Por que o ano começa em 1º de janeiro?

Calma, calma. A pergunta do título parece meio boba, mas não é tão simples assim. Acompanhe o raciocínio. Estamos acostumados a ver o calendário do jeito atual, começando em janeiro e terminando em dezembro. Logo, o primeiro dia do primeiro mês marca o início de um novo ciclo, do novo ano.

Tudo bem, isso é fácil de entender. Mas… por que o ano começa agora, no meio da segunda semana do inverno do hemisfério norte, onde foi criado o calendário gregoriano?  Por que a mudança de ciclo não está vinculada a algum marco como o solstício de verão (21 de junho no hemisfério norte) ou de inverno (21 de dezembro), ou no início da primavera? Ou então por que o ano não tem início no dia de algum acontecimento histórico, como o nascimento de Jesus?

LEIA MAIS: Que países não comemoram o Ano Novo em 1º de janeiro?

Vários calendários criados pela humanidade usavam alguns desses marcos para determinar o início de um novo ano. Os mesopotâmios adotavam o equinócio de março (25 de março) como dia do ano novo. Os atenienses iniciavam o ano na primeira lua cheia após o solstício de verão (21 de junho). O calendário chinês determina que o último mês de um ano é o mês lunar em que está o solstício de inverno (21 de dezembro no nosso calendário). Portanto, o ano normalmente* começa no mês em que aparece a segunda lua nova após 21 de dezembro, ou seja, no primeiro dia da lua nova entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro.

* O calendário chinês tem anos com número de dias diferentes. Por isso, ainda que menos comum, é possível que o ano comece na terceira lua nova após o solstício de inverno.

O calendário gregoriano, o mais comum no mundo atual, tem sua origem na Roma Antiga. Os romanos adotavam um calendário de dez meses, com o ano começando em 1º de março. Por isso, aliás, que setembro, outubro, novembro e dezembro têm esses nomes (eram os sétimo, oitavo, nono e décimo meses do ano). Posteriormente, foram criados os meses de janeiro e fevereiro, mas eles encerravam o calendário.

No entanto, em 153 aC, 1º de janeiro se tornou o dia da posse dos novos cônsuls, cargo político mais alto no período da república. Em 45 aC, Julio Cesar substituiu o antigo calendário romano pelo calendário juliano, determinando o início do ano em janeiro. Ainda assim, não era algo largamente aceita pela sociedade e por religiosos. Durante séculos, o Ano Novo foi comemorado em outras datas, como 1º de março (ainda pela tradição romana), 25 de março (Dia da Anunciação), Páscoa ou 25 de dezembro (Natal). 

VEJA TAMBÉM: Em que ano estamos em cada calendário usado no mundo

Em 1582, o Papa Gregório 13 anunciou a criação do calendário gregoriano (imagem acima), corrigindo pequenos erros do calendário juliano. Esse novo calendário restabeleceu o início do ano em 1º de janeiro, que também marcava a Festa da Circuncisão de Cristo (oitavo dia de vida de Jesus, quando, pela tradição judaica, ele foi circuncidado).

No entanto, apenas os países católicos o adotaram de imediato. Nações protestantes seguiam com suas datas civis e litúrgicas e foram trocando pouco a pouco, em um processo que levou séculos. Para se ter uma ideia, o Reino Unido e suas colônias (incluindo Canadá e Estados Unidos) celebravam o Ano Novo em 25 de março até 1752.

Ou seja, de um ponto de vista histórico, virar o ano em 1º de janeiro é algo relativamente novo. Nos EUA, por exemplo, é uma prática de menos de 300 anos. Porque, no final das contas, a data em que o calendário se renova é arbitrária, e qualquer momento poderia ser estipulado para tal.

Crescem casos de bullying contra alunos judeus nas escolas alemãs

School children attend a religious ceremony and observe a minute of silence at the Jewish school Kerem Menahen in Nice

A cada ano, uma média de dez estudantes judeus pedem transferência na Alemanha, deixando a rede pública para ingressar em alguma escola judaica privada. O motivo: bullying. Esse número se sustenta nos últimos anos, e reflete um perigoso crescimento nos casos de antissemitismo nas instituições de ensino alemãs.

A maior parte dos responsáveis pelos ataques seriam colegas de origem árabe e turca (mas nenhum caso registrado de refugiado, diga-se). O tema ficou particularmente preocupante porque, na última semana, até uma escola de Berlim que participa de um projeto contra o racismo no sistema educacional alemão acabou envolvida após a saída de um aluno judeu de 14 anos.

Como esta sexta (7) foi Dia Nacional de Combate ao Bullying, fiz uma nota com mais detalhes sobre esse caso no site da Gestão Escolar.

Ataques a mesquitas praticamente dobram nos EUA em 2017

Estamos apenas em março, nem um terço do ano foi completado, e já foram registrados 33 ataques a mesquitas em todos os Estados Unidos. Para se ter uma ideia do que isso representa, é quase o dobro do registrado entre 1º de janeiro e 20 de março de 2016 (17 incidentes). Um sinal claro de que o clima no país tem sido mais hostil aos muçulmanos nos últimos meses.

O levantamento é do Conselho de Relações Americano-Islâmicas, e considera qualquer tipo de ataque, de incêndio criminoso a pichação com palavras ofensivas. Os incidentes não se limitam a pequenas cidades conservadoras do interior, mas até a grandes cidades como Nova York, Atlanta e Denver.

A CNN (de onde reproduzi o mapa abaixo) publicou a lista completa. Vale a pena conferir.

Mapa com localização das mesquitas que foram atacadas nos EUA em 2017 (Reprodução)
Mapa com localização das mesquitas que foram atacadas nos EUA em 2017 (Reprodução)

Os Três Reis Magos não eram monarcas, muito menos mágicos

Dias após seu nascimento, o pequeno Jesus é visitado por três senhores, os Três Reis Magos. Eles foram guiados por uma estrela e chegaram a Belém levando ouro, incenso e mirra. O evento criou a tradição do Dia de Reis em 6 de janeiro, marcando o final dos festejos natalinos, e da troca de presentes. Uma tradição que e consolidou tanto que pouco se pensa no sentido dos termos. Afinal, os visitantes eram monarcas e mágicos?

Nem um, nem outro. É apenas uma questão de termos que se embaralharam séculos após séculos, misturando significados e permitindo confusão aos desavisados.

“Magos” era a forma como os gregos se referiam aos sacerdotes do zoroastrismo, religião monoteísta de origem persa que influenciou o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Muitas vezes, esses religiosos eram chamados de “sábios” ou “reis”, mesmo que não tivessem posto monárquico algum (não à toa, os “Três Reis Magos” são conhecidos por “Three Wise Men” em inglês).

Os sacerdotes zoroástricos acreditavam na astrologia e usavam a posição das estrelas para interpretar o mundo. Isso levou as línguas ocidentais a usarem os magos como ponto de partida para criar termos ligados a forças ocultas, como “magia” e “mágica”.

Ou seja, os “reis magos” significavam “sacerdotes persas” na antiguidade, sem que ninguém fosse monarca, muito menos tivesse poderes ocultos.

Quando ingleses e americanos ficaram décadas proibidos de celebrar o Natal

Fim de dezembro, já é uma tradição londrina. Milhares de pessoas vão todos os dias ao Hyde Park para visitar e se divertir no Winter Wonderland. Trata-se de uma mistura de parque de diversões com feira de Natal, com atrações que vão de barracas de vinho quente e bolachas de gengibre a castelo de gelo, em que as pessoas podem entrar e até sentar em um trono de água solidificada. Claro, tem montanha-russa também. Tudo com canções natalinas, muitos gorrinhos de Papai Noel e “Merry Christmas” no final de cada diálogo.

A Inglaterra vive intensamente o Natal, mas houve um momento em que celebrar o nascimento de Jesus era proibido no país. E não me refiro a um período muito antigo, antes da chegada do Cristianismo à ilha. Foi nas décadas de 1640 e 50, com a religião mais que consolidada entre os ingleses.

LEIA MAIS: O verão começa hoje, apenas quatro dias antes do Natal. E provavelmente isso não é coincidência

Naquela época, o país vivia o clima da briga por poder entre o Rei Carlos 1º e o parlamento, liderado por Oliver Cromwell. A disputa deu origem à Guerra Civil Inglesa em 1642. O país ficou dividido entre o território dominado pelo rei e o que seguia o parlamento, que acabou vencendo em 1651.

A disputa política também tinha um lado religioso. Os puritanos, grupo dentro do anglicanismo que defendia uma interpretação mais purista dos textos, estavam descontentes com os rumos da igreja. Cromwell era um puritano, assim como vários dos líderes do parlamento. Assim, a Inglaterra sob o governo parlamentar adotou várias regras religiosas do puritanismo. A abolição do Natal era uma delas.

A celebração do nascimento de Cristo era um tema polêmico entre os anglicanos na época. Em 1560, a igreja escocesa havia banido os festejos de 25 de dezembro. A decisão não se manteve por muito tempo, mas os puritanos começaram a transformar essa questão cada vez mais importante.

Eles alegavam que o Natal não representava a palavra de Deus por vários motivos:

– A festa em si (que durava 12 dias, até a noite de 5 de janeiro) era pecaminosa. Afastava-se do caráter de contemplação e reflexão ao promover a bonança e ao se misturar com antigos rituais de origem pagã;
– Não há nenhuma escritura que diz que o nascimento de Jesus deva ser celebrado, tampouco alguma referência à data em que esse evento teria ocorrido;
– O nome “Christmas” (de “Christ’s Mass”, ou “missa de Cristo”) já mostraria uma influência católica no feriado.

Por isso, em 1644, a celebração do Natal se tornou ilegal nos territórios dominados pelo parlamento. Guardas circulavam pelas ruas com ordem de confiscar qualquer comida se desconfiassem que estavam destinada a alguma ceia e de impedir até grupos cantando músicas natalinas pelas ruas.

A não-comemoração do nascimento de Jesus se tornou um dos argumentos dos grupos em favor de Carlos 1º, mas também motivou contestações mesmo entre os defensores dos parlamentares. Protestos começaram a surgir, alguns até violentos, com vandalismo e destruição de lojas que abrissem em 25 de dezembro como se fosse um dia de trabalho qualquer.

O desenvolvimento da guerra e a morte de Carlos 1º em 1649 acabaram esfriando os ânimos pró-Natal. Ainda assim, historiadores entendem que as famílias tenham mantido a tradição natalina, mas apenas de forma privada.

O Natal voltou a ser celebrado apenas em 1660, quando a monarquia retornou ao poder e anulou todas as leis criadas pelo parlamento. Mas ainda havia uma região com forte influência puritana, que mantinha a proibição ao Natal.

Antes da Guerra Civil Inglesa, os puritanos sofriam perseguição das forças reais. Entre 1620 e 1640, milhares migraram para os Estados Unidos, sobretudo na região da Nova Inglaterra (extremo nordeste do país). Eles criaram Massachusetts para ter uma colônia em que pudessem viver dentro de suas leis.

Em 1659, o governo do estado seguiu a lei inglesa e também baniu o Natal. Pastores poderiam ser presos se estivessem comandando alguma celebração natalina e qualquer cidadão que estivesse comemorando a data receberia uma multa de 5 xelins (um quarto de libra, equivalente ao salário semanal de um trabalhador na época).

Com a recuperação da monarquia na sede do império, puritanos temiam perseguição e uma nova onda de imigração chegou à Nova Inglaterra. Isso manteve a proibição ao Natal por mais tempo na colônia norte-americana. A data foi legalizada apenas em 1681, mas ainda era vista como uma manifestação reprovável. Por exemplo, uma pessoa poderia ser processada por distúrbio da paz se cantasse músicas natalinas na rua.

Apenas no século seguinte que o Natal foi recuperando sua força, sobretudo após a onda de imigração de católicos irlandeses. De qualquer modo, o Natal foi um dia qualquer de trabalho, inclusive com aulas normais nas escolas, até 1870, quando o presidente Ulysses Grant decretou que 25 de dezembro era um feriado nacional.

O verão começa hoje, apenas quatro dias antes do Natal. E provavelmente isso não é coincidência

O sol nasceu às 6h17 e a previsão é que se ponha às 19h53 em São Paulo nesta quarta. São 13h36 minutos de sol. Porto Alegre ficará ainda mais tempo ensolarada, 14h05 (das 6h21 às 20h26). O Rio de Janeiro, um pouquinho menos, 13h33 (das 6h05 às 19h38). Isso é normal em um 21 de dezembro. É solstício de verão, o dia com mais tempo de sol no ano no hemisfério sul, o dia que marca o início da estação. Ele ocorre justamente quatro dias antes do Natal, e isso possivelmente não é coincidência.

Ao mesmo tempo que o 21 de dezembro é o dia mais ensolarado do ano e o início do verão na metade de baixo do globo, ele é o dia mais curto e o início do inverno na metade de cima. Durante séculos, o solstício de inverno foi um marco para as culturas da Antiguidade, do norte da Europa ao Oriente Médio. Para algumas delas, era o início de uma temporada de dias progressivamente mais longos, um recomeço após seis meses de dias progressivamente mais curtos. Para outras, era o início do período de escassez de alimentos e era a última oportunidade de se esbaldar (inclusive abatendo animais para não ter de alimentá-los durante o inverno).

Por isso, muitos povos criaram celebrações na segunda quinzena de dezembro. Os nórdicos tinham o Yule, festival que comemorava o retorno do sol e durava até 12 dias a partir de 21 de dezembro. Pais e filhos colocavam fogo em grandes toras de madeira e cada faísca que saía das chamas representava um porco ou bezerro que nasceria no ano seguinte.

No território que hoje é o Irã, era a noite de Yalda, a mais longa e escura do ano. Nesse dia, as famílias se juntavam na casa do membro mais velho e comiam, bebiam e liam poemas.

Os romanos tinham a Saturnália, celebração do deus da agricultura Saturno. Os festejos começavam na semana do solstício de inverno e duravam um mês. Como se imagina de uma festa da Roma Antiga, havia muita comida e bebida. Era também um momento em que a ordem social era invertida. Em dia 25 de dezembro, os adeptos do mitraísmo ainda comemoravam o aniversário de Mitra.

Os judeus também tinham – e ainda têm – uma importante celebração em dezembro, o Chanuká. O motivo da celebração é um acontecimento histórico, não o solstício de inverno. De qualquer modo, a existência de uma importante comemoração judaica messa época do ano também pode ter influenciado o Natal.

No início do Cristianismo, a celebração mais importante era a Páscoa, uma herança judaica. O nascimento de Cristo não era tido como importante, até porque não há menção na Bíblia da época do ano em que ele ocorreu.

O interesse em se festejar o nascimento de Cristo se tornou forte a partir do século 3º. Vários estudiosos da igreja tentaram estimar a data em que ele teria ocorrido. A oficialização veio em 350, quando o Papa Júlio 1º determinou a Festa da Natividade em 25 de dezembro.

Há várias teorias para essa escolha. Uma delas é que marca nove meses a partir da Anunciação, celebrada em 25 de março. No entanto, várias evidências mostram que o fato de o final de dezembro já ser uma época marcada por festas foi fundamental, pois bastava absorver a Saturnália, o aniversário de Mitra e outras festas que já existiam pelo Império Romano. Além disso, a história do nascimento de Jesus menciona pastores com suas ovelhas, um cenário muito mais provável para a primavera (outono no hemisfério sul) do que com o inverno.

Alguns dos costumes natalinos são relacionados a essas celebrações pagãs, sobretudo da Yule (como a árvore de Natal) e da Saturnália (como o banquete e a troca de presentes).

Brexit cria apreensão na cidade que sofreu Bloody Sunday de 1972

Londonderry, mas pode chamar de Derry. A cidade ao norte da Irlanda do Norte, quase na fronteira com a Irlanda, é chamada mais pelo nome não-oficial do que pelo formal. Não é um apelido, um diminutivo carinhoso. É uma questão de ajudar a manter uma paz que já foi de frágil a inexistente em uma das regiões mais tensas da Europa Ocidental. E que já está apreensiva com o que pode vir com o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.

VEJA TAMBÉM: Por que Paris e Frankfurt estão de olho na saída do Reino Unido da UE

A decisão entre permanecer ou não no bloco tinha contornos muito particulares na Irlanda do Norte. Ao contrário de Inglaterra, Escócia e Gales, que dividem uma ilha, os norte-irlandeses têm uma fronteira física com outra nação. Uma divisão que foi motivo de disputa por décadas entre católicos e protestantes, entre os favoráveis à unificação com a República da Irlanda e os defensores da manutenção dos laços com a Coroa.

Londonderry estava no centro disso. A cidade de cerca de 240 mil habitantes (a segunda maior da Irlanda do Norte) tem forte presença católica – parcela da população que prefere o uso de Derry City, para ‘desbritanizar’ o nome – e foi palco de diversas manifestações nacionalistas irlandesas. Em 30 de janeiro de 1972, o exército atirou em civis desarmados durante um protesto, 14 morreram. O dia ficou conhecido como Bloody Sunday* (Domingo Sangrento) e motivou a banda U2 a criar uma de suas músicas mais famosas.

Os problemas se arrastaram por décadas, de atentados terroristas do IRA (Exército Republicano Irlandês) em Londres a coisas supostamente triviais, como jogos de futebol. O time da cidade, o Derry City, é ligado aos católicos e várias de suas partidas eram marcadas por brigas com as torcidas de maioria protestantes de outros clubes norte-irlandeses. Para evitar mais conflitos, a equipe passou a disputar o campeonato da Irlanda em 1985.

A União Europeia foi fundamental para mudar o clima. Com Reino Unido e Irlanda fazendo parte de um mesmo bloco político e econômico, o trânsito de pessoas e mercadoria se tornou livre. Estar do lado britânico ou irlandês da fronteira se tornou menos relevante quando todos estavam dentro de uma fronteira maior, a da UE.

LEIA MAIS: Mais uma capital europeia começa a derrubar seus muros

É o eventual fim dessa situação que cria apreensão entre os norte-irlandeses, sobretudo os que vivem perto da fronteira com a Irlanda. Hoje, é até difícil perceber quando se muda de nação. Placas de boas-vindas na estrada marcam a divisa e a linguagem visual da sinalização de ruas é diferente de um lado e do outro. De resto, é quase como uma coisa só. Há até casos de estradas rurais, usadas apenas por fazendeiros da área que atravessam a fronteira sem chamar a atenção.

Com a saída do Reino Unido da UE, a fronteira irlandesa se tornaria novamente relevante. Pessoas que moram de um lado e trabalham do outro teriam de passar pela imigração todo dia, duas vezes. O mesmo ocorreria a cada visita a familiares no fim de semana, a uma ida à cidade vizinha para comprar algo. Mas, pior que isso, a recriação de um aparato de controle policial reforçaria a percepção entre norte-irlandeses católicos que eles não vivem no país que gostariam, recriando uma insatisfação histórica que andava adormecida.

Esse foi um dos motivos para a Irlanda do Norte ter votado em favor da permanência do Reino Unido na UE. Uma votação que ficou mais reforçada pelos votos dos distritos que ficam na região de fronteira, sobretudo Londonderry, o pontinho azul escuro no noroeste da Irlanda do Norte no mapa abaixo.

Mapa eleitoral do Brexit por distritos. Em azul os que preferiram a permanência na UE. Em vermelho, os que votaram pela saída. Quando mais escura a mancha, maior o percentual de votos para cada lado (New York Times)
Mapa eleitoral do Brexit por distritos. Em azul os que preferiram a permanência na UE. Em vermelho, os que votaram pela saída. Quando mais escura a mancha, maior o percentual de votos para cada lado (New York Times)

Em geral, os unionistas, defensores da permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido, foram favoráveis à saída da UE, enquanto que os nacionalistas (defensores da unificação com a Irlanda) e os neutros ficaram do lado da continuidade no bloco. Mas o resultado geral na região foi pró-União Europeia, e o fato de os votos ingleses terem definido a retirada do país causou um misto de revolta com preocupação.

Líderes nacionalistas já falam em articular a saída da Irlanda do Norte do Reino Unido, o que seria um primeiro passo à reunificação com a Irlanda (algo que os unionistas não gostariam). Mas, para o dia a dia das pessoas e das cidades que ficam na região de fronteira, o grande debate é o que será feito para controlar o trânsito de pessoas. Tanto que britânicos pró-UE que têm direito à nacionalidade irlandesa já estão correndo atrás do passaporte com medo de perder os direitos de cidadãos europeus.

O destino depende das negociações do Reino Unido com a União Europeia. Uma das possibilidades seria manter a fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte aberta, mais reforçando o controle em portos e aeroportos do tráfego entre Irlanda do Norte e a ilha da Grã-Bretanha. Essa opção ajudaria a manter a calmaria, mas possivelmente desagradaria os unionistas, pois o território norte-irlandês ficaria mais isolado do resto do país e se tornaria uma área de regime especial, quase intermediária, entre duas nações.

Mas talvez seja a melhor opção. Ao menos, reduziria o risco de reforçar as divisões das maiores cidades norte-irlandesas, ainda marcadas em muros e grafites que já se tornaram parte da paisagem urbana da região.

*O termo Bloody Sunday é usado para diversos conflitos violentos ocorridos em domingos. O de Derry em 1972 foi um dos mais famosos, mas não o único

Igreja protesta contra ciclofaixa por “infringir liberdade de religião”

Debates e mais debates, reuniões públicas, assembleias e muita discussão. Há mais de um ano o governo da cidade de Washington tenta finalizar o projeto de ciclofaixas para a área leste do centro. A ideia é criar corredores no sentido norte-sul para os ciclistas, ligando dois, já instalados, no sentido leste-oeste. Como é comum nessas conversas, há vários opositores à ideia. Normalmente se alega piora no tráfego, impacto no comércio local ou custo de implantação. Mas, no caso da capital dos Estados Unidos, o problema é afetar a “liberdade de religião”.

Foi essa a alegação apresentada pela United House of Prayer for All People (Uhop, ou “Casa Unida das Orações para Todas as Pessoas”, em tradução livre) ao conselho municipal para não apenas rejeitar a ciclofaixa, mas também colocá-la como inconstitucional. O motivo é que duas das ruas que teriam espaço exclusivo para bicicletas passam ao lado do quarteirão da igreja.

O principal alvo é o corredor da rua 6, utilizada pelos fieis da Uhop para estacionar seus carros. Nos dias mais movimentados, é comum parar o carro em 45º para ganhar ainda mais espaço. A proposta inicial do corredor para ciclistas não eliminaria necessariamente a possibilidade de se estacionar na rua, mas impossibilitaria o estacionamento a 45º e diminuiria uma das faixas para a circulação de carros.

De acordo com a Uhop, a obra simplesmente não é necessária. “Bicicletas circulam livremente e com segurança no Distrito de Colúmbia em todos os 90 anos de história da United House of Prayer, sem nenhuma faixa protegida para bicicletas e sem infringir os direitos religiosos da igreja”, argumenta a instituição na carta apresentada à administração da capital americana. Um pastor chegou a dizer que a ciclofaixa era um câncer que destruiria a igreja.

O protesto da Uhop foi apresentado em setembro de 2015. A discussão sobre os corredores norte-sul se arrasta desde então. O município se comprometeu a apresentar as três propostas finais para análise pública entre fevereiro e abril deste ano. Ainda não o fez.