Maior legado paraolímpico seria ver um país com cidades mais acessíveis

Os Jogos Paraolímpicos de 2016 foram bem sucedidos em vários tipos de medição. O público nas arenas chegou a superar um dia dos Jogos Olímpicos, a audiência da TV foi marcante (ao menos na Sportv, pois ficou quase esquecida na TV aberta) e o Brasil teve recorde de medalhas, ainda que não tenha atingido a meta de ficar no quinto lugar no quadro. Mas o sucesso real não apareceu na TV, não subiu ao pódio, não se definiu com a extinção do fogo da pira paraolímpica no Maracanã. Ele se verá nas ruas.

Durante uma semana e meia, o público e a imprensa aprenderam a ver o para-atleta como um esportista capaz de competir em alto nível dentro de sua categoria. Mas o para-atleta e a Paraolimpíada representam um universo maior, que se celebra nesse 21 de setembro, o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência. A briga aí não é por condições de treinamento ou atenção de público e mídia, é pelo direito de se locomover com autonomia.

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A cena final da Cerimônia de Abertura dos Jogos representaram isso, com uma escadaria se transformando em rampa para Clodoaldo Silva subir com sua cadeira de rodas e acender a pira paraolímpica. Mas o cenário montado no Maracanã não representa a realidade das cidades brasileiras (e de boa parte do mundo).

A estrutura para essas pessoas ainda é muito falha. Faltam calçadas niveladas e com boa pavimentação, faltam pisos podotáteis, faltam rampas. E, quando há essas coisas, às vezes não é feito com o cuidado necessário – e previsto por lei. Como no caso desse piso que leva um deficiente visual a dar uma cabeçada na árvore, no dessa rampa que derruba um cadeirante ou na falta respeito a vagas de estacionamento para deficientes. Os exemplos foram pinçados no Twitter, mas não precisa de muito esforço para qualquer brasileiro encontrar situações parecidas em sua cidade.

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Nem no Rio de Janeiro, que viveu os Jogos Paraolímpicos de perto e refez parte de sua infraestrutura urbana, a situação está longe do ideal. O BRT e o VLT, feitos para os Jogos, são a aposta da prefeitura como exemplos de transporte público acessível. O jornal Extra fez uma experiência com um cadeirante dias antes da Paraolimpíada e o resultado não foi dos melhores, ainda que a secretaria municipal de transportes calcule em 91% os ônibus (incluindo 100% dos BRTs) com elevadores para cadeiras de rodas.

Em São Paulo, a prefeitura afirma que 49,9% dos ônibus tenham estrutura para cadeirantes após uma renovação da frota em 2015. É uma evolução considerável, mas, no fundo, significa que um usuário de cadeira de rodas não consegue acessar normalmente metade dos ônibus da maior cidade do país, quando o ideal era poder pegar todos. E, de qualquer modo, não adianta adaptar os ônibus, BRTs, VLTs, trens e metrôs se as calçadas continuam sendo armadilhas para quem tem dificuldade de locomoção (o que não considera apenas cadeirantes, mas quem tem muletas ou caminha com dificuldade, mesmo sem usar algum equipamento de auxílio).

É o caso de Londres, a cidade que recebeu a edição mais bem sucedida dos Jogos Paraolímpicos em 2012. Quatro anos depois, a infraestrutura para portadores de deficiência ainda precisa melhorar na capital inglesa. Em entrevista ao jornal O Globo, Brett Smith, professor da Escola de Esporte, Exercício e Reabilitação da Universidade de Birmingham, afirmou que a Paraolimpíada “falhou, e muito, em tornar Londres um lugar melhor e mais acessível para as pessoas com deficiência”.

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De fato, ainda há o que melhorar. O metrô de Londres se orgulha em dizer que 50% do sistema está adaptado. É verdade, mas o dado é utilizado de forma bastante generosa. Basta olhar um mapa recente para perceber que as estações acessíveis estão fortemente concentrada nas linhas de DLR (veículo leve sobre trilho), construídas recentemente em regiões de urbanização recente (com menos usuários) e com capacidade de transporte muito menor que um trem ou metrô convencional. No centro, a área 1 do mapa, onde há mais concentração de usuários, só 11 das 53 paradas (20,8%) têm elevador ou estrutura para cadeiras de rodas.

As dificuldades de Londres, mesmo quatro anos após os Jogos, mostra como a luta por mais acessibilidade nas cidades é dura e longa. Mas é fundamental que a inspiração dos para-atletas não se limite ao desempenho esportivo, mas também em alertar que há milhões de pessoas em situação parecida apenas querendo a oportunidade de mostrar que, se um portador de deficiência pode brilhar na piscina e nas pistas, não há motivo para ele não conseguir ir sozinho à padaria ao lado de sua casa.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Assentos vazios mostram como Rio-2016 esqueceu o povo

Ir do Parque Olímpico da Barra da Tijuca para o de Deodoro era fácil. Bastava ir ao terminal de BRT, pegar uma linha expressa criada para a Rio-2016 e trafegar pela TransOlímpica sem praticamente nenhuma parada pelo caminho. Pronto, chegava-se ao destino em 20 minutos. Parecia um mundo à parte, em que o Rio de Janeiro de verdade não tinha lugar. E era isso mesmo.

O torcedor ou jornalista que se dedicasse a olhar pela janela durante esse trajeto veria uma cidade que ficou de lado nos Jogos Olímpicos. A via expressa beneficiará milhões de pessoas quando for aberta ao trânsito comum, mas era exclusiva para o transporte olímpico. Para ter certeza que a grandiosidade do subúrbio carioca não tentaria engolir esse trajeto, caminhões militares cercavam qualquer ponto de contato – acessos, comunidades pelo caminho – da TransOlímpica com o mundo real.

A imagem impressiona, até pela atitude visualmente agressiva de como o universo olímpico e o universo real tinham de ficar separados. Da mesma forma que colocar a pira olímpica na frente da Candelária tinha um simbolismo forte de integrar cidade e olimpismo, mas muito disso se perdia quando alguém que passasse diante da igreja percebesse que a chama estava isolada da praça e do resto do centro do Rio por barreiras, criando um corredor entre o fogo e o Boulevard Olímpico, uma área revitalizada para receber os turistas durante o evento.

No final das contas, o Rio de Janeiro até saiu da Olimpíada com um balanço positivo, inclusive na questão de segurança. Afinal, o caso mais notório de violência contra algum atleta não foi real. Mas os organizadores esqueceram que o carioca, sobretudo o de classe baixa e média-baixa, não deveria ser visto como um potencial criador de problemas. Eles seriam a resposta para muita coisa. Inclusive uma das principais falhas dos Jogos: encher as arquibancadas.

Várias competições foram realizadas diante de assentos vazios. A imprensa internacional apontou esse fato como um dos fatores negativos da Rio-2016, com razão. Um dos motivos é a falta de popularidade de várias modalidades no Brasil, também houve casos de entradas nas mãos de cambistas, mas essas não são as únicas razões. Algumas disputas estavam com ingressos esgotados e, mesmo assim, havia lugares disponíveis.

Caminhão do Exército isola a TransOlímpica da favela Asa Branca, em Jacarepaguá (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Caminhão do Exército isola a TransOlímpica da favela Asa Branca, em Jacarepaguá (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

A organização apontou para os patrocinadores, que têm parte dos ingressos em todas as competições e nem todos foram honrados. É bem possível que isso seja verdade, até porque não seria inédito. Em Londres-2012 ocorreu a mesma coisa. E, na época, os britânicos viram nesse caso uma oportunidade de levar os Jogos Olímpicos às comunidades. Escolas públicas receberam esses ingressos, enchendo as arquibancadas e aumentando o contato de crianças, sobretudo em bairros com menor poder aquisitivo, com o esporte.

A Olimpíada carioca não fez essa conexão, em parte porque não pôde. A lei eleitoral impede que a prefeitura doe bens no período de campanha, uma regra que até faz sentido no geral, mas acabou tendo o efeito colateral de impedir uma ação que claramente beneficiaria a comunidade. O objetivo das autoridades municipais era ceder 547 mil entradas para alunos da rede pública com boas notas, entidades ligadas a deficientes e servidores públicos.

De qualquer forma, haveria outras formas de colocar a população nos eventos. Várias competições tinham ingressos acessíveis, entre R$ 20 e 40, o que daria entre R$ 50 e 100 para um casal com um filho. Ainda que esse dinheiro faça falta para muitos brasileiros, está ao alcance de milhões que se disponham a um esforço para um momento único na história da cidade.

O problema é que esses milhões nunca acharam que os Jogos eram para eles, que estavam ao alcance. O marketing não foi voltado a eles, o processo de venda teve fases complexas (como sorteio) e tendia a afastar quem já achava que não teria espaço, que aquilo tudo não lhe pertencia também. Uma impressão perfeitamente compreensível, se considerarmos que os investimentos nas estruturas olímpicas se voltaram ao público de alto poder aquisitivo e que a separação da população comum dos torcedores era garantida por caminhões e mais caminhões do Exército.

A gambiarra ajudou Olimpíada, mas não pode virar filosofia de trabalho

“Gambiarra rocks, gambiarra é maravilha, gambiarra é pura criação.”

A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2016 teve como tema oficial a cultura brasileira e a preservação do meio ambiente. No entanto, um tema subliminar foi a capacidade dos brasileiros de improvisarem, fazerem muito com pouco. Por isso, a diretora criativa do evento, Daniela Thomas, fez uma ode à gambiarra como recurso para resolver problemas. De fato, toda a Rio-2016 tem mostrado isso, mas em um nível preocupante.

Os primeiros dias olímpicos foi de muita confusão. Desde coisas ligadas ao evento em si, como filas para entradas de torcedores no Parque Olímpico até falta de comida nas arenas, até ao transporte público para as áreas de competição. No final das contas, a organização está se virando: colocaram food trucks no Parque Olímpico, aumentaram a quantidade de entradas e reduziram o rigor da revista, ampliaram o horário de operação de uma linha de metrô e criaram um bilhete unitário para o BRT olímpico.

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Houve até elogios à capacidade de adaptação do Rio de Janeiro e constatações que foram entre “as coisas melhoraram” e “agora está funcionando”. OK, o incêndio foi momentaneamente apagado e, piscinas verdes à parte, os Jogos estão acontecendo e mostrando todas as possibilidades criadas pela cultura da gambiarra. Mas não é suficiente.

Usar o improviso para encontrar soluções é uma virtude quando surgem problemas inesperados ou imprevisíveis, mas vários erros da Rio-2016 surgiram por falhas claras de planejamento (como imaginar que as pessoas teriam fome se ficassem horas em uma arena sem lanchonete ou que o transporte olímpico precisa considerar que alguns eventos terminam perto da 0h30). O que explica muito da dificuldade em usar os Jogos como forma de trazer melhorias efetivas para a cidade. Certas coisas não são resolvidas na gambiarra.

O problema do transporte é um exemplo. Aumentar a quantidade de BRTs circulando nas áreas olímpicas e o horário de funcionamento do metrô atendem às necessidades emergenciais dos Jogos, mas não mudam o fato de que moradores de regiões como Santa Cruz, Campo Grande e Paciência, continuam se espremendo no TransOeste em trajetos que poderiam ser servidos por um modal com mais capacidade de carga. Do mesmo jeito que o monitoramento da Baía de Guanabara impediu que sardinhas descartadas por pescadores atrapalhassem regatas da vela, mas não a deixará limpa.

Grandes projetos como o legado de Jogos Olímpicos precisam de planejamento. A gambiarra fica para a bela cerimônia de abertura.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Inflação durante grandes eventos é mais nociva do que parece

É a oportunidade de ouro, quase literalmente. Um grande evento vem para a sua cidade, pessoas de todo o mundo chegam com dólares e euros para gastar. Hora de tirar a lei da oferta e da procura do bolso e elevar os preços para faturar o máximo possível.

Trata-se de uma sequência de eventos comuns em locais que recebem grandes eventos internacionais, em diversos países. Mas há um limite do bom senso, em que o reajuste se torna eticamente discutível. Um problema que se tornou recorrente no Brasil nos últimos anos, quando foi sede da Rio+20 (2012), Jornada Mundial da Juventude (2013), Copa do Mundo (2014) e Jogos Olímpicos (2015).

A Cerimônia de Abertura da Rio-2016 ocorreu nesta sexta, mas já surgiram relatos de preços extorsivos em parte do comércio e do setor de hospedagem. São notícias muito semelhantes às que vimos há dois anos na Copa do Mundo, envolvendo várias cidades brasileiras.

Preço da comida no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Preço da comida no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Por uma lógica de mercado, o comerciante está liberado para praticar o preço que quiser e, eventualmente, terá como retorno a fuga de clientes. Mas, quando quase todo um setor adota essa medida, o consumidor está cercado. No caso de turistas, mais vulneráveis pelo pouco conhecimento da área e dos preços normalmente adotados, é difícil buscar opções.

Algumas das maiores cidades brasileiras entenderam que a organização de eventos é uma fonte de renda importante, por atrair turistas, negócios e investimentos. Por isso, é preciso também trabalhar para entender que receber continuamente feiras, congressos, competições esportivas e espetáculos musicais dependem de entender o funcionamento desse setor. E elevar agressivamente os preços só afastam organizadores e visitantes. E ainda atingem os locais.

Preço dos picolés no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Preço dos picolés no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Turista não é necessariamente um estrangeiro endinheirado que aproveitou seus recursos de sobra para atravessar o mundo. Turista também pode ser alguém com dinheiro contado, pode ser um outro brasileiro e pode até ser seu vizinho. Afinal, os pontos turísticos do forasteiro são os pontos de lazer do nativo.

Na época da Rio+20, o governo federal chegou a intervir para reduzir o preço das diários dos hotéis, pois membros de delegações estrangeiras estavam desistindo de vir ao Brasil. Durante a Copa do Mundo, vários comerciantes e até donos de imóveis cobravam quantias irreais para alugar suas casas para emissoras de TVs interessadas em montar estúdios próximos a estádios ou mesmo para torcedores. Acabaram ficando na mão.

É um pouco o pensamento, alimentados pelas próprias autoridades, de achar que grandes eventos são como ganhar na loteria, o momento mágico em que chegará um dinheiro fácil e rápido para resolver a vida de todos. Seria muito melhor investir em longo prazo, e construir a imagem de uma cidade ou um país adequado para receber o resto do mundo.

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Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Rio corrige erro do bilhete olímpico, mas confusão ainda reina

“Não tinha esse bilhete olímpico unitário, mas reclamaram tanto que criaram em cima da hora. Só que não pode comprar essa passagem na máquina, só na bilheteria.”

A atendente da estação Salvador Allende do BRT se esforça, mas não consegue evitar o constrangimento. Por mais que a prefeitura do Rio de Janeiro tenha divulgado insistentemente que o transporte público era a melhor forma de chegar às arenas dos Jogos Olímpicos, fica cada vez mais evidente que o sistema não estava preparado. O erro de criar um bilhete olímpico sem passagem unitária foi corrigido, mas diversos outros seguem.

A forma de criar essa passagem unitária (por R$ 7,60, o dobro de uma viagem convencional de BRT) diz muito. Em vez de ser carregada no RioCard olímpico, ela é colocada dentro do Bilhete Único convencional. Dessa forma, é vendida como uma passagem normal, na bilheteria. Não parece um grande problema, exceto pelo fato que isso impede sua compra por cartão – só dinheiro vivo – e uso na linha 4 do metrô, ainda exclusivas do portador do cartão olímpico.

Máquina para venda automática do RioCard olímpico em manutenção (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Máquina para venda automática do RioCard olímpico em manutenção (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Mas não é só isso. O próprio RioCard olímpico tem problemas. O sistema das máquinas para venda automática cai constantemente, formando filas enormes nos terminais que funcionam (até porque estão presentes em poucas estações do BRT, e nem os funcionários sabem ao certo quais). Além disso, a compra tem de ser feita um a um. Para o torcedor que quer comprar vários cartões, é preciso muita paciência.

O mais grave, porém, é que esses terminais só aceitam dinheiro vivo e cartão de débito. Para os milhares de turistas que vieram ao Rio contando com o cartão de crédito para suas operações, isso representa um grave obstáculo e ainda o obriga a correr o risco de andar com muito dinheiro na carteira.

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O sistema olímpico ineficiente no primeiro fim de semana dos Jogos contribuiu para que muitos usuários olímpicos (torcedores e milhares de voluntários que trabalham no evento) utilizassem o transporte convencional da cidade. As linhas de BRT que passam pela Barra da Tijuca estão sobrecarregadas. Além disso, as carências do sistema ficaram mais expostas: na Rio 2, parada mais próxima do Parque Olímpico da Barra, uma das bilheterias estava fechada às 21h, obrigando milhares de pessoas a contornar a estação. No trem que leva ao Parque Olímpico de Deodoro, o intervalo entre as composições era de 40 minutos.

Ir do Recreio dos Bandeirantes ao Maracanã exigia 2 horas entre dois BRTs e três linhas de metrô.Total: mais de duas horas.

A prefeitura prometeu corrigir os problemas  das filas no Parque Olímpico e de falta de comida nas arenas. Que olhe também para o transporte público. Até porque ele afeta a todos, turistas e cariocas.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

[Galeria] Dez cidades, onze piras olímpicas

Uma pira pequena, parecendo quase uma cuia. Poderia passar despercebida, mas atrás dela está uma escultura cinética do artista norte-americano Anthony Howe. O conjunto visa dar amplitude à luz das chamas, mas sem consumir muito combustível.

O resultado é marcante, certamente se tornará uma das imagens icônicas dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Por isso, para nossa galeria de sábado, resolvemos refrescar a memória de vocês e relembrar como dez cidades interpretaram esse elemento para criar símbolos para suas Olimpíadas.

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Abertura mostrou o que toda a Rio-2016 poderia ser para o Brasil

Quando o Brasil foi definido como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, rapidamente veio o discurso de “fazer o possível”, fazer eventos “com cara e limitações do Brasil”. Tudo isso foi esquecido, termos como “Padrão Fifa” surgiram no noticiário para argumentar que o único jeito de realizar tais competições era gastar uma fortuna.

No final, os brasileiros viram bilhões serem gastos em várias arenas esportivas superdimensionadas ou desnecessárias e pouco dinheiro para a essência, a infraestrutura que geraria o legado. Duas enormes oportunidades perdidas, que talvez jamais sejam recuperadas.

Ao menos, temos um exemplo para mostrar como tudo poderia ser feito. A Cerimônia de Abertura da Rio-2016 primou por fazer o que todo o resto evento (e a Copa também) não fez: mostrou que é possível realizar uma apresentação de alto nível, dentro dos padrões internacionais, aceitando as limitações orçamentárias óbvias de qualquer país em desenvolvimento.

A abertura olímpica carioca custou metade da londrina, quatro anos atrás. E os ingleses já haviam sido muito mais econômicos em relação a Pequim-2008. No final, o Brasil entregou um espetáculo com sua cara, tanto ao expor sua cultura quanto por aceitar suas limitações. E o resultado foi aceito por todos. Não precisávamos do “Padrão Fifa”. Precisávamos fazer as coisas do nosso jeito. Mas agora já não dá para mudar.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Encalhe do RioCard reforça nosso pedido por bilhete olímpico unitário

A notícia veio com um tom de preocupação, mas não de surpresa. Apenas 100 mil Riocards – o bilhete único para uso durante os Jogos Olímpicos – foram vendidos até esta terça (2), um quinto do estimado pela prefeitura do Rio de Janeiro. A procura certamente crescerá com o início das competições, mas deixa a dúvida se a meta de 1,5 milhão será atingida. Uma possibilidade que dava para imaginar pelos pacotes disponíveis.

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Nós já criticamos o modelo adotado pelas autoridades cariocas, que colocaram preços altos para o bilhete (com duração de um, três ou sete dias), entre R$ 25 e 160, e acabam incentivando as pessoas a buscarem táxis, Uber ou carro particular. Os números de venda para a semana pré-Jogos reforçam uma baixa aceitação inicial e, no mínimo, o usuário está fazendo muita conta para ver se vale a pena pagar o valor cobrado.

Isso é um problema em potencial, imaginando que o Riocard foi criado justamente para evitar procura em cima da hora. Veja o que o secretário executivo da prefeitura, Rafael Picciani, disse ao UOL:

“Muitas pessoas estão aguardando para comprar o bilhete só quando estiverem indo para as arenas, mas o produto foi criado justamente para ser comprado antes. Recomendamos que as pessoas comprem o Riocard para terem mais conforto no deslocamento.”

O problema é que a compra antecipada depende do convencimento rápido dos usuários a respeito dos benefícios do sistema, sobretudo para os cariocas, que já conhecem bem as dificuldades de deslocamento na capital fluminense. Mas os preços adotados são particularmente ruins para quem já mora no Rio, pois esse público não tem motivos para ficar o dia todo se deslocando pela cidade para conhecer seus pontos turísticos. Ele só precisa de transporte para ir ao evento para o qual ele tem ingresso e voltar para casa depois.

Transcarioca parando no ponto do aeroporto do Galeão (Divulgação/NOP-Bus/Inbus Transport)
Transcarioca parando no ponto do aeroporto do Galeão (Divulgação/NOP-Bus/Inbus Transport)

Os preços são interessantes para o turista que vai para três ou quatro pontos diferentes do Rio em um só dia. Como o Riocard permite uso ilimitado entre todo o transporte público da cidade (e ainda é o único meio de utilizar a Linha 4 do metrô e duas linhas novas de BRT com paradas muito próximas às arenas), é ideal para um visitante que acorde em Copacabana, vá ao Museu do Amanhã no centro de manhã, veja uma competição em Deodoro no meio da tarde, acompanhe um jogo na Barra da Tijuca/Jacarepaguá à noite e volte ao hotel em Copacabana no fim da jornada.

Nem todos farão isso, e não apenas entre os cariocas. O próprio sistema de venda de ingressos dos Jogos incentiva o torcedor a procurar competições geograficamente próximas para o mesmo dia. Uma medida facilitada pelo fato de a maior parte das modalidades de grande apelo de público terem sede no Parque Olímpico da Barra. Só vôlei, futebol e atletismo (região do Maracanã/Engenhão), vôlei de praia (Copacabana) e uma parte do basquete (Deodoro) estarão em outras áreas do Rio.

Isso poderia ser contornado com uma medida simples: o bilhete unitário. Se houvesse essa modalidade de compra, em que o usuário carregaria o Riocard com alguns reais e o valor da passagem é debitado a cada uso, ele caberia sob medida a cariocas e turistas que pretendem usar o transporte apenas duas ou três vezes em um dia.

E pensar que o projeto dos Jogos do Rio previa transporte gratuito.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

O maior pecado da vila olímpica não é o encanamento

“Não precisamos de cangurus, precisamos de encanadores.” A delegação da Austrália estava indignada com a forma como Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, reagiu aos protestos australianos sobre a situação da Vila dos Atletas. O caso rapidamente cresceu, com outros relatos da falta de acabamento das habitações em que os competidores ficarão durante a Rio-2016. As redes sociais brasileiras reagiram, muitas vezes expressando a vergonha pelo problema.

Ainda que a confusão tenha sido contornada rapidamente, com um mutirão de trabalhadores finalizando os apartamentos a toque de caixa, foi um momento constrangedor. Mas a situação da vila olímpica não pode, nem deve, ser vista apenas por esse prisma. Ela é muito mais grave que ajustes no sistema hidráulico ou elétrico de um edifício.

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A construção de um legado tem sido um dos problemas mais delicados dos Jogos Olímpicos, onde quer que eles sejam realizados. Várias estruturas são desnecessárias para o dia a dia das cidades-sede e ficam sem uso após as competições. Calcular o retorno das obras é complicado. As arenas precisam de uma demanda por eventos esportivos e culturais para atraírem algum investidor disposto a bancá-las. As obras de infraestrutura precisam ser projetadas de modo a terem relevância no cotidiano da metrópole, pois não adianta uma grande rede de transporte para o Parque Olímpico se ninguém mais for ao local – e arredores – após os Jogos.

A Vila dos Atletas, ainda que represente um percentual pequeno do investimento total para o evento, tem um legado relativamente fácil de projetar. É uma espécie de novo bairro, composto por edifícios residenciais comuns, com tecnologia construtiva comum. A necessidade social e o comportamento do mercado para esse tipo de empreendimento também é fácil de estimar, pois há exemplos similares pela cidade.

Moradores da Vila Autódromo reclamam da interrupção de serviços para quem não quis a indenização oferecida pela prefeitura do Rio (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Moradores da Vila Autódromo reclamam da interrupção de serviços para quem não quis a indenização oferecida pela prefeitura do Rio (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Ainda assim, a vila olímpica tem vários problemas em sua concepção. A estrutura foi incluída na PPP para a construção do Parque Olímpico. Assim, as construtoras responsáveis por erguer as arenas esportivas em Jacarepaguá teriam a possibilidade de construir e explorar comercialmente os imóveis que serviriam de alojamento para os atletas.

Em teoria, esse modelo deveria garantir trabalho feito a tempo, com preço competitivo e sucesso comercial. Incorporadoras acompanham o comportamento do mercado e sabem quais empreendimentos têm mais saída a cada momento e quanto as pessoas estão pegando por cada tipo de imóvel.

O mercado imobiliário teve retração nos últimos anos, uma soma da crise do país com uma normalização de uma indústria que vivia em uma bolha, mas é difícil imaginar que apartamentos de padrão médio-alto em um condomínio fechado na Barra da Tijuca não tenham interessados. Ainda mais com a garantia dada pela Olimpíada que não haverá atraso nas obras e na entrega das chaves para seus moradores. Mesmo assim, só 50% dos 3,6 mil apartamentos, divididos em 31 torres, haviam sido vendidos até a última sexta.

O modelo comercial está mostrando problemas, mas ele é particularmente pior se imaginarmos o contexto em que a Vila dos Atletas se insere. Como qualquer investimento para os Jogos, poderia ser feito de modo a trazer algum retorno para a comunidade, o legado. Ainda que a prefeitura não tenha colocado dinheiro na construção dos prédios, ela bancou a infraestrutura de acesso e elaborou uma lei aumentando de 12 para 18 andares o gabarito para edificações na região. Por isso, era cabível imaginar uma contrapartida social.

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A vila olímpica precisa ter um nível de isolamento durante os Jogos, uma medida de segurança lógica após o atentado de um grupo terrorista à delegação de Israel na Olimpíada de 1972. Mas ela poderia ser concebida de modo a, terminadas as competições olímpicas e paralímpicas, se inserir no entorno, até como forma de dar à cidade um pouco daquilo que os Jogos trouxeram. A Vila dos Atletas não terá isso, pois ficará fechada como o condomínio Ilha Pura.

Edifícios da Vila dos Atletas e área comum do futuro condomínio (AP Photo/Leo Correa, via Outra Cidade)
Edifícios da Vila dos Atletas e área comum do futuro condomínio (AP Photo/Leo Correa, via Outra Cidade)

Outra possibilidade seria colocar os edifícios em si dentro de um contexto social. O terreno da vila olímpica não era ocupado, mas, logo ao lado, as comunidades de Vila Autódromo e Vila União foram removidas por ocuparem a área em que hoje está o Parque Olímpico. A retirada desses moradores, alguns com autorização para viverem no local, foi recheada de problemas e irregularidades. A Vila dos Atletas poderia ser projetada como habitação de interesse social e receber esses moradores ou, dentro de uma perspectiva comercial, ter em seu contrato a exigência que seus incorporadores também se responsabilizassem por atender a essas pessoas. Até porque os responsáveis pelo empreendimento da vila olímpica também farão condomínios no local de algumas arenas do Parque Olímpico. Há investimento imobiliário de sobra nesse pacote.

No final das contas, a vila olímpica não representará nenhum legado ao Rio de Janeiro, apenas aos moradores do Ilha Pura. Um problema muito mais grave que as falhas de encanamento, uma situação relativamente fácil de remediar e que, no fundo, tem impacto mais pelo constrangimento que traz do que algo mais sério e de longo prazo.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Como era a proposta de São Paulo para organizar os Jogos Olímpicos

O Rio de Janeiro já vive a reta final da preparação para os Jogos Olímpicos e já é possível ter uma boa ideia do que o evento deixará (e o que não deixará) para a cidade em infraestrutura urbana e esportiva. Não é mais um exercício de imaginação. Algo que podemos fazer com outra cidade brasileira: São Paulo, e sua pretensão não concretizada de receber a Olimpíada de 2012.

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O Brasil vivia uma obsessão olímpica. O Rio tentou sediar os Jogos em 1996 e foi pré-candidato para 2004. Brasília também iniciou uma campanha, mas não confirmou sua candidatura em 2000. Para 2012, duas cidades brasileiras apareceram com força, Rio, impulsionado pelo fato de ser sede do Pan-Americano de 2007, e São Paulo, que tentava melhorar sua imagem como metrópole moderna e funcional.

Para definir o representante brasileiro na competição mundial, foi feita uma disputa interna. Em votação realizada em 7 de julho de 2003, os presidentes das confederações das modalidades olímpicas elegeram a candidatura carioca, posteriormente derrotada por Londres. Mas essa experiência foi utilizada para vencer Madri, Tóquio e Chicago na concorrência pelos Jogos de 2016. Mas no que consistia a proposta paulista?

Logotipo de candidatura de São Paulo aos Jogos de 2012
Logotipo de candidatura de São Paulo aos Jogos de 2012

Como é comum em processo de candidatura para grandes eventos esportivos, havia várias promessas de como o legado para a população seria grande e o custo de viabilização não seria um problema. O comitê de São Paulo – que contava com o apoio da então prefeita Marta Suplicy e do então governador Geraldo Alckmin – teve a consultoria de Enrique Truño, coordenador-geral da Olimpíada de Barcelona, tida como modelo de legado olímpico para uma cidade.

NADA DE BICICLETA: Rio quer promover o esporte inibindo as pessoas de praticá-lo

O resultado foi um projeto que tentou aproveitar várias instalações da cidade para receber as competições. O custo nessa área foi prometido em US$ 1,64 bilhão*, boa parte dele concentrado no estádio Olímpico, uma estrutura com capacidade para 75 mil pessoas que seria erguida na Água Branca (zona oeste). Outros investimentos significativos seriam no ginásio olímpico do Anhembi, com 25 mil lugares, e no complexo de tênis do Parque Villa-Lobos, com 13 mil lugares.

Quase todas as competições seriam na capital paulista, mesmo que utilizando estruturas não-esportivas, como uma casa de espetáculos (Credicard Hall, atual Citibank Hall), e dois pavilhões de exposições (Expo Center Norte e Transamérica Expo Center). Fora de São Paulo, apenas a vela (São Sebastião), handebol (São Bernardo do Campo), canoagem slalom (Jundiaí) e futebol (alguns jogos em Santos e Rio de Janeiro). Veja na galeria abaixo quais seriam os locais de disputas olímpicas nos Jogos de São Paulo-2012.

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O grande problema da candidatura era o custo com infraestrutura. Apesar de haver cinco núcleos – Anhembi, Água Branca/Barra Funda, Cidade Universitária, Ibirapuera e Guarapiranga – concentrando várias instalações, as disputas ficariam espalhadas pela cidade. Veja no mapa abaixo, ou na versão ampliada aqui.

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Com isso, o gasto com transporte e mobilidade seria alto. Os principais investimentos seriam a construção 110,9 km de metrô – duas linhas novas (Morumbi-Luz e Raposo Tavares-Vila Guilherme) e ampliação das linhas verde e lilás – e construção de 300 km de ciclovias. No aspecto urbanístico, foi prometida a despoluição dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, a construção de uma nova rede de esgoto para a represa de Guarapiranga e a implantação de 30 novos parques públicos.

A cidade receberia três áreas urbanizadas: a Vila Olímpica (Água Branca), a Vila de Mídia (Anhembi) e a Vila dos Juízes (Cidade Universitária). Esses espaços teriam ligação com o aeroporto de Guarulhos por uma nova linha de trem e seriam comercializados para uso residencial após os Jogos.

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Todas essas intervenções tiveram custo estimado em US$ 10,01 bilhão. O valor faz parte direta do legado deixado à cidade, mas foi considerado alto pelo Comitê Olímpico Brasileiro (o Rio prometia organizar a Olimpíada por US$ 4,7 bilhões). O argumento das autoridades paulistas é que esse investimento era viável economicamente e não seria apenas para os Jogos. “A cidade precisa disso e vai fazer. Vamos dizer que é elevado a China gastar US$ 13 bilhões em meio ambiente? Ela está gastando porque pode e precisa. Então, não é elevado”, comentou na época Nádia Campeão, secretária municipal de esportes.

Mapa com a distribuição da estrutura olímpica pela capital paulista (Reprodução/Lance)
Mapa com a distribuição da estrutura olímpica pela capital paulista (Reprodução/Lance)

Nos dias que antecederam a eleição, os comitês de organização trocaram acusações. O paulista acusou o carioca de preparar um projeto muito incompleto e reclamou da possível influência de Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, em favor da capital fluminense. O Rio rebateu dizendo que sua cidade estava mais pronta e que São Paulo não teria condições de competir com Londres, Paris e Nova York, candidatas já confirmadas para aquela disputa.

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O Rio de Janeiro venceu por 23 a 10. No pronunciamento da vitória, o então prefeito César Maia não foi nada discreto ao cutucar São Paulo. “As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, comentou, fazendo referência a uma famosa frase de Vinícius de Moraes.

No final das contas, São Paulo viu pouco do que se imaginou há 13 anos. A oferta de arenas esportivas mudou bastante, com a reconstrução do Palestra Itália e o surgimento da Arena Corinthians. Isso praticamente mata a ideia de um novo estádio olímpico para 75 mil pessoas por falta de usuário para essa estrutura. Se a capital paulista fosse entrar em uma candidatura olímpica, provavelmente teria de usar algum estádio já existente (o candidato mais lógico seria o Morumbi) renovado para receber as provas de atletismo.

Mas isso é o de menos. Pior foi que, das promessas de infraestrutura que “seriam feitas de qualquer forma”, quase nada existe. Houve um grande incremento da rede de ciclovias e está em andamento o projeto de construção de um ginásio no Anhembi, mas as linhas de metrô ainda não foram entregues, não foram criados 30 parques novos e os rios seguem poluídos. E pensar que era para isso tudo estar pronto em 2012, quatro anos atrás.

* Todos os valores indicados são da época (2003)