Em que ano estamos em cada calendário usado no mundo

Feliz 2017! Mas não estamos em 5777? Ou talvez em 4713? Quem sabe não estejamos comemorando o ano 29 da era atual? Boa parte do planeta adota o calendário gregoriano de uma forma ou outra, mas o ser humano criou centenas de formas de marcar datas ao longo da história. Algumas delas foram utilizadas por séculos, e algumas ainda são empregadas oficialmente por governos ou têm uso para situações específicas.

Há padrões dos mais diversos, tanto na definição do ponto de partida para a contagem do calendário quanto na divisão do ano em dias e meses. Em alguns calendários, como o islâmico, o ano não tem 365 dias. Outros até tem, mas o padrão para anos bissextos é diferente do que usamos na maior parte do Ocidente.

Então, veja em que ano estamos em alguns dos calendários mais importantes do mundo e como eles iniciaram sua contagem:

JUDAICO

Ano: 5777
Início da contagem: um ano antes do que seria a criação do mundo

ISLÂMICO

Ano: 1438
Início da contagem: fuga de Maomé de Meca para Medina

CHINÊS

Ano: 4713 
Início da contagem: início do reinado de Huang Di, conhecido como Imperador Amarelo. Há outras contagens adotadas, a mais usada nos coloca no ano 105 (a partir do início da República da China, versão adotada em Taiwan)

ETÍOPE

Ano: 2009
Início da contagem: nascimento de Jesus, mas com base em uma datação diferente da usada no calendário gregoriano

PERSA

Ano: 1395
Início da contagem: fuga de Maomé de Meca para Medina. Como o calendário persa é solar, o ano é mais longo que o islâmico (lunar), o que explica a diferença de datas mesmo tomando o mesmo ponto de partida

JAPONÊS

Ano: 29 da Era Heisei
Início da contagem: subida ao trono do imperador Akihito (“Heisei” é o nome da era correspondente ao atual imperador)

BENGALI

Ano: 1423
Início da contagem: início do reinado de Shashanka em Gauda (reino que unificou a região do atual Bangladesh e leste da Índia)

NORTE-COREANO

Ano: 105
Início da contagem: nascimento de Kim Il-Sung, líder da Coreia do Norte

ARMÊNIO

Ano: 1465
Início da contagem: cisão entre a Igreja Apostólica Armênia e a Igreja Católica Romana

TAILANDÊS

Ano: 2560
Início da contagem: morte de Buda

ASSÍRIO

Ano: 6766
Início da contagem: fundação da cidade de Assur

BÉRBERE

Ano: 2966
Início da contagem: subida de Shoshenk I (por ter origem líbia, seria o primeiro bérbere proeminente) ao posto de Faraó do Egito

BIZANTINO

Ano: 7525
Início da contagem: data estimada para a criação do mundo (entre os calendários mais importantes, é o que nos coloca em uma contagem mais alta de ano)

COPTA

Ano: 1733
Início da contagem: subida de Diocleciano ao trono romano (um marco de martírio, pois o imperador perseguiu muitos cristãos, sobretudo no Egito)

COREANO 

Ano: 4349
Início da contagem: início do período Gojoseon (uma das eras do Reino da Coreia). O calendário foi oficial da Coreia do Sul até 1961, quando foi substituído pelo gregoriano

JULIANO

Ano: 2016
Início da contagem: nascimento de Cristo. A diferença do calendário gregoriano é de apenas 13 dias. Ou seja, o Ano Novo está chegando

Que países não comemoram o Ano Novo em 1º de janeiro?

Dezembro está acabando, janeiro está começando, e bilhões de pessoas estão se envolvendo em algum tipo de evento (de festa a apenas fazer promessas) para a virada de ano. Estamos tão acostumados a ver a numeração do ano e a forma de dividir o calendário estar ligada à eventos religiosos que muitas vezes esquecemos como isso, no final das contas, é uma unidade de medida. E, como unidade de medida, quanto maior a padronização internacional, melhor.

A indústria norte-americana adota o sistema métrico ao lado do imperial, pois isso facilita o comércio internacional de seus produtos. Da mesma forma, ter datas uniformes reduz o risco de confusões na hora de empresas de diferentes países – ou unidades internacionais da mesma empresa – realizarem planejamento conjunto, firmar contratos ou mesmo alinhar a gestão.

Por isso, muitos países não católicos romanos acabaram adotando o calendário gregoriano de alguma forma. O último católico ortodoxo a manter o calendário justiniano foi a Grécia, que resistiu até 1923. Nações não-cristãs muitas vezes mantêm um calendário tradicional para eventos religiosos e o gregoriano para usos civis. 

Há ainda lugares em que o calendário ocidental é seguido na divisão de meses e semanas, mas a contagem do ano não toma como base o nascimento de Cristo. No Japão e em Taiwan, a contagem é por “eras”, ou o período em que cada imperador ou regime político esteve no poder. Na Coreia do Norte, o calendário tem início no nascimento do líder Kim Il-Sung, em 1912 (“juche 1” para os norte-coreanos).

Então, no final das contas, em que países este fim de semana não tem valor simbólico algum?

São poucos:

– Afeganistão, que usa o calendário iraniano e vira a folhinha em 21 de março do calendário gregoriano (20 de março em anos bissextos);
– Países árabes, que segue o calendário islâmico e celebra o Ano Novo em 1º de muharram. A data varia em relação a nosso calendário. O último caiu em 3 de outubro de 2016. O próximo será em 22 de setembro de 2017. Mas desde os últimos meses, o governo já começou a usar o calendário gregoriano para situações civis;
– Etiópia, que adota o calendário etíope e tem sua virada de ano em 11 de setembro (12 de setembro em anos bissextos);
– Irã, que, como é de se imaginar, também segue o calendário iraniano.

Nas nações acima, o calendário gregoriano não tem uso civil ou religioso e este fim de semana não representa nada em especial. Em outros lugares – como a maior parte das nações islâmicas, Israel, Índia, Bangladesh, Tailândia e China -, a grande celebração de Ano Novo se dá no calendário de suas culturas e/ou religiões, mas o calendário gregoriano tem validade civil e o 1º de janeiro também recebe importância simbólica. Em Israel, por exemplo, serve como um marco para a entrada em vigor de novas leis (1º de janeiro de 2017 será feriado, mas por coincidir com o oitavo – último – dia do Hanukkah).

Como um muro asfixia Belém 2 mil anos após seu filho mais ilustre

O que é? Belém fica a apenas 10 km de Jerusalém. No entanto, é nesse espaço que está a fronteira entre Israel e a Cisjordânia. Quando o governo israelense construiu um muro separando a terra de judeus e de palestinos, criou um cenário de sufocamento econômico para a cidade em que acredita-se que Jesus tenha nascido.

A violência que mata uma cidade

Uma manjedoura, com um bebê ao centro, seus pais e alguns animais de fazenda ao redor. A imagem de um presépio é bastante conhecida e se torna particularmente recorrente na semana do Natal. Ela celebra o nascimento de Jesus, que para as religiões cristãs ocorreu na data que hoje é contada como 25 de dezembro do ano 1. A cena retratada teria ocorrido em Belém, mas, com medo de uma determinação do governador Herodes de matar todos os meninos nascidos na cidade, a família fugiu para o Egito e, depois, se instalou em Nazarém, no norte de Israel. Uma trajetória praticamente impossível hoje.

ENTÃO É NATAL: Decoração de Natal é mais do que trânsito: pode virar dinheiro

Pouco mais de 2 mil anos depois, Belém é uma cidade que agoniza. Sua economia era baseada no turismo religioso – impulsionado pelas visitas cristãs à Igreja da Natividade, construída supostamente no local em que Jesus nasceu, judaicas à Tumba de Raquel – e no fato de estar a apenas 10 km ao sul de Jerusalém. Muitos moradores de Belém dependiam da capital israelense para conseguir um emprego ou realizar negócios ou do pouco de terra cultivável na região.

Com o aumento das tensões entre árabes e israelenses, o governo de Israel decidiu erguer um muro separando seu território da Cisjordânia. Belém estava do lado palestino, e os 10 km para Jerusalém subitamente se transformaram em um mundo inteiro de distância. Trabalhar e fazer comércio se tornou inviável para a maioria. Viver da terra também, pois o muro também a separou da cidade natal de Jesus.

Palestinos tentam passar por ponto de checagem do muro em Belém para trabalhar em Jerusalém (AP Photo/Emilio Morenatti)
Palestinos tentam passar por ponto de checagem do muro em Belém para trabalhar em Jerusalém (AP Photo/Emilio Morenatti)

A comunicação com Israel ficou afunilada nos pontos de checagem do muro. É por eles que os moradores de Belém que ainda trabalham em Jerusalém precisam passar todos os dias, mas dependem da obtenção de um passe especial. Turistas têm um pouco mais de liberdade, mas muitos pacotes turísticos passaram a incluir visitas bate-volta a partir de Jerusalém. Sem pessoas se hospedando por muito tempo, hotéis, lojas e restaurantes da cidade também perderam muitos clientes.

COMO VENCER UM MURO: Nada de separar: metrópole dividida entre México e EUA quer integração

Com essa asfixia geográfica que se transformou em asfixia econômica, a cidade começou a agonizar. O desemprego passou de 50%. Milhares de cristãos se mudaram para o ocidente, reduzindo a população de Belém de quase 30 mil para 25 mil em menos de dez anos. O muro virou alvo de protestos, e hoje está cheio de grafites feitos pela população para manifestar o sonho de paz – o de que, pelo menos, o muro caia.

As Nações Unidas declararam que as partes do muro que entram em território palestino são ilegais e o Papa Francisco até rezou nele durante sua visita à Palestina em 2014, mas a quantidade de atentados terroristas caiu drasticamente em Israel e motiva a manutenção das estruturas. Enquanto isso, a cidade que ficou marcada pelo nascimento de uma das figuras mais importantes da história há cerca de 2 mil anos não consegue ver o futuro.