Brexit: veja o tamanho da encrenca na negociação da fronteira das Irlandas

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Um dos problemas mais delicados das negociações do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, é a fronteira da Irlanda com a Irlanda do Norte. Durante décadas foi uma região quente, pois comunidades católicas e protestantes travaram diversos conflitos sobre a situação norte-irlandesa (se deve se unir à Irlanda ou seguir no Reino Unido).

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A União Europeia foi importante para esfriar os ânimos, pois as fronteiras se abriram e ser formalmente parte da Irlanda ou do Reino Unido deixou de ser tão importante assim. Até que os ingleses decidiram separar o país do resto da Europa, fazendo que a fronteira das Irlandas volte a ter uma função prática.

Veja no mapa abaixo (ou clique aqui para ver maior) quantos pontos de passagem estão abertos e deverão ser fechados para checagem de imigração de cada pessoa que atravesse essa linha. Não é pouco, tanto que há quem defenda que a negociação do Brexit adote um modelo que preserve o livre trânsito entre as Irlandas.

Mapa da Irlanda do Norte com destaque (em X) para os pontos de passagem na fronteira com a Irlanda (Assembleia da Irlanda do Norte)
Mapa da Irlanda do Norte com destaque (em X) para os pontos de passagem na fronteira com a Irlanda (Assembleia da Irlanda do Norte)

A Nova Inglaterra é famosa, mas você conhecia as novas versões do resto do Reino Unido?

Muita gente já ouviu falar na Nova Inglaterra. A região no extremo nordeste norte-americano, que engloba Massachusetts, New Hampshire, Vermont, Maine, Connecticut e Rhode Island, dá o nome ao time mais vitorioso do século no futebol americano e muitas vezes é tratada como se fosse um estado. Mas não é o único caso de lugar que foi nomeado com um “novo/a” e de uma parte do Reino Unido.

Aliás, a Nova Inglaterra dos Patriots nem é a única Nova Inglaterra dos Estados Unidos. A foto acima é uma placa na entrada de New England, cidade de 600 habitantes Dakota do Norte. Um lugar que você provavelmente não conhecia simplesmente porque não tinha motivo algum para isso.

Bem, digressões à parte, os britânicos construíram seu império pelo mundo e espalharam o nome de sua terra por todo o planeta. Nova York e Nova Inglaterra são os caso mais famosos, mas o canal Name Explain, do YouTube, foi mostrar alguns outros na missão de encontrar uma nova versão de cada país que compõe o Reino Unido.

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Londonderry, mas pode chamar de Derry. A cidade ao norte da Irlanda do Norte, quase na fronteira com a Irlanda, é chamada mais pelo nome não-oficial do que pelo formal. Não é um apelido, um diminutivo carinhoso. É uma questão de ajudar a manter uma paz que já foi de frágil a inexistente em uma das regiões mais tensas da Europa Ocidental. E que já está apreensiva com o que pode vir com o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.

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A decisão entre permanecer ou não no bloco tinha contornos muito particulares na Irlanda do Norte. Ao contrário de Inglaterra, Escócia e Gales, que dividem uma ilha, os norte-irlandeses têm uma fronteira física com outra nação. Uma divisão que foi motivo de disputa por décadas entre católicos e protestantes, entre os favoráveis à unificação com a República da Irlanda e os defensores da manutenção dos laços com a Coroa.

Londonderry estava no centro disso. A cidade de cerca de 240 mil habitantes (a segunda maior da Irlanda do Norte) tem forte presença católica – parcela da população que prefere o uso de Derry City, para ‘desbritanizar’ o nome – e foi palco de diversas manifestações nacionalistas irlandesas. Em 30 de janeiro de 1972, o exército atirou em civis desarmados durante um protesto, 14 morreram. O dia ficou conhecido como Bloody Sunday* (Domingo Sangrento) e motivou a banda U2 a criar uma de suas músicas mais famosas.

Os problemas se arrastaram por décadas, de atentados terroristas do IRA (Exército Republicano Irlandês) em Londres a coisas supostamente triviais, como jogos de futebol. O time da cidade, o Derry City, é ligado aos católicos e várias de suas partidas eram marcadas por brigas com as torcidas de maioria protestantes de outros clubes norte-irlandeses. Para evitar mais conflitos, a equipe passou a disputar o campeonato da Irlanda em 1985.

A União Europeia foi fundamental para mudar o clima. Com Reino Unido e Irlanda fazendo parte de um mesmo bloco político e econômico, o trânsito de pessoas e mercadoria se tornou livre. Estar do lado britânico ou irlandês da fronteira se tornou menos relevante quando todos estavam dentro de uma fronteira maior, a da UE.

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É o eventual fim dessa situação que cria apreensão entre os norte-irlandeses, sobretudo os que vivem perto da fronteira com a Irlanda. Hoje, é até difícil perceber quando se muda de nação. Placas de boas-vindas na estrada marcam a divisa e a linguagem visual da sinalização de ruas é diferente de um lado e do outro. De resto, é quase como uma coisa só. Há até casos de estradas rurais, usadas apenas por fazendeiros da área que atravessam a fronteira sem chamar a atenção.

Com a saída do Reino Unido da UE, a fronteira irlandesa se tornaria novamente relevante. Pessoas que moram de um lado e trabalham do outro teriam de passar pela imigração todo dia, duas vezes. O mesmo ocorreria a cada visita a familiares no fim de semana, a uma ida à cidade vizinha para comprar algo. Mas, pior que isso, a recriação de um aparato de controle policial reforçaria a percepção entre norte-irlandeses católicos que eles não vivem no país que gostariam, recriando uma insatisfação histórica que andava adormecida.

Esse foi um dos motivos para a Irlanda do Norte ter votado em favor da permanência do Reino Unido na UE. Uma votação que ficou mais reforçada pelos votos dos distritos que ficam na região de fronteira, sobretudo Londonderry, o pontinho azul escuro no noroeste da Irlanda do Norte no mapa abaixo.

Mapa eleitoral do Brexit por distritos. Em azul os que preferiram a permanência na UE. Em vermelho, os que votaram pela saída. Quando mais escura a mancha, maior o percentual de votos para cada lado (New York Times)
Mapa eleitoral do Brexit por distritos. Em azul os que preferiram a permanência na UE. Em vermelho, os que votaram pela saída. Quando mais escura a mancha, maior o percentual de votos para cada lado (New York Times)

Em geral, os unionistas, defensores da permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido, foram favoráveis à saída da UE, enquanto que os nacionalistas (defensores da unificação com a Irlanda) e os neutros ficaram do lado da continuidade no bloco. Mas o resultado geral na região foi pró-União Europeia, e o fato de os votos ingleses terem definido a retirada do país causou um misto de revolta com preocupação.

Líderes nacionalistas já falam em articular a saída da Irlanda do Norte do Reino Unido, o que seria um primeiro passo à reunificação com a Irlanda (algo que os unionistas não gostariam). Mas, para o dia a dia das pessoas e das cidades que ficam na região de fronteira, o grande debate é o que será feito para controlar o trânsito de pessoas. Tanto que britânicos pró-UE que têm direito à nacionalidade irlandesa já estão correndo atrás do passaporte com medo de perder os direitos de cidadãos europeus.

O destino depende das negociações do Reino Unido com a União Europeia. Uma das possibilidades seria manter a fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte aberta, mais reforçando o controle em portos e aeroportos do tráfego entre Irlanda do Norte e a ilha da Grã-Bretanha. Essa opção ajudaria a manter a calmaria, mas possivelmente desagradaria os unionistas, pois o território norte-irlandês ficaria mais isolado do resto do país e se tornaria uma área de regime especial, quase intermediária, entre duas nações.

Mas talvez seja a melhor opção. Ao menos, reduziria o risco de reforçar as divisões das maiores cidades norte-irlandesas, ainda marcadas em muros e grafites que já se tornaram parte da paisagem urbana da região.

*O termo Bloody Sunday é usado para diversos conflitos violentos ocorridos em domingos. O de Derry em 1972 foi um dos mais famosos, mas não o único

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Os números são astronômicos. A produção anual é de US$ 255 bilhões, gerando US$ 97 bilhões em impostos. No comércio de câmbio, são cerca de US$ 1 trilhão (isso mesmo, com “tr”) trocando de mãos por dia. Há vários outros exemplos, sempre com muitos zeros à direita. Esse é o tamanho do mercado de serviços financeiros de Londres, disparado o mais robusto da Europa e um dos maiores do mundo. Um gigantismo que pode sofrer abalos a partir desta quinta (23), depende apenas da opinião dos cidadãos britânicos.

O Reino Unido irá às urnas decidir se fica ou sai da União Europeia, o Brexit (abreviação de “British Exit”, “saída britânica”). As pesquisas mostram um equilíbrio maior que esperado, e cresce a preocupação dos bancos sobre o efeito disso. Afinal, Londres se tornou essa potência no setor bancário pela tradição e solidez de suas instituições centenárias, mas ela ganhou mais impulso quando se estabeleceu como capital financeira informal da Europa unificada.

Para uma empresa financeira trabalhar em todo o Espaço Econômico Europeu a partir de Londres, precisa ter a autorização de agências reguladoras britânicas, que concede uma permissão chamada de “passporting rights” (algo como “direitos de passaporte”). Esse mecanismo atrai vários bancos com sede fora da UE, como o JP Morgan Chase (americano), o Credit Suisse (suíço) e o Nomura (japonês). Todos estabeleceram um escritório na capital inglesa e comandam de lá suas operações no continente.

O problema é que, se o Reino Unido deixar a União Europeia, há uma boa chance de o passporting acabar. Afinal, os outros países da UE dificilmente abririam uma excessão aos britânicos, mantendo alguns dos privilégios de um membro do grupo. Afinal, isso poderia incentivar outras nações a deixarem o bloco.

Se isso ocorrer, vários bancos já disseram que reduzirão suas operações em Londres. O JP Morgan pode mudar-se para outra cidade. O Morgan Stanley e o Citigroup ameaçaram reduzir suas equipe na capital inglesa para deslocar certas áreas para algum país da UE.

Essa possibilidade já deixou algumas cidades com água na boca. A primeira a se pronunciar fortemente foi Paris. O vice-prefeito parisiense, Jean-Louis Missika, já disse que estende o tapete vermelho para qualquer empresa que se interessar em mudar suas operações para lá. A capital francesa tem a vantagem de ter uma posição central na Europa, ser uma metrópole global e servir como atrativo para funcionários de cargos altos e clientes. O HSBC já informou que realocaria mil postos de trabalho para a França caso o Brexit seja aprovado.

Frankfurt também aparece com força. A cidade alemã tem a vantagem de já sediar representações de vários bancos por ser sede do Banco Central Europeu e a capital financeira do país mais rico da UE. Além disso, também tem uma posição central no continente. No entanto, não se trata de uma megalópole global, mas uma metrópole regional de 2,2 milhões de habitantes em sua área urbana. O mercado imobiliário e a rede de transportes teriam dificuldade de absorver um afluxo grande de corporações e talvez não fosse o destino mais apetitoso para altos executivos.

Quem corre por fora na briga é Dublin. A Irlanda tem a seu favor o fato de ser um país de língua inglesa – para uma empresa que pretende transferir sua sede, seria uma mudança muito mais suave – e ter impostos mais baixos que França e Alemanha. O Citigroup já definiu que a capital irlandesa seria sede de suas operações europeias caso o Reino Unido deixe a UE.

O fato de três cidades estarem brigando e de instituições já terem demonstrado preferência por locais diferentes dão a entender que o brexit poderia descentralizar o mercado financeiro europeu. Cada banco poderia migrar para um lugar diferente, talvez com uma ou outra metrópole tendo um pouco mais de destaque. E é por esse posto que muita gente já está brigando. Seriam muitos bilhões de euros em busca de uma nova casa.