Prefeita quer converter uma das principais vias de Madri em calçadão

Manuela Carmena será a prefeita de Madri até 2019. Nesses três anos que ainda tem de mandato, ela pretende realizar várias modificações no plano de mobilidade do centro da capital espanhola. E uma das ideias mais polêmicas foi lançada em uma conversa com uma jornalista do jornal El País nesta semana: transformar a Gran Vía, uma das principais avenidas da cidade, em um calçadão.

A medida seria o ponto final de um grande plano de abertura de vias do centro madrileno para pedestres. A prefeitura já anunciou que limitará fortemente o tráfego na região a partir de janeiro de 2018. A medida visa incentivar o uso de transporte público e de transporte ativo, reduzindo a emissão de poluentes de uma cidade que tem sofrido para ficar dentro dos parâmetros de qualidade do ar estabelecidos pela União Europeia.

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Dos projetos atuais, já se prevê a criação de um boulevard na Gran Vía, uma avenida com cerca de 30 metros de largura (varia de acordo com o trecho) e uma enorme quantidade de lojas de grife, teatros e cinemas. O movimento de pedestres já é muito grande, muitas vezes atingindo o limite de capacidade das calçadas existentes.

Outro plano já em desenvolvimento é o de limitar o trânsito de veículos particulares para não-moradores do centro. No entanto, as conversas ocorrem – ao menos por enquanto – de forma a deixar a Gran Vía fora da zona de restrição, pois faz parte de um corredor que corta Madri no sentido leste-oeste.

Ainda que a ideia de Carmena ainda não tenha ido para o papel, já houve uma proposta popular para a transformação da Gran Vía em calçadão, apenas com circulação de bondes. No entanto, a iniciativa não teve muita adesão na época e acabou arquivada.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Uma das ruas mais poluídas do mundo será transformada em calçadão

A Oxford Street não cabe dentro de si própria. A principal via de comércio de Londres é apinhada de grandes lojas, atendendo a todos os tipos de público. As calçadas têm pessoas por todos os lados, londrinos e turistas, sempre procurando gastar algumas libras por ali. No meio disso, uma rua apertada, de duas a três faixas, com ônibus de dois andares, táxis e, dependendo do horário, carros se espremendo para avançar lentamente. O resultado dessa receita é uma poluição que foi considerada, em estudo da King’s College, como uma das piores do mundo.

Pois já há previsão para esse cenário mudar. Valerie Shawcross, vice-prefeita de transportes da capital inglesa, comunicou à Assembleia de Londres (equivalente à câmara de vereadores) que a rua seria transformada em um calçadão em 2020. O trânsito seria fechado para veículos entre a Tottenham Court Road e o Marble Arch, trecho de maior concentração de comércio.

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Apesar do impacto em questões de mobilidade, o objetivo principal dos londrinos é diminuir a poluição na rua Oxford. Uma medida que poderia dar início a outras, pois o ar de Londres tem superado o limite do tolerável pelas metas anuais da União Europeia ainda em janeiro. E o fato do Reino Unido estar de saída do bloco continental não vai mudar o fato que está difícil respirar no centro de sua capital.

Ônibus e pedestres dividindo espaço na Oxford Street (AP Photo/Matt Dunham)
Ônibus e pedestres dividindo espaço na Oxford Street (AP Photo/Matt Dunham)

Mas a gravidade da poluição londrina não tornará o processo de fim do tráfego de veículos na rua Oxford mais fácil. Para os carros, há pouca mudança: eles já são proibidos de circular na via na hora do rush e aos finais de semana. Os taxistas podem ficar contrariados, ainda mais porque não poderão mais pegar passageiros cheios de sacolas de compras na porta das lojas, mas há acesso pelas travessas. O problema será com os ônibus.

O centro de Londres não tem uma trama regular de ruas. Há várias ruas pequenas, curvas e poucos corredores longos. A Oxford Street faz esse papel, e por isso ela recebe tantas linhas de ônibus. Elas terão de ser remanejadas, provavelmente passando por avenidas relativamente distantes ou fazendo traçados mais sinuosos de demorados. E os coletivos vermelhos são fundamentais para desafogar um pouco o metrô que corre sob a Oxford.

Por isso que a prefeitura pediu quatro anos de prazo para implantar um projeto que, se dependesse apenas de transformar uma rua em calçadão, seria bastante rápido.

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Barcelona cria superquarteirões para ter mais áreas para pedestres

São cerca de 3 mil mortes ao ano causadas direta ou indiretamente pela (falta de) qualidade do ar, isso só na região metropolitana de Barcelona. Os números são da prefeitura e, considerando que Madri vive situação ainda pior, reforçam a necessidade dos espanhóis de criarem formas de reduzir a poluição em suas grandes cidades. Por isso, os barceloneses anunciaram nesta quarta (4) um plano ousado de remodelação de suas ruas.

São os superilles, nome em catalão para “superquarteirões”. A ideia é juntar blocos de nove quarteirões e transformá-lo em apenas um, formando um quadrado de 400 metros de cada lado. No interior deles, as ruas serão substituídas por calçadões, ciclovia, espaço de lazer e área verde. Carros e ônibus passarão pelas ruas externas desses blocos.

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O projeto prevê que 94% da área de vias dentro dos superquarteirões sejam destinadas a pedestres. A circulação de veículos motorizados será permitida, mas apenas para tráfego local (moradores, prestação de serviços e atendimentos de emergência) e com limite de velocidade em 10 km/h.

A restrição a veículos fará que as ruas que delimitam as superquadras tenham mais concentração de carros e ônibus. Para que o trânsito não se torne inviável, o plano envolve o investimento na melhoria da estrutura nesses corredores, sobretudo com o estabelecimento de uma nova rede de ônibus.

Esquema atual das quadras de Barcelona (à esquerda) e como ficarão os superquarteirões (à direita)
Esquema atual das quadras de Barcelona (à esquerda) e como ficarão os superquarteirões (à direita)

Nesse primeiro momento, serão criados apenas cinco superilles, todos em Eixample. O bairro – um dos mais movimentados de Barcelona – tem quadras regulares (veja aqui), facilitando o trabalho de aglutinação de blocos. Por isso, os estudos iniciais foram feitos em cima dessa região da capital catalã. A estimativa da prefeitura é que o custo de implementação dos cinco superquarteirões fique em € 1,7 milhão, mas todas as fases custariam em torno de € 10 milhões.

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O objetivo final é reduzir em 21% o uso de carros na cidade.  Com 120 mil veículos a menos nas ruas, a prefeitura acredita que seja possível reduzir a poluição e atingir as metas estabelecidas pela União Europeia para 2018.

Alemães criam semáforo no chão para quem anda na rua olhando celular

Existem algumas coisas que todos nós sabemos que são erradas, mas fazemos. Fazemos porque não conseguimos evitar, porque achamos que não causa grandes problemas, porque provavelmente ninguém vai nos repreender. Talvez vocês tenham pensado em infrações das mais diversas (e talvez nem tão inofensivas assim, estamos de olho!), mas eu me referia a andar na rua olhando o celular.

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Só o vício das pessoas por estar com pressa mesmo quando não deveria, somado ao vício por atualizar o aplicativo do Facebook mesmo quando se sabe que há 99% de chance de nada de novo ter pintado desde a última atualização, 20 segundos antes, explica como tanta gente (leia-se “quase todo mundo”) faz isso algumas vezes. Tentando se adaptar ao novo mundo e mostrar compreensão com essas pessoas, a prefeitura de Augsburg, cidade no sul da Alemanha, implementou uma espécie de semáforo específico para quem está olhando mais para o celular do que para a rua.

A ideia foi implementada em caráter experimental em duas estações de bonde da cidade. No local em que a calçada/plataforma termina e começa o caminho dos elétricos, há uma série de pequenas lâmpadas de LED no chão. Elas piscam a luz vermelha ou verde, indicando para o pedestre se há ou não algum veículo passando.

Luzes no chão para alertar pedestres que estão olhando o celular na estação de bonde (Divulgação / SWA / Thomas Hosemann)
Luzes no chão para alertar pedestres que estão olhando o celular na estação de bonde (Divulgação / SWA / Thomas Hosemann)

O princípio soa interessante, mas muita gente fica tão compenetrada no celular que é capaz de não perceber que há luzes vermelhas piscando em sua visão periférica. Além disso, não deixa de ser um incentivo para as pessoas continuarem andando na rua olhando o smartphone. Mas, vá lá, talvez esse seja um mal incurável dos nossos tempos e assumir logo a derrota seria o melhor caminho.

Pedestre, e agora, quem poderá te defender?

O que é? Os mexicanos contam com um novo super-herói. Não é o Chapolin Colorado, nem Kalimán, muito menos El Kabong ou Zorro, até porque os dois últimos são americanos de origem latina. É Peatónito, o homem mascarado que saiu das lutas livres para proteger as figuras mais vulneráveis do trânsito da Cidade do México: o pedestre. Jorge Cáñez, cientista político, ativista da mobilidade ativa e identidade não-tão-secreta por trás de Peatónito esteve no Brasil na última semana para o Seminário Cidades a Pé e deu entrevista exclusiva ao Outra Cidade.

“Não contavam com a minha astúcia”

A causa do pedestre ainda engatinhava na Cidade do México. Era 2012 e as primeiras entidadas haviam surgido apenas no ano anterior. Com um discurso ainda novo, era difícil para Jorge Cáñez, cientista político e ativista da mobilidade ativa, passar sua mensagem ao público e às autoridades mexicanas. Até que ele resolveu ir a uma tarde de luta livre com um amigo. E lá estava sua resposta.

A luta livre é um espetáculo típico mexicano, a ponto de ser internacionalmente chamado pelo nome original, lucha libre, para não se confundir com outras formas de combates. Nela, os lutadores usam máscaras e roupas estilizadas, sempre criando um personagem. Um dos combatentes invariavelmente representa o bem, a ética, a proteção ao mais fraco. O outro é o mal. Os golpes são coreografados, mas é inegável que os atletas precisam ter grande agilidade e força para realizar as acrobacias.

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Esses elementos deram a luz a Cáñez. Se o pedestre é o elemento mais vulnerável nas ruas das grandes cidades, ele precisa de um luchador para defendê-lo. “É um personagem com uma causa social: a luta por cidaeds mais humanas. Saindo da lucha libre, comprei uma máscara, uma capa e comecei, ao lado de um amigo, a sair defendendo os direitos dos pedestres”, conta. E assim nascia Peatónito (de “peatón”, pedestre em espanhol).

Peatónito dá uma observada nas ruas de Tijuana (Divulgação)
Peatónito dá uma observada nas ruas de Tijuana (Divulgação)

O resultado foi imediato. O surgimento de um super-herói  ajudou a criar uma nova dimensão no debate sobre a mobilidade ativa na capital mexicana. “Uma máscara e uma capa são armas massivas de comunicação. É uma forma divertida, lúdica e ilustrativa de comunicar a mensagem de quais são os direitos do pedestre”, comenta Cáñez.

Facilitar a comunicação era um passo importante para o movimento. Até aquele momento, o tema dos pedestres não estava no debate público e, por isso, não entrava na agenda de prioridades do governo. Com isso, não havia investimentos extras para calçadas, cruzamentos e transporte público. “O Peatónito foi uma forma de ganhar a opinião pública e poder conscientizar os cidadãos desse grave problema e como o governo poderia designar uma parte de seu orçamento para a mobilidade ativa.”

URBANISTA: “Priorizar os pedestres é uma das formas de humanizar as cidades”

“Todos os meus movimentos são friamente calculados”

O Peatónito não tem uma marreta biônica ou um violão para acertar a cabeça de quem desrespeita o direito dos pedestres. Sua estratégia é expor os momentos em que os cidadãos a pé são ignorados, mostrando ao público como isso é mais recorrente do que parece, tamanha é a prioridade ao carro.

Assim, suas “armas” são atitudes quase caricatas. Quando um carro avança sobre a faixa, ele os empurra para trás. Outra ação comum é identificar algum ponto em que deveria haver uma faixa ou uma calçada e pintá-la no chão. Mas sua atitude mais polêmica é a forma como protesta contra carros que estacionam na calçada. “Nessas horas, eu caminho sobre os carros ou coloco para o lado as motos. É complicado porque o proprietário do veículo pode chegar”, conta.

E como evitar que o lutador tenha de efetivamente lutar contra um motorista irritado? “Sou pacífico. Não tiro sarro, não humilho, não dou bronca. Apenas ilustro que aquele é o espaço do pedestre. Mais de 90% dos motoristas reagem com bom humor às minhas ações.”

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O Peatónito atuou um pouco por São Paulo, ao lado de Super-Ando, um recém-criado colega brasileiro. Foi um passeio rápido no bairro de Pinheiros, onde ficou hospedado e onde foi realizado o seminário Cidades a Pé. Cáñez relata que os paulistanos não encararam de maneira tão leve. Segundo ele, cerca de metade dos motoristas brasileiros que ele encontrou ficaram irritados com as ações do super-herói dos pedestres mexicanos.

“Suspeitei desde o princípio”

Apesar de quase todas as legislações de trânsito considerarem os pedestres como preferenciais, é compreensível que a realidade não reflita essa orientação. Durante décadas, as cidades cresceram em torno de carros, com projetos urbanísticos e viários pensando nos automóveis. Mudar a cultura e até a infraestrutura das cidades é difícil, e esse é um cenário que Cáñez considera muito semelhante entre Brasil e México. Ainda assim, o pouco que viu da capital paulista lhe deu uma impressão ainda mais forte dessa tendência.

“Aqui em São Paulo, eu vi avenidas mais largas que na Cidade do México. Era muito espaço para o carro. Até entendo que motoristas e governantes reajam ao congestionamento argumentando que é preciso mais espaço ainda. É normal, é intuitivo pensar isso. Mas a realidade mostra que isso não funciona”, analisa. “Se houver mais espaço, vai haver mais carros, sempre.”

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Outro argumento apontado por Cáñez é o que considera uma inversão de valores, considerando que 100% das pessoas são pedestres em algum momento do dia e, por isso, deveriam ter prioridade. “No México, apenas 30% das pessoas se locomovem por carro, uma proporção parecida com a de São Paulo e de outras grandes cidades latino-americanas. É quase um padrão da região. Todas essas cidades precisam de um planejamento urbano orientado à mobilidade, com adensamento, permitir que as pessoas vivam perto de seu trabalho e dos centros recreativos.”

As ruas não são feitas para que o pedestre tenha prioridade. Elas têm de orientar os carros a trafegar de modo que os pedestres possam circular”
Jorge Cáñez

“Sigam-me os bons”

A luta de Peatónito já deu resultado. As autoridades de várias cidades mexicanas já incluem algumas das questões exigidas pelos pedestres e seu trabalho (como o ativista Cáñez ou como super-heroi) já o levou a vários congressos sobre mobilidade pelo mundo. Mas o passo seguinte está sendo dado. A ideia surgida na saída de uma tarde na lucha libre em 2012 começa a dar frutos.

Versões regionais de Peatónito já surgiram no México, como o Peatón Lagunero (da Comarca Lagunera, região metropolitana formada por Torreón, Gómez Palacio e Ciudad Lerdo). Pois a visita do super-heroi ao Brasil marcou o lançamento de Super-Ando, o companheiro brasileiro. “Desde que surgiu o Peatónito, a ideia era que fosse algo de domínio público e que poderiam replicar onde quisessem. O princípio é que as pessoas podem fazer justiça de forma divertida”, comenta. “Precisamos de mais. Muitas vezes, as ideias ficam apenas em congressos, que são sempre frequentados pelas mesmas pessoas. Mas isso nunca fará que o discurso chegue a sua avó, a seu sobrinho, ao trabalhador comum, ao empresário.”

TESTE MOSTRA: Tempo dos semáforos ignora necessidade dos pedestres

Peatónito e Super-Ando caminharam algumas horas pelas ruas de São Paulo. O super-herói mexicano até aprendeu a falar “Prioridade é do pedestre” em português. Talvez falando com sotaque espanhol a mensagem seja mais entendida, porque ainda falta muito para ela se tornar realidade nas ruas brasileiras.

Peatónito faz uma selfie ao lado de Super-Ando, sua versão brasileira (Divulgação)
Peatónito faz uma selfie ao lado de Super-Ando, sua versão brasileira (Divulgação)

Brasília foi criada para carros, mas também já pensa em mobilidade ativa

O que? Poucas cidades são tão hostis aos pedestres quanto Brasília. O modelo urbano da capital federal foi feito para carros, exigindo deslocamentos suficientemente grandes para desencorajar a locomoção a pé (ou mesmo de bicicleta). Mas a cidade cresceu mais do que seus idealizadores imaginaram e, como qualquer metrópole, pensar em mobilidade ativa se tornou uma necessidade.

Metrôs e polos de interesse

Brasília e carros foram feitos um para o outro. Não é exatamente uma força de expressão. De fato, a capital federal foi concebida em cima de um plano urbanístico centrado na circulação de automóveis. O que fazia sentido em uma época em que o principal lema do governo federal era o rápido desenvolvimento econômico representado pela construção de uma nova capital e da entrada das montadoras no País. Manter esse modelo de cidade nos nossos dias é algo insustentável, e um dos caminhos buscados é incentivar as pessoas a se deslocarem mais a pé ou de bicicleta.

Quem conhece Brasília deve tomar um choque ao pensar nisso, pois o Plano Piloto foi feito em cima de largas avenidas, setorização dos serviços (comércio, hotelaria, hospitais, administração pública) e pouca trama viária. Tanto que se criou a brincadeira que a capital federal não tem esquinas. Mas isso é ver limitar o Distrito Federal de forma que ele caiba no seu desenho original, como se a cidade pudesse ser congelada no tempo. A capital se transformou em uma metrópole, e o Plano Piloto é só uma parte disso.

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Atualmente, o DF tem cerca de 3 milhões de habitantes, sendo que apenas 10% deles vivem no Plano Piloto. Nas demais regiões administrativas, como Ceilândia, Planaltina (fundada mais de um século antes de Brasília), Gama e Taguatinga, o crescimento urbano não seguiu o modelo modernista de Lúcio Costa. Todos os dias, milhares de pessoas saem dessas áreas e se dirigem ao Plano Piloto, onde está a maior parte da atividade econômica da capital (60% do PIB local ainda é salário de funcionário público federal). E é nessas pessoas que o governo distrital (GDF) está pensando.

Para incentivar o uso do transporte público e reduzir o número de carros, foi lançado o projeto “Mobilidade Ativa no Entorno das Estações de Metrô”. O objetivo é facilitar o trajeto de quem queira ir a pé ou de bicicleta às estações de metrô e, de lá, se deslocar pelo resto do Distrito Federal. O plano também inclui as ruas ao redor de áreas de grande movimento dentro dessas cidades, como hospitais e centros de comércio. O custo seria baixo, pois o GDF estaria aproveitando para fazer as melhorias em vias que no momento em que as mesmas passariam por um já previsto recapeamento ou simplificariam as intervenções ao usar soluções baratas, como instalar tartarugas para isolar uma faixa.

Rua de Taguatinga
Rua de Taguatinga

O projeto não consiste apenas em fazer ciclovias ou reformar calçadas.  É preciso implantá-lo em vias que conduzam as pessoas para seus possíveis destinos. “Fizemos um estudo das regiões que pudessem ser percorridas gastando a mesma quantidade de tempo, delimitando a área de abrangência de cada pólo e buscando sempre trajetos de no máximo 15 minutos. Não basta traçar um raio em torno do metrô. O estudo considera as vias e calçadas disponíveis e o comportamento das pessoas nessas áreas. Muitas vezes é mais fácil para uma pessoa ir a uma estação ligeiramente mais longe devido a uma característica do caminho”, explica Thiago de Andrade, secretário de gestão do território e habitação do Distrito Federal, em entrevista ao Outra Cidade.

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Como tem ocorrido em outras metrópoles do mundo, há resistência a esse processo. Em algumas regiões, como Águas Claras (onde se concentra uma população de alto poder aquisitivo), houve críticas à colocação de ciclofaixas no asfalto, reduzindo o espaço para carros. “A solução do DF não é a mesma de São Paulo ou de Quito, mas todo mundo passa por esses problemas. O carro está aí há 50 anos e pautou o crescimento de várias cidades, como São Paulo, Los Angeles, Tóquio, Atlanta, Bogotá, Cidade do México…”, comenta Andrade.

“Todo mundo pede transporte público, mas, no fundo, muitos só querem para que os outros usem o metrô e liberem espaço para continuar andando de carro, mas com menos trânsito”

Thiago de Andrade, secretário de gestão do território e habitação do DF

Para o secretário, ainda há uma resistência cultural e nem sempre se entende que um plano de mobilidade exige alguma mudança de comportamento de todos. “Todo mundo pede transporte público, é um discurso recorrente. Mas, no fundo, muita gente só quer transporte público para que os outros usem o metrô e liberem espaço para ele continuar andando de carro, mas com menos trânsito.”

Enquanto isso, no Plano Piloto

Ciclista passa pela Esplanada dos Ministérios (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Ciclista passa pela Esplanada dos Ministérios (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

As ações iniciais do projeto de mobilidade ativa se concentram nas antigas cidades-satélites, mas devem chegar ao Plano Piloto. Com muitos espaços livres e vias largas, há incentivo de sobra para se usar o carro: o trânsito é bom em comparação a outras capitais brasileiras e é relativamente fácil estacionar perto do local de trabalho. A ideia é mudar isso gradualmente.

URBANISMO: “Priorizar os pedestres é uma das formas de humanizar as cidades”

Um dos passos seria expandir o metrô e criar faixas de trânsito rápido para os ônibus. Depois, aumento das áreas de estacionamento com zona azul, reduzindo um pouco as vagas de estacionamento em algumas áreas. Mas a meta de longo prazo, e mais difícil, seria descentralizar a economia do Distrito Federal para diminuir a intensidade do tráfego entre as cidades e o Plano Piloto.

Para atingir essa meta, uma das medidas a serem tomadas é a transferência do governo distrital do Palácio Buriti, no Plano Piloto, para uma nova área administrativa que está sendo erguida em Taguatinga. Outra política prevista é consolidar o comércio e incentivar indústrias não poluentes nas diferentes áreas urbanas do DF.