Doria contraria seu programa de governo ao levar Virada a Interlagos

O Centro ficará vazio, os centros culturais nos bairros também. Parques, praças, CEUs idem. Pela proposta anunciada por João Doria Jr., a Virada Cultural de 2017 só será sentida em um local, o autódromo de Interlagos. O prefeito eleito de São Paulo declarou que todo o evento será transferido para o local, mantendo a programação e transporte público 24 horas. Ele ainda afirmou que serão realizadas “pequenas Viradas” nos bairros. No entanto, elas teriam apenas 12 horas de duração e teriam outras datas.

A decisão causou surpresa. De acordo com a Folha de São Paulo, nem André Sturm, futuro secretário de cultura, sabia dessa ideia. Os idealizadores do evento, criado durante a gestão de José Serra (PSDB, como Doria), também criticaram a medida. E nenhum deles tinha como desconfiar. Se fossem ao programa de governo de Doria, encontrariam um projeto bastante diferente para a Virada Cultural: “Redimensionar e readequar os investimentos da Virada Cultural para descentralizar a iniciativa, ampliar sua capilaridade e democratizar a participação”.

Redimensionar e readequar investimentos no evento é uma promessa que condiz com a linha de trabalho proposta por Doria. No entanto, o texto é claro ao falar em “descentralizar” e “ampliar a capilaridade”. Ao levar toda a virada para um local, e um local muito distante do centro, ele se torna extremamente centralizado e pouco acessível para todos os paulistanos que moram fora da Zona Sul.

O motivo da decisão seria melhorar a segurança, acessibilidade e funcionalidade do evento. Em edições recentes, a Virada Cultural teve problemas com a segurança durante a madrugada, mas, em 2016, os números foram muito melhores: apenas 19 ocorrências, com quatro roubos e três furtos, pouco para um evento em que participam milhões de pessoas.

A Virada Cultural foi idealizada durante a gestão de José Serra como parte do projeto de revitalização do centro de São Paulo. A população abraçou o evento, que passou a atrair multidões para algumas apresentações, a maior parte realizada em palcos montados em praças e ruas do Centro. Os prefeitos que sucederam Serra – Gilberto Kassab (PFL/DEM, hoje no PSD) e Fernando Haddad (PT) – mantiveram o caráter urbano da Virada.

Confinar o evento a um local pode matar seu espírito. Deixará de ser o momento em que milhões de paulistanos vão às ruas para curtir sua cidade e descobrir um show ao dobrar cada esquina. Ficará com cara de um show gratuito como tantos que ocorrem ao longo do ano em parques e praças da cidade. A diferença será apenas no fato de virar a madrugada.

A declaração de Doria foi dada em um evento da Federação de Comércio, não em um evento oficial. Que ele converse com lideranças na área cultural, inclusive em seu partido, e leia seu próprio programa de governo e reveja sua decisão.

Atualização em 6/dezembro, 12h

Um dia após a declaração polêmica de Doria, André Sturm, futuro secretário de cultura, afirmou que apenas os megashows seriam deslocados para Interlagos. O Centro continuaria recebendo outras atividades culturais.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Interlagos é exceção: autódromos serão raridade em metrópoles

O que é? São Paulo prepara-se para receber mais uma edição do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1. Trata-se do maior evento esportivo anual da cidade, responsável por atrair milhares de turistas de outras regiões brasileiras e até de outros países. Esses números são usados para justificar o alto investimento da prefeitura em Interlagos, mas essa realidade é muito específica à capital paulista. Cada vez mais, os autódromos sofrem para sobreviver nas metrópoles.

O mercado expulsa as corridas de carro

São milhões e milhões, parece que a cada ano é mais. A prefeitura de São Paulo está sempre investindo em melhorias no Autódromo de Interlagos. A última, que teve início em 2014 e só será finalizada para o GP do Brasil de Fórmula 1 de 2016, custará R$ 144 milhões e deixará a boxes, área de imprensa e paddock completamente novos, com estrutura compatível com as exigências atuais da categoria. Mas, vale a pena gastar tanto dinheiro em um circuito?

De certa forma, vale. Mas vale só porque esses gastos mantêm a F1 na capital paulista. Todo ano, os diferentes prefeitos divulgaram números e mais números que mostrariam quão importante a categoria é para a cidade. De fato, milhares de turistas de outras regiões do Brasil e do exterior viajam a São Paulo para ver o GP do Brasil. O impacto nos hotéis e restaurantes da região da Avenida Paulista/Jardins e na Zona Sul em geral é palpável.

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A conta pode até mudar um pouco e, em anos em que as intervenções exigidas são maiores (como nesse período 2014-16), não fechar, mas, no geral, ainda é importante para a cidade manter a corrida como forma de divulgação da cidade e movimentação da indústria do turismo. Até porque os paulistas perderam muito espaço para o Rio de Janeiro na rota dos eventos esportivos internacionais, principalmente por causa dos investimentos ligados aos Jogos Olímpicos de 2016.

Vista aérea de Interlagos, com bairros cercando quase todo o autódromo
Vista aérea de Interlagos, com bairros cercando quase todo o autódromo

Claro que a realização da F1 não é a única responsável pelo retorno do investimento. Interlagos também se viabiliza porque sua tradição e a força econômica de São Paulo movimentam o espaço, seja com corridas de categorias nacionais e regionais, cursos de pilotagem, festivais de música ou como parque público. Além disso, criou um comércio voltado ao automobilismo em torno do circuito, com lojas de equipamentos para corrida e de autopeças para carros de competição e escolas de pilotagem. Mas o cenário para outras pistas pelo Brasil é bem diferente. E a tendência é que as cidades acabem os expulsando.

Um autódromo ocupa uma área gigantesca. Interlagos, por exemplo, tem quase 1 milhão de metros quadrados, mais de cinco complexos do Maracanã. Para uma grande cidade, sempre alvo do mercado imobiliário e pela briga por espaço, uma área desse tamanho é preciosa. Para o poder público, é um local que pode ter inúmeras funções com mais interesse social que corridas de carros. Para a iniciativa privada, é um terreno com alto potencial de exploração imobiliária. Há, por exemplo, tem um bairro de alto padrão entre o circuito e a represa de Guarapiranga, e muito investidor adoraria expandir essa região com um grande condomínio.

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Com o automobilismo vivendo um mau momento de popularidade, algo que pode ser visto mais pela dificuldade de sobrevivência das categorias nacionais do que pela audiência da F1 na Globo, é difícil justificar a manutenção de vários desses autódromos em metrópoles. Jacarepaguá foi largado pelo poder público até se transformar no Parque Olímpico do Rio de Janeiro. O autódromo Nélson Piquet, em Brasília, está em péssimo estado e chegou a ser usado como terreno auxiliar do canteiro das obras de reconstrução do estádio Mané Garrincha para a Copa do Mundo de 2014. O autódromo de Curitiba, privado, constantemente emite um comunicado negando especulações de que seria vendido para incorporadoras explorarem seu terreno, em São José dos Pinhais (cidade vizinha à capital paranaense).

Obs.: falo em “queda de popularidade do automobilismo” com pesar. Vejo corridas de carros desde os seis anos (o faço até hoje) e fui editor de um site especializado no tema (o Tazio) por dois anos.

Os autódromos que vivem com menos ameaças a sua existência estão no interior ou em cidades com menos pressão imobiliária, casos de Guaporé, Velopark e Tarumã (todos no RS), Cascavel (PR), Caruaru (PE) e Campo Grande. Londrina é uma exceção, com um autódromo no meio da cidade.

Esse fenômeno não é brasileiro. Na Europa e nos Estados Unidos, a maioria dos autódromos está localizada em cidades pequenas (Hockenheim-ALE, Silverstone-ING, Daytona-EUA, Suzuka-JAP, Spa-Francorchamps-BEL), fora da área conturbada das metrópoles (Homestead/Miami-EUA, Barcelona-ESP) ou dentro de um espaço maior, como um parque urbano (Cidade do México, Montreal-CAN, Melbourne-AUS e Monza-ITA).

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Circuito de Spa-Francorchamps, no interior da Bélgica
Circuito de Spa-Francorchamps, no interior da Bélgica

Esse tipo de situação só deve se agravar. O automobilismo como esporte tem perdido popularidade pelo mundo e esse trajeto pode diminuir ainda mais a quantidade de eventos. Com a disputa crescente por espaço, será difícil um circuito privado se viabilizar como negócio e um circuito público se justificar como investimento de interesse social.

Quem gosta e trabalha com automobilismo precisa colocar essa questão na agenda para o futuro. Caso contrário, terá de pegar a estrada da próxima vez que quiser ver uma corrida. Nas grandes cidades, só casos excepcionais como Interlagos se justificarão.