O que acontece se o planejamento urbano é feito só para carros

Mobilidade em grandes cidades não é questão apenas de haver transporte público, vias para carros, vias para bicicletas e calçadas para que todos possam se deslocar. É questão também de planejamento da malha para permitir que as pessoas percorram caminhos mais curtos possíveis para chegar a seus destinos. Essa é ou deveria ser a prioridade de uma cidade que se pensa como uma comunidade. Uma lógica muito diferente de quando se urbaniza uma área a partir de interesses de mercados.

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Querem um exemplo? Essas duas casas da foto acima. Elas ficam em Orlando, estado da Flórida. Na terra da Disney World, os subúrbios cresceram a partir de condomínios criados pelas incorporadoras. Muitos criaram suas próprias malhas viárias e o resultado é dos mais diversos. Se não houver um mínimo de bom senso, chega-se a aberrações como a do artigo abaixo, publicado originalmente em novembro de 2014 no ExtraTime.

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Por que essas casas em Orlando são o ápice da cultura americana de vida em subúrbios isolados

Casas no subúrbio de Avalon Lakes, em Orlando (Google Maps)
Casas nos condomínios de The Preserve at Eastwood e Avalon Lakes, em Orlando (Google Maps)

Observe a imagem acima. São duas casas comuns em um subúrbio americano. A da esquerda fica no número 1572 da Anna Catherine Drive e a da direita está no 13425 da Summer Rain Drive, no leste de Orlando, Flórida. Elas são coladas nos fundos, com uma cerca dividindo o quintal de uma com o da outra. Se houver crianças nessas residências, há uma boa chance de elas pularem o muro para jogar bola, brincar de pega-pega, de casinha ou de qualquer outra coisa que pequenos fazem quando se encontram. E, apesar da imagem supostamente trivial, uma característica desses dois imóveis representam o ápice da cultura americana de subúrbios isolados e como isso pode criar situações bizarras (e não em um bom sentido).

A partir dos anos 50, as cidades norte-americanas se expandiram em torno do carro. Assim, bairros de classe média e alta foram criados longe dos centros, com o carro e autopistas garantindo a circulação rápida das pessoas. O foco não era criar bairros com uma boa trama viária, pois pequenos deslocamentos não eram o foco desse modelo urbano.

E aí chegamos às casas de Orlando. O morador de uma pode visitar o vizinho com um pulo na cerca. Se precisar ir de carro, terá de dar uma volta. Mas não é uma voltinha no quarteirão, e sim, dar um rolê de 7,1 milhas, ou 11,36 km. Isso mesmo, a falta de uma trama viária com um mínimo de lógica obriga o morador da Summer Rain 13425 a dirigir por mais de 10 km para chegar à casa do vizinho de fundo na Anna Catherine 1572. As duas nem ficam no mesmo condomínio. A da esquerda está no The Preserve at Eastwood e a da direita, no Avalon Lakes.

Durante essa viagem, ele passa por um hipermercado, uma loja de departamentos, um Starbucks, três escolas, um clube de golfe e dezenas de outros condomínios horizontais. A imagem abaixo mostra todo o trajeto. Se você quiser ver com mais detalhes, clique aqui. Mas, vendo esse mapa, dá para entender por que, mesmo nos Estados Unidos, essa cultura de urbanismo já está mudando.

O longo trajeto de carro entre duas casas vizinhas em Orlando (Google Maps)
O longo trajeto de carro entre duas casas vizinhas em Orlando (Google Maps)

Uber subsidiado como transporte público? Vai acontecer na Flórida

Construir novas ruas e estradas pode sair caro, ainda mais para um município de 43 mil habitantes que serve basicamente como subúrbio de classe média de uma cidade maior. Altamonte Springs, na região metropolitana de Orlando (EUA), achou que era preciso incentivar a população a usar menos seus carros sem realizar grandes investimentos. A solução imaginada foi para lá de alternativa: subsidiar corridas de Uber.

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Em 2014, foi inaugurado o Sun Rail, trem metropolitano que ligava as cidades na Grande Orlando no sentido norte-sul. O investimento foi de US$ 1 bilhão, mas os passageiros não aparecem. Já nos primeiros meses a linha trabalhava com movimento abaixo do mínimo necessário para bancar a operação do sistema. A empresa chegou a lançar uma pesquisa na internet para a população dar suas razões para não usar o transporte.

Para a prefeitura de Altamonte Springs, o caminho é facilitar o trajeto entre a casa das pessoas o Sun Rail. Por isso, o município arrecadou US$ 500 mil (parte desse total veio de contribuições de comerciantes locais) para bancar 25% das viagens de Uber que tenham como ponto de partida ou final a estação de trem. Outras viagens de Uber, feitas dentro dos limites da cidade, terão 20% de subsídio.

Trem do Sun Rail parado em estação
Trem do Sun Rail parado em estação

De acordo com Frank Martz, gerente municipal (profissional contratado pela prefeitura para gerenciar a cidade), é uma medida economicamente justificável. “Uma milha de autopista custa milhões de dólares. Esse sistema com o Uber podemos operar por décadas com apenas US$ 10 milhões”, calcula.

O plano entrará em vigor na próxima segunda, dia 21, em caráter experimental. Mesmo assim, já há negociações da prefeitura para incluir o Lyft, concorrente do Uber, nesse projeto. Mas, claro, há quem critique. E com bons argumentos.

A estimativa de custo da prefeitura ainda é considerada muito vaga e os custos desses subsídios podem crescer rapidamente, a ponto de inviabilizar a conta. Além disso, há contestação sobre a preferência de um transporte individual em relação a investimentos em linhas de ônibus.

A população de baixa renda tem menos acesso a um celular com internet eficiente, condição mínima para chamar o Uber. Além disso, pagar 75 ou 80% da corrida continuaria sendo seria um custo alto demais para quem já tem pouco poder aquisitivo. Uma passagem de ônibus certamente seria mais em compatível ao orçamento dessas famílias.

Decoração de Natal é mais do que trânsito: pode virar dinheiro

O que é? É um final de ano meio chocho. Em clima de crise, muitas cidades brasileiras não fizeram tantos investimentos para se decorar com motivos natalinos. Uma situação particularmente marcante em São Paulo, onde o tradicional palco da Avenida Paulista não foi montado por falta de patrocínio. Para muitos, é um tipo de investimento a fundo perdido. Mas perde-se a oportunidade de reforçar a capital paulista como um centro natalino no Brasil.

O turismo natalino

Congestionamentos e mais congestionamentos. O paulistano está acostumado a lidar com o tráfego lento, mas em dezembro a situação é particularmente mais crítica. Só tem uma coisa que pode piorar a confusão nas ruas – e irritar ainda mais os motoristas: a inauguração da decoração de Natal no Parque do Ibirapuera e na Avenida Paulista. Curiosos começam a transitar em ritmo lento para ver as luzes, e os demais reclamam da dose extra de lentidão.

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Por isso, houve até um alívio de parte da população ao ver que a maior cidade brasileira entrou menos no clima natalino em 2015. Não houve o palco na Paulista e o comércio foi mais discreto nas decorações. Mas ver a decoração de Natal apenas como um elemento que piora o trânsito é olhar para uma parte pequena do cenário.

Ônibus com luzes de Natal passa em frente à árvore de Natal do Parque do Ibirapuera (Sidnei Santos/SPTrans)
Ônibus com luzes de Natal passa em frente à árvore de Natal do Parque do Ibirapuera (Sidnei Santos/SPTrans)

Em um ambiente cada vez mais agressivo é cético, é difícil imaginar uma grande cidade brasileira imersa no conceito de “espírito natalino”. É muito mais comum encontrar pessoas irritadas com a fila nas lojas e nos supermercados para comprar presentes ou ingredientes para a ceia do que corais infantis espalhando “Bate o Sino” pelas ruas. Mas o Natal ainda é uma data importante e simbólica para muita gente, pela origem religiosa ou apenas por afinidade com todas as tradições que giram em torno desse feriado.

Há muitas pessoas que aproveitam essa época do ano para reforçar o sentimento natalino passeando ou viajando. As grandes cidades brasileiras – e São Paulo em particular – não têm capitalizado com isso. Tratam a decoração de Natal apenas como algo a se fazer para marcar o ano, mas não percebem a oportunidade que aquilo representa.

Um ponto que atrapalha é o clima, claro. No imaginário de qualquer pessoa no mundo ocidental, o Natal se relaciona com frio, neve, um velhinho barbudo com roupa para enfrentar o inverno polar e talvez a família reunida em uma sala aquecida por uma lareira. É a imagem que vem do hemisfério norte e a absorvemos no Brasil, por maior que seja o sofrimento de qualquer pessoa que passa horas de calor por ter arranjado um bico de fim de ano como Papai Noel.

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Por isso, muitos brasileiros que gostam de Natal e têm maior poder aquisitivo aproveitam a segunda quinzena de dezembro para viajar a Nova York, Londres ou Orlando/Disney. Se for um profissional no turismo natalino, pode desbravar os mercados de Natal das Alemanha ou de Estrasburgo (França), considerado o melhor da Europa. Claro que o destino vale por si só, mas o clima natalino e a possibilidade de compras contribuem. Não à toa, há muita decoração e eventos culturais e até esportivos, além de investimento do comércio em receber esses consumidores que vêm de fora.

A Regent Street, em Londres, decorada para o Natal
A Regent Street, em Londres, decorada para o Natal

Nenhuma cidade brasileira concorre diretamente com essas por motivos óbvios, mas elas podem atrair o próprio brasileiro que não tem condição de atravessar o mundo. Isso já foi descoberto por cidades serranas como Gramado (RS), Campos do Jordão (SP) e Monte Verde (MG), sobretudo pelo apelo da temperatura mais amena que a média do verão brasileiro. No entanto, as grandes cidades podem aproveitar isso. E São Paulo surgiria como uma das principais candidatas.

A capital paulista já ganhou destaque na última década pelas decorações natalinas, inclusive em edifícios residenciais. Já é comum moradores da periferia ou de outras cidades próximas a São Paulo irem até o Parque do Ibirapuera, à Avenida Paulista ou aos shoppings para verem as luzes. E isso nem sempre tem a ver com as pessoas que ficam passando de carro e tornando o trânsito mais lento.

A isso se soma o fato de São Paulo não ser um destino típico de verão, algo mais comum para o Réveillon, e ter um comércio muito forte. Mesmo que a pessoa queira passar o dia 24 e 25 de dezembro com a família, ela teria motivos para passar pela capital paulista em algum momento em dezembro para curtir esse clima e comprar presentes que talvez ela não encontre em sua cidade (ou encontre a preços mais altos).

Presépio no Conjunto Nacional, galeria na Avenida Paulista (Ubiratan Leal/Outra CIdade)
Presépio no Conjunto Nacional, galeria na Avenida Paulista (Ubiratan Leal/Outra CIdade)

De acordo com uma pesquisa da SP Turis, órgão que gere as políticas de turismo na cidade, 11% dos visitantes das atrações natalinas são de outras cidades e 13,3% dos paulistanos que estavam em alguma dessas atrações estavam hospedando parentes de outras cidades. São números interessantes, mas que poderiam ser ainda maiores.

A prefeitura divulgou a programação de Natal da cidade com várias atividades, mas falta a cidade se colocar mais abertamente como um dos grandes destinos natalinos do Brasil. Há condições para isso, desde que todos (sobretudo a população) veja o Natal como um dos grandes eventos do calendário da cidade e pare de reclamar um pouco do trânsito.