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Nem a destruição da Guerra da Síria impediu Homs de celebrar o Natal

Homs era a terceira maior cidade da Síria no início da década, com mais de 800 mil habitantes. Até que ela se tornou um ponto estratégico na Guerra da Síria em 2011. Dominada pela oposição do governo de Bashar al-Assad, ela foi cercada e se tornou cenário das mais diversas cenas de barbárie. Isso seguiu até dezembro de 2015, com a rendição do que restava das forças de oposição a Assad.

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Dois anos depois, a vida está longe de voltar ao normal. A população da cidade é estimada em apenas 200 mil e quase tudo tem de ser reconstruído, de edificações à infraestrutura básica (a energia elétrica ainda depende de geradores). Mas isso não impediu os cristãos locais — cerca de 30% da população até a guerra — se unissem aos muçulmanos para celebrar o Natal.

Então, fiquem hoje com o vídeo do canal alemão Deutsche Welle com o acendimento da árvore de Natal no centro de Homs. Ela diz muito sobre o que essa data representa, independentemente de crença religiosa.

Os Três Reis Magos não eram monarcas, muito menos mágicos

Dias após seu nascimento, o pequeno Jesus é visitado por três senhores, os Três Reis Magos. Eles foram guiados por uma estrela e chegaram a Belém levando ouro, incenso e mirra. O evento criou a tradição do Dia de Reis em 6 de janeiro, marcando o final dos festejos natalinos, e da troca de presentes. Uma tradição que e consolidou tanto que pouco se pensa no sentido dos termos. Afinal, os visitantes eram monarcas e mágicos?

Nem um, nem outro. É apenas uma questão de termos que se embaralharam séculos após séculos, misturando significados e permitindo confusão aos desavisados.

“Magos” era a forma como os gregos se referiam aos sacerdotes do zoroastrismo, religião monoteísta de origem persa que influenciou o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Muitas vezes, esses religiosos eram chamados de “sábios” ou “reis”, mesmo que não tivessem posto monárquico algum (não à toa, os “Três Reis Magos” são conhecidos por “Three Wise Men” em inglês).

Os sacerdotes zoroástricos acreditavam na astrologia e usavam a posição das estrelas para interpretar o mundo. Isso levou as línguas ocidentais a usarem os magos como ponto de partida para criar termos ligados a forças ocultas, como “magia” e “mágica”.

Ou seja, os “reis magos” significavam “sacerdotes persas” na antiguidade, sem que ninguém fosse monarca, muito menos tivesse poderes ocultos.

Para Berlim, o mercado de Natal é uma instituição

O mundo ainda estava assustado com o assassinato do embaixador da Rússia na Turquia quando veio a notícia. Um caminhão invadiu o mercado de Natal da Breitscheidplatz, Berlim, matando 12 pessoas. Um ataque chocante por si só, ainda mais porque muitas crianças foram transformadas em alvo. Mas, no caso de uma cidade alemã, o impacto é ainda maior pelo local em que ocorreu. Um mercado de Natal não é apenas uma feirinha que vende bolacha de gengibre, luzinhas e bolas para decorar o pinheirinho da sala. É uma instituição, uma parte fundamental em se viver o período do Advento, as quatro semanas que antecedem o 25 de dezembro.

A Alemanha é uma das referências nessa área. No final de novembro, crianças ganham caixas de brinquedos ou doces divididas em 24 partes, para serem abertas uma por dia a partir de 1º de dezembro. Os mercados de Natal pipocam pelas cidades e são criados roteiros para quem quiser visitá-los (e não faltam turistas natalinos pela Europa, muitos deles procurando Alemanha, Áustria e Suíça, referências nessa área). Há mercados gerais, há os temáticos (decoração, comida), há pequenos parques de diversões, há palco para coral infantil.

Essas feiras são tão importantes na experiência natalina dos alemães que há até canções que falam sobre elas. Uma das mais recentes é “Auf dem Weihnachtsmarkt” (“No mercado de Natal”), lançada por Larissa Scholies (cantora de músicas infantis) em 2014. A letra fala de crianças indo ao mercado para fazer lanche, andar no carrossel, ver as luzes e o Papai Noel, sentir o cheiro da bolacha de gengibre, sentir a neve cair.

Vivenciar isso tudo é tão importante para as famílias alemãs que nem um atentado é capaz de impedi-las de voltar. Basta ver a foto acima, tirada no mercado da Breitscheidplatz dois dias depois do ataque.

Ouça “Auf dem Weihnachtsmarkt”, de Larissa Scholies (letra original na descrição do vídeo):

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.

Quando ingleses e americanos ficaram décadas proibidos de celebrar o Natal

Fim de dezembro, já é uma tradição londrina. Milhares de pessoas vão todos os dias ao Hyde Park para visitar e se divertir no Winter Wonderland. Trata-se de uma mistura de parque de diversões com feira de Natal, com atrações que vão de barracas de vinho quente e bolachas de gengibre a castelo de gelo, em que as pessoas podem entrar e até sentar em um trono de água solidificada. Claro, tem montanha-russa também. Tudo com canções natalinas, muitos gorrinhos de Papai Noel e “Merry Christmas” no final de cada diálogo.

A Inglaterra vive intensamente o Natal, mas houve um momento em que celebrar o nascimento de Jesus era proibido no país. E não me refiro a um período muito antigo, antes da chegada do Cristianismo à ilha. Foi nas décadas de 1640 e 50, com a religião mais que consolidada entre os ingleses.

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Naquela época, o país vivia o clima da briga por poder entre o Rei Carlos 1º e o parlamento, liderado por Oliver Cromwell. A disputa deu origem à Guerra Civil Inglesa em 1642. O país ficou dividido entre o território dominado pelo rei e o que seguia o parlamento, que acabou vencendo em 1651.

A disputa política também tinha um lado religioso. Os puritanos, grupo dentro do anglicanismo que defendia uma interpretação mais purista dos textos, estavam descontentes com os rumos da igreja. Cromwell era um puritano, assim como vários dos líderes do parlamento. Assim, a Inglaterra sob o governo parlamentar adotou várias regras religiosas do puritanismo. A abolição do Natal era uma delas.

A celebração do nascimento de Cristo era um tema polêmico entre os anglicanos na época. Em 1560, a igreja escocesa havia banido os festejos de 25 de dezembro. A decisão não se manteve por muito tempo, mas os puritanos começaram a transformar essa questão cada vez mais importante.

Eles alegavam que o Natal não representava a palavra de Deus por vários motivos:

– A festa em si (que durava 12 dias, até a noite de 5 de janeiro) era pecaminosa. Afastava-se do caráter de contemplação e reflexão ao promover a bonança e ao se misturar com antigos rituais de origem pagã;
– Não há nenhuma escritura que diz que o nascimento de Jesus deva ser celebrado, tampouco alguma referência à data em que esse evento teria ocorrido;
– O nome “Christmas” (de “Christ’s Mass”, ou “missa de Cristo”) já mostraria uma influência católica no feriado.

Por isso, em 1644, a celebração do Natal se tornou ilegal nos territórios dominados pelo parlamento. Guardas circulavam pelas ruas com ordem de confiscar qualquer comida se desconfiassem que estavam destinada a alguma ceia e de impedir até grupos cantando músicas natalinas pelas ruas.

A não-comemoração do nascimento de Jesus se tornou um dos argumentos dos grupos em favor de Carlos 1º, mas também motivou contestações mesmo entre os defensores dos parlamentares. Protestos começaram a surgir, alguns até violentos, com vandalismo e destruição de lojas que abrissem em 25 de dezembro como se fosse um dia de trabalho qualquer.

O desenvolvimento da guerra e a morte de Carlos 1º em 1649 acabaram esfriando os ânimos pró-Natal. Ainda assim, historiadores entendem que as famílias tenham mantido a tradição natalina, mas apenas de forma privada.

O Natal voltou a ser celebrado apenas em 1660, quando a monarquia retornou ao poder e anulou todas as leis criadas pelo parlamento. Mas ainda havia uma região com forte influência puritana, que mantinha a proibição ao Natal.

Antes da Guerra Civil Inglesa, os puritanos sofriam perseguição das forças reais. Entre 1620 e 1640, milhares migraram para os Estados Unidos, sobretudo na região da Nova Inglaterra (extremo nordeste do país). Eles criaram Massachusetts para ter uma colônia em que pudessem viver dentro de suas leis.

Em 1659, o governo do estado seguiu a lei inglesa e também baniu o Natal. Pastores poderiam ser presos se estivessem comandando alguma celebração natalina e qualquer cidadão que estivesse comemorando a data receberia uma multa de 5 xelins (um quarto de libra, equivalente ao salário semanal de um trabalhador na época).

Com a recuperação da monarquia na sede do império, puritanos temiam perseguição e uma nova onda de imigração chegou à Nova Inglaterra. Isso manteve a proibição ao Natal por mais tempo na colônia norte-americana. A data foi legalizada apenas em 1681, mas ainda era vista como uma manifestação reprovável. Por exemplo, uma pessoa poderia ser processada por distúrbio da paz se cantasse músicas natalinas na rua.

Apenas no século seguinte que o Natal foi recuperando sua força, sobretudo após a onda de imigração de católicos irlandeses. De qualquer modo, o Natal foi um dia qualquer de trabalho, inclusive com aulas normais nas escolas, até 1870, quando o presidente Ulysses Grant decretou que 25 de dezembro era um feriado nacional.

O jeito sueco de melhorar a segurança nas ruas: Pato Donald

Tarde de véspera de Natal, 2015. Entre 15h e 16h, o SOS Alarm, serviço de emergência da Suécia, teve uma queda de 16% na quantidade de ocorrências em relação às três horas anteriores e às três posteriores. Uma queda significativa, mas que nem foi tanto se comparado ao que ocorreu no mesmo dia e horário em 2014 (20%), 2013 (26%), 2012 (23%) e 2011 (20%). Esse fenômeno de segurança pública já é conhecido há décadas no país, e é chamado de “Efeito Pato Donald”.

Não, não é um apelido criativo como os da Odebrecht para políticos que aceitavam propinas. É realmente isso. O Pato Donald causa uma queda na quantidade de ocorrências na Suécia na tarde da véspera de Natal. Tudo por causa de um programa de TV que se repete há mais de meio século e se tornou uma tradição natalina entre os suecos.

Tudo começou em 1959. A TV1, principal canal estatal do país, transmitiu o especial natalino da Disney “From All of Us to All of You” (“De todos nós para Todos Vocês”), que recebeu o nome “Kalle Anka och hans vänner önskar God Jul” (“Pato Donald e Seus Amigos Lhes Desejam um Feliz Natal” em português). Trata-se de um programa despretensioso, com Walt Disney e o Grilo Falante apresentando uma série de desenhos animados antigos do universo que criou. Com o tempo, uma figura da TV sueca substituiu Disney no papel de anfitrião e os desenhos das décadas de 1930, 40 e 50 ganharam companhia de outros, dos anos 60. As histórias nem sempre têm ligação com o Natal, é apenas uma série ininterrupta (não há intervalos comerciais) de desenhos com mais de 50 anos.

Incrivelmente, isso se tornou uma mania. A reunião familiar na véspera de Natal não está completa sem uma sessão de Pato Donald. A audiência fica entre 40 e 50% dos televisores ligados. Em 2015, estima-se que 3,44 milhões de suecos tenham visto o programa, equivalente a 35,8% da população do país. Com tanta gente diante da TV, a quantidade de ocorrências, de acidentes de trânsito a crimes, cai.

“O Efeito Pato Donald é bastante conhecido de nossos operadores, que percebem como toda a Suécia se acalma por um tempo. Muito menos gente está fora ou indo para algum lugar de carro. Isso derruba temporariamente o número de acintes e menos gente liga para o 112 (equivalente ao 190 do Brasil) nessa hora em particular”, afirmou Helena Söderblom, responsável pela comunicação do SOS Alarm.

O impacto do personagem é tão grande que seu nome até entrou no subtítulo do livro de uma exposição sobre tradições natalinas no Museu Nórdico de Estocolmo. Um fenômeno curioso, mas não raro naquela região do globo. Na Finlândia, dar assinatura de gibis do Pato Donald é uma tradição para pais que estão ensinando seus filhos a ler (e tem como não assinar depois de ver uma propaganda como essa?). Na Noruega, a mania é tamanha que foi escrito um livro sobre o “donaldismo”, a paixão pelo Pato Donald (e, por extensão, pelo universo Disney).

Se você quer um pouco dessa experiência natalina da Suécia, aí vai um episódio antigo do Pato Donald em sueco. Boa diversão.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

O verão começa hoje, apenas quatro dias antes do Natal. E provavelmente isso não é coincidência

O sol nasceu às 6h17 e a previsão é que se ponha às 19h53 em São Paulo nesta quarta. São 13h36 minutos de sol. Porto Alegre ficará ainda mais tempo ensolarada, 14h05 (das 6h21 às 20h26). O Rio de Janeiro, um pouquinho menos, 13h33 (das 6h05 às 19h38). Isso é normal em um 21 de dezembro. É solstício de verão, o dia com mais tempo de sol no ano no hemisfério sul, o dia que marca o início da estação. Ele ocorre justamente quatro dias antes do Natal, e isso possivelmente não é coincidência.

Ao mesmo tempo que o 21 de dezembro é o dia mais ensolarado do ano e o início do verão na metade de baixo do globo, ele é o dia mais curto e o início do inverno na metade de cima. Durante séculos, o solstício de inverno foi um marco para as culturas da Antiguidade, do norte da Europa ao Oriente Médio. Para algumas delas, era o início de uma temporada de dias progressivamente mais longos, um recomeço após seis meses de dias progressivamente mais curtos. Para outras, era o início do período de escassez de alimentos e era a última oportunidade de se esbaldar (inclusive abatendo animais para não ter de alimentá-los durante o inverno).

Por isso, muitos povos criaram celebrações na segunda quinzena de dezembro. Os nórdicos tinham o Yule, festival que comemorava o retorno do sol e durava até 12 dias a partir de 21 de dezembro. Pais e filhos colocavam fogo em grandes toras de madeira e cada faísca que saía das chamas representava um porco ou bezerro que nasceria no ano seguinte.

No território que hoje é o Irã, era a noite de Yalda, a mais longa e escura do ano. Nesse dia, as famílias se juntavam na casa do membro mais velho e comiam, bebiam e liam poemas.

Os romanos tinham a Saturnália, celebração do deus da agricultura Saturno. Os festejos começavam na semana do solstício de inverno e duravam um mês. Como se imagina de uma festa da Roma Antiga, havia muita comida e bebida. Era também um momento em que a ordem social era invertida. Em dia 25 de dezembro, os adeptos do mitraísmo ainda comemoravam o aniversário de Mitra.

Os judeus também tinham – e ainda têm – uma importante celebração em dezembro, o Chanuká. O motivo da celebração é um acontecimento histórico, não o solstício de inverno. De qualquer modo, a existência de uma importante comemoração judaica messa época do ano também pode ter influenciado o Natal.

No início do Cristianismo, a celebração mais importante era a Páscoa, uma herança judaica. O nascimento de Cristo não era tido como importante, até porque não há menção na Bíblia da época do ano em que ele ocorreu.

O interesse em se festejar o nascimento de Cristo se tornou forte a partir do século 3º. Vários estudiosos da igreja tentaram estimar a data em que ele teria ocorrido. A oficialização veio em 350, quando o Papa Júlio 1º determinou a Festa da Natividade em 25 de dezembro.

Há várias teorias para essa escolha. Uma delas é que marca nove meses a partir da Anunciação, celebrada em 25 de março. No entanto, várias evidências mostram que o fato de o final de dezembro já ser uma época marcada por festas foi fundamental, pois bastava absorver a Saturnália, o aniversário de Mitra e outras festas que já existiam pelo Império Romano. Além disso, a história do nascimento de Jesus menciona pastores com suas ovelhas, um cenário muito mais provável para a primavera (outono no hemisfério sul) do que com o inverno.

Alguns dos costumes natalinos são relacionados a essas celebrações pagãs, sobretudo da Yule (como a árvore de Natal) e da Saturnália (como o banquete e a troca de presentes).

Aqui está o melhor enfeite de árvore de Natal já feito

Visitar a loja após uma visita a um museu é um vício, quase uma obrigação. Nem tanto pelos souvenires, muitos deles mais caros do que deveriam, mas pelos catálogos e livros que ajudam a reforçar o conteúdo exposto ali. Mas, quando tiver a oportunidade de ir à British Library (a Biblioteca Britânica, em Londres), o Rodínia vai olhar com muito carinho a seção de objetos para lembrancinha.

Olha que coisa mais fofa essa bola de árvore de Natal em forma de globo. Depois disso, qualquer árvore de Natal comum parece um pouco sem graça. Na verdade, minha promessa de Ano Novo é decorar um pinheirinho artificial inteiro com esses globinhos para 2017. Ainda que fique difícil se animar com um valor de £ 10 (R$ 42 pelo câmbio de hoje) por unidade.

Como um muro asfixia Belém 2 mil anos após seu filho mais ilustre

O que é? Belém fica a apenas 10 km de Jerusalém. No entanto, é nesse espaço que está a fronteira entre Israel e a Cisjordânia. Quando o governo israelense construiu um muro separando a terra de judeus e de palestinos, criou um cenário de sufocamento econômico para a cidade em que acredita-se que Jesus tenha nascido.

A violência que mata uma cidade

Uma manjedoura, com um bebê ao centro, seus pais e alguns animais de fazenda ao redor. A imagem de um presépio é bastante conhecida e se torna particularmente recorrente na semana do Natal. Ela celebra o nascimento de Jesus, que para as religiões cristãs ocorreu na data que hoje é contada como 25 de dezembro do ano 1. A cena retratada teria ocorrido em Belém, mas, com medo de uma determinação do governador Herodes de matar todos os meninos nascidos na cidade, a família fugiu para o Egito e, depois, se instalou em Nazarém, no norte de Israel. Uma trajetória praticamente impossível hoje.

ENTÃO É NATAL: Decoração de Natal é mais do que trânsito: pode virar dinheiro

Pouco mais de 2 mil anos depois, Belém é uma cidade que agoniza. Sua economia era baseada no turismo religioso – impulsionado pelas visitas cristãs à Igreja da Natividade, construída supostamente no local em que Jesus nasceu, judaicas à Tumba de Raquel – e no fato de estar a apenas 10 km ao sul de Jerusalém. Muitos moradores de Belém dependiam da capital israelense para conseguir um emprego ou realizar negócios ou do pouco de terra cultivável na região.

Com o aumento das tensões entre árabes e israelenses, o governo de Israel decidiu erguer um muro separando seu território da Cisjordânia. Belém estava do lado palestino, e os 10 km para Jerusalém subitamente se transformaram em um mundo inteiro de distância. Trabalhar e fazer comércio se tornou inviável para a maioria. Viver da terra também, pois o muro também a separou da cidade natal de Jesus.

Palestinos tentam passar por ponto de checagem do muro em Belém para trabalhar em Jerusalém (AP Photo/Emilio Morenatti)

Palestinos tentam passar por ponto de checagem do muro em Belém para trabalhar em Jerusalém (AP Photo/Emilio Morenatti)

A comunicação com Israel ficou afunilada nos pontos de checagem do muro. É por eles que os moradores de Belém que ainda trabalham em Jerusalém precisam passar todos os dias, mas dependem da obtenção de um passe especial. Turistas têm um pouco mais de liberdade, mas muitos pacotes turísticos passaram a incluir visitas bate-volta a partir de Jerusalém. Sem pessoas se hospedando por muito tempo, hotéis, lojas e restaurantes da cidade também perderam muitos clientes.

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Com essa asfixia geográfica que se transformou em asfixia econômica, a cidade começou a agonizar. O desemprego passou de 50%. Milhares de cristãos se mudaram para o ocidente, reduzindo a população de Belém de quase 30 mil para 25 mil em menos de dez anos. O muro virou alvo de protestos, e hoje está cheio de grafites feitos pela população para manifestar o sonho de paz – o de que, pelo menos, o muro caia.

As Nações Unidas declararam que as partes do muro que entram em território palestino são ilegais e o Papa Francisco até rezou nele durante sua visita à Palestina em 2014, mas a quantidade de atentados terroristas caiu drasticamente em Israel e motiva a manutenção das estruturas. Enquanto isso, a cidade que ficou marcada pelo nascimento de uma das figuras mais importantes da história há cerca de 2 mil anos não consegue ver o futuro.

Decoração de Natal é mais do que trânsito: pode virar dinheiro

O que é? É um final de ano meio chocho. Em clima de crise, muitas cidades brasileiras não fizeram tantos investimentos para se decorar com motivos natalinos. Uma situação particularmente marcante em São Paulo, onde o tradicional palco da Avenida Paulista não foi montado por falta de patrocínio. Para muitos, é um tipo de investimento a fundo perdido. Mas perde-se a oportunidade de reforçar a capital paulista como um centro natalino no Brasil.

O turismo natalino

Congestionamentos e mais congestionamentos. O paulistano está acostumado a lidar com o tráfego lento, mas em dezembro a situação é particularmente mais crítica. Só tem uma coisa que pode piorar a confusão nas ruas – e irritar ainda mais os motoristas: a inauguração da decoração de Natal no Parque do Ibirapuera e na Avenida Paulista. Curiosos começam a transitar em ritmo lento para ver as luzes, e os demais reclamam da dose extra de lentidão.

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Por isso, houve até um alívio de parte da população ao ver que a maior cidade brasileira entrou menos no clima natalino em 2015. Não houve o palco na Paulista e o comércio foi mais discreto nas decorações. Mas ver a decoração de Natal apenas como um elemento que piora o trânsito é olhar para uma parte pequena do cenário.

Ônibus com luzes de Natal passa em frente à árvore de Natal do Parque do Ibirapuera (Sidnei Santos/SPTrans)

Ônibus com luzes de Natal passa em frente à árvore de Natal do Parque do Ibirapuera (Sidnei Santos/SPTrans)

Em um ambiente cada vez mais agressivo é cético, é difícil imaginar uma grande cidade brasileira imersa no conceito de “espírito natalino”. É muito mais comum encontrar pessoas irritadas com a fila nas lojas e nos supermercados para comprar presentes ou ingredientes para a ceia do que corais infantis espalhando “Bate o Sino” pelas ruas. Mas o Natal ainda é uma data importante e simbólica para muita gente, pela origem religiosa ou apenas por afinidade com todas as tradições que giram em torno desse feriado.

Há muitas pessoas que aproveitam essa época do ano para reforçar o sentimento natalino passeando ou viajando. As grandes cidades brasileiras – e São Paulo em particular – não têm capitalizado com isso. Tratam a decoração de Natal apenas como algo a se fazer para marcar o ano, mas não percebem a oportunidade que aquilo representa.

Um ponto que atrapalha é o clima, claro. No imaginário de qualquer pessoa no mundo ocidental, o Natal se relaciona com frio, neve, um velhinho barbudo com roupa para enfrentar o inverno polar e talvez a família reunida em uma sala aquecida por uma lareira. É a imagem que vem do hemisfério norte e a absorvemos no Brasil, por maior que seja o sofrimento de qualquer pessoa que passa horas de calor por ter arranjado um bico de fim de ano como Papai Noel.

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Por isso, muitos brasileiros que gostam de Natal e têm maior poder aquisitivo aproveitam a segunda quinzena de dezembro para viajar a Nova York, Londres ou Orlando/Disney. Se for um profissional no turismo natalino, pode desbravar os mercados de Natal das Alemanha ou de Estrasburgo (França), considerado o melhor da Europa. Claro que o destino vale por si só, mas o clima natalino e a possibilidade de compras contribuem. Não à toa, há muita decoração e eventos culturais e até esportivos, além de investimento do comércio em receber esses consumidores que vêm de fora.

A Regent Street, em Londres, decorada para o Natal

A Regent Street, em Londres, decorada para o Natal

Nenhuma cidade brasileira concorre diretamente com essas por motivos óbvios, mas elas podem atrair o próprio brasileiro que não tem condição de atravessar o mundo. Isso já foi descoberto por cidades serranas como Gramado (RS), Campos do Jordão (SP) e Monte Verde (MG), sobretudo pelo apelo da temperatura mais amena que a média do verão brasileiro. No entanto, as grandes cidades podem aproveitar isso. E São Paulo surgiria como uma das principais candidatas.

A capital paulista já ganhou destaque na última década pelas decorações natalinas, inclusive em edifícios residenciais. Já é comum moradores da periferia ou de outras cidades próximas a São Paulo irem até o Parque do Ibirapuera, à Avenida Paulista ou aos shoppings para verem as luzes. E isso nem sempre tem a ver com as pessoas que ficam passando de carro e tornando o trânsito mais lento.

A isso se soma o fato de São Paulo não ser um destino típico de verão, algo mais comum para o Réveillon, e ter um comércio muito forte. Mesmo que a pessoa queira passar o dia 24 e 25 de dezembro com a família, ela teria motivos para passar pela capital paulista em algum momento em dezembro para curtir esse clima e comprar presentes que talvez ela não encontre em sua cidade (ou encontre a preços mais altos).

Presépio no Conjunto Nacional, galeria na Avenida Paulista (Ubiratan Leal/Outra CIdade)

Presépio no Conjunto Nacional, galeria na Avenida Paulista (Ubiratan Leal/Outra CIdade)

De acordo com uma pesquisa da SP Turis, órgão que gere as políticas de turismo na cidade, 11% dos visitantes das atrações natalinas são de outras cidades e 13,3% dos paulistanos que estavam em alguma dessas atrações estavam hospedando parentes de outras cidades. São números interessantes, mas que poderiam ser ainda maiores.

A prefeitura divulgou a programação de Natal da cidade com várias atividades, mas falta a cidade se colocar mais abertamente como um dos grandes destinos natalinos do Brasil. Há condições para isso, desde que todos (sobretudo a população) veja o Natal como um dos grandes eventos do calendário da cidade e pare de reclamar um pouco do trânsito.

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