Quinze anos depois, o 11 de Setembro ainda é caso de saúde pública

O ataque ao World Trade Center é normalmente listado como o maior atentado terrorista da história. Os números usados para justificar esse “título” é o de mortes: 2.763, sendo 2.606 nas Torres Gêmeas (somando quem estava nos edifícios e resgatistas), 147 entre passageiros e tripulação dos dois aviões utilizados como mísseis e dez terroristas. Mas há um índice muito mais impressionante, e que mostra como a tragédia, ocorrida há exatos 15 anos, ainda é muito viva no dia a dia de Nova York. São mais de 70 mil pessoas que passam por tratamento por problemas de saúde causados diretamente pelos ataques.

Quando as Torres Gêmeas caíram, vários quarteirões do bairro de Baixa Manhattan (ou Lower Manhattan, como preferirem) foram cobertos por poeira. Mas, na nuvem cinza que avançou imparável sobre pessoas e imóveis, havia 1 milhão de toneladas de materiais de construção moído, muitos deles altamente tóxicos, como amianto, chumbo, fibra de vidro, mercúrio e gás freon. Tudo isso foi inalado por dezenas de milhares de pessoas já em 11 de setembro de 2001 e nos dias seguintes.

Para piorar o cenário, os resgatistas que ficaram no trabalho de busca por sobreviventes e remoção dos escombros no Marco Zero ficaram trabalhando em um ambiente ainda mais tóxico devido aos incêndios que ocorriam devido ao combustível dos aviões (91 mil litros) e os que eram utilizados no sistema elétrico e de aquecimento no WTC (870 mil litros). Esses focos apareceram durante os primeiros três meses de trabalho no local.

Pela natureza dos materiais envolvidos, havia um sério risco do desenvolvimento de doenças respiratórias e/ou câncer, mesmo que em médio prazo. As autoridades fizeram acompanhamento, inclusive convocando pessoas que tivessem entrado em contato com a poeira tóxica para exames. No entanto, a Agência de Proteção Ambiental, um órgão federal, era evasiva ao falar sobre os riscos de respirar aquele ar.

Nuvens de fumaça durante trabalhos de escavação no WTC um mês após o atentado de 11 de Setembro (AP Photo/Stan Honda via Outra Cidade)
Nuvens de fumaça durante trabalhos de escavação no WTC um mês após o atentado de 11 de Setembro (AP Photo/Stan Honda via Outra Cidade)

Desse modo, foi preciso um processo da família do policial James Zadroga, resgatista no WTC que desenvolveu um câncer no pulmão e morreu em 2005, para se tomar uma atitude mais concreta. Em 2011, foi criado o Fundo Zadroga de Compensação e Saúde para o 11 de Setembro e o Programa de Saúde do World Trade Center.

Os programas garantem tratamento para todas as vítimas e indenização para as que não puderam continuar trabalhando. No ano passado, já eram 70 mil pessoas inscritas no Programa de Saúde, cerca de 21 mil delas por problemas ligados à inalação de material tóxico (um outro grande contingente de vítimas atendidas são as que desenvolveram problemas psicológicos). E, como as doenças muitas vezes se apresentam em médio ou longo prazo, a cada ano surgem milhares de novos pacientes e vários cânceres que não estavam listados como possivelmente relacionados ao atentado.

Por isso, a prefeitura de Nova York mantém uma página para informar qualquer pessoa que suspeite que seja uma vítima tardia do 11 de Setembro, inclusive abrindo as portas para entender qualquer novo problema que esteja surgindo. Porque o atentado que mais matou pessoas na história continua atingindo a cidade. Mas não é mais um caso de segurança, é de saúde pública.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Para combater o zika, cidade americana quer atrair morcegos

North Hempstead é um município de 220 mil habitantes, a maior parte deles de classe média, na região metropolitana de Nova York. Até o momento, não teve nenhum caso de zika registrado, mas já está preocupada com o verão e a possibilidade de a doença alcançar sua população. Por isso, começou a botar em prática seu plano para combater o vírus que tem causado tantos danos no Brasil. Um plano para lá de criativo.

A prefeitura está instalando abrigos para morcegos nos parques e praças da cidade. O objetivo é atrair os animais que se instalaram em casas e nas cidades vizinhas e torcer para que seu apetite ajude no controle da população de mosquitos de North Hempstead.

Os especialistas consultados pelas autoridades calculam que cada morcego tenha capacidade de devorar cerca de mil insetos por hora. Não há registro da presença do Aedes aegypti no estado de Nova York, mas há uma população considerável do Aedes albopictus, espécie que também pode transmitir a dengue e o zika.

A medida combate os mosquitos, mas também aumenta a presença dos quirópteros em áreas públicas. Mas isso não preocupa a prefeitura. “Há nove espécies de morcegos no estado de Nova York, mas nenhuma delas se alimenta com sangue”, afirmou Liliana Dávalos, professora do departamento de ecologia e evolução da Universidade Stony Brook em entrevista ao New York Times. Além disso, menos de 0,5% dos morcegos dos Estados Unidos têm o vírus da raiva.

A prefeitura até se cercou de argumentos técnicos, mas a questão é ver como a população lidará com a situação. Ainda mais se surgir uma superpopulação de morcegos pelas praças da cidade.

Filadélfia cria taxa do refrigerante, mas motivação é duvidosa

Há poucas coisas mais americanas do que o refrigerante. Eles foram criados na Europa, mas foi nos Estados Unidos que se transformaram em uma indústria poderosa a ponto de criar algumas das marcas mais reconhecíveis do mundo (sim, estou falando da Coca-Cola e da Pepsi). Mas as bebidas gaseificadas começam a ter problemas, com várias cidades cogitando formas de inibir seu consumo. O caso mais recente foi da Filadélfia, que aprovou um projeto de lei que cria um imposto em cima desses produtos.

A taxa do refrigerante é polêmica. Ela prevê o pagamento de US$ 0,015 a cada onça fluida (30 ml) de bebidas com açúcar ou diet. Se esse valor for repassado ao consumidor, uma lata deve ficar US$ 0,18 mais cara. O imposto só entra em vigor em 1º de janeiro de 2017. Não é uma medida completamente inédita. Entre as grandes cidades americanas, Chicago já tem uma lei similar.

O motivo desse ataque às bebidas gaseificadas é, teoricamente, a saúde pública. E aí cria-se a polêmica. Os Estados Unidos têm um problema real e sério de obesidade. Na Filadélfia, 68% dos adultos e 41% das crianças estão acima do peso.

Os defensores do imposto alegam que o poder público apenas está ajudando as pessoas a terem uma vida mais saudável sem obrigar ninguém a nada. Os críticos consideram que não é papel do governo induzir os hábitos de consumos da população, pois é direito de cada um beber o que quiser. Além disso, alegam que a taxação prejudicaria as pessoas de menor poder aquisitivo, tradicionalmente os maiores consumidores de comidas industrializadas no país.

Para evitar que o debate caia na questão do direito de escolha, a prefeitura tem mudado o enfoque. Mas tornou o conceito do imposto ainda mais estranho. Ele foi colocado apenas como mais um imposto, e que os benefícios à saúde da população seria apenas um “bônus”. O dinheiro arrecadado será utilizado para projetos sem nenhuma ligação com a saúde pública, como pagar benefícios aos funcionários municipais e aumentar as reservas da cidade.

Nesse cenário, o imposto do refrigerante fica com cara de uma ideia de boas intenções, mas que não tem muito sentido. Se é para aumentar o caixa municipal e tratar melhor os funcionários, há diversos outros bens que poderiam ser taxados sem afetar mais um grupo social – justamente o mais vulnerável – do que outro. Se for pela saúde pública, que os recursos sejam destinados a isso, com melhoria no atendimento em hospitais e postos de saúde ou criação de campanhas de conscientîzação.

Mas, mais do que ir às bebidas, uma área que talvez tivesse efeito mais rápido e duradouro pelo caráter educativo seria promover o consumo de produtos locais e frescos e, principalmente, mexer nas merendas escolares. Na página do distrito escolar da Filadélfia, é possível ver o cardápio das escolas da cidade na próxima semana. As crianças e adolescentes almoçarão frango frito com molho barbecue (segunda, 21),  carne com molho (terça) e um chamativo “faça sua própria pizza” (quarta). Sempre com referências explícitas do fornecedor de cada ingrediente, invariavelmente grandes indústrias.

Tudo bem, é melhor que muita merenda escolar oferecida no Brasil e certamente as crianças adoram frango frito, carne ou pizza. Mas “saudável” não é uma palavra que vem a mente quando se pensa nesse menu. Por isso, os refrigerantes não são saudáveis e deveriam ser consumidos em quantidade mais moderada que a média americana, mas dificilmente inibir seu consumo fará diferença quando se come tanta coisa industrializada e pesada desde pequeno.

Estudo descarta ideia de que vírus do zika entrou no Brasil durante a Copa

Milhões de pessoas chegando ao Brasil para ver futebol, festejar, injetar alguns milhões na nossa indústria do turismo e serem picadas pelo Aedes aegypti. É fácil perceber como a Copa do Mundo de 2014 está diretamente relacionada à entrada do vírus da febre zika no País. Só que… não está. É o que identificou um estudo realizado por 57 cientistas de diversas nacionalidades sobre como a doença chegou em território brasileiro e se espalhou.

A versão de que a Copa do Mundo de 2014 ou uma competição de canoagem realizada no Rio de Janeiro em agosto do mesmo ano teriam sido os vetores do zika era sustentada pela cronologia conhecida. Os primeiros casos identificados da doença datam de maio do ano passado, e o próprio Ministério da Saúde sustentava a tese de que o vírus teria entrado no Brasil entre o segundo semestre de 2014 e o começo de 2015. Considerando o fluxo de turistas vindo de todas as partes do globo, incluindo Polinésia Francesa e Sudeste Asiático, regiões que tiveram surtos recentes do zika, para ver o Mundial de futebol, era fácil ligar os pontos.

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É essa linha do tempo que caiu por terra no estudo “Zika virus in the Americas: Early epidemiological and genetic findings” (“Vírus zika nas Américas: primeiras descobertas epiodemiológicas e genéticas”), publicado na revista Science na última semana. A pesquisa, que contou com a participação de cientistas de Brasil (do Instituto Adolfo Lutz, da Fundação Oswaldo Cruz, do Instituto Evandro Chagas, do Ministério da Saúde e da Universidade Estadual de Feira de Santana), Reino Unido, Canadá e Estados Unidos, fez o mapa genético do vírus em diferentes pacientes para se definir uma trajetória de contaminação.  Outro objetivo da pesquisa era descobrir em que momentos da gestação o zika pode causar danos ao desenvolvimento do feto.

Mãe segura bebê com microcefalia em Alcantil, Paraíba (AP Photo/Felipe Dana)
Mãe segura bebê com microcefalia em Alcantil, Paraíba (AP Photo/Felipe Dana)

Foram coletadas amostras em sete pacientes brasileiros: quatro casos comuns, um de um bebê que nasceu com microcefalia, um de um adulto que morreu de complicações de encefalite após contrair o zika e um de uma pessoa que havia doado sangue. Os dados genéticos foram comparados com nove casos em outros países: seis no surto recente nas Américas, um na Polinésia Francesa, um na Tailândia e um nas Ilhas Cook.

Os dados mostraram que o vírus encontrado no Brasil é muito semelhante ao das Américas, e bastante diferente do caso tailandês. Isso é consistente com a versão de que a epidemia de zika nas Américas teve início no Brasil, aonde ela provavelmente teria chegado por meio de poucos portadores, eventualmente um só.

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Pela análise das mutações sofridas, os cientistas estabeleceram como momento dessa entrada seria entre maio e dezembro de 2013, um ano antes do imaginado até então. O motivo dessa demora em detectar a doença seria o pequeno número de casos nos primeiros meses, induzindo médicos a diagnosticá-los como dengue.

A cronologia descoberta pelo estudo descarta a versão de que a Copa do Mundo teria sido o vetor do zika, mas abre a possibilidade para a Copa das Confederações. Até porque o torneio, disputado em junho de 2013, teve a participação da seleção do Taiti, um dos locais que mais sofreram com o zika naquele ano. E os taitianos fizeram uma partida em Recife, uma das cidades que mais sofrem com a epidemia. No entanto, o surto da doença na Polinésia Francesa ocorreu do final de 2013, depois da realização do torneio de futebol.

Seleção taitiana agradece apoio da torcida brasileira após perder para o Uruguai na Arena Pernambuco, na Grande Recife (AP Photo/Eugene Hoshiko)
Seleção taitiana agradece apoio da torcida brasileira após perder para o Uruguai na Arena Pernambuco, na Grande Recife (AP Photo/Eugene Hoshiko)

Por isso, os pesquisadores tratam como improvável que o vírus tenha entrado no Brasil durante a Copa das Confederações. Para eles, a maior chance é que o zika foi transmitido a partir de um turista comum. Entre o segundo semestre de 2013 e o começo de 2014, houve um aumento de 50% no número de visitantes de regiões afetadas pelo zika em relação aos 12 meses anteriores. Só das Filipinas, foram mais de mil visitantes mensais em 2013. A pesquisa não tem dados suficientes do vírus filipino, mas aprofundar as análises genéticas e cruzar com dados de voos e cruzeiros com esses turistas pode apontar os prováveis pontos de entrada da doença em solo brasileiro.

As informações tiram o zika da lista de legados negativo da Copa do Mundo do Brasil, e isso é importante. Não pelo evento esportivo em si – ainda mais porque o Rio de Janeiro sediará outro em agosto, os Jogos Olímpicos –, mas porque dá mais elementos para compreender onde e como a doença chegou ao País e quanto tempo levou para o primeiro caso se transformar em epidemia. Um dado fundamental para o desenvolvimento de vacinas e futuras políticas de saúde pública para controle dos vetores de transmissão.

Como a capital nacional da dengue tenta combater o Aedes aegypti

Várias cidades brasileiras têm sofrido com o Aedes aegypti e o verão. As chuvas da estação mais úmida do ano em boa parte do País tem criado vários pontos com acúmulo de água parada, criando o cenário ideal para a reprodução do mosquito transmissor de dengue, zika e chicungunha. Mas, na capital nacional da dengue, o problema é o oposto: a falta de água.

A cidade mineira de Campanário tem 3.733 habitantes e 442 casos de suspeitas de dengue. Isso representa 11,8% da população, ou 6.215 a cada 100 mil habitantes, um índice maior que o de qualquer outra cidade brasileira. Das grandes cidades brasileiras, a que teve mais casos registrados foi Belo Horizonte, com 431 a cada 100 mil habitantes (ou 6% da média campanariense).

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A repórter Carolina Cotta, do jornal Estado de Minas, esteve em Campanário e escreveu uma ótima reportagem sobre o que levou essa pequena cidade ao topo do ranking negativo de dengue no Brasil. Recomendamos fortemente que vocês cliquem aqui e entendam o cenário completo da dengue nessa pequena cidade do interior mineiro.

Localizada a 300 km ao norte de BH, Campanário está em uma das regiões mais secas de Minas Gerais. Isso torna o abastecimento de água intermitente, o que motiva a população a reservar sempre que possível. É comum os moradores terem tambores e caixas d’água cheios em casa, criando locais ideais para a reprodução do Aedes aegypti.

A boa notícia é que, aos poucos, já houve redução do número de novos casos. Ao ver tantos conhecidos contraírem a doença, muitos campanarienses se convenceram a tampar as caixas d’água e tambores em casa. Mas ainda há o que melhorar, como contou José Elias de Meira, coordenador da Fundação Nacional de Saúde na cidade, ao Estado de Minas: “Tem casa em que a gente entra, coloca o larvicida e, quando viramos as costas ,vemos o morador jogando a água tratada fora. Aqui, o problema é a seca e a mente das pessoas.”