A praia que se transformou em paralisação dos trabalhadores

Parisienses se reunirem na rua é algo comum, e qualquer lugar da cidade pode ser palco de alguma mobilização. Mas um dos pontos mais conhecidos é a Esplanada da Liberação, conhecida também como Place d’Hôtel de Ville (Praça da Prefeitura). Vários eventos culturais são organizados nesse espaço, também usado para reunir torcedores diante do telão quando tem jogo da França na Copa do Mundo ou na Eurocopa. Há séculos, porém, o local já fincava seu pé na cultura ocidental. E não estou falando das multidões lá se juntavam para presenciar as execuções por guilhotina durante a Revolução Francesa.

Na Idade Média, a praça era muito diferente. Posicionada às margens do Rio Sena, o espaço era uma praia de areia e cascalho, usado como atracadouro pelos barcos que levavam mercadorias a Paris. Esse serviço de desembarque de mercadorias exigia pouca especialização e muita força. Assim, vários parisienses desempregados ficavam nesse porto se oferecendo para ajudar no trabalho e ganhar algum dinheiro.

Na época, o espaço era nomeado de acordo com sua descrição: Praça da Praia, ou Place de Grève. Com o tempo, a praça virou sinônimo de concentração de trabalhadores. Primeiro, em busca de emprego. Depois, como paralisação devido a alguma reivindicação. O termo foi absorvido em português, e a expressão “greve” virou tão convencional como forma de protesto, da greve trabalhista à greve de fome, que nem parece que sua origem é de um porto da Paris Medieval.

A ópera-bufa que retrata a Florença medieval

A Idade Média nem sempre é tratada com o cuidado que merece. Foi um período da história que durou quase mil anos e teve diversas fases dentro dela. Houve a era dos feudos, mas também testemunhou o momento de grande urbanização a partir do século 12. Um processo que alçou algumas cidades à condição de potências políticas, econômicas, militares e culturais. Foi o caso de Florença, Itália.

A ligação da capital da região da Toscana com a Idade Média se vê por todo canto, da arquitetura de seu centro histórico às obras do início da Renascença. Mas, e na música, que é o tema dessa newsletter? Bem, seguindo o caráter italiano, um bom meio é a ópera Gianni Schicchi, composta pelo toscano Giacomo Puccini em 1918 a partir de uma passagem da Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Trata-se de uma comédia, que é retratada na Florença de 1299 e conta as tramoias da família do falecido empresário Buoso Donati para ficar com sua herança, repassada originalmente à Igreja. Schicchi é um burguês que se aproxima dos Donati por meio de sua filha, Lauretta, apaixonada por Rinuccio Donati. Duas passagens merecem destaque, até pela forma como retratam a Florença urbana da época: “Firenze è come un albero fiorito” (Florença é como uma árvore florida), que mostra como a cidade recebia pensadores e artistas de todo o cantos da Itália, e “O mio babbino caro” (Oh, caro papaizinho), em que Lauretta pede que o pai aprove seu romance e menciona vários pontos importantes da cidade até hoje (a rua Porta Rossa, Ponte Vecchio e o rio Arno).

Confira abaixo a versão de Plácido Domingo para “Firenze è come un albero fiorito” e veja a letra nesse link.

A ária mais famosa dessa ópera é “O mio babbino caro” na interpretação de Maria Callas (a letra aqui).

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.