VÍDEO: Qual a extensão do incêndio na Califórnia? Bem, ele fez Los Angeles parecer Mordor

Os californianos estão cada vez mais acostumados em lidar com incêndios na mata. O tempo seco e os ventos são um ambiente propício para a propagação das chamas, que muitas vezes chegam a regiões habitadas e causam mortes e forçam o deslocamento de pessoas. É o que está acontecendo nesta semana, com o fogo se aproximando de Los Angeles e criando imagens quase cinematográficas.

Veja esse vídeo feito por um angelino que estava na Interstate 405, uma das principais vias expressas da Grande LA, indo ao trabalho. Parece que ele está indo para Mordor fazer uma reunião de negócios com Sauron.

A cena é assustadora e perigosa, tanto que a via foi interditada nesse trecho. Em teoria, uma grande via como essa pode funcionar como uma barreira para as chamas e impedir o avanço do incêndio. No entanto, se o vento estiver forte demais, o fogo pode atravessar a pista e ser reiniciado do outro lado.

Os Jogos Olímpicos são – coisa rara – uma boa para Los Angeles. Ainda mais em 2028

Os Jogos Olímpicos se transformaram em um mico para a maior parte das cidades que pretendem recebê-los, como o Rio de Janeiro (e Atenas, Sydney, Sochi, Pequim… sabem bem). Ainda assim, Paris e Los Angeles encheram a boca nas últimas semanas para anunciarem que foram oficializadas como anfitriãs, pela ordem, das edições de 2024 e 2028.

Expliquei isso na minha coluna desta semana no General Managers. Confira lá!

LA debate até onde se pode ir para dar segurança às crianças no parquinho

Vias expressas elevadas, baixo adensamento, pouquíssimas edificações verticais, áreas de estacionamentos enormes, distâncias desproporcionais para acessar qualquer serviço. Los Angeles é uma cidade feita para quem tem carro, mas até lá existe a intenção de mudar isso. A prefeitura atual investe na expansão do metrô (sua rede já é maior que a de qualquer cidade brasileira), luta por verticalizar os prédios e anunciou a criação de mini-parques nos bairros. Mas essa última ideia enfrenta um obstáculo: um projeto de lei para dar mais segurança às crianças.

O vereador democrata Mitch O’Farrell apresentou um projeto que proíbe que adultos desacompanhados de crianças fiquem em torno da área de playgrounds nos parques públicos de Los Angeles. A proposta surgiu como medida para evitar a atuação de traficantes que oferecem drogas a menores, mas também visa inibir a ação de pedófilos.

Há um princípio polêmico no texto, pois ele indiretamente pressupõe que todo adulto sozinho é um traficante ou pedófilo em potencial, afetando direitos básicos como o de ir e vir e a presunção de inocência. No entanto, essa lei já é aplicada em várias cidades norte-americanas conhecidas pelo uso de áreas públicas por parte da população, como Nova York, São Francisco, Santa Mônica (região metropolitana de LA) e Miami Beach. Ou seja, há base legal para adotar essa medida e parte da opinião pública apoiará qualquer ação que tenha como pano de fundo o combate ao tráfico de drogas ou à pedofilia.

No entanto, muitos angelinos estão contestando a ideia. Em uma cidade com poucos espaços públicos, é comum que adultos acabem usando parte da infraestrutura de playgrounds. Isso vale desde pessoas que querem apenas usar o banco para sentar enquanto comem algo (fazer uma refeição enquanto vai de um lugar a outro é uma tradição cultural nas grandes cidades dos EUA) até para quem está fazendo um exercício, por exemplo, usando a estrutura dos brinquedos como apoio para o alongamento antes ou depois de uma corrida.

Outro problema é que o projeto de mini-parques da prefeitura prevê que vários deles tenham área de recreação infantil. Se adultos desacompanhados não puderem ficar ao redor de um playground, eles praticamente estariam proibidos de circular nesses novos espaços.

Os críticos do projeto de O’Farrell argumentam que as leis já existentes deveriam dar conta do combate ao tráfico de drogas e à pedofilia. Se houver um policial perto de cada playground para agir diante da presença de um adulto desacompanhado, ele também pode ser acionado se um adulto estiver oferecendo algo, tirando fotos ou conversando de forma suspeita com uma criança. Além disso, pedófilos já condenados muitas vezes não podem circular próximo a áreas com grande concentração de crianças, como parques e escolas públicas.

O debate deve seguir, mas o departamento de recreação e parques de Los Angeles apoia o projeto de lei. Assim, é provável que ele passe, mas sua regulamentação talvez preveja situações que evitem uma autossabotagem no processo de levar os angelinos aos espaços públicos.

A foto acima é de Rob Ford (à direita), ex-prefeito de Toronto, brincando de gangorra com seu irmão Doug Ford Jr.

O trânsito de Los Angeles no Dia de Ação de Graças parece um rio de luzes

As autopistas cortam Los Angeles e separam bairros como se fossem rios aéreos. E essa imagem aérea do trânsito da cidade na véspera do feriado de Ação de Graças dá uma boa mostra disso. Parece um rio de luzes, ou talvez um curso de lava escorrendo.

 

A metrópole planejada que não nasceu por causa da especulação

“Aqui já é a Califórnia, e nem parece ter tanta fartura assim.” A frustração de Tio John era compreensível. Sua família havia abandonado as terras em Oklahoma e, como milhões de pessoas do Meio-Oeste, tentava a sorte nas ricas e fartas terras californianas. Mas a primeira imagem que tinham ao cruzar a divisa estadual não lembrava em nada o paraíso rural  que lhes fora prometido. Era só terra, areia e montanha, com alguns arbustos que sofrem para se manter verde e as árvores de Josué, famosas pelo álbum Joshua Tree da banda irlandesa U2. Esse é o deserto de Mojave.

O cenário descrito por John Steinbeck em “Vinhas da Ira”, a saga da família Joad em busca de uma nova vida na Costa Oeste americana, não mudou muito. As rodovias melhoraram, as condições de trabalho também, as fazendas são mais mecanizadas, mas o deserto ainda está lá, como uma provação final para quem quer chegar ao rico e fértil vale central. Mas, no meio desse mundão de terra seca, está a terceira maior cidade da Califórnia, criada para rivalizar com Los Angeles: California City, a metrópole futurista de 14 mil habitantes.

Na década de 1950, o mundo – ou, pelos menos, a parte mais rica dele – vivia uma era de grande empolgação com as perspectivas que a tecnologia apresentava. Era um momento em que se acreditava que conceitos seriam revertidos e o caminho era refazer tudo ou fazer tudo novo. Os Jetsons não surgiram de geração espontânea, foram parte de um processo histórico e cultural.

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Nessa época, Los Angeles já dava sinais esgotamento urbano. A cidade estava muito grande, muito cheia e com problemas que pareciam apenas piorar. O sonho americano era diferente, composto por vida em comunidades tranquilas, cheias de espaço para as pessoas circularem com seus carros, darem um “oi” ao vizinho enquanto regavam o jardim da entrada de casa e uma lógica matemática na distribuição de serviços e espaços públicos. Os bairros de subúrbio de classe média cresciam, mas o sociólogo Nat Mendelsohn teve uma ideia mais ousada.

Localização de California City (Reprodução)
Localização de California City (Reprodução)

Em 1958, o professor universitário comprou um terreno de 320 km² em uma área não incorporada (que não pertence a nenhuma cidade) no deserto do Mojave, pouco a leste das cidades de Bakersfield e Mojave, 120 km ao norte de Los Angeles. Nesse espaço, ele desenhou um que entendia como uma cidade-modelo, com um grande parque central e uma grande rede de ruas e avenidas radiais. Seria a nova metrópole californiana, uma cidade que rivalizaria com Los Angeles em tamanho e importância, mas já surgia respeitando os conceitos modernos (para a época) de planejamento urbano.

Milhares de dólares foram gastos na divulgação do megaprojeto de California City. O objetivo era atrair principalmente angelenos de classe média e alta descontentes com a qualidade de vida cada vez pior em sua cidade. Esses moradores garantiriam que a cidade se desenvolvesse por conta própria com o tempo, pois eles próprios formariam um mercado consumidor parrudo e também seriam os empreendedores de novos negócios e serviços que surgiriam.

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O projeto teve boa aceitação. Muita gente se convenceu que daria certo e resolveu apostar na nova metrópole californiana. No começo da década de 1960 surgiram os primeiros moradores, um mercado, o parque central com lago artificial, um campo de golfe e, claro, uma escola. Em 1965, os eleitores decidiram incorporar California City, o que basicamente significa que ela se transformou formalmente em um município.

California City Blvd, principal avenida da cidade (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
California City Blvd, principal avenida da cidade (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

O problema é que, já nesses primeiros anos, não havia sinais de que lá haveria uma metrópole. E parte disso se deve ao sucesso da ideia de Mendelsohn. O sociólogo/incorporador foi tão convincente ao vender a ideia que muita gente acreditou que aquele era o futuro, o que chamou a atenção de milhares de investidores do mercado imobiliário. Ao invés de atrair moradores que construiriam a nova cidade, ele atraiu especuladores que queriam esperar a valorização daquele espaço para revender.

A quantidade de consumidores finais foi muito pequena, e pouca gente apostou em uma nova vida no deserto. Com isso, não se criou uma dinâmica econômica em California City, que rapidamente saiu do imaginário dos californianos como a terra do futuro. O interesse nos espaços disponíveis caiu e os especuladores nunca conseguiram repassar seus terrenos para pessoas realmente interessadas em seguir na construção da metrópole.

Com os anos, esses investidores deixaram de pagar os impostos ligados a seus lotes e os terrenos foram devolvidos ao poder público. No entanto, toda a área que Mendelsohn havia planejado para abrigar a metrópole estava incorporada ao município que, por isso, é o terceiro maior em área de Califórnia, o 34º de todos os Estados Unidos.

California City vista do satélite. à direita, o parque central e a pequena área urbanizada. No centro e à esquerda, parte da área do deserto que ainda preserva a trama de ruas e avenidas (Reprodução)
California City vista do satélite. à direita, o parque central e a pequena área urbanizada. No centro e à esquerda, parte da área do deserto que ainda preserva a trama de ruas e avenidas (Reprodução)

O curioso é que a área não urbanizada preservou sua trama original, com avenidas e ruas de terra batida formando quarteirões e  bairros no meio do deserto, tendo como únicos moradores pequenos animais e arbustos. São vias de tráfego oficiais, com leis de trânsito e endereço registrado na prefeitura, mas apenas curiosos circulam por elas.

Atualmente, California City até vive um momento de relativa estabilidade. A cidade tem 14 mil habitantes, que vivem principalmente das quatro grandes fontes de emprego da região: uma base da Força Aérea americana, um presídio estadual, uma pista de testes da montadora Kia e um aero e espaçoporto particular. É o suficiente. Seus moradores já se acostumaram à vida de uma bucólica cidade de interior no meio do deserto, e, mais do que o glamour, materializar o sonho de Mendelsohn e dos primeiros habitantes talvez só trouxesse um problema insolúvel de abastecimento de água.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

A solidão debaixo das autopistas de Los Angeles

É fácil conhecer Los Angeles e quase nunca colocar os pés nela. O sistema de transporte da cidade se estruturou em torno de autopistas, e o melhor (muitas vezes único) jeito de ir de um lugar para outro é pegar o carro, subir no elevado, rodar por muitas milhas até chegar ao destino. Há um mundo de coisas embaixo dessas superestruturas, mas, quem se importa quando se está com pressa?

Bem, mas vale a pena se importar um pouco. São Francisco, a outra grande metrópole da Califórnia, é arrumadinha (ainda mais depois de um forte processo de gentrificação em seus bairros de classe média), sob medida para entrar no sonho estereotipado de consumo de um turista ou alguém que pretenda morar fora um tempo. LA não é assim, mas muitas vezes ela soa mais real quando se desce para o nível da rua e a cidade expõe todas as imperfeições.

Quando o vocalista Anthony Kiedis estava se distanciando de seus companheiros na banda Red Hot Chili Peppers, ele sentia que sua única companhia era Los Angeles. A solidão oferecida pela cidade feita para carros acabava servindo como fator de identificação. Foi a inspiração para ele compor “Under the Bridge”, um dos maiores clássicos da banda. A referência à ponte presente no título é a lembrança sombria do ponto em que ele comprava drogas, mas é sob as dezenas de autopistas que está a cidade real.

No clipe, Kiedis caminha pelas ruas, interagindo com a Los Angeles que as freeways não mostram. E lá está uma metrópole instigante dentro de seu jeito de ser. Milhões de imigrantes deixaram países dos mais diferentes, como México, Coreia do Sul, China, Filipinas, Irã, Armênia, Etiópia e Bangladesh, entre outros, para tentar construir sua vida. Eles dão uma cara cosmopolita e humana a LA, uma cara imperfeita como tudo o que é verdadeiro. E há algo de reconfortante nisso.

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.

Governantes, parem de construir estádios com dinheiro público

O que é? O Coliseu do Sertão, uma das obras mais extravagantes dos últimos tempos no Brasil, começou a ser pintado em Alto Santo-CE. Na mesma semana, a Confederação Brasileira de Futebol informa que pode realizar o jogo Brasil x Uruguai no estádio do Arruda, em Recife, e a NFL (liga de futebol americano) vê três clubes pedirem para mudar de sede porque suas cidades relutavam em bancar a construção de novos estádios. Três histórias, de características muito diferentes entre elas, que mostram que o poder público não deve se meter a botar dinheiro em arenas para esporte profissional, mas continua fazendo isso.

Se você construir, ele (nem sempre) virá

Alto Santo está ganhando um novo marco. A cidade do interior cearense começou a pintura da fachada do Coliseu do Sertão, estádio com arquitetura inspirada no xará romano e um custo acima de R$ 1,5 milhão. Tudo para ter uma arena de 20 mil lugares para ser a casa do futebol (e de outros eventos) na cidade de 16 mil habitantes. Isso mesmo, não é erro de digitação. O estádio tem capacidade maior que a população local.

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A obra do estádio – chamado oficialmente Arena Coliseu Mateus Aquino – chamou a atenção da imprensa nacional por sua extravagância. Ainda mais considerando que o Alto Santo Esporte Clube, único time profissional da cidade, estava inativo desde 2008. Acabou retornando em 2015, na terceira divisão do Ceará, para justificar o investimento em um estádio.

Obs.: Veja mais sobre o coliseu aqui. É uma pérola.

O Coliseu do Sertão está marcado como exemplo de obra faraônica, algo comum na história da gestão pública brasileira. Mas suas características caricatas não devem ofuscar o fato de que projetos como esses são comuns em todo o mundo, inclusive em grandes cidades. O que ocorreu em vários estádios da Copa do Mundo de 2014, com arenas incrivelmente superdimensionadas, e até em países em que o esporte profissional é um setor economicamente relevante.

Esse último é o caso dos Estados Unidos. Na última semana, a NFL (liga de futebol americano profissional) encerrou uma longa disputa entre Oakland Raiders, St. Louis Rams e San Diego Chargers. As três equipes estavam descontentes com seus antiquados estádios. Os donos dos clubes consideravam que uma arena nova atrairia mais público e aumentaria o faturamento. Era a desculpa necessária para abandonar suas sedes e se mudar para Los Angeles, segunda maior cidade dos EUA (que, incrivelmente, está sem time na liga há 20 anos).

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No final das contas, os Rams foram selecionados para ir a LA, com a possibilidade de os Chargers seguirem os mesmos passos. A equipe (ou as equipes) mandará suas partidas em um estádio que será construído com recursos da iniciativa privada, o que é merecedor de elogios. No entanto, esse é o final relativamente feliz de um processo que teve, durante todas as etapas anteriores, inúmeras chantagens dos dirigentes com os prefeitos de suas cidades. Tanto que St. Louis chegou a apresentar uma proposta de novo estádio construído a partir de verbas públicas, tudo para manter seu representante na NFL.

A conta dos governantes norte-americanos é semelhante à dos brasileiros que achavam justificável bancar as obras de estádios modernos para a Copa: eles permitem o desenvolvimento de um time local forte, que geraria riqueza (e impostos) pelo dinheiro que movimentaria, e dão à cidade um palco para eventos culturais de grande porte. O problema é que, muitas vezes, essa conta não fecha.

No Brasil, estádios de Natal, Manaus, Cuiabá e Brasília já sofrem com dificuldades de se viabilizar economicamente. O futebol local não cresceu (em Natal, o problema é que o clube mais popular da cidade, o ABC, já tinha sua própria casa) e não houve um boom de eventos para pagar as contas.

NA TRIVELA: Como o capitalismo brasileiro explica o colapso da gestão das novas arenas

Mesmo onde o futebol local gera recursos para supostamente viabilizar obras mais pesadas há problemas. No Rio de Janeiro, a concessionária que administrava o estádio o devolveu ao governo estadual. Em São Paulo, o Corinthians está com dificuldade de bancar as parcelas de sua nova casa. Em Pernambuco, a arena em São Lourenço da Mata raramente lota e, para se viabilizar, estabeleceu um aluguel alto demais para receber Brasil x Uruguai nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. Com isso, o jogo, programado para março, pode ser realizado no Arruda, um estádio grande, mas antigo.

Nos Estados Unidos é um pouco diferente, ainda que a conclusão seja semelhante. É comum clubes profissionais ameaçarem mudar de sede como forma de convencer as prefeituras a construírem novos estádios com recursos públicos. Muitas acabam cedendo.

É relativamente fácil medir o tamanho do esporte norte-americano como setor econômico, o que ajuda a explicar por que investir em uma nova arena dá retorno. Ainda mais com a quantidade de eventos extras realizados nas grandes cidades do país mais rico do planeta. O problema é: com ligas bilionárias, formadas por clubes bilionários pertencentes a empresários bilionários, por que o poder público é que tem de pagar pelos estádios?

O caso dos Rams mostra isso. Stan Kroenke, dono do time, tinha nas mãos a possibilidade de ficar em St. Louis com um estádio novo, pago pelo governo local. Mas decidiu se mudar para Los Angeles, para uma arena que terá de bancar com seu próprio bolso. Tudo porque ele sabe que a diferença econômica entre a cidade californiana e a do Missouri é tão grande que ele terá mais lucro se gastar no estádio.

O resultado disso é que construir estádios não é uma saída interessante para a cidade em quase nenhum caso. Se o esporte profissional local gera riqueza suficiente para dar retorno ao investimento, ele próprio deveria bancar sua estrutura. Se a ideia é apostar em um crescimento no futuro, algum empreendedor que se apresente para bancar essa aposta.

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Para o poder público, obras de instalações esportivas só são realmente válidas se houver interesse social nas instalações. Por exemplo, para incentivar a prática de esportes que não conseguem se sustentar com as próprias pernas ou para dar apoio a políticas mais amplas de educação e cultura. Ainda assim, o custo precisa ser proporcional ao retorno que o espaço dará à sociedade, sem extravagâncias ou luxos.

O Japão mostra bem isso. Os milhões gastos em estádios para a Copa do Mundo de 2002 se pagaram com a realização de diversas competições escolares. Isso foi possível porque trata-se de um raro país em que a população dá apoio forte ao esporte no ensino fundamental e médio. E, mesmo assim, os japoneses abandonaram o primeiro projeto para o estádio principal dos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio, porque o custo estimado de sua construção era muito alto. Preferiram jogar fora a proposta e buscar uma outra, dentro da realidade econômica de sua capital.

Por isso, os gestores públicos precisam entender que não faz sentido gastar dinheiro do contribuinte com estádios. E a sociedade tem de se lembrar disso para cobrar seus governantes.