LA debate até onde se pode ir para dar segurança às crianças no parquinho

Vias expressas elevadas, baixo adensamento, pouquíssimas edificações verticais, áreas de estacionamentos enormes, distâncias desproporcionais para acessar qualquer serviço. Los Angeles é uma cidade feita para quem tem carro, mas até lá existe a intenção de mudar isso. A prefeitura atual investe na expansão do metrô (sua rede já é maior que a de qualquer cidade brasileira), luta por verticalizar os prédios e anunciou a criação de mini-parques nos bairros. Mas essa última ideia enfrenta um obstáculo: um projeto de lei para dar mais segurança às crianças.

O vereador democrata Mitch O’Farrell apresentou um projeto que proíbe que adultos desacompanhados de crianças fiquem em torno da área de playgrounds nos parques públicos de Los Angeles. A proposta surgiu como medida para evitar a atuação de traficantes que oferecem drogas a menores, mas também visa inibir a ação de pedófilos.

Há um princípio polêmico no texto, pois ele indiretamente pressupõe que todo adulto sozinho é um traficante ou pedófilo em potencial, afetando direitos básicos como o de ir e vir e a presunção de inocência. No entanto, essa lei já é aplicada em várias cidades norte-americanas conhecidas pelo uso de áreas públicas por parte da população, como Nova York, São Francisco, Santa Mônica (região metropolitana de LA) e Miami Beach. Ou seja, há base legal para adotar essa medida e parte da opinião pública apoiará qualquer ação que tenha como pano de fundo o combate ao tráfico de drogas ou à pedofilia.

No entanto, muitos angelinos estão contestando a ideia. Em uma cidade com poucos espaços públicos, é comum que adultos acabem usando parte da infraestrutura de playgrounds. Isso vale desde pessoas que querem apenas usar o banco para sentar enquanto comem algo (fazer uma refeição enquanto vai de um lugar a outro é uma tradição cultural nas grandes cidades dos EUA) até para quem está fazendo um exercício, por exemplo, usando a estrutura dos brinquedos como apoio para o alongamento antes ou depois de uma corrida.

Outro problema é que o projeto de mini-parques da prefeitura prevê que vários deles tenham área de recreação infantil. Se adultos desacompanhados não puderem ficar ao redor de um playground, eles praticamente estariam proibidos de circular nesses novos espaços.

Os críticos do projeto de O’Farrell argumentam que as leis já existentes deveriam dar conta do combate ao tráfico de drogas e à pedofilia. Se houver um policial perto de cada playground para agir diante da presença de um adulto desacompanhado, ele também pode ser acionado se um adulto estiver oferecendo algo, tirando fotos ou conversando de forma suspeita com uma criança. Além disso, pedófilos já condenados muitas vezes não podem circular próximo a áreas com grande concentração de crianças, como parques e escolas públicas.

O debate deve seguir, mas o departamento de recreação e parques de Los Angeles apoia o projeto de lei. Assim, é provável que ele passe, mas sua regulamentação talvez preveja situações que evitem uma autossabotagem no processo de levar os angelinos aos espaços públicos.

A foto acima é de Rob Ford (à direita), ex-prefeito de Toronto, brincando de gangorra com seu irmão Doug Ford Jr.

Espaços de brincadeira conectam as crianças com as áreas públicas

O que é uma praça? É um local que pode – e deve – servir como ponto de encontro de uma comunidade, uma área para interação entre as pessoas e entre as pessoas e sua cidade. Mas, para uma criança, uma praça pode ser muito mais. Na verdade, pode ser tudo. Pode ser um castelo, pode ser um campo de futebol, uma floresta, uma pista de corrida, um labirinto, um caminho de obstáculos, uma cidade inteira. Depende apenas do que ela imaginar, e dos elementos que forem dados para despertar essa imaginação.

Nem sempre se dá a devida atenção à função das crianças na vida de um espaço público. Mas elas, por sua própria capacidade de criar situações mais diversas na sua cabeça, talvez saibam como ninguém o quanto praças e parques podem ser utilizados das mais diferentes formas. E criar essa conexão entre os pequenos e essas áreas é um bom aprendizado para formar uma comunidade que preze pelos seus espaços, que não tenha medo de sair de casa para ocupá-los, melhorá-los e até torná-los mais seguros.

Foram ideias como essas que passaram na cabeça do designer Roni Hirsch quando seu filho nasceu em 2013, justamente na época das manifestações populares que marcaram aquele ano. A relação dos brasileiros com seu país estava mudando. Era momento de ele também fazer algo, sobretudo para o recém-chegado Ravi. Foi o início do Erê Lab.

O projeto surgiu em 2014. Roni aproveitou a experiência que já tinha em design e cenografia para criar uma empresa de mobiliário urbano para crianças. Mas o objetivo era ir além dos brinquedos tradicionais de playground. O objetivo era trabalhar essa ideia para criar novas estruturas, que instigassem a capacidade da criança de criar interações e brincadeiras novas.

“Nosso primeiro trabalho foi na Made (feira de design). Levamos algumas peças, mas eram grandes. Acabaram nos oferecendo uma área verde, uma espécie de praça que havia no espaço. Apostamos na ideia e teve muito retorno. O público entendeu que eram mobiliário infantil com design, com elemtnos diferentes que conversavam com o conceito da Made. Mas as crianças adoraram, começaram a brincar lá e até teve site que mencionou nosso trabalho como se fosse o espaço infantil da feira”, conta Hirsch.

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A partir daí, o Erê Lab (“erê” vem do yorubá “iré”, “divertimento”) ganhou corpo. A empresa já tem sido chamada para trabalhar em diversos eventos públicos. Apenas em 2015 foram quase 30. Bastante, considerando que a produção quase toda é em oficina própria, com equipamentos muitas vezes feitos sob medida para o cliente.

Pode soar como limitação industrial, mas a própria filosofia dessa startup prevê essa linha de atuação. Há equipamentos em catálogo para venda ou aluguel, mas o Erê Lab também cria produtos sob medida e realiza workshops para explorar a fantasia das crianças em um espaço público. Um elemento importante nessa área, sobretudo pela dificuldade de muita gente (adultos, claro) entender quão complexa pode ser a interação dos pequenos com os espaços.

“É preciso um grande exercício de abstração para enxergar a cidade com os olhos de uma criança”, comenta Hirsch. “É tudo diferente, mesmo entre elas. Uma criança da região da avenida Paulista (zona central de São Paulo) brinca de forma diferente de uma criança da periferia. Elas têm bagagem diferente, reagem diferente. Quando montamos um espaço na periferia, algumas tinham até receio de usar no começo. Perguntavam: ‘É para mim? Posso usar, tio?’. Na Paulista, eles já vão e usam.”

Roni Hirsch e Heloisa Paoli, diretores do Erê Lab (Divulgação)
Roni Hirsch e Heloisa Paoli, diretores do Erê Lab (Divulgação)

A dificuldade de entender como as crianças percebem o espaço cria obstáculos no momento de propor equipamentos para certas áreas públicas. “As licitações ainda são muito limitadas, padronizadas. Definem os quatro ou cinco brinquedos de sempre, com aquele jeito que é feito há décadas. É difícil fazer uma praça com playground diferente desse jeito, e, para a criança, quanto mais louco, melhor”, explica Heloisa Paoli, diretora-executiva da empresa.

Ainda assim, o Erê Lab consegue espaço em projetos diferentes. “Já fizemos áreas de lazer de shopping AAA e condomínio de luxo no interior de São Paulo a unidades do Sesc e comunidades carentes no Rio de Janeiro”, diz Hirsch.

Se projetos como esse ganharem força, as áreas públicas tendem a receber mais e mais crianças. A partir dessa ocupação e do entendimento do que ela traz, é natural que surjam demandas por melhorias dos espaços, como estrutura para descanso (afinal, a criança raramente vai sozinha a um parque ou praça), limpeza da área, faixas de pedestres, rampas e iluminação. Benefícios para qualquer pessoa, de qualquer idade.

Coreanos criam playground dobrável para falta de espaços públicos

Metrópoles cada vez mais adensadas, com o metro quadrado sendo disputado a tapa pelas incorporadoras e espaços públicos sumindo entre as novas construções e obras de mobilidade. No final das contas, áreas livres para a prática de atividades esportivas, seja em praças ou mesmo em escolas, começam a rarear ou a se espremerem. É uma realidade em vários lugares do mundo, e uma criação de um escritório de arquitetura da Coreia do Sul pode ajudar a dar um pouco de alívio para essas áreas.

O BUS Architecture, desenvolveu o Undefined Playground (“playground indefinido”). Trata-se de uma estrutura de 3,66 metros de altura dobrável em várias configurações (veja galeria abaixo). Para cada uma das faces que se expõe, é possível realizar alguma atividade recreativa ou de útil para uma praça pública: futebol, basquete, tênis, disco, banco para descanso e uma pequena sala – que pode se transformar em uma pequena venda de lanches ou mesmo um local para guardar equipamentos esportivos.

A ideia do designer Park Ji-Hyun, principal responsável pelo projeto, era criar um espaço em que várias pessoas pudessem praticar atividades diferentes ao mesmo tempo em locais apertados. A estrutura modificável cria um aspecto mais lúdico em torno do espaço, virando ele próprio uma ferramenta de brincadeira e interação para crianças. Outra vantagem desse sistema é que, por ser portátil, pode ser colocado de forma provisória, como no caso de eventos pontuais.

Claro que, no geral, não substitui uma quadra de esportes ou um playground público equipado adequadamente. Mas pode se tornar uma solução interessante para espaços em que a estrutura ideal é impossível ou demoraria a ser construída. E dar motivos para as pessoas irem às ruas realizar atividades físicas e recreativas é sempre bom.

Como adensar e criar áreas públicas? Fazendo parque no topo dos prédios

Estocolmo é uma das cidades com crescimento mais acelerado na Europa. As autoridades locais calculam que, em 2024, a capital sueca chegue a 2,6 milhões de habitantes, 17% a mais que hoje. Um desenvolvimento nesse nível acaba criando necessidade de se aproveitar melhor os espaços, ainda mais em uma metrópole tão retalhada por canais, que se orgulha de possuir muitas áreas verdes e sofre para lidar com as limitações impostas pelo inverno rigoroso. Por isso, o arquiteto Anders Berensson criou uma ousada proposta para adensar o espaço no centro e ainda criar espaço público: uma espécie de parque composto pelas lajes dos edifícios.

A ideia – batizada de Klarastaden, ou cidade clara – seria adotada em uma área nova, criada na orla do canal Barnhusviken e os lagos Karlbergs e Klara (que nada mais são que partes largas de um canal). É uma área central em Estocolmo, atualmente ocupada pelas linhas de trem que chegam à Estação Central. Berensson sugere que a linha se torne subterrânea, permitindo que o terreno acima dela seja ocupado com edifícios altos – se tornaria a região mais alta da capital sueca – e ajude a integrar os bairros ao norte e ao sul do canal.

Para que isso não se torne apenas mais uma área de exploração imobiliária, o arquiteto sugere que a ocupação desse novo bairro respeite parâmetros que permitissem a comunicação aérea entre eles. Assim, a diferença de altura não seria grande e eles ficariam próximos.

A partir daí, seriam feitas passarelas para pedestres entre a laje de cobertura de um edifício e outro, chamados no projeto de skywalks. Além disso, recuos estratégicos na fachada e o topo dos prédios criariam pequenas áreas verdes para o público. Esses novos empreendimentos teriam imóveis residenciais, comerciais e escritórios, criando 5,8 mil novos apartamentos no centro de Estocolmo. A valorização imobiliária também ajudaria a custear as obras na linha do trem. O site do escritório tem mais detalhes do projeto.

Uma ideia exótica, que talvez suscite dúvidas em relação a segurança nos edifícios (afinal, o topo deles se tornariam áreas públicas e qualquer um poderia, de alguma forma acessar sua cobertura) e ao uso desses espaços durante o inverno. De qualquer forma, não há perspectiva de ela sair do papel em curto prazo. A Klarastaden foi elaborada a pedido do Partido Central (centro-direita com uma agenda pró-desenvolvimento sustentável), mas a prefeita Karin Wanngård é do Partido Social-Democrata (centro-esquerda).

Em última instância, fica como mais uma proposta inusitada de Berensson. Seu escritório já criou projetos como um pedaço de parque flutuante para se fazer piquenique no rio, uma sauna dobrável e essa forma de moradia que não sabemos como definir. Nesse contexto, passarelas que ligam pequenos parques na cobertura de prédios parece algo bastante convencional.

Área reurbanizada sobre a linha do trem na proposta de Anders Berensson (Divulgação)
Área reurbanizada sobre a linha do trem na proposta de Anders Berensson (Divulgação)

O Brasil precisa ver o esporte como meio de integrar pessoas e cidades

O que? São Paulo terá mais uma edição da Virada Esportiva neste fim de semana (24 e 25). O evento não tem grande repercussão e mesmo a adesão muitas vezes é modesta, o que mostra como ainda há dificuldade de se entender a importância do esporte na sociedade. Não apenas como lazer, mas como atividade que promove integração entre as pessoas.

O esporte como ferramenta de interação

Acontece a cada quatro anos e não deve ser diferente em 2016: o mundo se reúne para os Jogos Olímpicos, o Brasil acaba conquistando uma quantidade de medalhas inferior ao que a mídia e a torcida quer (o que não significa que estejam fora de nossa realidade) e haverá os discursos de como o esporte não tem apoio no País. Ainda que o fato de a edição do ano que vem ter sede no Rio de Janeiro deva aumentar a quantidade de pódios brasileiros, a chance de algum nível de decepção existe.

O caminho mais tradicional é falar da falta de apoio ao esporte na escola, com infraestrutura deficiente e sucateamento das aulas de educação física. Isso é verdade, mas não é apenas no sistema educacional que a atividade esportiva não recebe a importância devida. Não há esporte suficiente no dia a dia das cidades brasileiras. E, por isso, iniciativas como a Virada Esportiva (que ocorre neste fim de semana em São Paulo, mas tem equivalentes em outras cidades) precisam de mais atenção e carinho.

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O esporte tem importância econômica (as competições geram dinheiro e empregos, além de criar caminhos para uma ascensão social rara no Brasil) e educacional (incentivam crianças a permanecerem na escola) inegáveis e fáceis de compreender. No entanto, nem sempre se olha para ele como uma ferramenta de interação social.

Qualquer esporte se desenvolveu pela necessidade das pessoas de criarem jogos para diversão e socialização. O palco original disso não eram estádios, ginásios ou outras praças esportivas. Muito menos a casa das pessoas. Era a rua, a praça, o parque, a margem dos rios e outros espaços públicos que permitissem a prática de uma modalidade qualquer (que o digam o pessoal do skate e do parkour). O esporte ajuda a dar vida às cidades, ajuda as pessoas a interagirem com ela.

A cidade retribui o favor, dando um sentido àquelas atividades, mesmo no esporte profissional (onde a obrigação de vencer pode tirar um pouco o sentido lúdico). Veja abaixo um trecho do texto de apresentação do Outra Cidade nos sites irmãos Trivela e ExtraTime, falando da relação íntima entre centros urbanos e prática esportiva:

O esporte como entendemos hoje só existe com as cidades. As brincadeiras e jogos primitivos só puderam se transformar em competições e espetáculos para entreter um grupo grande de pessoas quando há pessoas reunidas para dar suporte a isso. As primeiras civilizações sempre estiveram ligadas ao surgimento de concentrações urbanas e, dentro delas, de esportes para divertir praticantes e torcedores.

Em esportes coletivos, os mais populares do mundo hoje, isso se torna ainda mais importante. Equipes representam um lugar, uma comunidade, uma cultura, uma ideia. A ligação com um grupo de pessoas é fundamental para a sustentação de qualquer equipe, do Flamengo ao New England Patriots, do Coritiba ao Real Madrid, do XV de Jaú ao Los Angeles Lakers, do Newcastle ao Boston Red Sox.

Por isso, não há esporte sem a cidade. Ela cria os cenários em que o esporte tem vida como prática, como diversão, como tema de conversa, como ponto de encontro entre rivais. E um ambiente urbano mais saudável certamente tem impacto no esporte.

Entender o papel de um evento como a Virada Esportiva é fundamental para qualquer ideia que se tenha de uma cidade mais humana. Porque o esporte não deve ser visto apenas como competição e educação. Ele também é urbanismo.

Serviço
Clique aqui para ver a programação da Virada Esportiva 2015 de São Paulo