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A evolução histórica da divisão territorial do Brasil em vídeo

Brasil em 1655 (Michael Serra / Reprodução)

As últimas alterações no mapa do Brasil já completaram 32 anos. Foi na Constituição de 1988 que o Tocantins se separou de Goiás, enquanto que Amapá e Roraima foram elevados à condição de estados (eram territórios federais). Depois disso, já houve movimento para separar pedaços de vários estados brasileiros, o mais conhecido foi o da criação de Carajás e Tapajós a partir do Pará, mas nenhum outro parece prosperar.

Mas, ao longo da história, a divisão do território brasileiro já foi alterada diversas vezes. Isso motivou Michael Serra, historiador do São Paulo Futebol Clube, a fazer uma animação sensacional com todas as mudanças ao longo da história do País.

Ele próprio reconhece que o trabalho serve mais como referência, pois não há registros muito precisos na época do Brasil Colônia. Além disso, a inserção da ocupação dos povos indígenas é ainda mais desafiadora pela falta de informação, e essa parte do projeto ficou para depois.

De qualquer modo, dá para se divertir bastante imaginando que São Paulo já fez divisa com Pernambuco e Pará.

Já faz uns meses que não faço mais a seção de música de cidades (falta de tempo, era algo deliciosamente trabalhoso fazer), mas fica uma dica aqui. O amigo e colega Rodrigo Ratier, editor da Nova Escola, mostra com detalhes como é possível aprender sobre a relação centro-periferia (o cenário é o Rio, mas serve para vários lugares, até o Oriente Médio) a partir da música “As Caravanas”, de Chico Buarque.

O texto é voltado a professores, explicando como aplicar esse conteúdo em uma sala de aula. Mas o texto é válido para qualquer um. Clique aqui, eu recomendo.

Cortar verba do Carnaval é sinal de incompreensão do papel da gestão pública na economia

Tirar dinheiro de uma área não essencial, potencialmente autossustentável, para colocar nas creches. Difícil não concordar com isso batendo o olho de primeira na notícia, mas os detalhes mostram como a situação não é tão simples assim. O que torna a ideia da prefeitura do Rio de Janeiro de cortar 50% dos R$ 26 milhões repassados às escolas de samba para o Carnaval de 2018 em um equívoco, mesmo que seja para ajudar nas verbas da pré-escola.

A gestão pública ainda é vista por muita gente como pegar o dinheiro dos impostos e distribuir para as diversas ações custeadas pelo governo. Bota uma parcela na educação, uma outra na segurança, e na infraestrutura, e na saúde, e nos gastos de gabinete dos parlamentares… Nesse sentido, tirar dinheiro de escola de samba e colocar em creche está correto.

Mas o gestor, qualquer que seja o nível, precisa também mover a economia de sua área. Isso gera empregos, gera investimentos e gera até arrecadação de impostos. No caso do Rio de Janeiro de Marcelo Crivella, o turismo é um dos setores mais importantes, sobretudo no Carnaval. Assim, os recursos colocados no desfile de escolas de samba (por maior que seja o carinho dos crescentes blocos de rua, o grande atrativo para o turista, sobretudo o estrangeiro, ainda é a Sapucaí) dão retorno. Não é tirar dinheiro das creches, é ajudar a chegar mais.

O problema é que esse tipo de retorno é muito diluído: uma parte vem na indústria hoteleira, outra na de bares e restaurantes, outra no comércio… Cada loja, cada hotel, cada bar fica com um pouco disso e o benefício à cidade se vê na soma de tudo. É difícil criar um modelo de privatização ou de concessão disso. O poder público precisa, de alguma forma, participar. Isso ocorre em todo o mundo, até nos Estados Unidos, onde governos municipais e estaduais bancam a construção de estádios esportivos para ter uma equipe profissional na cidade.

É a mesma lógica, aliás, que torna os gastos no autódromo de Interlagos em algo válido para São Paulo, pois a Fórmula 1 traz muito dinheiro à capital paulista.

Isso não significa que Crivella não possa discutir a forma como o dinheiro é repassado às escolas de samba. Por exemplo, a prefeitura poderia – e deveria – estabelecer mecanismos de controles para ter certeza que essa verba será bem utilizada. O município também pode estabelecer um debate para que as escolas de samba criem novas fontes de renda e sejam mais atrativas para investidores ou patrocinadores, até que se tornem autossustentáveis.

O Carnaval de 2018 já está em pleno andamento em várias escolas, talvez todas. A prefeitura afirmou que “estuda o desenvolvimento de mecanismos para que sejam captados investimentos da iniciativa privada”, mas a verdade é que não há tempo de fazer isso já para o ano que vem sem que se afete os preparativos.

A crise econômica é forte no Brasil, e o Rio de Janeiro tem sido uma das cidades que mais têm sentido isso por causa da situação do governo municipal e do estadual. E precisará de inteligência e incentivo à economia para sair disso, não fazer o orçamento como se o único objetivo fosse pagar conta.

A competição entre escolas de samba lembra o futebol, e isso não é coincidência

Cada equipe tem suas cores e sua torcida, contratam profissionais para competir pelo título de campeã da cidade ou para evitar o rebaixamento para a segunda divisão. Nos níveis mais baixos, a disputa é muito menos estruturada, com times amadores se unindo pelo amor àquele universo e o sonho de um dia estar entre os grandes.

Os desfiles de escolas de samba têm vida própria, mas é muito fácil traçar paralelos entre sua forma de disputa e a do futebol. E não há a menor coincidência nisso. é apenas consequência natural de como a disputa carnavalesca surgiu.

Na década de 1920, o samba começou a tomar a cidade como modo de se celebrar e festejar. Rodas se formavam em diversos pontos do Rio de Janeiro, mas ainda não era algo consagrado. Aos poucos, grupos foram se organizando na forma de blocos e tinham no Carnaval o momento de ir às ruas. Em 1928, o bloco Deixa Falar foi criado no Largo do Estácio, em frente a uma escola, motivo para eles se intitularem “escola de samba” como maneira de se diferenciar da instituição de ensino tradicional.

Aquele universo crescia e, em 1929, até houve uma disputa entre blocos. No caso, apenas para eleger o melhor samba do ano. A competição não teve sequência nos anos seguintes, até que, em 1932, o jornalista Mário Filho viu nas escolas de samba uma oportunidade de aumentar as vendas do jornal Mundo Sportivo, onde trabalhava.

No período do Carnaval, o futebol e o remo – principais modalidades esportivas do Rio na época – não tinham competições. Na falta de assunto para preencher páginas e convencer pessoas a comprarem as edições, Mário Filho (hoje nome do Maracanã e irmão de Nelson Rodrigues) teve a ideia de tratar as crescentes escolas de samba como se fossem times de futebol em uma competição mais estruturada. O fato de muitos redatores da publicação serem ligados ao samba foi mais um impulso.

Em 1932, o jornal organizou o primeiro desfile de escolas de samba. Os blocos passaram na rua Marquês de Pombal, apresentando três sambas inéditos cada um. Um grupo de seis jurados ficaria no coreto da Praça Onze para avaliar os desfiles de acordo com critérios pré-definidos e, ao final do Carnaval, anunciar o campeão. Foram 19 participantes, e a Mangueira ficou com o título.

No ano seguinte, o Mundo Sportivo havia fechado as portas, mas a ideia de Mário Filho tinha sido tão boa que o jornal O Globo assumiu a organização do desfile. Nesse ano, a Unidos da Tijuca fez um desfile temático, de acordo com o tema de seu samba. Foi o primeiro “samba enredo”.

Desde então, muitos elementos do desenvolvimento do desfile das escolas de samba lembram o futebol. Houve brigas entre ligas, houve dois campeões no mesmo ano, houve desenvolvimento de regras para diminuir a margem de polêmicas, houve criação de divisões de acesso quando a quantidade de participantes ficou grande demais para uma disputa apenas. 

Rio precisa conquistar mais turistas, não cobrar imposto dos que já tem

Marcelo Crivella não deu detalhes, pois ainda é uma ideia embrionária, mas já mostrou a intenção de colocar na conta do turista uma parte das medidas de recuperação do caixa da cidade. O novo prefeito do Rio de Janeiro afirmou que estuda criar uma taxa de “R$ 4 ou 5” para quem se hospedar na cidade. Uma iniciativa simplista, imediatista e, principalmente, potencialmente nociva.

Esse imposto para turistas não é novidade no mundo. Ele é cobrado em cidades italianas (imposta di soggiorno) e francesas (taxe de séjour) e em estados norte-americanos (occupancy tax), por exemplo. Crivella, inclusive, usou o fato de ser cobrado “no mundo inteiro” como argumento para defender a criação de um similar carioca. Mas isso não torna a ideia mais válida ou mais adequada, simplesmente porque a realidade desses lugares é diferente.

Com 6,43 milhões de visitantes estrangeiros, o Brasil foi apenas o 43º destino turístico mais procurado no mundo em 2014 de acordo com o ranking da Organização Mundial do Turismo. O cenário melhorou em 2016, com 6,6 milhões de turistas (o que não deve resultar em uma subida considerável no ranking, diga-se), mas o turismo representa apenas 0,3% do PIB nacional, um percentual menor que o do Iraque. Isso já mostra quanto o país tem potencial para crescer nesse setor, sobretudo considerando o apelo que possui em várias áreas e à boa avaliação (não na organização, mas na hospitalidade) como anfitrião de eventos como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos.

O Rio de Janeiro deveria se concentrar em atrair mais gente, em convencer milhares ou milhões de turistas a irem à Cidade Maravilhosa ao invés de buscarem destinos como Tailândia, México ou África do Sul (países à frente do Brasil no ranking da OMT). Esses turistas deixariam seu dinheiro no comércio, na bilheteria em atrações turísticas e, no final das contas, reforçariam o caixa da prefeitura e do governo estadual.

O problema é que isso dá trabalho. Seria necessário montar uma estratégia para elevar ainda mais o Rio como destino internacional, aumentando a promoção (propaganda) no exterior, desenvolvendo mais as atrações existentes na cidade (melhorando as que existem e criando novas) e atacando os pontos negativos do ponto de vista do turista (violência, desorganização nos serviços públicos, zika). Ao cobrar um imposto, por mais baixo que ele pareça, só se cria uma atitude antipática que pode atrapalhar na hora de um visitante escolher entre o Rio ou outro destino.

Itália, França e Estados Unidos não precisam se esforçar tanto para convencer o turista. Esses países ocupam três das cinco primeiras posições no ranking da OMT, sinal de que sua indústria do turismo já está bem estruturada e várias de suas atrações turísticas são conhecidas mundialmente. Pessoas de todos os cantos do globo têm como sonho conhecer lugares como o Coliseu, a Torre Eiffel e o Grand Canyon, comer uma legítima massa italiana, tomar um vinho francês recém-saído do barril ou tirar uma foto com o Mickey Mouse. E elas se dispõem a pagar uma taxa para cada noite dormida se for o caso.

O pior é que o tal imposto teria pouco efeito prático no caixa municipal. O Rio de Janeiro recebeu 1,9 milhão de turistas estrangeiros em 2014, segundo o Euromonitor. Se cada um pagar os tais “cinco reais” mencionados por Crivella, seriam R$ 9,5 milhões. Se a taxa for cobrada por noite dormida – como é na Itália, na França e nos EUA -, o ganho seria de R$ 113,05 milhões. Se a taxa for para todos os turistas, estrangeiros e os 7,3 milhões vindo de outras regiões do Brasil, a arrecadação seria de R$ 46 milhões para a cobrança única e R$ 259,05 milhões para a cobrança diária.

As contas acima consideram quatro dias de estadia média para o turista brasileiro e 11,9 para o estrangeiro, números levantados em pesquisa contratada pela TurisRio.

O imposto seria até justificável como atitude para resolver um problema imediato, mas ele está longe de resolver o problema de caixa da prefeitura. Os números parecem altos, sobretudo os R$ 259 milhões, mas são nanicos perto do orçamento do município (R$ 29,5 bilhões) e do gasto com dívidas (R$ 1,3 bilhão) previstos para 2017. E, se a medida em si não resolve, vale mais a pena fazer o turismo trazer dinheiro como uma atividade econômica em crescimento, e não como taxa para seus consumidores.

A rua pequena em tamanho, grande na música

O Leblon não é um bairro dos mais extensos, mas muitos de seus moradores nunca passaram pela rua Codajás. Compreensível. Ela é pequena e, apesar de ser oficialmente uma via pública, ficou no meio de uma área cercada por cancelas que se transformou no Jardim pernambuco, um dos condomínios mais caros do Rio de Janeiro. É uma via pacata, com clima quase de interior. Mas, há algumas décadas, era um dos pontos mais pulsantes da música brasileira.

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Foi na Codajás que Dorival Caymmi se instalou no Rio para criar seus filhos Danilo e Nana. Depois, a mesma rua teve como morador Tom Jobim. E ela nunca mais foi a mesma. Tom levava para sua casa alguns dos grandes nomes da MPB na década de 1960. Várias músicas saíam desses encontros, até que a própria rua começasse a se tornar personagem. Em “Caymmi Visita Tom”, há uma discreta menção a “navio da Codajás”, referência à casa em que tantos músicos se reuniam e que parecia uma embarcação.

Mas o grande momento da pequena via do Leblon veio com a parceria de Danilo Caymmi e Ronaldo Bastos. “Codajás” foi composta para ser como a rua: pequena, discreta e cheia de vida, com balanço e sentimento e um navio. Impossível esquecer o navio, tudo girava em torno dele.

Ouça Codajás na voz de Nana Caymmi

Obs.: sugestão de pauta da leitora Sonia Palhares Marinho

Nossa newsletter traz toda semana a história de alguma música que retrate uma cidade, um bairro, uma rua. Se você tem alguma sugestão para a sua cidade ou para algum lugar que você conhece (em qualquer parte do mundo), envie para redacao@outracidade.com.br e teremos o maior prazer de publicá-la. Os textos serão publicados originalmente na newsletter, toda quinta, e reproduzido no Outra Cidade no final de semana. Para assinar a newsletter, clique aqui.

Maior legado paraolímpico seria ver um país com cidades mais acessíveis

Os Jogos Paraolímpicos de 2016 foram bem sucedidos em vários tipos de medição. O público nas arenas chegou a superar um dia dos Jogos Olímpicos, a audiência da TV foi marcante (ao menos na Sportv, pois ficou quase esquecida na TV aberta) e o Brasil teve recorde de medalhas, ainda que não tenha atingido a meta de ficar no quinto lugar no quadro. Mas o sucesso real não apareceu na TV, não subiu ao pódio, não se definiu com a extinção do fogo da pira paraolímpica no Maracanã. Ele se verá nas ruas.

Durante uma semana e meia, o público e a imprensa aprenderam a ver o para-atleta como um esportista capaz de competir em alto nível dentro de sua categoria. Mas o para-atleta e a Paraolimpíada representam um universo maior, que se celebra nesse 21 de setembro, o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência. A briga aí não é por condições de treinamento ou atenção de público e mídia, é pelo direito de se locomover com autonomia.

VEJA MAIS: Como as pessoas com deficiência podem melhorar as cidades

A cena final da Cerimônia de Abertura dos Jogos representaram isso, com uma escadaria se transformando em rampa para Clodoaldo Silva subir com sua cadeira de rodas e acender a pira paraolímpica. Mas o cenário montado no Maracanã não representa a realidade das cidades brasileiras (e de boa parte do mundo).

A estrutura para essas pessoas ainda é muito falha. Faltam calçadas niveladas e com boa pavimentação, faltam pisos podotáteis, faltam rampas. E, quando há essas coisas, às vezes não é feito com o cuidado necessário – e previsto por lei. Como no caso desse piso que leva um deficiente visual a dar uma cabeçada na árvore, no dessa rampa que derruba um cadeirante ou na falta respeito a vagas de estacionamento para deficientes. Os exemplos foram pinçados no Twitter, mas não precisa de muito esforço para qualquer brasileiro encontrar situações parecidas em sua cidade.

LOJAS: Aplicativo indica nível de acessibilidade de estabelecimentos comerciais

Nem no Rio de Janeiro, que viveu os Jogos Paraolímpicos de perto e refez parte de sua infraestrutura urbana, a situação está longe do ideal. O BRT e o VLT, feitos para os Jogos, são a aposta da prefeitura como exemplos de transporte público acessível. O jornal Extra fez uma experiência com um cadeirante dias antes da Paraolimpíada e o resultado não foi dos melhores, ainda que a secretaria municipal de transportes calcule em 91% os ônibus (incluindo 100% dos BRTs) com elevadores para cadeiras de rodas.

Em São Paulo, a prefeitura afirma que 49,9% dos ônibus tenham estrutura para cadeirantes após uma renovação da frota em 2015. É uma evolução considerável, mas, no fundo, significa que um usuário de cadeira de rodas não consegue acessar normalmente metade dos ônibus da maior cidade do país, quando o ideal era poder pegar todos. E, de qualquer modo, não adianta adaptar os ônibus, BRTs, VLTs, trens e metrôs se as calçadas continuam sendo armadilhas para quem tem dificuldade de locomoção (o que não considera apenas cadeirantes, mas quem tem muletas ou caminha com dificuldade, mesmo sem usar algum equipamento de auxílio).

É o caso de Londres, a cidade que recebeu a edição mais bem sucedida dos Jogos Paraolímpicos em 2012. Quatro anos depois, a infraestrutura para portadores de deficiência ainda precisa melhorar na capital inglesa. Em entrevista ao jornal O Globo, Brett Smith, professor da Escola de Esporte, Exercício e Reabilitação da Universidade de Birmingham, afirmou que a Paraolimpíada “falhou, e muito, em tornar Londres um lugar melhor e mais acessível para as pessoas com deficiência”.

TRANSPORTE: Rio terá ponto que avisa deficientes visuais que o ônibus chegou

De fato, ainda há o que melhorar. O metrô de Londres se orgulha em dizer que 50% do sistema está adaptado. É verdade, mas o dado é utilizado de forma bastante generosa. Basta olhar um mapa recente para perceber que as estações acessíveis estão fortemente concentrada nas linhas de DLR (veículo leve sobre trilho), construídas recentemente em regiões de urbanização recente (com menos usuários) e com capacidade de transporte muito menor que um trem ou metrô convencional. No centro, a área 1 do mapa, onde há mais concentração de usuários, só 11 das 53 paradas (20,8%) têm elevador ou estrutura para cadeiras de rodas.

As dificuldades de Londres, mesmo quatro anos após os Jogos, mostra como a luta por mais acessibilidade nas cidades é dura e longa. Mas é fundamental que a inspiração dos para-atletas não se limite ao desempenho esportivo, mas também em alertar que há milhões de pessoas em situação parecida apenas querendo a oportunidade de mostrar que, se um portador de deficiência pode brilhar na piscina e nas pistas, não há motivo para ele não conseguir ir sozinho à padaria ao lado de sua casa.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

[Galeria] Onde as pessoas se reúnem para protestar em cada cidade

Espaços públicos são mais que áreas de lazer e convivência dentro de cidades. Praças, parques e avenidas sempre foram importantes para as pessoas se reunirem e manifestarem sua vontade. Seja como demonstração de solidariedade após uma tragédia a, mais comum, protestos contra determinada política pública ou contra a situação em geral de uma cidade ou país.

LEIA MAIS: Autoridades podem exigir aviso prévio para autorizar manifestações?

Desde 2013, os brasileiros redescobriram essa vocação dos espaços públicos, desde os protestos contra o aumento da passagem de ônibus, que se transformou em manifestações contra os serviços públicos, contra a corrupção, contra a Copa do Mundo, contra o governo Dilma Rousseff e, mais recentemente, contra seu impeachment. A lei protege esse direito a manifestação, ainda que essa seja uma questão polêmica dentro de setores da sociedade brasileira.

Veja abaixo como praças e avenidas tiveram papel importante em diversos momentos de insatisfação popular pelo Brasil e pelo mundo:

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Veja quais são as cidades brasileiras com maior número de eleitores

A campanha eleitoral começou (não sei se dá para dizer “finalmente começou”, pois há dúvidas se é algo que a população esperava com ansiedade) e dezenas de milhões de brasileiros irão às urnas decidir o futuro de seus municípios. Apesar de o pleito ficar um pouco ofuscado pelo processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, trata-se de um momento importante pelo estágio da sociedade brasileira. As pessoas começam a mudar a forma de ver sua relação com os locais em que vivem, e o primeiro palco em que esse fenômeno se manifesta são as cidades.

ENTREVISTA: “Administrar uma cidade é muito mais complicado que um país”, diz socióloga holandesa

A população rediscute o espaço urbano e, por tabela, a forma como as autoridades lidam com ele. As eleições municipais representam uma grande oportunidade de as pessoas mostrarem que tipo de política desejam dos futuros gestores públicos.

Para esse início oficial da campanha eleitoral, vamos mostrar quais as cidades que mobilizarão mais pessoas em 2 e 30 de outubro. Apontamos as 15 capitais e as 15 não-capitais (não dá para dizer que são cidades do interior, pois a maioria desses municípios fica na região metropolitana das capitais) com mais eleitores registrados no TSE.

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Assentos vazios mostram como Rio-2016 esqueceu o povo

Ir do Parque Olímpico da Barra da Tijuca para o de Deodoro era fácil. Bastava ir ao terminal de BRT, pegar uma linha expressa criada para a Rio-2016 e trafegar pela TransOlímpica sem praticamente nenhuma parada pelo caminho. Pronto, chegava-se ao destino em 20 minutos. Parecia um mundo à parte, em que o Rio de Janeiro de verdade não tinha lugar. E era isso mesmo.

O torcedor ou jornalista que se dedicasse a olhar pela janela durante esse trajeto veria uma cidade que ficou de lado nos Jogos Olímpicos. A via expressa beneficiará milhões de pessoas quando for aberta ao trânsito comum, mas era exclusiva para o transporte olímpico. Para ter certeza que a grandiosidade do subúrbio carioca não tentaria engolir esse trajeto, caminhões militares cercavam qualquer ponto de contato – acessos, comunidades pelo caminho – da TransOlímpica com o mundo real.

A imagem impressiona, até pela atitude visualmente agressiva de como o universo olímpico e o universo real tinham de ficar separados. Da mesma forma que colocar a pira olímpica na frente da Candelária tinha um simbolismo forte de integrar cidade e olimpismo, mas muito disso se perdia quando alguém que passasse diante da igreja percebesse que a chama estava isolada da praça e do resto do centro do Rio por barreiras, criando um corredor entre o fogo e o Boulevard Olímpico, uma área revitalizada para receber os turistas durante o evento.

No final das contas, o Rio de Janeiro até saiu da Olimpíada com um balanço positivo, inclusive na questão de segurança. Afinal, o caso mais notório de violência contra algum atleta não foi real. Mas os organizadores esqueceram que o carioca, sobretudo o de classe baixa e média-baixa, não deveria ser visto como um potencial criador de problemas. Eles seriam a resposta para muita coisa. Inclusive uma das principais falhas dos Jogos: encher as arquibancadas.

Várias competições foram realizadas diante de assentos vazios. A imprensa internacional apontou esse fato como um dos fatores negativos da Rio-2016, com razão. Um dos motivos é a falta de popularidade de várias modalidades no Brasil, também houve casos de entradas nas mãos de cambistas, mas essas não são as únicas razões. Algumas disputas estavam com ingressos esgotados e, mesmo assim, havia lugares disponíveis.

Caminhão do Exército isola a TransOlímpica da favela Asa Branca, em Jacarepaguá (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Caminhão do Exército isola a TransOlímpica da favela Asa Branca, em Jacarepaguá (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

A organização apontou para os patrocinadores, que têm parte dos ingressos em todas as competições e nem todos foram honrados. É bem possível que isso seja verdade, até porque não seria inédito. Em Londres-2012 ocorreu a mesma coisa. E, na época, os britânicos viram nesse caso uma oportunidade de levar os Jogos Olímpicos às comunidades. Escolas públicas receberam esses ingressos, enchendo as arquibancadas e aumentando o contato de crianças, sobretudo em bairros com menor poder aquisitivo, com o esporte.

A Olimpíada carioca não fez essa conexão, em parte porque não pôde. A lei eleitoral impede que a prefeitura doe bens no período de campanha, uma regra que até faz sentido no geral, mas acabou tendo o efeito colateral de impedir uma ação que claramente beneficiaria a comunidade. O objetivo das autoridades municipais era ceder 547 mil entradas para alunos da rede pública com boas notas, entidades ligadas a deficientes e servidores públicos.

De qualquer forma, haveria outras formas de colocar a população nos eventos. Várias competições tinham ingressos acessíveis, entre R$ 20 e 40, o que daria entre R$ 50 e 100 para um casal com um filho. Ainda que esse dinheiro faça falta para muitos brasileiros, está ao alcance de milhões que se disponham a um esforço para um momento único na história da cidade.

O problema é que esses milhões nunca acharam que os Jogos eram para eles, que estavam ao alcance. O marketing não foi voltado a eles, o processo de venda teve fases complexas (como sorteio) e tendia a afastar quem já achava que não teria espaço, que aquilo tudo não lhe pertencia também. Uma impressão perfeitamente compreensível, se considerarmos que os investimentos nas estruturas olímpicas se voltaram ao público de alto poder aquisitivo e que a separação da população comum dos torcedores era garantida por caminhões e mais caminhões do Exército.

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