Os Jogos Olímpicos são – coisa rara – uma boa para Los Angeles. Ainda mais em 2028

Os Jogos Olímpicos se transformaram em um mico para a maior parte das cidades que pretendem recebê-los, como o Rio de Janeiro (e Atenas, Sydney, Sochi, Pequim… sabem bem). Ainda assim, Paris e Los Angeles encheram a boca nas últimas semanas para anunciarem que foram oficializadas como anfitriãs, pela ordem, das edições de 2024 e 2028.

Expliquei isso na minha coluna desta semana no General Managers. Confira lá!

Da língua à sinalização, o Japão já se prepara para se fazer entender nos Jogos Olímpicos de 2020

A comunicação com milhões de estrangeiros é um dos desafios perenes do turismo no Japão. Ainda que a população seja conhecida pelo esforço e simpatia na tentativa de receber bem, o conhecimento do inglês ainda é restrito no arquipélago. Um problema grave quando se pensa que a escrita também é um desafio e Tóquio está a três anos e meio de receber o maior evento poliesportivo do planeta. Mas os japoneses já estão se mexendo. E em várias áreas da comunicação.

A primeira meta é fazer que todos os 90 mil voluntários (estimativa do comitê organizador) consigam atender aos visitantes. Para isso, sete universidades especializadas em estudos internacionais e de idiomas (espalhadas por Chiba, Kioto, Kobe, Nagasaki, Nagoia, Osaka e Tóquio) uniram forças para realizar programas bienais de ensino de idiomas. O programa é centrado em ferramentas básicas para tradução e interpretação e abrange inicialmente cinco idiomas: inglês, chinês, espanhol, coreano e português (sim, português).

Os cursos são voltados não apenas às línguas em si, mas também à cultura, religião, esportes e temas na área de hospitalidade. A intenção não é apenas haver uma conversa, mas evitar que surjam ruídos por diferenças na forma de japoneses e estrangeiros interpretarem cada situação. Quem pretende trabalhar em setores mais específicos, como atendimento médico, também está recebendo cursos de idiomas focados nesses temas.

Outra preocupação dos japoneses é permitir que um estrangeiro se oriente facilmente pelo país. O Japão ganhou fama entre visitantes de ter placas divertidas, quase um cartum (até há um blog sobre isso), mas o problema maior é o padrão adotado para a sinalização, diferente do internacional. Ainda que muitos símbolos sejam intuitivos, outros alguns podem criar confusão.

Por isso, o governo criou um comitê para revisar todos os símbolos do padrão japonês, que toma como base uma linguagem criada em 1964 justamente para a primeira vez que Tóquio recebeu os Jogos Olímpicos. Alguns pictogramas serão criados, enquanto outros serão substituídos pelo utilizado internacionalmente.

Em estabelecimentos comerciais, a adoção dos novos símbolos não será obrigatória, apenas recomendada. A dúvida é grande em casas termais, os onsen, que consideram que a marca atual já é consagrada e não vêem motivos para troca pelo símbolo mundial.

Símbolo de casas termais adotado no Japão (à esquerda) e o internacional (à direita)
Símbolo de casas termais adotado no Japão (à esquerda) e o internacional (à direita)

 

Japão quer usar referências de mangás para impulsionar turismo

Nada de samurais, ninjas, gueixas, pagodes ou lutadores de artes marciais. Durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, o grande símbolo que Tóquio usou para promover a próxima edição do evento foi Mario. A tradição milenar ficou de lado, a nova ordem do Japão, ao menos na hora de vender sua imagem ao exterior, é promover seu impacto na cultura jovem. Por isso, as cidades do país já começam a buscar novas formas de atrair turistas. No caso, olhando nas histórias em quadrinhos e os desenhos animados.

VEJA: O que Tóquio vai fazer para os Jogos Olímpicos de 2020 (e o que já tem pronto)

A recém-criada Japan Anime Tourism Association lançou um concurso para eleger até dezembro 88 locais em cidades japonesas com referências a mangás e animes. Pode ser tanto do cenário de alguma história até estátuas homenageando personagens ou criadores, passando por museus na área e até a estúdios onde séries são criadas. O objetivo é criar roteiros turísticos específicos para fãs.

É um mercado com potencial já testado. Algumas cidades japonesas investem nesse tipo de referência para atrair visitantes. Sakaiminato, por exemplo, aproveitou o fato de ser a terra do criador de mangás Shigeru Mizuki para criar uma rua com 153 estátuas de seus personagens. Uma forma de atrair turistas e fãs do artista. No comércio, alguns shoppings ergueram enormes réplicas de heróis das séries para chamar a atenção dos consumidores.

Portão de Washinomiya Jinja em famosa cena da série Lucky Star. O original está no alto dessa página (Reprodução)
Portão de Washinomiya Jinja em famosa cena da série Lucky Star. O original está no alto dessa página (Reprodução)

A iniciativa faz parte de um projeto maior, que tenta mudar a forma de o Japão se inserir como potência mundial. Ao invés de se impor pela força do dinheiro (apesar dos anos de estagnação, é a terceira maior economia do planeta), o país quer reforçar sua influência no dia a dia do mundo moderno.

Em 2002, o governo japonês criou a marca “Cool Japan”,  que visa promover a imagem do arquipélago como uma superpotência cultural. Há motivos de sobra para justificar essa condição: videogames, animes, mangás, karaokes, moda, arquitetura, tecnologia e culinária produzidos no Japão conquistaram milhões de fãs no mundo. Mas, com a aproximação dos Jogos Olímpicos de 2020, o momento é de intensificar essa campanha.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Maior legado paraolímpico seria ver um país com cidades mais acessíveis

Os Jogos Paraolímpicos de 2016 foram bem sucedidos em vários tipos de medição. O público nas arenas chegou a superar um dia dos Jogos Olímpicos, a audiência da TV foi marcante (ao menos na Sportv, pois ficou quase esquecida na TV aberta) e o Brasil teve recorde de medalhas, ainda que não tenha atingido a meta de ficar no quinto lugar no quadro. Mas o sucesso real não apareceu na TV, não subiu ao pódio, não se definiu com a extinção do fogo da pira paraolímpica no Maracanã. Ele se verá nas ruas.

Durante uma semana e meia, o público e a imprensa aprenderam a ver o para-atleta como um esportista capaz de competir em alto nível dentro de sua categoria. Mas o para-atleta e a Paraolimpíada representam um universo maior, que se celebra nesse 21 de setembro, o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência. A briga aí não é por condições de treinamento ou atenção de público e mídia, é pelo direito de se locomover com autonomia.

VEJA MAIS: Como as pessoas com deficiência podem melhorar as cidades

A cena final da Cerimônia de Abertura dos Jogos representaram isso, com uma escadaria se transformando em rampa para Clodoaldo Silva subir com sua cadeira de rodas e acender a pira paraolímpica. Mas o cenário montado no Maracanã não representa a realidade das cidades brasileiras (e de boa parte do mundo).

A estrutura para essas pessoas ainda é muito falha. Faltam calçadas niveladas e com boa pavimentação, faltam pisos podotáteis, faltam rampas. E, quando há essas coisas, às vezes não é feito com o cuidado necessário – e previsto por lei. Como no caso desse piso que leva um deficiente visual a dar uma cabeçada na árvore, no dessa rampa que derruba um cadeirante ou na falta respeito a vagas de estacionamento para deficientes. Os exemplos foram pinçados no Twitter, mas não precisa de muito esforço para qualquer brasileiro encontrar situações parecidas em sua cidade.

LOJAS: Aplicativo indica nível de acessibilidade de estabelecimentos comerciais

Nem no Rio de Janeiro, que viveu os Jogos Paraolímpicos de perto e refez parte de sua infraestrutura urbana, a situação está longe do ideal. O BRT e o VLT, feitos para os Jogos, são a aposta da prefeitura como exemplos de transporte público acessível. O jornal Extra fez uma experiência com um cadeirante dias antes da Paraolimpíada e o resultado não foi dos melhores, ainda que a secretaria municipal de transportes calcule em 91% os ônibus (incluindo 100% dos BRTs) com elevadores para cadeiras de rodas.

Em São Paulo, a prefeitura afirma que 49,9% dos ônibus tenham estrutura para cadeirantes após uma renovação da frota em 2015. É uma evolução considerável, mas, no fundo, significa que um usuário de cadeira de rodas não consegue acessar normalmente metade dos ônibus da maior cidade do país, quando o ideal era poder pegar todos. E, de qualquer modo, não adianta adaptar os ônibus, BRTs, VLTs, trens e metrôs se as calçadas continuam sendo armadilhas para quem tem dificuldade de locomoção (o que não considera apenas cadeirantes, mas quem tem muletas ou caminha com dificuldade, mesmo sem usar algum equipamento de auxílio).

É o caso de Londres, a cidade que recebeu a edição mais bem sucedida dos Jogos Paraolímpicos em 2012. Quatro anos depois, a infraestrutura para portadores de deficiência ainda precisa melhorar na capital inglesa. Em entrevista ao jornal O Globo, Brett Smith, professor da Escola de Esporte, Exercício e Reabilitação da Universidade de Birmingham, afirmou que a Paraolimpíada “falhou, e muito, em tornar Londres um lugar melhor e mais acessível para as pessoas com deficiência”.

TRANSPORTE: Rio terá ponto que avisa deficientes visuais que o ônibus chegou

De fato, ainda há o que melhorar. O metrô de Londres se orgulha em dizer que 50% do sistema está adaptado. É verdade, mas o dado é utilizado de forma bastante generosa. Basta olhar um mapa recente para perceber que as estações acessíveis estão fortemente concentrada nas linhas de DLR (veículo leve sobre trilho), construídas recentemente em regiões de urbanização recente (com menos usuários) e com capacidade de transporte muito menor que um trem ou metrô convencional. No centro, a área 1 do mapa, onde há mais concentração de usuários, só 11 das 53 paradas (20,8%) têm elevador ou estrutura para cadeiras de rodas.

As dificuldades de Londres, mesmo quatro anos após os Jogos, mostra como a luta por mais acessibilidade nas cidades é dura e longa. Mas é fundamental que a inspiração dos para-atletas não se limite ao desempenho esportivo, mas também em alertar que há milhões de pessoas em situação parecida apenas querendo a oportunidade de mostrar que, se um portador de deficiência pode brilhar na piscina e nas pistas, não há motivo para ele não conseguir ir sozinho à padaria ao lado de sua casa.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Assentos vazios mostram como Rio-2016 esqueceu o povo

Ir do Parque Olímpico da Barra da Tijuca para o de Deodoro era fácil. Bastava ir ao terminal de BRT, pegar uma linha expressa criada para a Rio-2016 e trafegar pela TransOlímpica sem praticamente nenhuma parada pelo caminho. Pronto, chegava-se ao destino em 20 minutos. Parecia um mundo à parte, em que o Rio de Janeiro de verdade não tinha lugar. E era isso mesmo.

O torcedor ou jornalista que se dedicasse a olhar pela janela durante esse trajeto veria uma cidade que ficou de lado nos Jogos Olímpicos. A via expressa beneficiará milhões de pessoas quando for aberta ao trânsito comum, mas era exclusiva para o transporte olímpico. Para ter certeza que a grandiosidade do subúrbio carioca não tentaria engolir esse trajeto, caminhões militares cercavam qualquer ponto de contato – acessos, comunidades pelo caminho – da TransOlímpica com o mundo real.

A imagem impressiona, até pela atitude visualmente agressiva de como o universo olímpico e o universo real tinham de ficar separados. Da mesma forma que colocar a pira olímpica na frente da Candelária tinha um simbolismo forte de integrar cidade e olimpismo, mas muito disso se perdia quando alguém que passasse diante da igreja percebesse que a chama estava isolada da praça e do resto do centro do Rio por barreiras, criando um corredor entre o fogo e o Boulevard Olímpico, uma área revitalizada para receber os turistas durante o evento.

No final das contas, o Rio de Janeiro até saiu da Olimpíada com um balanço positivo, inclusive na questão de segurança. Afinal, o caso mais notório de violência contra algum atleta não foi real. Mas os organizadores esqueceram que o carioca, sobretudo o de classe baixa e média-baixa, não deveria ser visto como um potencial criador de problemas. Eles seriam a resposta para muita coisa. Inclusive uma das principais falhas dos Jogos: encher as arquibancadas.

Várias competições foram realizadas diante de assentos vazios. A imprensa internacional apontou esse fato como um dos fatores negativos da Rio-2016, com razão. Um dos motivos é a falta de popularidade de várias modalidades no Brasil, também houve casos de entradas nas mãos de cambistas, mas essas não são as únicas razões. Algumas disputas estavam com ingressos esgotados e, mesmo assim, havia lugares disponíveis.

Caminhão do Exército isola a TransOlímpica da favela Asa Branca, em Jacarepaguá (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Caminhão do Exército isola a TransOlímpica da favela Asa Branca, em Jacarepaguá (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

A organização apontou para os patrocinadores, que têm parte dos ingressos em todas as competições e nem todos foram honrados. É bem possível que isso seja verdade, até porque não seria inédito. Em Londres-2012 ocorreu a mesma coisa. E, na época, os britânicos viram nesse caso uma oportunidade de levar os Jogos Olímpicos às comunidades. Escolas públicas receberam esses ingressos, enchendo as arquibancadas e aumentando o contato de crianças, sobretudo em bairros com menor poder aquisitivo, com o esporte.

A Olimpíada carioca não fez essa conexão, em parte porque não pôde. A lei eleitoral impede que a prefeitura doe bens no período de campanha, uma regra que até faz sentido no geral, mas acabou tendo o efeito colateral de impedir uma ação que claramente beneficiaria a comunidade. O objetivo das autoridades municipais era ceder 547 mil entradas para alunos da rede pública com boas notas, entidades ligadas a deficientes e servidores públicos.

De qualquer forma, haveria outras formas de colocar a população nos eventos. Várias competições tinham ingressos acessíveis, entre R$ 20 e 40, o que daria entre R$ 50 e 100 para um casal com um filho. Ainda que esse dinheiro faça falta para muitos brasileiros, está ao alcance de milhões que se disponham a um esforço para um momento único na história da cidade.

O problema é que esses milhões nunca acharam que os Jogos eram para eles, que estavam ao alcance. O marketing não foi voltado a eles, o processo de venda teve fases complexas (como sorteio) e tendia a afastar quem já achava que não teria espaço, que aquilo tudo não lhe pertencia também. Uma impressão perfeitamente compreensível, se considerarmos que os investimentos nas estruturas olímpicas se voltaram ao público de alto poder aquisitivo e que a separação da população comum dos torcedores era garantida por caminhões e mais caminhões do Exército.

O que Tóquio vai fazer para os Jogos de 2020 (e o que já tem pronto)

Shinzo Abe não é o chefe de governo mais popular do mundo. Longe disso. O primeiro ministro japonês sofre com a dificuldade de fazer a economia de seu país recuperar o crescimento e por defender ideias como o aumento no investimento militar. Mas, aos olhos do mundo, o líder da terceira nação mais rica do planeta  é um senhor simpático que topou aparecer no meio do Maracanã fantasiado de Mario. Tóquio aproveitou bem seus oito minutos durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2016, realizados no Rio de Janeiro, e deixou uma mostra do que pretendem fazer para a próxima edição, em 2020.

Pelo clima apresentado no último domingo, no Rio, a capital japonesa tentará mostrar uma cara jovem, leve e pop. Mas esse deve ser o clima e a linguagem adotada. Na organização dos Jogos em si, os japoneses estão demonstrando muito cuidado para serem austeros e olharem no passado. No caso, na Olimpíada de 1964, também realizada em Tóquio e marco para a mudança da imagem internacional do país, da nação destruída pós-guerra para a futura líder mundial no processo tecnológico e industrial.

Veja abaixo o que Tóquio prepara para receber o maior evento poliesportivo do planeta, e como muita coisa já está pronta há mais de 50 anos.

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Se quiser dar um passeio aéreo pela Tóquio de 2020, confira o vídeo abaixo, com um resumo das estruturas olímpicas da capital japonesa.

A gambiarra ajudou Olimpíada, mas não pode virar filosofia de trabalho

“Gambiarra rocks, gambiarra é maravilha, gambiarra é pura criação.”

A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2016 teve como tema oficial a cultura brasileira e a preservação do meio ambiente. No entanto, um tema subliminar foi a capacidade dos brasileiros de improvisarem, fazerem muito com pouco. Por isso, a diretora criativa do evento, Daniela Thomas, fez uma ode à gambiarra como recurso para resolver problemas. De fato, toda a Rio-2016 tem mostrado isso, mas em um nível preocupante.

Os primeiros dias olímpicos foi de muita confusão. Desde coisas ligadas ao evento em si, como filas para entradas de torcedores no Parque Olímpico até falta de comida nas arenas, até ao transporte público para as áreas de competição. No final das contas, a organização está se virando: colocaram food trucks no Parque Olímpico, aumentaram a quantidade de entradas e reduziram o rigor da revista, ampliaram o horário de operação de uma linha de metrô e criaram um bilhete unitário para o BRT olímpico.

LEIA MAIS: Rio corrige erro do bilhete olímpico, mas confusão ainda reina

Houve até elogios à capacidade de adaptação do Rio de Janeiro e constatações que foram entre “as coisas melhoraram” e “agora está funcionando”. OK, o incêndio foi momentaneamente apagado e, piscinas verdes à parte, os Jogos estão acontecendo e mostrando todas as possibilidades criadas pela cultura da gambiarra. Mas não é suficiente.

Usar o improviso para encontrar soluções é uma virtude quando surgem problemas inesperados ou imprevisíveis, mas vários erros da Rio-2016 surgiram por falhas claras de planejamento (como imaginar que as pessoas teriam fome se ficassem horas em uma arena sem lanchonete ou que o transporte olímpico precisa considerar que alguns eventos terminam perto da 0h30). O que explica muito da dificuldade em usar os Jogos como forma de trazer melhorias efetivas para a cidade. Certas coisas não são resolvidas na gambiarra.

O problema do transporte é um exemplo. Aumentar a quantidade de BRTs circulando nas áreas olímpicas e o horário de funcionamento do metrô atendem às necessidades emergenciais dos Jogos, mas não mudam o fato de que moradores de regiões como Santa Cruz, Campo Grande e Paciência, continuam se espremendo no TransOeste em trajetos que poderiam ser servidos por um modal com mais capacidade de carga. Do mesmo jeito que o monitoramento da Baía de Guanabara impediu que sardinhas descartadas por pescadores atrapalhassem regatas da vela, mas não a deixará limpa.

Grandes projetos como o legado de Jogos Olímpicos precisam de planejamento. A gambiarra fica para a bela cerimônia de abertura.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Inflação durante grandes eventos é mais nociva do que parece

É a oportunidade de ouro, quase literalmente. Um grande evento vem para a sua cidade, pessoas de todo o mundo chegam com dólares e euros para gastar. Hora de tirar a lei da oferta e da procura do bolso e elevar os preços para faturar o máximo possível.

Trata-se de uma sequência de eventos comuns em locais que recebem grandes eventos internacionais, em diversos países. Mas há um limite do bom senso, em que o reajuste se torna eticamente discutível. Um problema que se tornou recorrente no Brasil nos últimos anos, quando foi sede da Rio+20 (2012), Jornada Mundial da Juventude (2013), Copa do Mundo (2014) e Jogos Olímpicos (2015).

A Cerimônia de Abertura da Rio-2016 ocorreu nesta sexta, mas já surgiram relatos de preços extorsivos em parte do comércio e do setor de hospedagem. São notícias muito semelhantes às que vimos há dois anos na Copa do Mundo, envolvendo várias cidades brasileiras.

Preço da comida no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Preço da comida no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Por uma lógica de mercado, o comerciante está liberado para praticar o preço que quiser e, eventualmente, terá como retorno a fuga de clientes. Mas, quando quase todo um setor adota essa medida, o consumidor está cercado. No caso de turistas, mais vulneráveis pelo pouco conhecimento da área e dos preços normalmente adotados, é difícil buscar opções.

Algumas das maiores cidades brasileiras entenderam que a organização de eventos é uma fonte de renda importante, por atrair turistas, negócios e investimentos. Por isso, é preciso também trabalhar para entender que receber continuamente feiras, congressos, competições esportivas e espetáculos musicais dependem de entender o funcionamento desse setor. E elevar agressivamente os preços só afastam organizadores e visitantes. E ainda atingem os locais.

Preço dos picolés no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Preço dos picolés no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Turista não é necessariamente um estrangeiro endinheirado que aproveitou seus recursos de sobra para atravessar o mundo. Turista também pode ser alguém com dinheiro contado, pode ser um outro brasileiro e pode até ser seu vizinho. Afinal, os pontos turísticos do forasteiro são os pontos de lazer do nativo.

Na época da Rio+20, o governo federal chegou a intervir para reduzir o preço das diários dos hotéis, pois membros de delegações estrangeiras estavam desistindo de vir ao Brasil. Durante a Copa do Mundo, vários comerciantes e até donos de imóveis cobravam quantias irreais para alugar suas casas para emissoras de TVs interessadas em montar estúdios próximos a estádios ou mesmo para torcedores. Acabaram ficando na mão.

É um pouco o pensamento, alimentados pelas próprias autoridades, de achar que grandes eventos são como ganhar na loteria, o momento mágico em que chegará um dinheiro fácil e rápido para resolver a vida de todos. Seria muito melhor investir em longo prazo, e construir a imagem de uma cidade ou um país adequado para receber o resto do mundo.

LEIA MAIS:  Rio corrige erro do bilhete olímpico, mas confusão ainda reina

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Rio corrige erro do bilhete olímpico, mas confusão ainda reina

“Não tinha esse bilhete olímpico unitário, mas reclamaram tanto que criaram em cima da hora. Só que não pode comprar essa passagem na máquina, só na bilheteria.”

A atendente da estação Salvador Allende do BRT se esforça, mas não consegue evitar o constrangimento. Por mais que a prefeitura do Rio de Janeiro tenha divulgado insistentemente que o transporte público era a melhor forma de chegar às arenas dos Jogos Olímpicos, fica cada vez mais evidente que o sistema não estava preparado. O erro de criar um bilhete olímpico sem passagem unitária foi corrigido, mas diversos outros seguem.

A forma de criar essa passagem unitária (por R$ 7,60, o dobro de uma viagem convencional de BRT) diz muito. Em vez de ser carregada no RioCard olímpico, ela é colocada dentro do Bilhete Único convencional. Dessa forma, é vendida como uma passagem normal, na bilheteria. Não parece um grande problema, exceto pelo fato que isso impede sua compra por cartão – só dinheiro vivo – e uso na linha 4 do metrô, ainda exclusivas do portador do cartão olímpico.

Máquina para venda automática do RioCard olímpico em manutenção (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Máquina para venda automática do RioCard olímpico em manutenção (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Mas não é só isso. O próprio RioCard olímpico tem problemas. O sistema das máquinas para venda automática cai constantemente, formando filas enormes nos terminais que funcionam (até porque estão presentes em poucas estações do BRT, e nem os funcionários sabem ao certo quais). Além disso, a compra tem de ser feita um a um. Para o torcedor que quer comprar vários cartões, é preciso muita paciência.

O mais grave, porém, é que esses terminais só aceitam dinheiro vivo e cartão de débito. Para os milhares de turistas que vieram ao Rio contando com o cartão de crédito para suas operações, isso representa um grave obstáculo e ainda o obriga a correr o risco de andar com muito dinheiro na carteira.

LEIA TAMBÉM: Encalhe do Riocard reforça nosso pedido por bilhete olímpico unitário

O sistema olímpico ineficiente no primeiro fim de semana dos Jogos contribuiu para que muitos usuários olímpicos (torcedores e milhares de voluntários que trabalham no evento) utilizassem o transporte convencional da cidade. As linhas de BRT que passam pela Barra da Tijuca estão sobrecarregadas. Além disso, as carências do sistema ficaram mais expostas: na Rio 2, parada mais próxima do Parque Olímpico da Barra, uma das bilheterias estava fechada às 21h, obrigando milhares de pessoas a contornar a estação. No trem que leva ao Parque Olímpico de Deodoro, o intervalo entre as composições era de 40 minutos.

Ir do Recreio dos Bandeirantes ao Maracanã exigia 2 horas entre dois BRTs e três linhas de metrô.Total: mais de duas horas.

A prefeitura prometeu corrigir os problemas  das filas no Parque Olímpico e de falta de comida nas arenas. Que olhe também para o transporte público. Até porque ele afeta a todos, turistas e cariocas.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Era para ser um tema olímpico, virou ícone da nova Barcelona

Os Jogos Olímpicos são muito ligados às cidades em que eles são realizados. Ainda assim, é raro encontrar alguma música-tema olímpica que tenha marcado como ícone de suas sedes (na verdade, é raro alguma música-tema ficar marcada como qualquer coisa, ou você se lembra do hino de Sydney-2000 ou Atenas-2004?). Para encontrar alguma canção olímpica que acabou vinculada a um lugar, temos de voltar mais de 20 anos.

“Amigos para Siempre” virou tema quase obrigatório de festas de formatura e tem letra para lá de grudenta. Mas ela conseguiu criar uma conexão forte com Jogos de 1992 e o que eles representaram para Barcelona. O tema foi tocado na cerimônia de encerramento, com um dueto formado por Sarah Brightman e José Carreras, e virou trilha sonora de tudo quanto é clipe mostrando os grandes momentos daquela Olimpíada (até mais que outro hino do evento, “Barcelona”, interpretado por Freddie Mercury e Montserrat Caballè).

A música composta por Andrew Lloyd Webber e Don Black fala da despedida de amigos, uma amizade que a cidade de Barcelona estabelecia com o resto do mundo e que não deveria durar apenas um verão. Era essa a grande missão daquela Olimpíada: colocar a capital catalã como um dos grandes centros culturais e turísticos do planeta. Por mais grudenta e clichê que tenha se transformado, “Amigos para Siempre” simboliza esse momento.

Obs.: a letra original, com tradução em português, está aqui.

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.