otomano) sofreu uma grande crise de alimentos, o governo enviou da Turquia um navio italiano chamado Rosanna com comida. A população saudou a chegada, mas se decepcionou ao ver que havia apenas maçãs e uvas, justamente os produtos que eles tinham em abundância. Eles foram salvos pelos mercadores de Alepo que compraram esse excedente da população de Beirute, que fez a música agradecendo os vizinhos por salvá-los da fome.

Ouça “Al-Rozana” na voz de Sabah Fakhri (letra em árabe e inglês)

Obs.: A história de Al-Rozana acabou servindo de inspiração para a criação de uma rádio independente síria, com sede em Paris, que visa levar ao mundo a palavra dos moradores do país, sem os filtros estabelecidos pelo governo.

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.

Temporada do turismo cria pressão para refugiados em porto da Grécia

A Páscoa ortodoxa será comemorada neste domingo, 1º de maio. Normalmente, é uma data esperada ansiosamente em Pireu. O feriado tradicionalmente marca o início da temporada de cruzeiros, e milhares de visitantes chegam à cidade portuária como parada para as centenas de passeios por Atenas, ilhas gregas ou pelo Mediterrâneo. Mas em 2016 será diferente. Os turistas são bem-vindos, mas ainda não se sabe direito como recepcioná-los.

Pireu é vizinha a Atenas e tem o maior porto da Grécia. Com isso, seu porto deixou de ser apenas uma parada para cruzeiros e ponto de referência da maior marinha mercante do mundo. O local também se tornou o local de chegada de milhares de refugiados que tentam se afastar das guerras em seus países – principalmente Síria e Afeganistão – para reconstruir a vida na Europa. Durante meses, a cidade grega era uma passagem, mas, nas últimas semanas, se tornou em abrigo provisório.

VEJA TAMBÉM: Símbolo do nazismo se torna o maior campo de refugiados da Alemanha

Pela sua posição geográfica em relação ao Oriente Médio, a Grécia é um caminho natural desse ciclo migratório. Os refugiados chegam em terras gregas pensando em seguir o rumo para o norte, atravessando os Bálcãs até chegar à Alemanha. No entanto, essa rota foi interrompida nas últimas semanas. Bulgária, Macedônia e Albânia fecharam suas fronteiras para os imigrantes, que se viram presos na Grécia.

Rapidamente, a quantidade de refugiados em Atenas e Pireu se tornou maior do que as cidades podem acomodar, ainda mais considerando a situação econômica delicadíssima que vive a Grécia. Com isso, tendas foram erguidas no porto de Pireu, que se transformou em um campo de refugiados. Uma situação longe do ideal, em que há carência de serviços e até de segurança. Mas que pode ficar perto de insustentável com a chegada dos turistas.

O governo tem se mostrado compreensivo – ainda que visivelmente despreparado – com os refugiados e há elogios à solidariedade da maioria da população local (ainda que a crise também tenha impulsionado o crescimento do Alvorada Dourada, um partido de extrema-direita). Não houve grande pressão para impedir a chegada deles, tampouco forçar seu deslocamento.

Um elemento que ajuda os imigrantes é o próprio passado da Grécia. A Guerra Greco-Turca (1919 a 1922) foi marcada por limpeza étnica, resultando em milhares de mortes e um acordo de troca de população no final do conflito. Assim, 500 mil muçulmanos – de origem grega e turca – que viviam na Grécia foram enviados para a Turquia, que mandou 1,5 milhão de ortodoxos – de etnia grega ou turca. Assim, boa parte da população grega atual descende de pessoas que chegaram a sua própria terra como refugiadas e tiveram de reconstruir sua vida.

No entanto, as condições dos sírios e afegãos se deterioram. Há relatos de doenças, brigas (até com uso de facas) e fome. A falta de perspectivas também abaixa o ânimo dos refugiados, que não encontram muitas possibilidades de se inserir em um país que já vive uma crise econômica.

AFEGANISTÃO: Os grafites que mostram os heróis de verdade em uma cidade em guerra

Nesse cenário, oferecer boas condições para a chegada dos turistas não pode ser vista como uma ação fútil, inversão de prioridades ou ignorar o sofrimento de muita gente logo ao lado. Os visitantes injetam bilhões de euros na economia grega, o que representa um alívio para a enorme indústria de turismo local – o que pode até criar oportunidades de trabalho temporário para alguns refugiados.

Desde março as autoridades criam novos espaços para abrigar os refugiados. Os estádios de beisebol e hóquei na grama, dois elefantes brancos dos Jogos Olímpicos de 2004, já estão cheios de tendas. Mas muitos não querem sair do porto, com medo de serem deslocados para regiões afastadas de Atenas – onde estão as poucas oportunidades econômicas palpáveis – e de olho na infraestrutura de transportes, que ajudaria em uma rápida viagem ao norte caso Macedônia, Albânia ou Bulgária reabram suas fronteiras.

A meta do governo é que todos os refugiados de Pireu estejam abrigados em outros lugares da Grande Atenas até este domingo. Que isso não seja apenas – mais um – deslocamento, mas uma ida a locais com condições e oportunidades melhores.

Obs.: Se você se vira bem no inglês, confira essa reportagem do Guardian e essa do Huffington Post, mostrando o dia a dia de refugiados no porto de Pireu.