Uma balada ou uma conversa de uma cidade dividida?

É fácil pensar em uma trilha sonora para a queda do Muro de Berlim. Era final da década de 1980, a banda Scorpions estava no auge da fama, é alemã e tinha acabado de lançar um single que falava da reabertura política do Leste Europeu. Ainda que “Wind of Change” se refira mais claramente à glasnost e à perestroika na União Soviética (Moscou e o Parque Gorki são citados logo no primeiro verso), ela se transformou em um hino da reunificação alemã.

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No entanto, os Scorpions já tinham chamado a atenção por falar sobre as duas Alemanhas. Ou talvez não tinham. Um dos grandes sucessos da banda de hard rock foi “Still Loving You”. A balada é bastante grudenta, mas ficou nas primeiras posições nas paradas europeias (nos Estados Unidos, a aceitação do público foi mais discreta) em 1984. A letra é sobre uma pessoa que tenta retomar o relacionamento com um antigo amor.

Certos elementos da letra permitem claramente uma leitura diferente, como se fosse um lado de Berlim ou da Alemanha tentando reatar com o outro. Passagens como “seu orgulho construiu uma barreira* [NR: A palavra usada na versão original, em inglês, é “wall”, a mesma para “muro”] tão forte que não consigo atravessar” e “Algum dia poderá derrubar as barreiras*”. Integrantes dos Scorpions deram declarações dizendo que a música é apenas uma canção de amor, mas muitos fãs não acreditam que a banda não perceberia o sentido duplo do termo “barreira/muro”, ainda mais na Alemanha dos anos 80. Por isso, “Still Loving You” ainda é vista por algumas pessoas como uma música sobre a Berlim dividida, mesmo que talvez a referência seja falsa.

Confira abaixo o clipe de “Still Loving You”, dos Scorpions (aqui a letra com tradução):

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O mangue como símbolo da vida nos bairros pobres de Recife

O mangue é vida, o mangue é bom, o mangue é fundamental. O mangue é também um símbolo de Recife, uma cidade que nasceu em torno do estuário de vários rios. A ocupação urbana desordenada colocou os manguezais em segundo plano, aterrando alguns e tornando os quase um incômodo. Como uma parte da capital pernambucana que algumas pessoas preferem ignorar (ou fingir que não veem). Mas ele explica muito da cidade.

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Uma das obras de referência nesse aspecto é “Homens e Caranguejos”, do médico e cientista político Josué de Castro. Um livro que ajudou a inspirar o movimento Manguebeat, em que bandas como Chico Science & nação Zumbi e Mundo Livre S/A misturavam elementos regionais com rock. Pela própria natureza do estilo, muitas músicas carregavam elementos sociais com referências ao mangue.

O caso mais claro é Manguetown. Nela, Chico Science compara a vida na beira dos mangues com a do próprio mangue. É uma vida cheia de lama, com cheiro ruim e com habitantes que se arrastam como caranguejos (e não podem olhar por cima como os urubus). No entanto, é uma vida digna e que tem seus momentos de alegria, sobretudo quando se sai à noite para se divertir e, quem sabe?, encontrar uma garota com quem dividirá a vida na cidade do mangue.

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A canção que vai da vida na Somália ao terremoto no Haiti

Porto Príncipe parecia um cenário de guerra, talvez pior. O terremoto de 12 de janeiro de 2012 destruiu a capital do Haiti, derrubando do Palácio Presidencial até milhares de edifícios por todos os lados. Foram 160 mil mortos (número não oficial), 300 mil feridos e 1,5 milhão de desabrigados, além de 250 mil imóveis em ruínas. O desafio dos haitianos não era nada diferente do enfrentado por populações que vivem em conflitos armados.

O rapper K’naan, que passou toda sua infância em Mogadíscio, Somália, sabia bem como era isso. A capital somali foi inspiração para uma de suas composições mais famosas, Wavin’ Flag. A música se arrasta em tom que varia do melancólico ao refrão redentor, falando da tendência violenta do ambiente social, da pobreza, a luta para comer e o desejo de sobreviver para um dia ter a verdadeira liberdade. Como é Mogadíscio, como é Porto Príncipe.

Após o terremoto, um grupo de artistas canadenses formou o grupo “Young Artists for Haiti” para regravar a música e reverter o faturamento para os esforços de reconstrução do Haiti. A inspiração era as campanhas de cantores ingleses (Band Aid) e de americanos (USA for Africa, que lançou “We Are the World”) para ajudar a Etiópia nos anos 80. A nova versão de Wavin’ Flag teve a participação de 50 artistas, incluindo Drake, Nelly Furtado, Avril Lavigne, Justin Bieber e Pierre Bouvier (da banda Simple Plan).

A música chegou ao primeiro lugar nas paradas canadenses, mas ficou um pouco ofuscada no resto do mundo por outra versão. A Coca-Cola encomendou uma nova versão de Wavin’ Flag, com uma letra mais festiva e evocando um tema mais esportivo e mundial, para suas campanhas de divulgação da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. A versão acabou se consagrando como um dos hinos do torneio ao lado de “Waka Waka (This Time for Africa)”, de Shakira, mas gerou algumas críticas dos fãs de K’naan pelo uso comercial de uma música que tem origem muito diferente da celebração futebolística.

Ouça a versão original de Wavin’ Flag (neste link tem a tradução da letra):

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A rua pequena em tamanho, grande na música

O Leblon não é um bairro dos mais extensos, mas muitos de seus moradores nunca passaram pela rua Codajás. Compreensível. Ela é pequena e, apesar de ser oficialmente uma via pública, ficou no meio de uma área cercada por cancelas que se transformou no Jardim pernambuco, um dos condomínios mais caros do Rio de Janeiro. É uma via pacata, com clima quase de interior. Mas, há algumas décadas, era um dos pontos mais pulsantes da música brasileira.

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Foi na Codajás que Dorival Caymmi se instalou no Rio para criar seus filhos Danilo e Nana. Depois, a mesma rua teve como morador Tom Jobim. E ela nunca mais foi a mesma. Tom levava para sua casa alguns dos grandes nomes da MPB na década de 1960. Várias músicas saíam desses encontros, até que a própria rua começasse a se tornar personagem. Em “Caymmi Visita Tom”, há uma discreta menção a “navio da Codajás”, referência à casa em que tantos músicos se reuniam e que parecia uma embarcação.

Mas o grande momento da pequena via do Leblon veio com a parceria de Danilo Caymmi e Ronaldo Bastos. “Codajás” foi composta para ser como a rua: pequena, discreta e cheia de vida, com balanço e sentimento e um navio. Impossível esquecer o navio, tudo girava em torno dele.

Ouça Codajás na voz de Nana Caymmi

Obs.: sugestão de pauta da leitora Sonia Palhares Marinho

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A música de um jovem africano na periferia de Paris

Saint-Denis é conhecida por abrigar a catedral que marcou o início da arquitetura gótica e o estádio em que são realizadas as principais partidas de futebol na França, inclusive a final da Copa de 1998 em que os franceses derrotaram o Brasil. Mas, para quem vive nessa cidade na região metropolitana de Paris, Saint-Denis tem outro significado. É uma cidade em que milhares de imigrantes ou filhos de imigrantes africanos e árabes se instalam em busca de uma oportunidade na capital francesa.

A principal trilha sonora da vida dessas pessoas não é Édith Piaf ou Charles Aznavour, nem o Daft Punk ou David Guetta. Em Saint-Denis, como em outras cidades da Grande Paris, imigrantes e filhos de imigrantes se inspiraram nos afro-americanos e desenvolveram uma forte cena de hip hop, com músicas que falam da vida na periferia parisiense, o preconceito, a violência, as condições sociais e a relação conflituosa com as autoridades. Um dos ícones desse movimento é MC Solaar, que estourou na década de 1990 e ganhou tanto destaque que chegou a gravar uma música bilíngue com o rapper Guru para os mercados americano e inglês.

Em uma as suas músicas mais famosas, “Lève-toi et rap” (“Levante-se e cante um rap”), MC Solaar (nome artístico de Claude M’Barali) fala de sua trajetória. Apesar de algumas passagens bem específicas, como o tempo em que viveu no Cairo durante a adolescência, a letra diz muito sobre a vida de afro-franceses na periferia de Paris. O rapper conta que nasceu no Senegal de pais chadianos, morou em um abrigo em Saint-Denis, mudou-se com a família para Évry (outra cidade nos subúrbios de Paris), jogava futebol enquanto a mãe trabalhava como faxineira em hospitais (e voltava tarde para casa), envolveu-se em manifestações sociais e tinha de encarar o medo de cruzar com skinheads pelas ruas. Histórias comuns entre os milhões que vivem nos arredores de Paris, e que usam o ritmo importado dos afro-americanos para se manifestar.

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Carta aos protagonistas da diáspora uruguaia

A fama de Montevidéu é de estar parada no tempo. Apesar de seu tamanho, quase dois milhões de pessoas em sua região metropolitana, às vezes parece uma cidade da década de 1950. O ritmo das pessoas, a arquitetura, o modelo de muitos carros que circulam… tudo preserva um charme bucólico de épocas passadas. Mas isso não significa que a capital do Uruguai parou no tempo, que seja uma imagem parada. E quem talvez mais perceba essas mudanças são as centenas de milhares de uruguaios que deixaram o país em busca de mais oportunidades no exterior.

A soma de fatores como uma economia pequena e suscetível a crises, uma população com educação formal acima da média de seu continente, muitas pessoas com direito a dupla cidadania e um período de ditadura militar na década de 1970 fez que muitos uruguaios emigrassem para outros países. Hoje, calcula-se que existam de 500 a 600 mil uruguaios no exterior, equivalente a 15% da população do país.

Essas pessoas sentem saudades de Montevidéu, dos grupos de candombe tocando nas ruas, de pessoas carregando uma garrafa térmica cheia de mate debaixo do braço, dos fins de semana no Parque Rodó, do cheiro no Mercado do Porto, da competição de murgas no Carnaval, do clima de tensão em dia de clássico Peñarol x Nacional. Foi pensando nesses milhares de uruguaios que o grupo Los 8 de Momo compôs “Uruguayo que Te Has Ido”. Trata-se de uma espécie de carta a um amigo que vive distante, descrevendo a capital do país para que ele possa fazer uma viagem mental e relembrar tudo o que deixou para trás.

Esse sentimento também se vê em outra murga, mais moderna, do grupo Agarrate Catalina. Em “Retirada”, o grupo conta e canta a vida de um uruguaio que vive no exterior e nunca se sente em casa, pois sua verdadeira casa é a bucólica capital de um país que insiste em resistir no meio dos dois gigantes da América do Sul: “Para voltar à quadra do meu bairro e à sua porta / Para voltar ao seu cantinho e ao meu cantinho no planeta / Porque me deu a vida, sou de sua vida um retalho / Terra de todos os meus dias, quero morrer em seus braços”.

Ouça nos vídeos abaixo “Uruguayo que Te Has Ido” (letra), de Los 8 de Momo, e “Retirada” (letra), do Agarrate Catalina

Obs.: sugestão de pauta do leitor Matias Pinto

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A canção do migrante que virou símbolo da metrópole

O nome da música já explica muito o que ela se tornou: “Sweet Home Chicago”, “Doce Lar Chicago”. É natural que um blues com esse nome acabe se tornando um dos símbolos musicais da grande metrópole do Meio-Oeste dos EUA. No entanto, a relação da música com a cidade é muito diferente do que pode parecer. Não é uma canção de exaltação, sobre o quanto o autor se sente bem e acolhido em um determinado lugar. É sobre um trabalhador migrante. O que diz muito sobre a história de Chicago, do autor da música e do blues.

Chicago cresceu no século 19 como um porto que escoava a produção agrícola do sul, que vinha pelos barcos que subiam o rio Mississippi até St. Louis e depois seguiam de trem. Por isso, o contato da cidade com o sul sempre foi grande, um processo que se intensificou na Grande Migração (primeira metade do século 20), quando Chicago foi destino de centenas de milhares de trabalhadores rurais negros que abandonaram o sul para tentar a sorte nas grandes cidades. Junto com suas famílias e seus poucos pertences, levaram sua música, como o jazz e blues, nascidos entre comunidades ao longo do Rio Mississippi.

Muitas canções de blues falavam da vida de migração, de arrumar as malas para ir de uma cidade a outra, de sentir saudades de um lugar. Robert Johnson, talvez a primeira grande estrela do blues e também um filho do rio Mississippi, pegou uma das músicas e adaptou a letra. Incluiu menções a Chicago e Califórnia, dois destinos comuns dos migrantes do sul na década de 1930. Assim nascia “Sweet Home Chicago”.

A versão original tem um estilo de blues do Delta do Mississippi, composto basicamente por violão, gaita e um vocal que sai quase dolorido da boca do cantor. A letra não traz nada de especial a Chicago, até menciona mais vezes a Califórnia. Mas era blues, e blues é a cara de Chicago. A música foi “chicagonizada”, substituindo as citações californianas por “same old place” (“mesmo velho lugar”) e ganhando o estilo de blues da metrópole do Illinois, com instrumentos elétricos, bandas e um espírito mais dinâmico, eventualmente até alegre.

É essa a versão conhecida hoje, que tem como uma de suas referências a interpretação de John Belushi e Dan Aykroyd no filme “Os Irmãos Caras-de-Pau” (Blues Brothers), mas foi interpretada até por Barack Obama em uma sessão com astros como BB King e Mick Jagger na Casa Branca. Nada de se estranhar, pois o presidente americano é havaiano, mas fez sua vida profissional em Chicago.

Confira (e compare) três diferentes versões de Sweet Home Chicago: a de Robert Johnson, a dos Blues Brothers e a de Barack Obama.

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A solidão debaixo das autopistas de Los Angeles

É fácil conhecer Los Angeles e quase nunca colocar os pés nela. O sistema de transporte da cidade se estruturou em torno de autopistas, e o melhor (muitas vezes único) jeito de ir de um lugar para outro é pegar o carro, subir no elevado, rodar por muitas milhas até chegar ao destino. Há um mundo de coisas embaixo dessas superestruturas, mas, quem se importa quando se está com pressa?

Bem, mas vale a pena se importar um pouco. São Francisco, a outra grande metrópole da Califórnia, é arrumadinha (ainda mais depois de um forte processo de gentrificação em seus bairros de classe média), sob medida para entrar no sonho estereotipado de consumo de um turista ou alguém que pretenda morar fora um tempo. LA não é assim, mas muitas vezes ela soa mais real quando se desce para o nível da rua e a cidade expõe todas as imperfeições.

Quando o vocalista Anthony Kiedis estava se distanciando de seus companheiros na banda Red Hot Chili Peppers, ele sentia que sua única companhia era Los Angeles. A solidão oferecida pela cidade feita para carros acabava servindo como fator de identificação. Foi a inspiração para ele compor “Under the Bridge”, um dos maiores clássicos da banda. A referência à ponte presente no título é a lembrança sombria do ponto em que ele comprava drogas, mas é sob as dezenas de autopistas que está a cidade real.

No clipe, Kiedis caminha pelas ruas, interagindo com a Los Angeles que as freeways não mostram. E lá está uma metrópole instigante dentro de seu jeito de ser. Milhões de imigrantes deixaram países dos mais diferentes, como México, Coreia do Sul, China, Filipinas, Irã, Armênia, Etiópia e Bangladesh, entre outros, para tentar construir sua vida. Eles dão uma cara cosmopolita e humana a LA, uma cara imperfeita como tudo o que é verdadeiro. E há algo de reconfortante nisso.

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A ópera-bufa que retrata a Florença medieval

A Idade Média nem sempre é tratada com o cuidado que merece. Foi um período da história que durou quase mil anos e teve diversas fases dentro dela. Houve a era dos feudos, mas também testemunhou o momento de grande urbanização a partir do século 12. Um processo que alçou algumas cidades à condição de potências políticas, econômicas, militares e culturais. Foi o caso de Florença, Itália.

A ligação da capital da região da Toscana com a Idade Média se vê por todo canto, da arquitetura de seu centro histórico às obras do início da Renascença. Mas, e na música, que é o tema dessa newsletter? Bem, seguindo o caráter italiano, um bom meio é a ópera Gianni Schicchi, composta pelo toscano Giacomo Puccini em 1918 a partir de uma passagem da Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Trata-se de uma comédia, que é retratada na Florença de 1299 e conta as tramoias da família do falecido empresário Buoso Donati para ficar com sua herança, repassada originalmente à Igreja. Schicchi é um burguês que se aproxima dos Donati por meio de sua filha, Lauretta, apaixonada por Rinuccio Donati. Duas passagens merecem destaque, até pela forma como retratam a Florença urbana da época: “Firenze è come un albero fiorito” (Florença é como uma árvore florida), que mostra como a cidade recebia pensadores e artistas de todo o cantos da Itália, e “O mio babbino caro” (Oh, caro papaizinho), em que Lauretta pede que o pai aprove seu romance e menciona vários pontos importantes da cidade até hoje (a rua Porta Rossa, Ponte Vecchio e o rio Arno).

Confira abaixo a versão de Plácido Domingo para “Firenze è come un albero fiorito” e veja a letra nesse link.

A ária mais famosa dessa ópera é “O mio babbino caro” na interpretação de Maria Callas (a letra aqui).

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Era para ser um tema olímpico, virou ícone da nova Barcelona

Os Jogos Olímpicos são muito ligados às cidades em que eles são realizados. Ainda assim, é raro encontrar alguma música-tema olímpica que tenha marcado como ícone de suas sedes (na verdade, é raro alguma música-tema ficar marcada como qualquer coisa, ou você se lembra do hino de Sydney-2000 ou Atenas-2004?). Para encontrar alguma canção olímpica que acabou vinculada a um lugar, temos de voltar mais de 20 anos.

“Amigos para Siempre” virou tema quase obrigatório de festas de formatura e tem letra para lá de grudenta. Mas ela conseguiu criar uma conexão forte com Jogos de 1992 e o que eles representaram para Barcelona. O tema foi tocado na cerimônia de encerramento, com um dueto formado por Sarah Brightman e José Carreras, e virou trilha sonora de tudo quanto é clipe mostrando os grandes momentos daquela Olimpíada (até mais que outro hino do evento, “Barcelona”, interpretado por Freddie Mercury e Montserrat Caballè).

A música composta por Andrew Lloyd Webber e Don Black fala da despedida de amigos, uma amizade que a cidade de Barcelona estabelecia com o resto do mundo e que não deveria durar apenas um verão. Era essa a grande missão daquela Olimpíada: colocar a capital catalã como um dos grandes centros culturais e turísticos do planeta. Por mais grudenta e clichê que tenha se transformado, “Amigos para Siempre” simboliza esse momento.

Obs.: a letra original, com tradução em português, está aqui.

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