Acha que o Império Romano foi gigantesco? Pois olhe o Mongol

Fonte: Reddit / GalXE106

Quando estudamos História, é basicamente a História Ocidental. Até por isso, relatos sobre as dimensões do Império Romano sempre passam a sensação de algo interminável, que eles conseguiram dominar tudo o que havia disponível. Será mesmo?

Um usuário do Reddit fez um mapa sobreponto a extensão máxima conquistada pelos romanos com o mongóis, inclusive com parte dos Bálcãs, do Cáucaso da Ásia Menor e da Mesopotâmia tendo vivido sob domínio dos dois impérios em algum momento. Mas dá para ver bem como o Império Mongol foi vasto, quase o quíntuplo da área romana.

Com extensão de 24 milhões de km² (os romanos tiveram “apenas” 5 milhões), os mongóis tiveram o maior estado contínuo da história da humanidade. Só a União Soviética, com 22,8 milhões, chegou perto.

Obs.: o Império Britânico chegou a 35,5 milhões de km² no auge, mas espalhava-se por todos os continentes, não era um território contínuo

Veja como era eficiente o sistema de transporte dentro do Império Romano

Ontem eu postei um mapa de estradas do Império Romano adaptado à linguagem de mapas de metrô. No caminho, mencionei como essa rede de vias era incrivelmente eficiente para os padrões da época. E um bom retrato disso é outra carta geográfica, mostrando quanto tempo uma pessoa levava para se deslocar de Roma a qualquer outro ponto do império.

O mapa acima é resultado de um trabalho espetacular do historiador Walter Scheidel, da equipe de programação liderada por Elijah Meeks e do geógrafo Karl Grossner, todos da Universidade de Stanford (EUA). Eles criaram o Orbis, o Modelo da Rede Geoespacial do Mundo Romano, uma ferramenta que mapeou 84,6 mil km de estradas, 28,3 mil km de rios e canais navegáveis e 1.026 rotas marítimas do Império Romano. Com isso, puderam calcular o tempo e o custo (em moeda da época) de viagem entre 632 locais dentro do território romano. É como um Waze dos tempos de Júlio César. Cliquem aqui e explorem à vontade.

Na imagem do alto da página, é calculado o tempo de deslocamento a partir de Roma no meio do verão (aqui uma versão mais completa). Cada faixa representa uma semana de viagem no modo mais rápido possível, seja por barco ou por terra. Pode parecer muito para os padrões de hoje, mas imagina ir de Roma à costa da Turquia em um universo em que não há motor e eletricidade. Tudo depende do vento e do esforço físico (humano ou do cavalo).

Para otimizar o tempo de deslocamento, os romanos criaram uma grande rede de transporte. Havia rotas marítimas regulares, em que o passageiro precisava apenas pagar a passagem e viajar. As estradas eram grandes obras de engenharia, e recebiam manutenção proporcional a sua importância. Esse sistema permitia a troca eficiente de mercadorias entre as regiões e, principalmente, garantiam a mobilidade dos militares, que podiam responder rapidamente ao chamado vindo de qualquer parte do Império.

E se as estradas do Império Romano fossem linhas de metrô?

Uma das grandes maravilhas do Império Romano era sua rede de transportes. Com estradas e rotas marítimas bem organizadas e definidas, viajar era uma atividade relativamente fácil para comerciantes, militares, trabalhadores em geral e até turistas. Essa facilidade de locomoção foi fundamental para dar robustez e um nível de organização econômica, política e cultural muito acima dos padrões da época.

Mas, e se fôssemos traduzir essa rede para a linguagem de hoje? Por exemplo, transformando o mapa de estradas em mapas do metrô. Foi o que fez Sasha Trubetskoy, um geógrafo que estuda na Universidade de Chicago. O resultado é sensacional, e ajuda a visualizar ainda melhor como funcionava esse emaranhado de vias.

O próprio autor conta que a pesquisa foi mais trabalhosa do que ele imaginava no início pela falta de informações consistentes em relação a algumas vias. Houve casos também de estradas sem nome histórico definido ou conhecido, que foram batizadas pelo geógrafo (aqui a lista dos nomes reais e dos criados).

Veja abaixo o mapa completo. Se quiser ver em maior tamanho, clique aqui (se não abrir, tente aqui). Ah, e se quiser fazer um pôster dessa imagem, o Sasha manda o PDF em alta resolução por US$ 9.

Estradas romanas em estilo de mapa de metrô (Sasha Trubetskoy)
Estradas romanas em estilo de mapa de metrô (Sasha Trubetskoy)

Uma dica para quem quer saber mais sobre a queda do Império Romano

Uma das coisas mais incríveis de se aprofundar no estudo de qualquer aspecto da história é perceber como cada evento que conhecemos pode se tornar mais complexo e fascinante. Nada é simples, nada é caricato como nosso próprio cérebro quer acreditar.

Toda essa enrolação para dizer que vocês deveriam ouvir o podcast “Fall of Rome”. O jornalista americano Patrick Wyman fez seu doutorado sobre o processo que levou à queda do Império Romano (o do Ocidente) e decidiu criar um podcast para falar sobre o que aprendeu em sete anos de estudos. O nível de detalhe e contextualização é sensacional.

A série já está em seu 11º episódio, falando sobre a situação da economia romana antes da queda. Dá para acompanhar as edições anteriores e as atualizações no blog Fall of Rome ou no Soundcloud. Também é possível assinar o podcast em iPhone e Android.

O verão começa hoje, apenas quatro dias antes do Natal. E provavelmente isso não é coincidência

O sol nasceu às 6h17 e a previsão é que se ponha às 19h53 em São Paulo nesta quarta. São 13h36 minutos de sol. Porto Alegre ficará ainda mais tempo ensolarada, 14h05 (das 6h21 às 20h26). O Rio de Janeiro, um pouquinho menos, 13h33 (das 6h05 às 19h38). Isso é normal em um 21 de dezembro. É solstício de verão, o dia com mais tempo de sol no ano no hemisfério sul, o dia que marca o início da estação. Ele ocorre justamente quatro dias antes do Natal, e isso possivelmente não é coincidência.

Ao mesmo tempo que o 21 de dezembro é o dia mais ensolarado do ano e o início do verão na metade de baixo do globo, ele é o dia mais curto e o início do inverno na metade de cima. Durante séculos, o solstício de inverno foi um marco para as culturas da Antiguidade, do norte da Europa ao Oriente Médio. Para algumas delas, era o início de uma temporada de dias progressivamente mais longos, um recomeço após seis meses de dias progressivamente mais curtos. Para outras, era o início do período de escassez de alimentos e era a última oportunidade de se esbaldar (inclusive abatendo animais para não ter de alimentá-los durante o inverno).

Por isso, muitos povos criaram celebrações na segunda quinzena de dezembro. Os nórdicos tinham o Yule, festival que comemorava o retorno do sol e durava até 12 dias a partir de 21 de dezembro. Pais e filhos colocavam fogo em grandes toras de madeira e cada faísca que saía das chamas representava um porco ou bezerro que nasceria no ano seguinte.

No território que hoje é o Irã, era a noite de Yalda, a mais longa e escura do ano. Nesse dia, as famílias se juntavam na casa do membro mais velho e comiam, bebiam e liam poemas.

Os romanos tinham a Saturnália, celebração do deus da agricultura Saturno. Os festejos começavam na semana do solstício de inverno e duravam um mês. Como se imagina de uma festa da Roma Antiga, havia muita comida e bebida. Era também um momento em que a ordem social era invertida. Em dia 25 de dezembro, os adeptos do mitraísmo ainda comemoravam o aniversário de Mitra.

Os judeus também tinham – e ainda têm – uma importante celebração em dezembro, o Chanuká. O motivo da celebração é um acontecimento histórico, não o solstício de inverno. De qualquer modo, a existência de uma importante comemoração judaica messa época do ano também pode ter influenciado o Natal.

No início do Cristianismo, a celebração mais importante era a Páscoa, uma herança judaica. O nascimento de Cristo não era tido como importante, até porque não há menção na Bíblia da época do ano em que ele ocorreu.

O interesse em se festejar o nascimento de Cristo se tornou forte a partir do século 3º. Vários estudiosos da igreja tentaram estimar a data em que ele teria ocorrido. A oficialização veio em 350, quando o Papa Júlio 1º determinou a Festa da Natividade em 25 de dezembro.

Há várias teorias para essa escolha. Uma delas é que marca nove meses a partir da Anunciação, celebrada em 25 de março. No entanto, várias evidências mostram que o fato de o final de dezembro já ser uma época marcada por festas foi fundamental, pois bastava absorver a Saturnália, o aniversário de Mitra e outras festas que já existiam pelo Império Romano. Além disso, a história do nascimento de Jesus menciona pastores com suas ovelhas, um cenário muito mais provável para a primavera (outono no hemisfério sul) do que com o inverno.

Alguns dos costumes natalinos são relacionados a essas celebrações pagãs, sobretudo da Yule (como a árvore de Natal) e da Saturnália (como o banquete e a troca de presentes).

O maior golpe fracassado de Istambul começou como briga de torcidas

O Exército tentou, mas a sociedade foi mais forte. Parte das Forças Armadas quis aproveitar a ausência física do presidente Recep Erdogan para tomar o poder na Turquia. A reação contra a ofensiva militar foi imediata, com a população, o presidente que voltou às pressas e até parte da oposição se unindo para evitar uma troca de comando à força no país. Golpes de estados são comuns no país, já ocorreram em 1960, 1971, 1980, 1993 e 1997. Uma tentativa fracassada é mais rara, mas uma delas mudou a história: as Revoltas de Nika.

É preciso voltar bastante no tempo, uma época em que o centro de comando não era Ancara, a Turquia não existia como nação, sua maior cidade não se chamava Istambul e sua população nem era muçulmana, tampouco tinha origem étnica na Ásia Central. A região em torno do estreito de Bósforo era dominada pelo Império Romano do Oriente, divisão política criada quando Roma começou a perder força como centro dessa civilização, também conhecido como Bizantino. A capital era Constantinopla, atual Istambul.

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Uma das atividades mais populares na metrópole era a corrida de bigas. Mais que disputas de velocidade, eram competições ferozes. Os concorrentes se atacavam, acidentes fatais eram comuns e os grandes campeões se tornavam milionários. Apesar da glória dos principais condutores, tratava-se de um esporte coletivo: os torneios tinham as equipes vermelha, verde, azul e branca, cada uma com uma torcida fanática por trás.

Ilustração de corrida de bigas no hipódromo de Constantinopla
Ilustração de corrida de bigas no hipódromo de Constantinopla

No início do século 6º, a disputa estava mais polarizada em Constantinopla. Os verdes haviam incorporado o time vermelho, enquanto que os azuis absorveram os brancos. Assim, a rivalidade se tornou enorme, possivelmente ganhando tons políticos, com os azuis se identificando mais com a elite e uma leitura mais ortodoxa do Cristianismo, enquanto a torcida verde representava os cidadãos comuns e defendia uma versão mais progressista da religião. Em 501, 3 mil torcedores verdes foram mortos em uma emboscada dos azuis. Anos depois, os verdes se vingaram com uma grande vitória de Porfírio, condutor que defendia os azuis, mas trocou de lado.

As duas torcidas só concordavam quando o assunto era o governo de Justiniano I. O imperador empreendeu grandes e vitoriosas campanhas militares de expansão territorial, mas isso veio a um custo. Ele teve de aumentar agressivamente os impostos para poder financiar o exército, causando descontentamento de toda a sociedade em Constantinopla. Em 532, um novo pacote de taxas atingiu até a elite, que vinha sendo poupada até então.

Em 10 de janeiro daquele ano, uma corrida terminou em nova confusão entre verdes e azuis. As autoridades entraram em ação e prenderam sete líderes de torcidas. Todos seriam executados, mas dois (um verde e um azul) acabaram sobrevivendo porque o suporte da forca quebrou. Imediatamente, membros das duas facções se dirigiram ao hipódromo – localizado estrategicamente ao lado do palácio, para que Justiniano pudesse ver as corridas e torcer pelo seu time, o azul, sem sair de casa – para pedir clemência aos dois.

Retrato de Justiniano I em mosaico na Basílica de São Vital, em Ravena (Itália)
Retrato de Justiniano I em mosaico na Basílica de São Vital, em Ravena (Itália)

O imperador se negou. As duas torcidas se uniram e começaram a gritar “nika” (vencer) em direção ao palácio. Os protestos se seguiram, vários edifícios foram incendiados – inclusive Hagia Sofia, então basílica da igreja cristã – até que, no quarto dia, os manifestantes decidiram derrubar Justiniano e colocar Hipácio, sobrinho do ex-imperador Anastácio I, no poder. Justiniano pensou em fugir, mas foi convencido a ficar por sua mulher, Teodora.

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Com a decisão de confrontar a multidão tomada, o imperador acionou seus generais Belisário e Mundo. Ambos convocaram tropas godas e trácias – sem ligação afetiva com as equipes de corridas de bigas – para contra-atacar. As forças de segurança aproveitaram que os revoltosos estavam no hipódromo para ali confiná-los e iniciar o massacre. Os registros são de cerca de 30 mil mortos, incluindo Hipácio.

Com o golpe fracassado, Justiniano I ganhou ainda mais poder. As corridas de bigas foram proibidas, a população passou a temê-lo ainda mais, a Hagia Sofia foi reconstruída e as campanhas militares se intensificaram. Quando morreu, em 565, o Império Bizantino tinha recuperado boa parte do território do Império Romano em seu auge, incluindo a Península Itália, o sul da Península Ibérica e todo o norte da África.

Império Bizantino no início do governo de Justiniano I (verde) e os territórios conquistados (roxo)
Império Bizantino no início do governo de Justiniano I (verde) e os territórios conquistados (roxo)