Demorou só cinco dias para Londres passar sua meta anual de poluição

O ar meio esfumaçado já foi um charme de Londres, um símbolo da neblina que toma conta da cidade em diversos momentos do ano. Mas, hoje, é sinal de preocupação. A capital britânica está com enormes dificuldades para reduzir os índices de poluição. Para se ter uma ideia, uma das metas estabelecidas para todo o ano de 2017 já foi batida em 5 de janeiro.

Os níveis de dióxido de nitrogênio, poluente produzido em grande parte por veículos a diesel, são medidos a cada hora em diversos pontos da cidade. Pela lei, o limite de 200 microgramas por metro cúbico só pode ser ultrapassado 18 vezes em cada ponto durante todo o ano. A Brixton Road precisou de apenas cinco dias para passar desse limite.

O pior é que não é um caso isolado de uma rua particularmente problemática. Em 2016, a Putney High Street bateu a marca prevista por lei em 7 de janeiro e terminou o ano com 1.200 medições acima do limite. A Oxford Street, também um foco de poluição, será transformada em calçadão para acabar com as emissões de poluentes. E a cidade toda pode ver carros elétricos substituírem os tradicionais nos serviços de entrega, tudo para melhorar a qualidade do ar.

O prefeito Sadiq Khan prometeu ampliar as áreas definidas como de baixa emissão de poluentes. Nelas, o acesso de carros é restrito e há prioridade para que suas linhas tenham ônibus com motores que poluem menos.

Ainda assim, dificilmente medidas como essas terão um impacto tão imediato nas áreas mais críticas. Até porque será preciso mudar muita coisa para que a meta de 18 medições acima do limite legal sobreviva até 31 de dezembro, quando ele nem chegou ao Dia de Reis.

Uma das ruas mais poluídas do mundo será transformada em calçadão

A Oxford Street não cabe dentro de si própria. A principal via de comércio de Londres é apinhada de grandes lojas, atendendo a todos os tipos de público. As calçadas têm pessoas por todos os lados, londrinos e turistas, sempre procurando gastar algumas libras por ali. No meio disso, uma rua apertada, de duas a três faixas, com ônibus de dois andares, táxis e, dependendo do horário, carros se espremendo para avançar lentamente. O resultado dessa receita é uma poluição que foi considerada, em estudo da King’s College, como uma das piores do mundo.

Pois já há previsão para esse cenário mudar. Valerie Shawcross, vice-prefeita de transportes da capital inglesa, comunicou à Assembleia de Londres (equivalente à câmara de vereadores) que a rua seria transformada em um calçadão em 2020. O trânsito seria fechado para veículos entre a Tottenham Court Road e o Marble Arch, trecho de maior concentração de comércio.

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Apesar do impacto em questões de mobilidade, o objetivo principal dos londrinos é diminuir a poluição na rua Oxford. Uma medida que poderia dar início a outras, pois o ar de Londres tem superado o limite do tolerável pelas metas anuais da União Europeia ainda em janeiro. E o fato do Reino Unido estar de saída do bloco continental não vai mudar o fato que está difícil respirar no centro de sua capital.

Ônibus e pedestres dividindo espaço na Oxford Street (AP Photo/Matt Dunham)
Ônibus e pedestres dividindo espaço na Oxford Street (AP Photo/Matt Dunham)

Mas a gravidade da poluição londrina não tornará o processo de fim do tráfego de veículos na rua Oxford mais fácil. Para os carros, há pouca mudança: eles já são proibidos de circular na via na hora do rush e aos finais de semana. Os taxistas podem ficar contrariados, ainda mais porque não poderão mais pegar passageiros cheios de sacolas de compras na porta das lojas, mas há acesso pelas travessas. O problema será com os ônibus.

O centro de Londres não tem uma trama regular de ruas. Há várias ruas pequenas, curvas e poucos corredores longos. A Oxford Street faz esse papel, e por isso ela recebe tantas linhas de ônibus. Elas terão de ser remanejadas, provavelmente passando por avenidas relativamente distantes ou fazendo traçados mais sinuosos de demorados. E os coletivos vermelhos são fundamentais para desafogar um pouco o metrô que corre sob a Oxford.

Por isso que a prefeitura pediu quatro anos de prazo para implantar um projeto que, se dependesse apenas de transformar uma rua em calçadão, seria bastante rápido.

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Londres teme poeira do Saara, mas tem de olhar para própria poluição

Ar limpo e céu aberto nunca fizeram parte das virtudes de Londres. Em uma mistura de poluição de uma metrópole com um clima que oferece naturalmente muitas nuvens e neblina, a paisagem típica da capital britânica sempre inclui um fundo cinza. Uma situação que ficou particularmente delicada nas últimas semanas, devido ao aumento da sujeira e de um componente inesperado: poeira vinda do deserto do Saara.

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Na última semana, a Nasa divulgou uma imagem mostrando uma nova onda de detritos deixando o norte da África rumo à Europa. O fenômeno já acendeu o alerta no Reino Unido, onde os ventos do Saara ajudaram a criar algumas das piores ondas de poluição no sul do país nos últimos anos. Duas delas foram particularmente fortes, uma entre março e abril de 2014 e outra em dezembro do ano passado.

Essa sentido sul-norte não é tão comum nas viagens da poeira do Saara. O trajeto mais comum é leste-oeste, atravessando o Oceano Atlântico. A influência do deserto africano nas Américas já é bastante documentada, causando efeitos positivos – como inibir a formação de furacões e fertilizar o solo da Amazônia – e negativos – como levando doenças para os corais do Caribe. Ainda ajuda a embelezar os cartões postais de Miami, avermelhando o nascer do sol na Flórida.

No entanto, a participação do Saara na poluição londrina não pode ser superestimada. Um estudo da Universidade de Edimburgo, Escócia, publicado em 26 de março desde ano mostra que a onda de poluição de 2014 teve grande contribuição de fontes mais “tradicionais”, como gases emitidos por indústrias e fertilizantes utilizados pelos fazendeiros da Europa continental.

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De acordo com os pesquisadores, a poeira do Saara (vídeo abaixo) foi mais relevante no sul da Grã-Bretanha. Na maior parte da ilha, o deserto foi responsável por menos de 20% das partículas poluentes. O estudo é enfático ao dizer que a participação do deserto deva ser relativizada: “A poluição da primavera de 2014 foi largamente atribuída pela imprensa do Reino Unido à poeira do Saara, colocando uma (falsa) ênfase em um fenômeno natural, que não pode ser resolvido com alguma ação”.

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Em entrevista ao jornal Guardian, o advogado da ClientEarth (escritório de advocacia especializado em questões ambientais) foi bastante duro. “Ao invés de lutar em Bruxelas [onde fica a sede da União Europeia] por metas menores de poluição, nosso governo deveria trabalhar com os vizinhos europeus para cortar a poluição pelo continente e agir para reduzir a poluição que sufoca nossas cidades diariamente”, afirmou.

No final das contas, a onda de ventos vindos do Saara na última semana merece atenção dos ingleses e dos europeus em geral. Mas não tanto quanto suas próprias atitudes ambientais.

Alerta de poluição faz mexicanos tirarem 1 milhão de carros das ruas

A última quarta foi um dia atípico na Cidade do México. Milhões de pessoas foram obrigadas a deixar o carro em casa, ganhando transporte público gratuito como compensação. Alguns milhares ainda saíram nas ruas com máscaras ou usando tecidos para tapar boca e nariz. Tudo resultado de três dias seguidos com alerta de poluição.

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O ano tem sido complicado na atmosfera da capital mexicana. Em 2016, apenas 11 dias tiveram qualidade do ar classificada como “boa”. Foram três pré-contingências e, na última semana, a sequência de três dias com poluição particularmente alta – níveis de ozônio estavam do dobro do aceitável – acionou a fase 1 de contingência ambiental.

As autoridades recomendaram que a população limitasse suas atividades ao ar livre e 1,1 milhão de carros – de uma frota de 4,7 milhões – foram proibidos de circular na região metropolitana da cidade. Metrô e ônibus tiveram catracas liberadas em toda a capital. Se os índices não baixarem nos próximos dias, um novo pacote de medidas pode ser utilizado, incluindo até a suspensão temporária da atividade industrial.

A implementação do passe livre por um dia fez que a prefeitura deixasse de arrecadar entre 40 e 50 milhões de pesos mexicanos (entre US$ 2,3 e 2,58 milhões). No entanto, as autoridades preferiram não reforçar essa conta. Elena Segura Trejo, secretária da comissão de fazenda da Assembleia Legislativa do Distrito Federal afirmou que não houve uma perda. “Houve falta de ingresso que ocorreu para favorecer os capitalinos”, argumentou ao jornal El Universal.

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A Cidade do México sabe bem quais os riscos de viver com grande poluição. Localizada entre montanhas, a capital mexicana se viu dentro de uma armadilha quando houve grande desenvolvimento urbano e industrial no século 20. Fábricas e carros despejavam poluentes na atmosfera, mas não havia por onde o ar dispersar. A contaminação foi considerada a causa de aumento da mortalidade infantil na década de 1950 e de evasão escolar.

Várias medidas foram implementadas a partir da década de 1980, como rodízio de veículos, mudança na formulação da gasolina, incentivo a saída da cidade das indústrias mais poluidoras e aumento do transporte público. O cenário melhorou, mas ainda há momentos de piora. A última vez que o governo local acionou a fase 1 de contingência ambiental foi em setembro de 2002.

Pombos estão medindo a poluição de Londres, e em breve serão as pessoas

Os londrinos deram a sua cidade o título de “Mais tóxica do mundo”. Tudo bem que o passado de Londres, sobretudo em saneamento, era bastante problemático. Mas, hoje, a capital britânica está longe do topo no ranking de cidades mais poluídas do mundo, o que não impede os locais de lutarem por mais melhorias. E, em breve, eles podem ajudar ativamente no monitoramento do ar.

A Plume Labs criou um dispositivo portátil para medir a poluição atmosférica. O aparelho identifica a quantidade de dióxido de nitrogênio (NO2), ozônio (O3) e componentes orgânicos voláteis. Os dados são imediatamente passados a um aplicativo no celular do usuário, que consegue evitar as áreas em pior situação. Além disso, o sistema poderia repassar todos os dados a pesquisadores do Imperial College of London, que teriam mais elementos para estudar como as pessoas podem se proteger da poluição.

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Mas tudo isso ainda é para o futuro. O que há de concreto para o momento é que pombos farão isso. Exatamente, pombos, as aves comumente tratadas como pragas urbanas.

O sensor de poluição tem o peso de uma pena e pode ser carregado por um pássaro sem dificuldade. Assim, a Plume colocou o dispositivo em dez pombos treinados especialmente para sobrevoar diversas áreas de Londres por três dias (terça, quarta e quinta desta semana). Os dados serão disponibilizados pelo Twitter. Basta qualquer pessoa enviar uma mensagem para o perfil da Patrulha Pombal e receberá uma resposta com as informações.

O objetivo da ação aviária é promover o projeto que envolverá pessoas comuns. A Plume Labs está recrutando voluntários para realizar, em junho, um grande teste da versão beta do sistema. Além disso, a empresa criou uma campanha de arrecadação coletiva para financiar o desenvolvimento e produção em escala do sensor. A vaquinha estará aberta até 3 de abril.

Madri discute adotar passe livre para ajudar a combater poluição

O que? Madri é uma das cidades europeias com problemas mais sérios de poluição. No inverno, época mais seca do ano no centro da Espanha, a qualidade do ar fica muito abaixo do limite considerado ideal pela União Europeia. Para atacar esse problema, a prefeitura cogita adotar um rodízio radical, que tire metade dos carros de circulação no centro expandido e dê passagens gratuitas no transporte público. No entanto, o governo regional, que gerencia o metrô, é contra.

A versão espanhola da boina

A boina tem se tornado um (infeliz) patrimônio de Madri. Não que os espanhóis tenham adotado a moda estilo francês, mas porque ele virou sinônimo de um fenômeno cada vez mais constante na capital espanhola: a poluição. A camada de poluentes que cobre a cidade de marrom como um boné de coroa mole que se esparrama pela cabeça. O problema se torna particularmente grande com a aproximação do inverno, época do ano em que a qualidade do ar fica ainda mais baixa devido ao clima mais seco.

As autoridades já ensaiam medidas radicais para combater a poluição. O problema é que elas colocaram em conflito a prefeitura e o governo da Comunidade de Madri (região onde está a capital). Cada um vê o caso de forma diferente, tanto por alinhamento ideológico quanto por interesse econômico, o que criou uma disputa que parece muito com as que se vê no Brasil.

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Desde 2010, Madri não consegue manter uma média anual de menos de 400 microgramas de dióxido de nitrogênio por metro cúbico de ar, patamar estabelecido pela União Europeia como o máximo aceitável. As autoridades de Bruxelas pressionam os espanhóis, que, em 2013, chegaram a pedir (pedido rejeitado, diga-se) um prazo até 2018 para resolver a poluição de sua capital.

Por isso, as autoridades municipais lançaram um plano ousado. Em setembro, a prefeita Manuela Carmena anunciou que, se a quantidade de dióxido de nitrogênio passar de 200 microgramas por metro cúbico, o centro expandido madrileno terá restrições grandes para carros. Se o patamar ficar acima de 400 microgramas por metro cúbico, virtualmente toda a cidade seria afetada. As regras incluem um rodízio que proíbe a circulação de metade dos veículos (a divisão será por placas de final par ou ímpar) e limite de velocidade reduzido nas grandes vias. Muitos motoristas ficariam a pé, mas teriam um grande incentivo para usar o transporte público: tarifas gratuitas de ônibus, trem e metrô.

O custo da operação não seria pequeno. De acordo com o Consorcio Regional de Transportes, as empresas de transportes deixariam de arrecadar € 1,8 milhões por dia. Além disso, calcula-se que seriam mais € 50 mil de horas extras de trabalhadores de ônibus municipais e intermunicipais e mais de € 2 milhões de eventual reembolso aos passageiros que compraram bilhete anual, mensal ou diário. Seriam cerca de € 4 milhões por dia.

O valor é alto, mas a prefeitura poderia considerar a causa prioritária e incluir essa despesa em seu orçamento. O problema é que boa parte dos custos cairiam nas costas da Comunidade de Madri. O governo regional é dono do metrô e do trem, e não está disposto a realizar esses gastos. Um dos argumentos é que os moradores de cidades ao redor da capital sentiriam um impacto muito grande se ficassem proibidos de usar o carro, pois teriam de fazer muitos deslocamentos até chegar ao destino.

URBANISTA: “Priorizar pedestres é uma das formas de humanizar as cidades”

Essa discordância (alimentada pelo fato de governo municipal e regional serem de partidos políticos rivais) transformou um problema de poluição em debate de transportes públicos. Neste sábado, a prefeitura anunciou o interesse em redefinir o financiamento dos transportes. O município quer retomar parte do controle do metrô, que passou à Comunidade em 2011, que o governo regional aumente seu aporte à Empresa Municipal de Transportes (que gerencia o serviço de ônibus) e redefinir seu papel dentro do Conselho Regional de Transportes. O objetivo é fazer que cidade e região fiquem responsáveis por 50% cada das despesas com transporte público.

Enquanto a disputa não se resolve, a ideia do rodízio de 50% dos carros e do passe livre ficam em estado de espera, e nenhuma sugestão alternativa ganha força. Mas falta por mais de um mês para o inverno chegar, e a poluição não melhorará sozinha.

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