Propaganda mexicana provoca Trump discutindo o que é a “América”

Donald Trump anunciou que vai mesmo construir um muro dividindo toda a fronteira EUA-México, uma atitude que o transformou em pessoa mais odiada pelos mexicanos. Entre uma piada aqui e uma revolta ali, a cervejaria Corona resolveu dar uma cutucada com classe.

A empresa fez um vídeo mostrando que o slogan da candidatura de Trump, “Vamos fazer a América grande de novo”, não faz sentido porque a América sempre foi grande. Que América? O continente todo, do Alasca à Terra do Fogo.

O vídeo é muito bem feito, mas, claro, levanta a discussão que é para a geografia o que a briga pelas Taça de Bolinhas ou pontos corridos x mata-mata é no futebol: afinal, os Estados Unidos têm direito a se chamar “América” ou não? E, como no caso das argumentações futebolísticas, não há uma razão clara.

O México se chama “Estados Unidos Mexicanos” e o Brasil se chamou “Estados Unidos do Brasil” (não chama mais, viu, Serra?). Pela mesma lógica, o país ao sul do Canadá pode dizer que “América” é o nome dele. É essa interpretação que eles usam, e é a mais comum em países de língua inglesa. Para diferenciar, o continente é chamado no plural – “the Americas” – ou por suas partes – “North America”, “Central America” ou “South America”.

No entanto, dá também para argumentar que América é o continente e que o nome “Estados Unidos da América” apenas descreve o fato que aqueles estados (originalmente as 13 colônias britânicas) estão unidos em uma nação e ficam na América. Essa é a interpretação mais comum na América Latina, incluindo o Brasil.

Ou seja, as duas possibilidades estão certas, mas cada uma faz mais sentido dependendo do idioma. Como normalmente estou conversando em português com um brasileiro, prefiro “América” para o continente e “Estados Unidos” para o país, mas ninguém precisa se matar por causa disso. Vamos aproveitar e curtir o vídeo da Corona e como moramos em um continente espetacular, tendo seu nome no singular ou no plural.

Veja uma empresa americana até a medula mostrando seu patriotismo. Só que não

Difícil encontrar alguma empresa mais americana que a Redneck Riviera. A começar pelo nome, que exalta o glamour do interiorzão dos Estados Unidos. Mas não é apenas aí. Um dos principais garotos-propaganda desse fabricante de botas e roupas é John Rich, ídolo da música country e uma das celebridades mais entusiasmadas na defesa do jeito americano de ser (e também na do Partido Republicano). E, diacho, olha na imagem acima como é a home do site deles.

Em um momento em que o presidente dos Estados Unidos fala em fechar toda a fronteira com o México e em taxar mais os produtos fabricados no vizinho do sul para valorizar a indústria legitimamente americana, nada como dar uma olhada na loja online da Redneck Riviera. Donald Trump ia gostar dessa atitude.

Bem, uma passada rápida no catálogo de roupas femininas já deixa evidente o quanto eles amam os Estados Unidos. Só de ver essas estampas e já dá para ouvir ao fundo um “Oh, say can you see…”.

Redneck Riviera 2

Mas a Redneck Riviera quer que o americano seja americano da cabeça aos pés. E as botas não devem nada às roupas. Para texano nenhum botar defeito.

Redneck Riviera 3

Vamos olhar umas botas masculinas. Um modelo me chamou a atenção. Tem uma águia desenhada na frente, mais americana que comer um cachorro quente enquanto vê um jogo de beisebol.

Redneck Riviera 4

O preço pode soar salgado em reais, mas ela deve valer isso tudo. Basta olhar as especificações. Mas… espera aí! O que é aquilo no final? “Fabricado em León, México”. COMO ASSIM?????

Redneck Riviera 5

Deve ser alguma confusão, um produto especialmente para mexicanos. Afinal, a águia também é um símbolo do México, né? Até está na bandeira. Talvez por isso esteja um pouco mais barata. Vamos ver uma outra, com nome de patriótica e estrelas no cano.

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Bonitona. Essa aí certamente é fabricação americana. Nashville? San Antonio? Oklahoma? Talvez Mississippi. Mas… mas… mas… León de novo?

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Assim não dá! Vamos voltar às botas femininas, lá dava para ver o patriotismo americano exalando pelos poros. É calçar a bota e já sair recitando a Declaração da Independência. Olha só essa, até se chama “Bota da Liberdade”.

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Sem dúvida, é com uma dessa que Sarah Palin sai quando pega sua espingarda e vai caçar algum alce nos bosques do Alasca. Deve ser “Handcrafted in Idaho”, no máximo em Montana.

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De novo, León. Está desanimando. Última chance: a bota de franjinha. Os caras não ousariam desamericanizar a bota de franjinha. Afinal, é uma bota. E tem franjinha! Os americanos amam tanto isso que fizeram até a camisa mais feia da história do futebol só porque queriam botar franjinha de algum jeito.

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Fazer essas franjinhas deve ter encarecido a bota, mas é tão americana quanto o discurso de Bill Pullman na caçamba de uma caminhonete em Independence Day (e aqueles alienígenas achavam que conquistariam o planeta em um 4 de Julho, tolinhos…).

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MÉXICO DE NOVO!!! Ah, esses patriotas americanos já foram melhores…

O post acima contém altas doses de ironia. A Redneck Riviera, como qualquer empresa, tem o direito de abrir suas fábricas onde quiser, desde que dentro dos limites permitidos pela lei. Afinal, há algo mais americano do que buscar reduzir o custo de produção para aumentar sua competitividade em um ambiente capitalista? Até Donald Trump sabe disso.

Um vídeo que ajuda a entender a dinâmica da fronteira EUA-México

A questão fronteiriça entre México e Estados Unidos normalmente é vista como algo que mexicanos tiram proveito para entrar no território norte-americano e conseguir trabalho nas grandes cidades. Sim, isso ocorre. Mas não é apenas isso. Na região da fronteira, o convívio entre os dois países e seus habitantes faz parte da dinâmica econômica e cultural. É uma região quase misturada.

Não à toa, a maioria dos condados fronteiriços, inclusive no republicaníssimo Texas, votaram em favor de Hillary Clinton na disputa com Donald Trump. Para eles, a construção de um muro para separar EUA de México é algo muito mais complexo do que apenas reforço de segurança.

Ainda que seja apenas um retrato parcial do contexto geral, o chef, escritor e apresentador Anthony Bourdain fez um belo programa sobre essa região em 2006. Confiram o vídeo na íntegra (só achei em inglês, desculpe-me):


Anthony Bourdain- No Reservations – S02E08… por james-oliver

Alerta de poluição faz mexicanos tirarem 1 milhão de carros das ruas

A última quarta foi um dia atípico na Cidade do México. Milhões de pessoas foram obrigadas a deixar o carro em casa, ganhando transporte público gratuito como compensação. Alguns milhares ainda saíram nas ruas com máscaras ou usando tecidos para tapar boca e nariz. Tudo resultado de três dias seguidos com alerta de poluição.

NA ESPANHA: Madri discute adotar passe livre para ajudar combate à poluição

O ano tem sido complicado na atmosfera da capital mexicana. Em 2016, apenas 11 dias tiveram qualidade do ar classificada como “boa”. Foram três pré-contingências e, na última semana, a sequência de três dias com poluição particularmente alta – níveis de ozônio estavam do dobro do aceitável – acionou a fase 1 de contingência ambiental.

As autoridades recomendaram que a população limitasse suas atividades ao ar livre e 1,1 milhão de carros – de uma frota de 4,7 milhões – foram proibidos de circular na região metropolitana da cidade. Metrô e ônibus tiveram catracas liberadas em toda a capital. Se os índices não baixarem nos próximos dias, um novo pacote de medidas pode ser utilizado, incluindo até a suspensão temporária da atividade industrial.

A implementação do passe livre por um dia fez que a prefeitura deixasse de arrecadar entre 40 e 50 milhões de pesos mexicanos (entre US$ 2,3 e 2,58 milhões). No entanto, as autoridades preferiram não reforçar essa conta. Elena Segura Trejo, secretária da comissão de fazenda da Assembleia Legislativa do Distrito Federal afirmou que não houve uma perda. “Houve falta de ingresso que ocorreu para favorecer os capitalinos”, argumentou ao jornal El Universal.

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A Cidade do México sabe bem quais os riscos de viver com grande poluição. Localizada entre montanhas, a capital mexicana se viu dentro de uma armadilha quando houve grande desenvolvimento urbano e industrial no século 20. Fábricas e carros despejavam poluentes na atmosfera, mas não havia por onde o ar dispersar. A contaminação foi considerada a causa de aumento da mortalidade infantil na década de 1950 e de evasão escolar.

Várias medidas foram implementadas a partir da década de 1980, como rodízio de veículos, mudança na formulação da gasolina, incentivo a saída da cidade das indústrias mais poluidoras e aumento do transporte público. O cenário melhorou, mas ainda há momentos de piora. A última vez que o governo local acionou a fase 1 de contingência ambiental foi em setembro de 2002.

A Cidade do México agora se chama Cidade do México. Como assim?

O que? Desde o final de janeiro, o Distrito Federal mexicano mudou de nome para Ciudad de México. Mais de que apenas uma mudança de nome, trata-se de uma reestruturação administrativa da sexta maior metrópole do mundo e a maior das Américas.

Sem prefeito eleito até 1997

O nome Distrito Federal é forte no dia a dia dos mexicanos. O morador da capital mexicana muitas vezes se refere a sua cidade como DF e é chamado de defeño ou capitalino. O motivo é fácil entender. A Cidade do México está dentro de uma matrioska mexicana, com o município cercado pelo estado México no centro do país México. Usar o nome burocrático da divisão administrativa é mais fácil do que diferenciar um México do outro ou confundir os gentílicos entre mexiqueño (cidade), mexiquense (estado) e mexicano (país). Mas nem isso será possível, pois, desde o final de janeiro, o DF mudou de nome para Ciudad de México.

Pode parecer uma questão menor de nomenclatura que só tornará a situação mais confusa, mas a intenção do governo é alterar a estrutura administrativa dessa metrópole de 21 milhões de habitantes (a maior das Américas, sexta do mundo). A região metropolitana ganha um novo status federativo e suas partes se tornam mais autônomas. Tudo para dar mais agilidade nas decisões de caráter urbano.

Obs.: Tecnicamente, a região metropolitana da Cidade do México cresceu tanto que passou dos limites do DF, chegando a municípios dos estados de México e Hidalgo.

O Distrito Federal foi criado em 1824 para a federação mexicana ter uma sede neutra, que não representasse nenhum estado. Os limites geográficos mudaram ao longo do tempo, mas a gestão sempre ficou por conta do governo central. Atualmente, ele envolve o município México (cerca de 8 milhões de habitantes) e alguns outros no entorno da capital.

O problema é que a máquina nacional era muito pesada para resolver questões de uma cidade, algo que ficou muito claro na demora para tomar decisões após terremoto de setembro de 1985, que matou mais de dez mil pessoas (número não oficial). Apenas em 1987 os capitalinos ganharam o direito de eleger um governante para o DF, equivalente ao prefeito.

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A reforma de 2016 é mais profunda. Agora, o Distrito Federal ganhou o nome oficial de Cidade do México e se torna mais uma unidade dos Estados Unidos Mexicanos (ainda que com o nome de “entidade federal”, não de “estado”). Com isso, passa a ter acesso ao fundo federal para os estados e municípios, além de poder elaborar sua própria constituição estadual e até ter autonomia para se endividar. Mas o mais significativo é que as 16 delegações políticas (semelhante a uma subprefeitura) da capital ganham status de município, com eleição direta para seus governantes.

Ainda é cedo para dizer se essa mudança trará melhoria na gestão municipal, mas dar mais direitos totais aos habitantes da capital faz todo sentido. Algo que não ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos (vídeo em inglês).

Nada de separar: metrópole dividida entre México e EUA quer integração

O que é? San Diego e Tijuana estão no extremo oeste da divisa entre Estados Unidos e México. As duas cidades formam uma mancha urbana que reúne quase 5 milhões de pessoas. É comum moradores de uma irem à outra para trabalhar, estudar ou resolver coisa do dia a dia. Uma viagem sempre demorada pelo fato de que, no meio do caminho, têm de passar por postos de imigração. Mas uma passarela permitirá uma maior integração entre os dois lados, facilitando aos residentes nos EUA acessarem o aeroporto do lado mexicano.

Soluções para uma metrópole binacional

Donald Trump tem sido o candidato mais caricato da campanha à presidência dos Estados Unidos. O empresário baseia sua candidatura a frases fortes e polêmicas, com tom que soa exageradamente conservador até para uma parte dos eleitores conservadores. Ainda assim, tem conseguido se manter como um dos concorrentes mais fortes do Partido Republicano. Um de seus alvos preferenciais são os imigrantes mexicanos, a ponto de se propor uma construção de um grande muro na fronteira entre os dois países. Mas uma passarela inaugurada na última quarta mostra como o caminho é integrar, não dividir.

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Foi inaugurado na última quarta o Cross Border Xpress, o terminal de passageiros do aeroporto de Tijuana localizado em San Diego. É exatamente isso: uma parte das instalações de um aeroporto mexicano em território americano. Uma obra que os dois lados sabiam ser necessária, mas que levou mais de 25 anos para sair do papel.

Imagem de satélite da região metropolitana San Diego-Tijuana. A linha vermelha marca a fronteira (Google Earth/Outra Cidade)
Imagem de satélite da região metropolitana San Diego-Tijuana. A linha vermelha marca a fronteira (Google Earth/Outra Cidade)

O aeroporto General Abelardo L. Rodríguez está localizado na região nordeste de Tijuana, a apenas alguns metros da fronteira com os Estados Unidos. Ele é bastante útil para quem quer ir ao México, pois oferece voos para locais não ligados a cidades americanas e os preços de viagens domésticas das companhias aéreas mexicanas são muito competitivos.

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No Sul da Califórnia, é uma possibilidade particularmente atraente. Milhões de mexicanos ou americanos de origem mexicana vivem entre San Diego e Los Angeles e voltam regularmente para visitar a família no México durante as férias ou feriados importantes. Todas essas pessoas eram obrigadas a pegar voos nos Estados Unidos – pegando mais caro e/ou fazendo mais conexões – ou tinham de encarar o sempre demorado e tenso – às vezes, hostil – posto de imigração terrestre na fronteira.

Obs.: Há três pontos de passagem entre San Diego e Tijuana. O San Ysidro é o posto de imigração terrestre mais movimentado do mundo, com mais de 40 milhões de pessoas indo de um lado ao outro por ano. Filas quilométricas são comuns nos dias de grande movimento.

É isso que o Cross Border Xpress elimina. Há anos as prefeituras das duas cidades chegaram à conclusão que era necessário ampliar a integração urbana e econômica. O aeroporto era uma possibilidade óbvia, pois traria benefícios rápidos os dois lados da fronteira: San Diego aumenta sua competitividade como ponto de passagem para quem quer ir ao México e Tijuana vê aumento do movimento de seu aeroporto.

Vista aérea do Cross Border XPress, com a ponte passando sobre o muro da fronteira e o terminal do aeroporto em Tijuana à esquerda
Vista aérea do Cross Border XPress, com a ponte passando sobre o muro da fronteira e o terminal do aeroporto em Tijuana à esquerda

O funcionamento é simples. Um terminal de passageiros comum foi construído do lado americano da fronteira. O passageiro pode estacionar seu carro nos EUA ou ir de transporte público normal. Faz o check in ainda em solo americano e atravessa a fronteira por uma ponte que passa por cima do muro da fronteira. Aí, é só se direcionar aos portões de embarque do aeroporto de Tijuana.

É um passo pequeno ainda diante de toda a questão entre México e Estados Unidos. Mas a parceria entre San Diego e Tijuana mostra como a força das regiões metropolitanas é maior que um muro, e que entender cidades vizinhas como uma só, buscando soluções conjuntas, é fundamental para o desenvolvimento de ambas.