Cervejaria americana faz propaganda pró-imigração e é ameaçada de boicote

Veicular uma propaganda durante o Super Bowl é algo grande para o mercado norte-americano, muito grande. Com metade da audiência nacional, a empresa sabe que tem exposição e repercussão imediata, tanto que pagam US$ 5 milhões só para aparecer por 30 segundos durante a final da NFL. Por isso, o peso de qualquer mensagem é gigantesco, e também uma eventual reação negativa. A Budweiser está sentindo isso.

Como é comum na semana do Super Bowl, a cervejaria também aproveitou o evento para lançar uma nova campanha publicitária. No caso, o vídeo mostra Adolphus Busch deixando a Alemanha, entrando nos Estados Unidos e sofrendo preconceito até chegar a St. Louis, onde conheceu Eberhard Anheuser, também alemão. Dessa parceria nasceu a Anheuser-Busch, a criadora da Budweiser.

É óbvia a mensagem pró-imigração do filme, ainda mais seu lançamento em um momento em que o presidente dos EUA quer mudar fortemente a política imigratória do país. Claro, defensores das ideias de Donald Trump tentam mobilizar um boicote contra a empresa, alguns até se manifestando em redes sociais para lembrar que, atualmente, a Budweiser está dentro da AB InBev, um grupo belgo-brasileiro.

Provavelmente por coincidência (pois cada produto tem sua estratégia própria e tem de pensar no que é melhor para si próprio), a AB InBev também é dona do Grupo Modelo, responsável pela produção da cerveja Corona. Uma cerveja que também usou a política de Trump para chamar a atenção.

O mapa da diversidade étnica e linguística de Nova York

Os Estados Unidos foram feitos por gente vinda de fora. Não é apenas um clichê para dizer que os nativos foram oprimidos até se tornarem minoria, mas porque o país realmente contou com levas e levas de imigrantes para formar seu perfil social e econômico, principalmente nas metrópoles. Nova York é um grande exemplo disso, com grupos étnicos formando comunidades em todo canto da cidade.

Uma forma de ver isso é conferindo o perfil linguístico dos bairros nova-iorquinos. O programador Jill Hubley pegou dados do censo americano de 2014 e fez um mapa mostrando o idioma mais falado em cada bairro de sua cidade. Claro, o inglês domina, mas há áreas com superioridade de espanhol, chinês, grego, russo, ídiche e coreano.

Mas, para tornar o mapeamento de comunidades mais interessantes, Hubley criou filtros, em que se pode excluir o inglês (o espanhol se torna predominante) e o inglês e o espanhol (e aí vira um mosaico, em que há espaço até para o português). 

Mapa com o idioma mais falado em cada bairro de Nova York, excetuando inglês e espanhol (Reprodução)
Mapa com o idioma mais falado em cada bairro de Nova York, excetuando inglês e espanhol (Reprodução)

Para conferir o trabalho original, com mapa interativo e melhor resolução, clique aqui.

Ganhe algumas horas brincando nesse mapa com o fluxo migratório mundial

Um mapa animado e interativo sobre um tema relevante. Impossível resistir à tentação e ficar horas e horas explorando cada faísca de informação. É o caso dessa maravilha abaixo, um desenho com o fluxo migratório de todos os países do planeta entre 2010 e 2015, de acordo com dados da ONU.

Além de mostrar quais as rotas mais recorrentes (Síria-Turquia, México-Estados Unidos, Sudão-Sudão do Sul, Afeganistão-Paquistão, Malásia-Singapura), permite conferir a situação de cada nação. Basta clicar na bola de cada país e ver o saldo da migração por nação (o Brasil, por exemplo, recebeu 102.123 a mais de imigrantes do que teve de brasileiros que se mudaram para o exterior) e com quais lugares houve essa troca de população.

O trabalho é do ótimo Metrocosm, que será mencionado por aqui várias vezes no futuro. O mapa acompanha um post interessante analisando alguns dos dados, enfocando mais nos países de língua inglesa.

Esse mapa não é novo (aliás, aqui tem a versão tela cheia), mas o Rodínia não tinha como falar dele na época de sua publicação, em junho de 2016, porque o blog nem existia. Mas agora ele existe, e se vê na obrigação moral de mostrar isso para quem ainda não tinha visto.

Aproveitem.

Dica do amigo Matias Pinto, apresentador do obrigatório podcast Xadrez Verbal.

Temporada do turismo cria pressão para refugiados em porto da Grécia

A Páscoa ortodoxa será comemorada neste domingo, 1º de maio. Normalmente, é uma data esperada ansiosamente em Pireu. O feriado tradicionalmente marca o início da temporada de cruzeiros, e milhares de visitantes chegam à cidade portuária como parada para as centenas de passeios por Atenas, ilhas gregas ou pelo Mediterrâneo. Mas em 2016 será diferente. Os turistas são bem-vindos, mas ainda não se sabe direito como recepcioná-los.

Pireu é vizinha a Atenas e tem o maior porto da Grécia. Com isso, seu porto deixou de ser apenas uma parada para cruzeiros e ponto de referência da maior marinha mercante do mundo. O local também se tornou o local de chegada de milhares de refugiados que tentam se afastar das guerras em seus países – principalmente Síria e Afeganistão – para reconstruir a vida na Europa. Durante meses, a cidade grega era uma passagem, mas, nas últimas semanas, se tornou em abrigo provisório.

VEJA TAMBÉM: Símbolo do nazismo se torna o maior campo de refugiados da Alemanha

Pela sua posição geográfica em relação ao Oriente Médio, a Grécia é um caminho natural desse ciclo migratório. Os refugiados chegam em terras gregas pensando em seguir o rumo para o norte, atravessando os Bálcãs até chegar à Alemanha. No entanto, essa rota foi interrompida nas últimas semanas. Bulgária, Macedônia e Albânia fecharam suas fronteiras para os imigrantes, que se viram presos na Grécia.

Rapidamente, a quantidade de refugiados em Atenas e Pireu se tornou maior do que as cidades podem acomodar, ainda mais considerando a situação econômica delicadíssima que vive a Grécia. Com isso, tendas foram erguidas no porto de Pireu, que se transformou em um campo de refugiados. Uma situação longe do ideal, em que há carência de serviços e até de segurança. Mas que pode ficar perto de insustentável com a chegada dos turistas.

O governo tem se mostrado compreensivo – ainda que visivelmente despreparado – com os refugiados e há elogios à solidariedade da maioria da população local (ainda que a crise também tenha impulsionado o crescimento do Alvorada Dourada, um partido de extrema-direita). Não houve grande pressão para impedir a chegada deles, tampouco forçar seu deslocamento.

Um elemento que ajuda os imigrantes é o próprio passado da Grécia. A Guerra Greco-Turca (1919 a 1922) foi marcada por limpeza étnica, resultando em milhares de mortes e um acordo de troca de população no final do conflito. Assim, 500 mil muçulmanos – de origem grega e turca – que viviam na Grécia foram enviados para a Turquia, que mandou 1,5 milhão de ortodoxos – de etnia grega ou turca. Assim, boa parte da população grega atual descende de pessoas que chegaram a sua própria terra como refugiadas e tiveram de reconstruir sua vida.

No entanto, as condições dos sírios e afegãos se deterioram. Há relatos de doenças, brigas (até com uso de facas) e fome. A falta de perspectivas também abaixa o ânimo dos refugiados, que não encontram muitas possibilidades de se inserir em um país que já vive uma crise econômica.

AFEGANISTÃO: Os grafites que mostram os heróis de verdade em uma cidade em guerra

Nesse cenário, oferecer boas condições para a chegada dos turistas não pode ser vista como uma ação fútil, inversão de prioridades ou ignorar o sofrimento de muita gente logo ao lado. Os visitantes injetam bilhões de euros na economia grega, o que representa um alívio para a enorme indústria de turismo local – o que pode até criar oportunidades de trabalho temporário para alguns refugiados.

Desde março as autoridades criam novos espaços para abrigar os refugiados. Os estádios de beisebol e hóquei na grama, dois elefantes brancos dos Jogos Olímpicos de 2004, já estão cheios de tendas. Mas muitos não querem sair do porto, com medo de serem deslocados para regiões afastadas de Atenas – onde estão as poucas oportunidades econômicas palpáveis – e de olho na infraestrutura de transportes, que ajudaria em uma rápida viagem ao norte caso Macedônia, Albânia ou Bulgária reabram suas fronteiras.

A meta do governo é que todos os refugiados de Pireu estejam abrigados em outros lugares da Grande Atenas até este domingo. Que isso não seja apenas – mais um – deslocamento, mas uma ida a locais com condições e oportunidades melhores.

Obs.: Se você se vira bem no inglês, confira essa reportagem do Guardian e essa do Huffington Post, mostrando o dia a dia de refugiados no porto de Pireu.

Símbolo do nazismo se torna o maior campo de refugiados da Alemanha

Um terminal de passageiros em formato de águia, com hangares semicirculares formando as asas. Uma decoração imponente, feita para impressionar os visitantes. O Tempelhof não foi reformado na década de 1930 apenas para ser o principal aeroporto de Berlim. Foi idealizado como um símbolo de força a quem desembarcava na Alemanha nazista, além de um estádio para apresentações militares promovidas pelo governo de Adolf Hitler.

MAIS HISTÓRIA: Nem o Muro de Berlim impedia a passagem do metrô

Os acontecimentos históricos sempre acompanharam a trajetória desse local na região centro-sul da capital alemã. O nome vem da Idade Média, quando o terreno pertencia a cavaleiros templários. Depois, se tornou palco de apresentações do Exército prussiano e campo de pouso a partir da Primeira Guerra Mundial. No período entreguerras, esteve ao lado do Croydon (Londres) e Le Bourget (Paris) como ícones do crescimento da aviação civil europeia. E, durante a Guerra Fria, foi a principal comunicação entre Berlim Ocidental – ilhada por um muro – e o resto do mundo.

O novo capítulo da trajetória do Tempelhof também reflete o momento histórico que a Alemanha vive. O aeroporto foi desativado em 2008 e, desde então, foi utilizado como parque, também recebendo feiras, congressos, shows e até corrida de carro. Agora, é a vez de receber milhares de refugiados que chegam diariamente do Oriente Médio, sobretudo fugindo dos conflitos que devastam Síria, Afeganistão e Iraque.

Já há centenas de migrantes acomodados em tendas e boxes instalados nos gigantescos hangares do aeroporto, mas ainda há obras para ampliar a capacidade e melhorar as acomodações, com mais infraestrutura de higiene pessoal, alimentação, escola, creche e até área de lazer. A projeção dos alemães é que o Tempelhof consiga receber até 7 mil pessoas, mas sempre como um ponto de passagem, dando abrigo a refugiados enquanto eles não conseguem emprego e moradia fixa para reiniciar a vida no novo país.

LEIA TAMBÉM: Por que estão destruindo carros de luxo nas ruas de Berlim

Segundo os responsáveis pelos projetos do Tempelhof, não há intenção de descaracterizar o local para transformá-lo definitivamente em abrigo. O edifício do terminal de passageiros é tombado e não deixará de ter as características de um antigo aeroporto. Também havia um plano de destruir os hangares para aumentar o espaço verde no parque. Desse modo, a transformação do Tempelhof em habitações permanentes não está nos planos.

Tem algo de irônico ver que a estrutura idealizada por um governo que perseguia não-germânicos está sendo usada para ajudar estrangeiros a entrarem na sociedade alemã. Mas não é o primeiro uso humanitário do Tempelhof. Entre os tantos episódios históricos vividos no aeroporto está seu uso durante o Bloqueio de Berlim entre 1948 e 49. Quando a União Soviética restringiu a movimentação de civis na cidade, o exército americano passou a sobrevoar Berlim Oriental, despejando itens de primeira necessidade (como combustível e comida) para a população. Os hangares do aeroporto eram usados para armazenar e embarcar os suprimentos.