Uma balada ou uma conversa de uma cidade dividida?

É fácil pensar em uma trilha sonora para a queda do Muro de Berlim. Era final da década de 1980, a banda Scorpions estava no auge da fama, é alemã e tinha acabado de lançar um single que falava da reabertura política do Leste Europeu. Ainda que “Wind of Change” se refira mais claramente à glasnost e à perestroika na União Soviética (Moscou e o Parque Gorki são citados logo no primeiro verso), ela se transformou em um hino da reunificação alemã.

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No entanto, os Scorpions já tinham chamado a atenção por falar sobre as duas Alemanhas. Ou talvez não tinham. Um dos grandes sucessos da banda de hard rock foi “Still Loving You”. A balada é bastante grudenta, mas ficou nas primeiras posições nas paradas europeias (nos Estados Unidos, a aceitação do público foi mais discreta) em 1984. A letra é sobre uma pessoa que tenta retomar o relacionamento com um antigo amor.

Certos elementos da letra permitem claramente uma leitura diferente, como se fosse um lado de Berlim ou da Alemanha tentando reatar com o outro. Passagens como “seu orgulho construiu uma barreira* [NR: A palavra usada na versão original, em inglês, é “wall”, a mesma para “muro”] tão forte que não consigo atravessar” e “Algum dia poderá derrubar as barreiras*”. Integrantes dos Scorpions deram declarações dizendo que a música é apenas uma canção de amor, mas muitos fãs não acreditam que a banda não perceberia o sentido duplo do termo “barreira/muro”, ainda mais na Alemanha dos anos 80. Por isso, “Still Loving You” ainda é vista por algumas pessoas como uma música sobre a Berlim dividida, mesmo que talvez a referência seja falsa.

Confira abaixo o clipe de “Still Loving You”, dos Scorpions (aqui a letra com tradução):

Nossa newsletter traz toda semana a história de alguma música que retrate uma cidade, um bairro, uma rua. Se você tem alguma sugestão para a sua cidade ou para algum lugar que você conhece (em qualquer parte do mundo), envie para redacao@outracidade.com.br e teremos o maior prazer de publicá-la. Os textos serão publicados originalmente na newsletter, toda quinta, e reproduzido no Outra Cidade no final de semana. Para assinar a newsletter, clique aqui.

A metrópole planejada que não nasceu por causa da especulação

“Aqui já é a Califórnia, e nem parece ter tanta fartura assim.” A frustração de Tio John era compreensível. Sua família havia abandonado as terras em Oklahoma e, como milhões de pessoas do Meio-Oeste, tentava a sorte nas ricas e fartas terras californianas. Mas a primeira imagem que tinham ao cruzar a divisa estadual não lembrava em nada o paraíso rural  que lhes fora prometido. Era só terra, areia e montanha, com alguns arbustos que sofrem para se manter verde e as árvores de Josué, famosas pelo álbum Joshua Tree da banda irlandesa U2. Esse é o deserto de Mojave.

O cenário descrito por John Steinbeck em “Vinhas da Ira”, a saga da família Joad em busca de uma nova vida na Costa Oeste americana, não mudou muito. As rodovias melhoraram, as condições de trabalho também, as fazendas são mais mecanizadas, mas o deserto ainda está lá, como uma provação final para quem quer chegar ao rico e fértil vale central. Mas, no meio desse mundão de terra seca, está a terceira maior cidade da Califórnia, criada para rivalizar com Los Angeles: California City, a metrópole futurista de 14 mil habitantes.

Na década de 1950, o mundo – ou, pelos menos, a parte mais rica dele – vivia uma era de grande empolgação com as perspectivas que a tecnologia apresentava. Era um momento em que se acreditava que conceitos seriam revertidos e o caminho era refazer tudo ou fazer tudo novo. Os Jetsons não surgiram de geração espontânea, foram parte de um processo histórico e cultural.

CIDADE DOS AUTOMÓVEIS: Priorizar os carros parecia natural para Detroit, mas foi sua ruína

Nessa época, Los Angeles já dava sinais esgotamento urbano. A cidade estava muito grande, muito cheia e com problemas que pareciam apenas piorar. O sonho americano era diferente, composto por vida em comunidades tranquilas, cheias de espaço para as pessoas circularem com seus carros, darem um “oi” ao vizinho enquanto regavam o jardim da entrada de casa e uma lógica matemática na distribuição de serviços e espaços públicos. Os bairros de subúrbio de classe média cresciam, mas o sociólogo Nat Mendelsohn teve uma ideia mais ousada.

Localização de California City (Reprodução)
Localização de California City (Reprodução)

Em 1958, o professor universitário comprou um terreno de 320 km² em uma área não incorporada (que não pertence a nenhuma cidade) no deserto do Mojave, pouco a leste das cidades de Bakersfield e Mojave, 120 km ao norte de Los Angeles. Nesse espaço, ele desenhou um que entendia como uma cidade-modelo, com um grande parque central e uma grande rede de ruas e avenidas radiais. Seria a nova metrópole californiana, uma cidade que rivalizaria com Los Angeles em tamanho e importância, mas já surgia respeitando os conceitos modernos (para a época) de planejamento urbano.

Milhares de dólares foram gastos na divulgação do megaprojeto de California City. O objetivo era atrair principalmente angelenos de classe média e alta descontentes com a qualidade de vida cada vez pior em sua cidade. Esses moradores garantiriam que a cidade se desenvolvesse por conta própria com o tempo, pois eles próprios formariam um mercado consumidor parrudo e também seriam os empreendedores de novos negócios e serviços que surgiriam.

NA FLÓRIDA: O que acontece se o planejamento urbano é feito só para carros

O projeto teve boa aceitação. Muita gente se convenceu que daria certo e resolveu apostar na nova metrópole californiana. No começo da década de 1960 surgiram os primeiros moradores, um mercado, o parque central com lago artificial, um campo de golfe e, claro, uma escola. Em 1965, os eleitores decidiram incorporar California City, o que basicamente significa que ela se transformou formalmente em um município.

California City Blvd, principal avenida da cidade (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
California City Blvd, principal avenida da cidade (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

O problema é que, já nesses primeiros anos, não havia sinais de que lá haveria uma metrópole. E parte disso se deve ao sucesso da ideia de Mendelsohn. O sociólogo/incorporador foi tão convincente ao vender a ideia que muita gente acreditou que aquele era o futuro, o que chamou a atenção de milhares de investidores do mercado imobiliário. Ao invés de atrair moradores que construiriam a nova cidade, ele atraiu especuladores que queriam esperar a valorização daquele espaço para revender.

A quantidade de consumidores finais foi muito pequena, e pouca gente apostou em uma nova vida no deserto. Com isso, não se criou uma dinâmica econômica em California City, que rapidamente saiu do imaginário dos californianos como a terra do futuro. O interesse nos espaços disponíveis caiu e os especuladores nunca conseguiram repassar seus terrenos para pessoas realmente interessadas em seguir na construção da metrópole.

Com os anos, esses investidores deixaram de pagar os impostos ligados a seus lotes e os terrenos foram devolvidos ao poder público. No entanto, toda a área que Mendelsohn havia planejado para abrigar a metrópole estava incorporada ao município que, por isso, é o terceiro maior em área de Califórnia, o 34º de todos os Estados Unidos.

California City vista do satélite. à direita, o parque central e a pequena área urbanizada. No centro e à esquerda, parte da área do deserto que ainda preserva a trama de ruas e avenidas (Reprodução)
California City vista do satélite. à direita, o parque central e a pequena área urbanizada. No centro e à esquerda, parte da área do deserto que ainda preserva a trama de ruas e avenidas (Reprodução)

O curioso é que a área não urbanizada preservou sua trama original, com avenidas e ruas de terra batida formando quarteirões e  bairros no meio do deserto, tendo como únicos moradores pequenos animais e arbustos. São vias de tráfego oficiais, com leis de trânsito e endereço registrado na prefeitura, mas apenas curiosos circulam por elas.

Atualmente, California City até vive um momento de relativa estabilidade. A cidade tem 14 mil habitantes, que vivem principalmente das quatro grandes fontes de emprego da região: uma base da Força Aérea americana, um presídio estadual, uma pista de testes da montadora Kia e um aero e espaçoporto particular. É o suficiente. Seus moradores já se acostumaram à vida de uma bucólica cidade de interior no meio do deserto, e, mais do que o glamour, materializar o sonho de Mendelsohn e dos primeiros habitantes talvez só trouxesse um problema insolúvel de abastecimento de água.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Quinze anos depois, o 11 de Setembro ainda é caso de saúde pública

O ataque ao World Trade Center é normalmente listado como o maior atentado terrorista da história. Os números usados para justificar esse “título” é o de mortes: 2.763, sendo 2.606 nas Torres Gêmeas (somando quem estava nos edifícios e resgatistas), 147 entre passageiros e tripulação dos dois aviões utilizados como mísseis e dez terroristas. Mas há um índice muito mais impressionante, e que mostra como a tragédia, ocorrida há exatos 15 anos, ainda é muito viva no dia a dia de Nova York. São mais de 70 mil pessoas que passam por tratamento por problemas de saúde causados diretamente pelos ataques.

Quando as Torres Gêmeas caíram, vários quarteirões do bairro de Baixa Manhattan (ou Lower Manhattan, como preferirem) foram cobertos por poeira. Mas, na nuvem cinza que avançou imparável sobre pessoas e imóveis, havia 1 milhão de toneladas de materiais de construção moído, muitos deles altamente tóxicos, como amianto, chumbo, fibra de vidro, mercúrio e gás freon. Tudo isso foi inalado por dezenas de milhares de pessoas já em 11 de setembro de 2001 e nos dias seguintes.

Para piorar o cenário, os resgatistas que ficaram no trabalho de busca por sobreviventes e remoção dos escombros no Marco Zero ficaram trabalhando em um ambiente ainda mais tóxico devido aos incêndios que ocorriam devido ao combustível dos aviões (91 mil litros) e os que eram utilizados no sistema elétrico e de aquecimento no WTC (870 mil litros). Esses focos apareceram durante os primeiros três meses de trabalho no local.

Pela natureza dos materiais envolvidos, havia um sério risco do desenvolvimento de doenças respiratórias e/ou câncer, mesmo que em médio prazo. As autoridades fizeram acompanhamento, inclusive convocando pessoas que tivessem entrado em contato com a poeira tóxica para exames. No entanto, a Agência de Proteção Ambiental, um órgão federal, era evasiva ao falar sobre os riscos de respirar aquele ar.

Nuvens de fumaça durante trabalhos de escavação no WTC um mês após o atentado de 11 de Setembro (AP Photo/Stan Honda via Outra Cidade)
Nuvens de fumaça durante trabalhos de escavação no WTC um mês após o atentado de 11 de Setembro (AP Photo/Stan Honda via Outra Cidade)

Desse modo, foi preciso um processo da família do policial James Zadroga, resgatista no WTC que desenvolveu um câncer no pulmão e morreu em 2005, para se tomar uma atitude mais concreta. Em 2011, foi criado o Fundo Zadroga de Compensação e Saúde para o 11 de Setembro e o Programa de Saúde do World Trade Center.

Os programas garantem tratamento para todas as vítimas e indenização para as que não puderam continuar trabalhando. No ano passado, já eram 70 mil pessoas inscritas no Programa de Saúde, cerca de 21 mil delas por problemas ligados à inalação de material tóxico (um outro grande contingente de vítimas atendidas são as que desenvolveram problemas psicológicos). E, como as doenças muitas vezes se apresentam em médio ou longo prazo, a cada ano surgem milhares de novos pacientes e vários cânceres que não estavam listados como possivelmente relacionados ao atentado.

Por isso, a prefeitura de Nova York mantém uma página para informar qualquer pessoa que suspeite que seja uma vítima tardia do 11 de Setembro, inclusive abrindo as portas para entender qualquer novo problema que esteja surgindo. Porque o atentado que mais matou pessoas na história continua atingindo a cidade. Mas não é mais um caso de segurança, é de saúde pública.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Londres relembra seu maior incêndio queimando uma maquete da cidade

Centenas de londrinos vão para a beira do rio Tâmisa. É uma noite de domingo e todos tinham um objetivo: ver sua cidade ser consumida pelo fogo até ficar em cinzas. Claro, não a Londres real, mas uma réplica de 120 metros de comprimento construída para celebrar o 350º aniversário de uma das maiores tragédias da história inglesa, o Grande Incêndio de 1666.

As chamas tiveram início em uma padaria, mas uma união entre adensamento enorme, construções cheias de materiais inflamáveis e demora na resposta das autoridades permitiram que elas se espalhassem pelo centro de Londres. Após quatro dias, de 2 a 5 de setembro, o fogo destruiu 87 igrejas (incluindo a Catedral de São Paulo) e 13 mil casas, deixando 70 mil londrinos sem ter onde morar.

Apesar da destruição, a quantidade de vítimas fatais foi baixa. Os números oficiais são de seis mortos, ainda que possivelmente mais pessoas tenham perdido a vida sem que fossem contabilizada pelas autoridades. A residência da família real, na região de Westminster, não foi atingida.

O incêndio foi um marco na história da cidade. O centro de Londres foi reconstruído dentro do mesmo plano urbanístico original, mas com modificações fundamentais para assegurar a segurança da cidade: melhorias de higiene, ruas mais largas, cais mais acessíveis ao longo do Tâmisa, nenhum imóvel obstruindo o acesso ao rio e edificações com tijolos e pedras no lugar de madeira.

Para relembrar os 350 anos do incêndio, o artista norte-americano David Best e a empresa Artichoke desenvolveram uma instalação. Foi construída uma grande maquete de madeira da cidade e, na noite de 4 de setembro de 2016, foi colocado fogo em uma das edificações. Os londrinos curiosos não tiveram de esperar quatro dias, apenas pouco mais de uma hora para ver a reprodução de sua cidade virar cinzas.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Como era a proposta de São Paulo para organizar os Jogos Olímpicos

O Rio de Janeiro já vive a reta final da preparação para os Jogos Olímpicos e já é possível ter uma boa ideia do que o evento deixará (e o que não deixará) para a cidade em infraestrutura urbana e esportiva. Não é mais um exercício de imaginação. Algo que podemos fazer com outra cidade brasileira: São Paulo, e sua pretensão não concretizada de receber a Olimpíada de 2012.

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O Brasil vivia uma obsessão olímpica. O Rio tentou sediar os Jogos em 1996 e foi pré-candidato para 2004. Brasília também iniciou uma campanha, mas não confirmou sua candidatura em 2000. Para 2012, duas cidades brasileiras apareceram com força, Rio, impulsionado pelo fato de ser sede do Pan-Americano de 2007, e São Paulo, que tentava melhorar sua imagem como metrópole moderna e funcional.

Para definir o representante brasileiro na competição mundial, foi feita uma disputa interna. Em votação realizada em 7 de julho de 2003, os presidentes das confederações das modalidades olímpicas elegeram a candidatura carioca, posteriormente derrotada por Londres. Mas essa experiência foi utilizada para vencer Madri, Tóquio e Chicago na concorrência pelos Jogos de 2016. Mas no que consistia a proposta paulista?

Logotipo de candidatura de São Paulo aos Jogos de 2012
Logotipo de candidatura de São Paulo aos Jogos de 2012

Como é comum em processo de candidatura para grandes eventos esportivos, havia várias promessas de como o legado para a população seria grande e o custo de viabilização não seria um problema. O comitê de São Paulo – que contava com o apoio da então prefeita Marta Suplicy e do então governador Geraldo Alckmin – teve a consultoria de Enrique Truño, coordenador-geral da Olimpíada de Barcelona, tida como modelo de legado olímpico para uma cidade.

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O resultado foi um projeto que tentou aproveitar várias instalações da cidade para receber as competições. O custo nessa área foi prometido em US$ 1,64 bilhão*, boa parte dele concentrado no estádio Olímpico, uma estrutura com capacidade para 75 mil pessoas que seria erguida na Água Branca (zona oeste). Outros investimentos significativos seriam no ginásio olímpico do Anhembi, com 25 mil lugares, e no complexo de tênis do Parque Villa-Lobos, com 13 mil lugares.

Quase todas as competições seriam na capital paulista, mesmo que utilizando estruturas não-esportivas, como uma casa de espetáculos (Credicard Hall, atual Citibank Hall), e dois pavilhões de exposições (Expo Center Norte e Transamérica Expo Center). Fora de São Paulo, apenas a vela (São Sebastião), handebol (São Bernardo do Campo), canoagem slalom (Jundiaí) e futebol (alguns jogos em Santos e Rio de Janeiro). Veja na galeria abaixo quais seriam os locais de disputas olímpicas nos Jogos de São Paulo-2012.

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O grande problema da candidatura era o custo com infraestrutura. Apesar de haver cinco núcleos – Anhembi, Água Branca/Barra Funda, Cidade Universitária, Ibirapuera e Guarapiranga – concentrando várias instalações, as disputas ficariam espalhadas pela cidade. Veja no mapa abaixo, ou na versão ampliada aqui.

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Com isso, o gasto com transporte e mobilidade seria alto. Os principais investimentos seriam a construção 110,9 km de metrô – duas linhas novas (Morumbi-Luz e Raposo Tavares-Vila Guilherme) e ampliação das linhas verde e lilás – e construção de 300 km de ciclovias. No aspecto urbanístico, foi prometida a despoluição dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, a construção de uma nova rede de esgoto para a represa de Guarapiranga e a implantação de 30 novos parques públicos.

A cidade receberia três áreas urbanizadas: a Vila Olímpica (Água Branca), a Vila de Mídia (Anhembi) e a Vila dos Juízes (Cidade Universitária). Esses espaços teriam ligação com o aeroporto de Guarulhos por uma nova linha de trem e seriam comercializados para uso residencial após os Jogos.

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Todas essas intervenções tiveram custo estimado em US$ 10,01 bilhão. O valor faz parte direta do legado deixado à cidade, mas foi considerado alto pelo Comitê Olímpico Brasileiro (o Rio prometia organizar a Olimpíada por US$ 4,7 bilhões). O argumento das autoridades paulistas é que esse investimento era viável economicamente e não seria apenas para os Jogos. “A cidade precisa disso e vai fazer. Vamos dizer que é elevado a China gastar US$ 13 bilhões em meio ambiente? Ela está gastando porque pode e precisa. Então, não é elevado”, comentou na época Nádia Campeão, secretária municipal de esportes.

Mapa com a distribuição da estrutura olímpica pela capital paulista (Reprodução/Lance)
Mapa com a distribuição da estrutura olímpica pela capital paulista (Reprodução/Lance)

Nos dias que antecederam a eleição, os comitês de organização trocaram acusações. O paulista acusou o carioca de preparar um projeto muito incompleto e reclamou da possível influência de Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, em favor da capital fluminense. O Rio rebateu dizendo que sua cidade estava mais pronta e que São Paulo não teria condições de competir com Londres, Paris e Nova York, candidatas já confirmadas para aquela disputa.

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O Rio de Janeiro venceu por 23 a 10. No pronunciamento da vitória, o então prefeito César Maia não foi nada discreto ao cutucar São Paulo. “As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, comentou, fazendo referência a uma famosa frase de Vinícius de Moraes.

No final das contas, São Paulo viu pouco do que se imaginou há 13 anos. A oferta de arenas esportivas mudou bastante, com a reconstrução do Palestra Itália e o surgimento da Arena Corinthians. Isso praticamente mata a ideia de um novo estádio olímpico para 75 mil pessoas por falta de usuário para essa estrutura. Se a capital paulista fosse entrar em uma candidatura olímpica, provavelmente teria de usar algum estádio já existente (o candidato mais lógico seria o Morumbi) renovado para receber as provas de atletismo.

Mas isso é o de menos. Pior foi que, das promessas de infraestrutura que “seriam feitas de qualquer forma”, quase nada existe. Houve um grande incremento da rede de ciclovias e está em andamento o projeto de construção de um ginásio no Anhembi, mas as linhas de metrô ainda não foram entregues, não foram criados 30 parques novos e os rios seguem poluídos. E pensar que era para isso tudo estar pronto em 2012, quatro anos atrás.

* Todos os valores indicados são da época (2003)

O maior golpe fracassado de Istambul começou como briga de torcidas

O Exército tentou, mas a sociedade foi mais forte. Parte das Forças Armadas quis aproveitar a ausência física do presidente Recep Erdogan para tomar o poder na Turquia. A reação contra a ofensiva militar foi imediata, com a população, o presidente que voltou às pressas e até parte da oposição se unindo para evitar uma troca de comando à força no país. Golpes de estados são comuns no país, já ocorreram em 1960, 1971, 1980, 1993 e 1997. Uma tentativa fracassada é mais rara, mas uma delas mudou a história: as Revoltas de Nika.

É preciso voltar bastante no tempo, uma época em que o centro de comando não era Ancara, a Turquia não existia como nação, sua maior cidade não se chamava Istambul e sua população nem era muçulmana, tampouco tinha origem étnica na Ásia Central. A região em torno do estreito de Bósforo era dominada pelo Império Romano do Oriente, divisão política criada quando Roma começou a perder força como centro dessa civilização, também conhecido como Bizantino. A capital era Constantinopla, atual Istambul.

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Uma das atividades mais populares na metrópole era a corrida de bigas. Mais que disputas de velocidade, eram competições ferozes. Os concorrentes se atacavam, acidentes fatais eram comuns e os grandes campeões se tornavam milionários. Apesar da glória dos principais condutores, tratava-se de um esporte coletivo: os torneios tinham as equipes vermelha, verde, azul e branca, cada uma com uma torcida fanática por trás.

Ilustração de corrida de bigas no hipódromo de Constantinopla
Ilustração de corrida de bigas no hipódromo de Constantinopla

No início do século 6º, a disputa estava mais polarizada em Constantinopla. Os verdes haviam incorporado o time vermelho, enquanto que os azuis absorveram os brancos. Assim, a rivalidade se tornou enorme, possivelmente ganhando tons políticos, com os azuis se identificando mais com a elite e uma leitura mais ortodoxa do Cristianismo, enquanto a torcida verde representava os cidadãos comuns e defendia uma versão mais progressista da religião. Em 501, 3 mil torcedores verdes foram mortos em uma emboscada dos azuis. Anos depois, os verdes se vingaram com uma grande vitória de Porfírio, condutor que defendia os azuis, mas trocou de lado.

As duas torcidas só concordavam quando o assunto era o governo de Justiniano I. O imperador empreendeu grandes e vitoriosas campanhas militares de expansão territorial, mas isso veio a um custo. Ele teve de aumentar agressivamente os impostos para poder financiar o exército, causando descontentamento de toda a sociedade em Constantinopla. Em 532, um novo pacote de taxas atingiu até a elite, que vinha sendo poupada até então.

Em 10 de janeiro daquele ano, uma corrida terminou em nova confusão entre verdes e azuis. As autoridades entraram em ação e prenderam sete líderes de torcidas. Todos seriam executados, mas dois (um verde e um azul) acabaram sobrevivendo porque o suporte da forca quebrou. Imediatamente, membros das duas facções se dirigiram ao hipódromo – localizado estrategicamente ao lado do palácio, para que Justiniano pudesse ver as corridas e torcer pelo seu time, o azul, sem sair de casa – para pedir clemência aos dois.

Retrato de Justiniano I em mosaico na Basílica de São Vital, em Ravena (Itália)
Retrato de Justiniano I em mosaico na Basílica de São Vital, em Ravena (Itália)

O imperador se negou. As duas torcidas se uniram e começaram a gritar “nika” (vencer) em direção ao palácio. Os protestos se seguiram, vários edifícios foram incendiados – inclusive Hagia Sofia, então basílica da igreja cristã – até que, no quarto dia, os manifestantes decidiram derrubar Justiniano e colocar Hipácio, sobrinho do ex-imperador Anastácio I, no poder. Justiniano pensou em fugir, mas foi convencido a ficar por sua mulher, Teodora.

HISTÓRIA: Veja o momento exato em que as maiores cidades do mundo nasceram

Com a decisão de confrontar a multidão tomada, o imperador acionou seus generais Belisário e Mundo. Ambos convocaram tropas godas e trácias – sem ligação afetiva com as equipes de corridas de bigas – para contra-atacar. As forças de segurança aproveitaram que os revoltosos estavam no hipódromo para ali confiná-los e iniciar o massacre. Os registros são de cerca de 30 mil mortos, incluindo Hipácio.

Com o golpe fracassado, Justiniano I ganhou ainda mais poder. As corridas de bigas foram proibidas, a população passou a temê-lo ainda mais, a Hagia Sofia foi reconstruída e as campanhas militares se intensificaram. Quando morreu, em 565, o Império Bizantino tinha recuperado boa parte do território do Império Romano em seu auge, incluindo a Península Itália, o sul da Península Ibérica e todo o norte da África.

Império Bizantino no início do governo de Justiniano I (verde) e os territórios conquistados (roxo)
Império Bizantino no início do governo de Justiniano I (verde) e os territórios conquistados (roxo)

Estamos hipnotizados por esse projeto com mapas históricos do Rio

A tecnologia tem permitido a criação de várias novas formas de se mapear a cidade, aprofundando o conhecimento para tendências futuras. Já houve levantamento de dados em redes sociais para apontar possíveis pontos de gentrificação, oferecer melhores serviços públicos em favelas, indicar focos de reprodução do Aedes aegypti, viver sem o carro e até para ajudar as autoridades a descobrirem locais atingidos por um grande terremoto no Equador. Mas também dá para usar isso para ver o passado com outros olhos. É o que mostra o ImagináRio.

O projeto foi criado por Alida Metcalf, professora de história latino-americana na Universidade Rice (Houston, EUA). A historiadora se especializou no Brasil por ver várias semelhanças com os Estados Unidos. Em 2008, ela realizou um trabalho com mapas brasileiros do século 16. Na oportunidade, ela conhecer Farés al-Dahdah, professor de arquitetura na mesma instituição, e ambos decidiram aprofundar esse estudo para ter uma perspectiva histórica e urbanística do Rio de Janeiro.

O resultado dessa parceria foi a criação de uma infográfico digital com a evolução da capital fluminense em mapas. O objetivo era utilizar a plataforma para ilustrar as aulas sobre a história carioca, mas acabou se tornando algo maior, aberto a consulta de todos.

No ImagináRio, é possível ver cada etapa do surgimento do Rio, de 1500 a 2016. O usuário pode ver o crescimento da área urbana, comparar com mapas históricos e até quadros que retrataram cada época.  É tanta informação que nós não conseguimos explorar tudo ainda. Mas dá para ficar horas e horas brincando (e aprendendo) com isso.

Clique aqui e se divirta. Mas fica o aviso: sua produtividade pode ser duramente afetada.

Ataque do PCC expôs descrença da população nas autoridades

Os celulares apitavam com a chegada de torpedos, e-mails novos pipocavam nas caixas de entrada do Outlook de todo mundo. A cada mensagem novo, a descrição de uma tragédia. “Bandidos entraram atirando em todo mundo na estação de metrô.” “Agências bancárias serão os alvos.” “Estão atacando as pessoas presas no trânsito.” “Um conhecido de um amigo conversou com um policial que disse que o pior ainda está por vir.” Muita gente falando, gritando, ao mesmo tempo. Mesmo em um mundo em que não havia redes sociais, foi fácil essa rede de relatos virtuais se transformar em pânico generalizado. E, assim, 15 de maio de 2006 entrou para a história como o dia em que o PCC esvaziou a Grande São Paulo.

LEIA MAIS: Dez anos de terror: as históriasm e explicações por trás dos ataques do PCC que paralisaram SP

O Primeiro Comando da Capital, organização formada nos presídios paulistas, já promovia ataques a delegacias e policiais desde o dia 12, uma sexta. O fim de semana teve mais atentados, e dezenas de policiais foram mortos. Mas o dia a dia da cidade não se alterava tanto. Até chegar a segunda, o dia 15. Todos saíram para trabalhar ou estudar, as ruas estavam cheias como em qualquer dia útil na maior metrópole brasileira. O que deu uma nova amplitude às ações do PCC, pois todos se sentiam como alvos em potencial.

Era um cenário propício para a disseminação de boatos e especulações, que motivaram boa parte da população a voltar para casa o mais rápido possível, de preferência antes de anoitecer (algo que ocorre perto das 18h nessa época do ano). Lojas fecharam as portas. Escritórios cancelaram reuniões e dispensaram seus funcionários. Escolas e faculdades cancelaram as aulas noturnas. Houve até casos de emissoras de TV cancelando programas ao vivo. A hora do rush foi antecipada para as 16h.

Praticamente todos os relatos que surgiram pela internet se mostraram falsos. O pânico se baseou em mentiras, mas a busca desesperada das pessoas por suas casas deixaram um recado muito forte: o paulistano não confiava nas autoridades. Tudo bem, é fácil dizer que o brasileiro, por natureza, não confia nos governantes. Mas isso era algo mais profundo. Não se confiava na capacidade de as autoridades combaterem uma organização criminosa que tomava de assalto a cidade a ponto de não haver segurança nem para andar na rua. A única solução possível era se trancar em casa com sua família e esperar a onda de violência passar.

Foi um momento de descrença total, em que as pessoas interromperam suas atividades por conta de um medo generalizado. Nem as autoridades sabiam direito como reagir e orientar a população, até porque elas, sim, eram alvos dos ataques. Mas, naquele momento, o crime organizado provavelmente pensou que tinha mais controle sobre a cidade do que ela próprias. E ver isso acontecer tenha sido o aspecto mais amedrontador daquele 15 de maio de 2006.

As histórias por trás dos ataques do PCC que paralisaram SP há dez anos

São Paulo viveu uma de suas piores semanas nos últimos anos, ou talvez em muito mais tempo que isso. O PCC, organização criminosa formada nos presídios paulistas, promoveu ataques à polícia militar, civil e até ao Corpo de Bombeiros após a transferência de 765 presos para a penitenciária de Presidente Venceslau.

A onda começou em 11 de maio de 2006, e teve o auge no dia 15. Foi quando boatos se espalharam pela população, dando conta que a organização estaria fazendo alvos civis como estações de metrô e ônibus. O caos se instaurou, com várias empresas fechando o expediente mais cedo para que todos pudessem estar seguros em casa antes do anoitecer. À noite, as ruas de São Paulo estavam desérticas como se houvesse um jogo da seleção na Copa do Mundo. Mas sem o clima de festa que normalmente está relacionado com o futebol.

Para lembrar os dez anos do ataque, nossos amigos do Risca Faca fizeram o ótimo especial Dez Anos de Terror. Veja:

Quando São Paulo parou
Por que aqueles ataques aconteceram naquela fatídica semana de maio de 2006?

A panela de pressão do PCC
Os problemas internos da facção e a superlotação ameaçam a fase “PCC Paz e Amor”

A prisão soldada
Rafael Coutinho ilustra a história do presídio de Araraquara soldado em 2006

“Não saia hoje”
As mães de maio de 2006

A história da cidade que nasceu das cinzas de Chernobyl

Uma cidade diferente de outras europeias, mesmo as mais modernas. O modelo urbano foi todo feito pensando no século 21, ou no que o mundo da década de 1980 achava que seria o século 21. Tudo é planejado, com cada bairro tendo um estilo próprio, de acordo com seu idealizador. Há muita infraestrutura de lazer, como instalações esportivas, clínicas, centro para jovens, e cerca de 80% das residências são em apartamentos. Slavutych não parece um município ucraniano comum. E não é. Ela só existe por causa do pior acidente nuclear da história.

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A história dessa cidade começou há exatos 30 anos, quando o reator número 4 da usina nuclear de Chernobyl explodiu durante testes de segurança. O acidente causou 31 mortes imediatas, mais 64 por efeito imediato da radiação e pode chegar a 4 mil considerando efeitos prolongados dela. Todas as ocupações em um raio de 30 km da usina tiveram de ser evacuadas, o que incluiu os municípios de Prypiat, principal base de operações da instalação, e Chernobyl (atual Chornobyl, na grafia ucraniana), foram evacuadas.

Prypiat virou uma cidade fantasma. Todas as suas edificações foram abandonadas e o local se transformou em uma mostra em escala real de quanto tempo leva para a natureza tomar conta do espaço construído pelo homem. Em 1986, o município tinha 49 mil habitantes. A maioria fugiu, mas alguns queriam ou precisavam ficar. Afinal, os outros reatores da usina não foram desativados e eram necessários operadores especializados e funcionários administrativos.

Por isso, o governo da União Soviética decidiu construir uma cidade nova, a 50 km da usina – ou seja, fora da Zona de Exclusão –, para abrigar as famílias que deixaram Prypiat. Foram chamados construtores e arquitetos de oito repúblicas soviéticas – Armênia, Azerbaijão, Estônia, Geórgia, Letônia, Lituânia, Rússia e Ucrânia – para projetar os bairros. Cada um ganhou as características regionais de seus projetistas e o nome da capital de suas repúblicas. O local recebeu o nome de Slavutych, nome eslavo do rio Dnieper, e seus primeiros habitantes chegaram em outubro de 1988, dois anos após o início das obras.

Desde então, a cidade passou a seguir uma dinâmica própria. Toda sua economia girava em torno da usina de Chernobyl, responsável por 85% do orçamento municipal. A cidade foi planejada para ter muitas estruturas para crianças, que formavam cerca de 20% da população de Prypiat. Por isso, Slavutych tem seis jardins de infância, quatro escolas secundárias, um grande colégio de ensino médio e uma escola de arte infantil. Muita coisa para uma cidade que teve apenas 11 mil habitantes em seus primeiros anos e chegou a 25 mil no início deste século.

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A infraestrutura e a estabilidade econômica oferecia boa qualidade de vida para os habitantes de Slavutych, mas as marcas do acidente nuclear nunca deixaram seus habitantes. A incidência de doenças relacionadas a radiação e problemas de tireoide são muito acima do normal. Pessoas que se alimentaram de alimentos produzidos na região tendem a sofrer mais, ainda mais depois que surgiu uma lenda local de que a vodca limpa o corpo da radioatividade, fazendo que muita gente não se importasse tanto com a origem de sua comida.

A situação econômica começou a piorar na virada do século. Aos poucos, a usina nuclear foi desativada. O reator 2 parou em 1991, após um incêndio. O número 1 fechou em 1996 e o 3, o último ainda operacional, em 2000. Na época, 9 mil pessoas trabalhavam em Chernobyl, apenas 3 mil mantiveram o emprego (exclusivamente com manutenção e monitoramento das instalações).

Mas o fechamento da usina criou uma outra atividade econômica: o turismo. Slavutych se tornou a principal base de empresas que organizam visitas guiadas a Prypiat e à Zona de Exclusão. Não é o suficiente para compensar a queda de investimento, mas ajudará a cidade a não ter o destino de sua antecessora: a de se tornar uma cidade-fantasma.