LA debate até onde se pode ir para dar segurança às crianças no parquinho

Vias expressas elevadas, baixo adensamento, pouquíssimas edificações verticais, áreas de estacionamentos enormes, distâncias desproporcionais para acessar qualquer serviço. Los Angeles é uma cidade feita para quem tem carro, mas até lá existe a intenção de mudar isso. A prefeitura atual investe na expansão do metrô (sua rede já é maior que a de qualquer cidade brasileira), luta por verticalizar os prédios e anunciou a criação de mini-parques nos bairros. Mas essa última ideia enfrenta um obstáculo: um projeto de lei para dar mais segurança às crianças.

O vereador democrata Mitch O’Farrell apresentou um projeto que proíbe que adultos desacompanhados de crianças fiquem em torno da área de playgrounds nos parques públicos de Los Angeles. A proposta surgiu como medida para evitar a atuação de traficantes que oferecem drogas a menores, mas também visa inibir a ação de pedófilos.

Há um princípio polêmico no texto, pois ele indiretamente pressupõe que todo adulto sozinho é um traficante ou pedófilo em potencial, afetando direitos básicos como o de ir e vir e a presunção de inocência. No entanto, essa lei já é aplicada em várias cidades norte-americanas conhecidas pelo uso de áreas públicas por parte da população, como Nova York, São Francisco, Santa Mônica (região metropolitana de LA) e Miami Beach. Ou seja, há base legal para adotar essa medida e parte da opinião pública apoiará qualquer ação que tenha como pano de fundo o combate ao tráfico de drogas ou à pedofilia.

No entanto, muitos angelinos estão contestando a ideia. Em uma cidade com poucos espaços públicos, é comum que adultos acabem usando parte da infraestrutura de playgrounds. Isso vale desde pessoas que querem apenas usar o banco para sentar enquanto comem algo (fazer uma refeição enquanto vai de um lugar a outro é uma tradição cultural nas grandes cidades dos EUA) até para quem está fazendo um exercício, por exemplo, usando a estrutura dos brinquedos como apoio para o alongamento antes ou depois de uma corrida.

Outro problema é que o projeto de mini-parques da prefeitura prevê que vários deles tenham área de recreação infantil. Se adultos desacompanhados não puderem ficar ao redor de um playground, eles praticamente estariam proibidos de circular nesses novos espaços.

Os críticos do projeto de O’Farrell argumentam que as leis já existentes deveriam dar conta do combate ao tráfico de drogas e à pedofilia. Se houver um policial perto de cada playground para agir diante da presença de um adulto desacompanhado, ele também pode ser acionado se um adulto estiver oferecendo algo, tirando fotos ou conversando de forma suspeita com uma criança. Além disso, pedófilos já condenados muitas vezes não podem circular próximo a áreas com grande concentração de crianças, como parques e escolas públicas.

O debate deve seguir, mas o departamento de recreação e parques de Los Angeles apoia o projeto de lei. Assim, é provável que ele passe, mas sua regulamentação talvez preveja situações que evitem uma autossabotagem no processo de levar os angelinos aos espaços públicos.

A foto acima é de Rob Ford (à direita), ex-prefeito de Toronto, brincando de gangorra com seu irmão Doug Ford Jr.

Virada Cultural precisava de um fato novo, como se espalhar pela periferia

Concentrar os eventos da Virada Cultural no Centro ajuda a criar um ponto de referência mais ou menos próximo de quase todos, ajuda a revitalizar uma importante região da cidade e facilita o trânsito entre uma atração e outra, mas coloca muita gente em um lugar apenas. Espalhar a Virada pela cidade dá vida aos bairros, leva a cultura e o lazer onde normalmente eles são raros, ainda que possa afastar alguns dos espetáculos de parte de seu público potencial.

Não há certo ou errado nesse debate. Cada opção tem sua vantagem e sua desvantagem, e muitas vezes definir por uma delas se torna uma questão de momento. E o momento pedia que a edição 2016 do evento se espalhasse por toda a capital paulista. E isso ajuda a explicar por que a Virada deste último fim de semana tivesse indicadores positivos após alguns anos conturbados.

A Virada Cultural foi criada em 2005 e teve como um de seus princípios fazer parte do processo de revitalização do Centro. Por ser uma região da cidade com acesso fácil em transporte público e diversos pontos para se erguer palcos provisórios, realizar shows e exposições, era natural fazer do evento uma grande celebração do Centro. Apenas algumas apresentações ficavam para os bairros.

O público abraçou a ideia e a adesão do público foi grande e crescente. No entanto, a Virada começou a sofrer com o gigantismo. O excesso de gente em pouco espaço, somado com os altos e baixos da organização (inclusive atritos entre prefeitura e governo estadual), acabou criando problemas importantes, sobretudo de segurança. Houve casos de assaltos, brigas e até arrastões (18 deles em 2014!), o que começou a afastar parte do público, sobretudo nos shows do meio da madrugada.

Para este ano, a preferência foi por uma Virada espalhada pelos bairros. O Centro ainda foi a área com mais shows, mas cada subprefeitura teve alguma atividade. A decisão potencialmente inibiu, por exemplo, uma pessoa da Zona Sul ver um cantor que se apresentou na Zona Leste. Além disso, houve uma redução na quantidade de atrações, de 1,5 mil para 700. Esses dois fatores podem explicar os relatos de público (os números oficiais ainda não foram divulgados) menor em relação ao último ano, que já havia sido inferior a 2014.

No entanto, um número já conhecido chamou a atenção: apenas quatro detidos. Ainda são quatro detenções a mais que o ideal, e houve o caso de uma mulher esfaqueada em um assalto, mas é uma estatística bastante positiva em relação a 2014 (128 detidos, sete pessoas baleadas e quatro esfaqueadas) e 2015 (84 detenções e um ferido). Houve relatos de que, com menos concentração de pessoas em uma região da cidade, a sensação de segurança foi maior.

Obs.: houve uma morte na Virada Cultural de 2016, mas foi acidental. Um homem bateu a cabeça após cair de uma escadaria.

Para um evento que, além de levar cultura à população, tem como proposta reforçar a ligação entre as pessoas e sua cidade, ter uma imagem de segurança e fazer com que a população de cada bairro da capital paulista se sentisse participante ao ver uma atração na vizinhança eram pontos fundamentais. Talvez não fossem em 2005, mas eram em 2016. Mesmo que diminuísse aquela visão de uma região – o Centro – ocupada pelo povo sedento por cultura.

Ataque do PCC expôs descrença da população nas autoridades

Os celulares apitavam com a chegada de torpedos, e-mails novos pipocavam nas caixas de entrada do Outlook de todo mundo. A cada mensagem novo, a descrição de uma tragédia. “Bandidos entraram atirando em todo mundo na estação de metrô.” “Agências bancárias serão os alvos.” “Estão atacando as pessoas presas no trânsito.” “Um conhecido de um amigo conversou com um policial que disse que o pior ainda está por vir.” Muita gente falando, gritando, ao mesmo tempo. Mesmo em um mundo em que não havia redes sociais, foi fácil essa rede de relatos virtuais se transformar em pânico generalizado. E, assim, 15 de maio de 2006 entrou para a história como o dia em que o PCC esvaziou a Grande São Paulo.

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O Primeiro Comando da Capital, organização formada nos presídios paulistas, já promovia ataques a delegacias e policiais desde o dia 12, uma sexta. O fim de semana teve mais atentados, e dezenas de policiais foram mortos. Mas o dia a dia da cidade não se alterava tanto. Até chegar a segunda, o dia 15. Todos saíram para trabalhar ou estudar, as ruas estavam cheias como em qualquer dia útil na maior metrópole brasileira. O que deu uma nova amplitude às ações do PCC, pois todos se sentiam como alvos em potencial.

Era um cenário propício para a disseminação de boatos e especulações, que motivaram boa parte da população a voltar para casa o mais rápido possível, de preferência antes de anoitecer (algo que ocorre perto das 18h nessa época do ano). Lojas fecharam as portas. Escritórios cancelaram reuniões e dispensaram seus funcionários. Escolas e faculdades cancelaram as aulas noturnas. Houve até casos de emissoras de TV cancelando programas ao vivo. A hora do rush foi antecipada para as 16h.

Praticamente todos os relatos que surgiram pela internet se mostraram falsos. O pânico se baseou em mentiras, mas a busca desesperada das pessoas por suas casas deixaram um recado muito forte: o paulistano não confiava nas autoridades. Tudo bem, é fácil dizer que o brasileiro, por natureza, não confia nos governantes. Mas isso era algo mais profundo. Não se confiava na capacidade de as autoridades combaterem uma organização criminosa que tomava de assalto a cidade a ponto de não haver segurança nem para andar na rua. A única solução possível era se trancar em casa com sua família e esperar a onda de violência passar.

Foi um momento de descrença total, em que as pessoas interromperam suas atividades por conta de um medo generalizado. Nem as autoridades sabiam direito como reagir e orientar a população, até porque elas, sim, eram alvos dos ataques. Mas, naquele momento, o crime organizado provavelmente pensou que tinha mais controle sobre a cidade do que ela próprias. E ver isso acontecer tenha sido o aspecto mais amedrontador daquele 15 de maio de 2006.

As histórias por trás dos ataques do PCC que paralisaram SP há dez anos

São Paulo viveu uma de suas piores semanas nos últimos anos, ou talvez em muito mais tempo que isso. O PCC, organização criminosa formada nos presídios paulistas, promoveu ataques à polícia militar, civil e até ao Corpo de Bombeiros após a transferência de 765 presos para a penitenciária de Presidente Venceslau.

A onda começou em 11 de maio de 2006, e teve o auge no dia 15. Foi quando boatos se espalharam pela população, dando conta que a organização estaria fazendo alvos civis como estações de metrô e ônibus. O caos se instaurou, com várias empresas fechando o expediente mais cedo para que todos pudessem estar seguros em casa antes do anoitecer. À noite, as ruas de São Paulo estavam desérticas como se houvesse um jogo da seleção na Copa do Mundo. Mas sem o clima de festa que normalmente está relacionado com o futebol.

Para lembrar os dez anos do ataque, nossos amigos do Risca Faca fizeram o ótimo especial Dez Anos de Terror. Veja:

Quando São Paulo parou
Por que aqueles ataques aconteceram naquela fatídica semana de maio de 2006?

A panela de pressão do PCC
Os problemas internos da facção e a superlotação ameaçam a fase “PCC Paz e Amor”

A prisão soldada
Rafael Coutinho ilustra a história do presídio de Araraquara soldado em 2006

“Não saia hoje”
As mães de maio de 2006

China diversifica mais sua pauta de exportação: agora tem até policial

Eles estão por todos os lados, normalmente andando em grupos, com máquinas fotográficas em local de rápido acesso e dispostos a gastar muito dinheiro, de souvenires descartáveis a artigos de luxo. Chineses são presença constante em regiões muito turísticas na Europa, sobretudo Itália e França, um fenômeno que já começa a causar problemas… a eles. Por isso, o governo italiano teve uma ideia inusitada: utilizar policiais chineses nas regiões de maior fluxo de turistas.

Desde esta segunda, o patrulhamento nos pontos turísticos de Roma e Milão é feito por equipes que misturam agentes italianos e chineses. Essa política será adotada até o próximo dia 13. O período é curto, mas se encaixa com a época do Dia do Trabalho, uma das temporadas em que mais se tira férias na China (as outras duas são o ano novo, em fevereiro, e a semana do Dia Nacional, em outubro, quando a tradição é reunir a família).

A missão principal dos policiais chineses é justamente ajudar esses milhares de turistas. As autoridades italianas perceberam que, por falta de informação ou de familiaridade com a cultura ocidental, muitos deles se perdiam, não sabiam como recorrer a serviços aos quais tinham direito e, principalmente, se tornavam alvos fáceis de assaltantes ou golpistas.

Para aumentar o sentido de segurança desses turistas, os agentes chineses usarão sua farda tradicional, como se estivessem em Pequim ou Xangai. A ideia faz sentido pela operação em si, mas não surpreenderá se alguns italianos se sentirem incomodados pela presença de autoridades policiais de um país estrangeiro trabalhando com fardas em suas cidades.

O convênio foi firmado em setembro de 2015. Nos últimos meses, os departamentos de polícia dos dois países trocaram informações e experiências, além de treinar os agentes que trabalhariam nessas equipes mistas. Claro, os policiais chineses que participam do programa tinham como um dos requisitos iniciais a fluência em italiano.

O impacto dessa aproximação pode ir além do turismo. Angelino Alfano, ministro do interior da Itália, já deu pistas de que a política pode se estender a outros campos. “Pode abrir uma colaboração importante entre os dois países na troca de informações na luta contra o terrorismo e o crime organizado.” O ministro da segurança pública chinês, Liao Jingrong, fez coro: “É um ponto de partida para estimular a cooperação entre os dois países no desenvolvimento econômico”.

Uma das áreas que mais interessa a Itália é o combate à fabricação de produtos falsificados, sobretudo bolsas, roupas, relógios e outros artigos de luxo.

Torcida única mostra que poder público não gosta de lidar com gente

A Polícia Militar de São Paulo determinou que, até o final de 2016, todos os clássicos do futebol paulista serão realizados apenas com torcedores de um dos times. É uma reação à briga entre corintianos e palmeirenses no último domingo em dois pontos da capital, que causou a morte de uma pessoa (ainda não identificada, mas que seria um inocente atingido por uma bala perdida no tiroteio).

Esse tipo de medida já foi tentado várias vezes em outros países, como Argentina (onde o histórico de violência de torcidas é pior que aqui), Holanda e até mesmo no Brasil. Apesar de ser instintivamente lógico pensar que não há brigas se um dos lados do conflito não irá ao jogo, a prática se mostrou diferente. Como muitas das batalhas ocorrem longe dos locais dos jogos – as do último domingo foram no Brás (centro) e São Miguel Paulista (extremo leste), bem distantes do estádio do Pacaembu -, ter ingresso é algo secundário.

No ano passado, quando essa medida quase foi implementada antes de um Palmeiras x Corinthians, escrevi na Trivela (site do F451) como excluir uma torcida é apenas um sintoma do modus operandi das autoridades, sobretudo no Brasil, em relação a segurança pública em geral. Ao invés de entender a sociedade, estudar o motivo que leva as pessoas a terem determinados comportamentos, elas preferem excluir, separar, dividir.

Confira o texto aqui.

 

Técnica de investigação criminal é usada para descobrir quem é Banksy

Banksy é um dos artistas urbanos mais conhecidos do mundo. Com grafites provocativos de tom social, sua obra já foi solicitada por diversas galerias de arte, exposições e até pelos produtores de Os Simpsons. Tudo isso sem que o mundo saiba qual a real identidade do inglês. O trabalho é feito anonimamente, muitas vezes sem aviso prévio e a possibilidade de flagrá-lo durante a execução.

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Para ter uma pista de quem é o cidadão por trás do artista, um grupo de cientistas da Universidade Queen Mary, de Londres, realizou um estudo baseado em perfil geográfico das obras de Banksy. No caso, identificou-se localização e época de cada obra, além de outros elementos que pudessem influenciar as manifestações do grafiteiro, para encontrar pontos “quentes”. Essas áreas poderiam apontar o local de moradia ou de trabalho, de onde se iniciaria uma investigação sobre possíveis “suspeitos” dentro dessa descrição.

No estudo da Queen Mary, os “pontos quentes” se concentraram em Londres e Bristol, com evidências que deram força para a tese que Banksy seria Robin Gunningham, apontado pelo jornal Mail on Sunday em 2008 como a identidade secreta do artista. As informações conhecidas sobre os diversos paradeiros de Gunningham coincidem com as manifestações de Banksy.

“Eu achei que acabaríamos levantando uma lista de dez suspeitos, avaliar todos e não apontar nenhum. Mas rapidamente ficou aparente que havia apenas um suspeito sério, e todos sabem quem é”, comentou o biólogo Steve Le Comber, um dos membros da equipe de pesquisadores. Ainda assim, o grupo não crava que Banksy seja Gunningham, apenas que um dos caminhos de investigação levou a essa conclusão. Outros métodos complementares seriam necessários antes de se fazer a afirmação.

Mas qual a importância de um estudo sobre a identidade de um artista que se mantém anônimo? Bem, os pesquisadores procuraram o cidadão por trás das obras de Banksy por curiosidade, mas também como uma maneira de se aprimorar o método de investigação por perfil geográfico.

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Esse tipo de estudo é aplicado em várias áreas, muitas delas de utilidade grande para a gestão de grandes cidades. Por exemplo, a polícia pode identificar padrões na ocorrência de crimes, tanto em localização quanto em método, e usar isso como ponto de partida para procurar os suspeitos. A secretaria municipal de saúde poderia identificar onde teve início um surto de alguma doença e até buscar os fatores que teriam ajudado no desenvolvimento desse foco. Os próprios pesquisadores mencionaram como possível aplicação a descoberta de evolução na tensão social em áreas, o que pode levar ao surgimento de um grupo terrorista.

Os advogados de Banksy tentaram impedir a publicação do estudo. Conseguiram ao menos olhá-lo antes, sob a alegação que precisavam saber como a pesquisa seria apresentada. Como o artista não assumiu sua identidade, ainda não se sabe se o “método aprimorado” teve sucesso.

Holanda tem uma ideia para acabar com acidentes com drones: águias

O que é? As cidades holandesas tiveram um aumento de acidentes causados por drones voando fora das regras de segurança estabelecidas pelo governo. Para evitar que isso se transforme em um problema maior, a polícia local estuda a adoção de um sistema curioso para abater os equipamentos que estejam levando perigo ao público: águias.

Proteção de território

Ainda é cedo para dizer que drones sejam elementos corriqueiros da paisagem urbana, mas eles já começam a causar alguns incômodos. Diversos equipamentos são utilizados para fazer imagens áereas, mas muitas vezes seus operadores passam do limite e acabam levando perigo às pessoas no solo. Ou por voar baixo demais, ou por perder o controle e ver o equipamento despencar.

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Na Holanda, foram registrados 27 acidentes causados por drones entre janeiro e junho 2015, um aumento de 80% em relação a todo o ano anterior, que já representava um crescimento de 87,5% em relação a 2013. O governo decidiu criar uma série de restrições de voo a desses equipamentos: eles não poderiam mais ficar a mais de 50 metros de altura e 100 metros de distância do controlador, a menos de 50 metros de outras pessoas e prédios e de 5 km de aeroportos.

Nem isso parece ter resolvido, porque os holandeses anunciaram uma medida curiosa para combater o uso irregular dessas pequenas máquinas voadoras. A polícia fez uma parceria com a empresa Guard from Above (Guarda vinda de cima, em tradução livre) para usar águias como armas de ataque a drones.

A ideia é inusitada, mas tem uma linha de raciocínio. Devido a seu tamanho, muitos drones são encarados como aves por outros animais. Para uma ave de rapina, eles podem representar uma ameaça a seu território e, por isso, já houve casos de águias abatendo os equipamentos voadores. A questão seria apenas treiná-las para agir apenas quando a máquina estiver voando em área irregular.

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Segundo os responsáveis por preparar as águias, elas não se ferem no ataque. “As aves podem atingir os drones de forma que elas não são feridas pelas hélices. Elas parecem acertar o equipamento bem no centro, onde não são acertadas. Elas têm uma incrível capacidade visual e provavelmente podem ver as hélices”, comentou Geoff LeBaron, diretor da Christmas Bird Count (ONG que trabalha no censo da população de aves nos EUA), em entrevista ao jornal britânico Guardian.

A “tecnologia de abate” ainda está em fase de testes e a polícia holandesa ainda tem dúvidas sobre sua aplicação em grandes cidades. Uma questão bastante pertinente, pois aves de rapina podem ser até mais perigosas em áreas urbanas que um drone voando fora dos padrões de segurança, como bem sabem os pais dessa criança em um parque de Montreal:

Obs.: também achamos uma péssima ideia sonorizar o vídeo com “Carruagens de Fogo”.

Terrorismo faz o cotidiano da cidade como refém. Como lidar com isso?

O que é? Os ataques a Paris nesta sexta (13) levantam novamente a discussão sobre como combater o terrorismo, uma forma de ofensiva que usa as atividades cotidianas da cidade para se camuflar antes de dar o bote. Por enquanto, as soluções mais usadas são aumentar a vigilância, mas esse caminho é criticado por intimidar a população, mesmo um cidadão comum.

O cidadão como refém psicológico

O show de rock, um jogo de futebol, a viagem diária do metrô, um passeio no shopping, a reunião de pauta de um jornal, o avião que acabou de decolar, uma peça de teatro, a pessoa jogando o lixo no cesto, turistas em um hotel de alto padrão, crianças na escola, uma festa de fim de ano. Cenas cotidianas de qualquer grande cidade no mundo, situações que passam despercebidas normalmente, até que alguém resolve utilizá-las como armas. Foi assim em Paris nesta sexta, como já foi em Londres, Madri, Nova York, Tel-Aviv, Buenos Aires, Moscou, Mumbai, Belfast, Beslan, Lima e tantas outras cidades, atacadas pelos diversos grupos terroristas, com as mais diferentes motivações.

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O grande problema do terrorismo está aí. Salvo casos extremos, como na queda do World Trade Center no 11 de Setembro, eles não causam quantidade de vítimas tão grandes se comparados com ofensivas militares tradicionais. Despejar uma bomba com alto poder de destruição em uma área muito adensada pode matar muito mais gente do que a invasão da casa noturna parisiense Bataclan (112  na mais recente contagem oficial) ou na estação de trem madrilena de Atocha (191). Mas ataques de forças militares estão dentro da dinâmica de uma guerra, são mais previsíveis. O terrorismo despreza essa lógica. Ele pode acontecer a qualquer momento, vindo de qualquer lado, sem aviso prévio.

Torcedores ficam no gramado para se proteger depois de atentados ao redor do Stade de France durante o amistoso França 2x0 Alemanha (AP Photo/Michel Euler)
Torcedores ficam no gramado para se proteger depois de atentados ao redor do Stade de France durante o amistoso França 2×0 Alemanha (AP Photo/Michel Euler)

O terrorismo se camufla na cidade, e por isso ele tem um efeito psicologicamente tão forte. Ele pode provocar paranoia, fazer qualquer pessoa achar que o vizinho é o próximo homem-bomba e que nem pegar o ônibus para ir ao trabalho é uma tarefa inofensiva. Em uma metrópole, com tantas pessoas realizando as mais diversas atividades cotidianas todos os dias, esse efeito é potencialmente maior.

Aí fica um desafio: o combate ao terrorismo tem como objetivo final desestruturar e deter os grupos que usam desse expediente para reivindicar suas causas. Mas, muitas vezes, os passos iniciais acabam envolvendo o dia a dia das pessoas e como transformar as atividades corriqueiras da sociedade. E esse momento é delicado, pois as autoridades ainda não descobriram como lidar com o risco de ataques sem atingir o cotidiano do cidadão comum, que, no final das contas, é apenas a vítima em potencial do terrorista.

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Até a década de 1990, as medidas antiterroristas que mais atingiam a liberdade individual tinham ligação com o cuidado em largas malas e mochilas em lugares públicos e cuidados extras com cestos de lixo nas ruas. Mas ataque recentes, como o 11 de Setembro nos Estados Unidos em 2001 e as explosões no metrô e em um ônibus em Londres em 2005, mudaram o nível de atenção. Como saber se alguém está fazendo algo errado em um canto qualquer da cidade? Oras, vigiando o que todo mundo está fazendo o tempo todo.

As grandes cidades norte-americanas e Londres instalaram câmeras de vigilância em milhares de ruas. A polícia tem acesso às imagens e pode identificar qualquer comportamento suspeito. Essa política até foi satirizada em um episódio do desenho Simpsons (abaixo vai um trecho, infelizmente só encontrei em inglês).

Claro que as autoridades não têm condições de observar cada canto da cidade 24 horas por dia, mas não é esse o objetivo. A política precisa apenas convencer que existe a possibilidade de vigilância total e tem um parentesco com o panóptico, uma proposta do jurista e filósofo Jeremy Bentham.

Em 1785, o inglês elaborou o que considerava o modelo ideal de prisão. As celas ficariam dispostas em um edifício circular. O vigia ficaria em uma estrutura no centro. A grande sacada é que, pelo projeto dessa torre de vigilância, o segurança poderia observar todas as celas sem que pudesse ser visto. O princípio é sempre deixar o detendo na dúvida se estava ou não sendo observado e, por isso, evitaria que tomasse atitudes proibidas. O mesmo modelo poderia ser adotado em outras construções, como um supervisor observando a produção em uma fábrica.

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O panóptico nunca foi construído como Bentham imaginou porque, apesar de sua potencial eficiência, ele era considerado desumano (sim, já no século 18). Ainda assim, seu princípio sobreviveu e está por trás de como o Grande Irmão (Big Brother) comanda o estado fictício de Oceania no livro “1984”, de George Orwell. Hoje, essa ideia alimenta os diversos circuitos fechados de TV pelo mundo, das ruas de Nova York à loja no centro de qualquer cidade brasileira. Só a sensação de que alguém pode o observar já é suficiente para mudar seu comportamento, sobretudo se há intenção de fazer algo condenável.

Central de vigilância da política londrina, criado após o atentado terrorista de 2005 (AP Photo/Lefteris Pitarakis)
Central de vigilância da polícia londrina, criado após o atentado terrorista de 2005 (AP Photo/Lefteris Pitarakis)

A aplicação disso em uma prisão já causou polêmica, mas estender para toda uma cidade abre espaço para muito mais debate. Afinal, um defensor de punições mais rigorosas a criminosos pode defender a ideia de que detentos não têm direito de reclamar de excesso de vigilância. Mas, quando se coloca toda uma cidade sob observação, muitos inocentes se sentem injustamente expostos ou intimidados.

Para uma sociedade como a brasileira, que vive com altíssimos índices de violência urbana, discutir esse tema parece bobagem. Mas, na Inglaterra, suprimir direitos individuais é algo delicado. Tanto que Tony Blair teve de encarar muitas críticas e eventualmente abandonar um projeto de segurança que consistia em… obrigar as pessoas a andar com um documento de identificação.

Por enquanto, os parisienses evitaram essa medida. Mas possivelmente haverá quem proponha medidas para intensificar a vigilância na cidade como forma de evitar novos ataques terroristas. Talvez seja a melhor solução em curto prazo. Mas bom mesmo seria se alguém descobrisse um caminho que não deixasse os moradores das grandes cidades como reféns psicológicos de ninguém, nem dos terroristas, nem das autoridades.