O discurso de Ben Carson foi pior do que parece, e não apenas por comparar escravos com imigrantes

“É disso que se trata a América. Uma terra de sonhos e oportunidades. Houve outros imigrantes que vieram aqui no porão de navios negreiros, trabalharam por ainda mais tempo, até mais duro por menos dinheiro. Mas eles, também, tinham o sonho que um dia seus filhos, filhas, netos, netas, bisnetos, bisnetas poderiam conseguir prosperidade e felicidade nessa terra.”

O discurso de posse de Ben Carson como ministro de Donald Trump foi uma tragédia. O pré-candidato derrotado à presidência dos EUA pelo Partido Republicano conseguiu falar dos africanos escravizados como se fossem imigrantes que tinham sonhos na nova casa. Foi uma declaração bastante infeliz, ainda mais porque ele próprio, Carson, é negro e deveria saber melhor o que representou a ida forçada de seus antepassados às Américas.

Muita gente tentou passar um pano e tratar o caso como gafe ou emprego mal calculado de palavras. Mas, mesmo se o caso for tratado dessa forma para lá de generosa, é preocupante. Sobretudo pelo cargo que Carson estava assumindo naquele momento: o de ministro de habitação e desenvolvimento urbano.

Nesta pasta, o médico terá de lidar com questões delicadas como acolhimento de refugiados, situação de imigrantes, dificuldade da população em manter-se em dia com o financiamento de sua casa, projetos para democratização de serviços e espaços públicos em áreas urbanas e mobilidade, entre outros temas comuns em grandes cidades. O responsável por essa área precisa entender as nuances dessas questões e o que se passa na cabeça dos grupos sociais mais vulneráveis.

Tendas de moradores de rua em Los Angeles (AP Photo/Damian Dovarganes via Outra Cidade)
Tendas de moradores de rua em Los Angeles (AP Photo/Damian Dovarganes via Outra Cidade)

Mesmo dando mais um benefício da dúvida ao novo ministro, ele poderia compensar a declaração horripilante com um resto de discurso cheio de conteúdo. Nada disso. Contou histórias da época em que era um dos principais neurocirurgiões dos Estados Unidos e só. Nem mencionou o fato de que sua pasta sofrerá um corte orçamentário de US$ 6 bilhões, ou 14%.

Certamente as pessoas que lidam com os temas urbanos e de habitação nos EUA gostariam de saber se o novo ministro da área tem propostas criativas para fazer mais com menos. Mas ele preferiu comparar escravos com imigrantes.

Terceirização afasta crianças sem residência fixa de escolas nos EUA

A quantidade de sem-teto cresceu acentuadamente nos Estados Unidos nos últimos dez anos, consequência natural de uma crise econômica que teve como epicentro o mercado imobiliário. Isso traz diversos problemas sociais lógicos, e alguns deles talvez sejam sentidos ainda em longo prazo. Caso de precarização da educação para as crianças que deixaram de ter uma residências fixa.

Um estudo mostrou como esses estudantes têm mais dificuldades para entrar em alguma charter school (escola administrada por uma instituição terceirizada, que recebem verba pública para isso) do que em uma escola pública normal em Nova York. A pesquisa, realizada pela NYS-Teachs (Centro de Assistência Técnica e Educacional para Estudantes Sem-Teto do Estado de Nova York), mostra que há 99.196 alunos sem residência fixa em escolas públicas, cerca de 10% do total. Em charter schools, o índice cai para 7%.

O modelo da escola não deveria causar diferença, pois ambas são bancadas pelo estado. A diferença é que, em uma, o poder público efetivamente gerencia a escola, e em outro ele paga para alguém gerir. Do ponto de vista acadêmico, as charters tendem a ser mais rigorosas com a frequência dos alunos. Mas o problema principal está nos procedimentos burocráticos adotados nos dois tipos de instituições.

As charter schools são mais procuradas pelos pais. Dessa forma, ela realiza sorteios em abril para definir os estudantes do ano letivo seguinte, que começa no final de agosto ou em setembro. No entanto, uma família sem residência fixa acaba mudando muito de um lugar para outro, entre abrigos, hoteis baratos ou casa de outros familiares. Com isso, ela pode se inscrever para o sorteio da escola terceirizada em abril e, quando o ano letivo começa, estar morando do outro lado da cidade. O estudo da NYS-Teachs apontou que 50% das crianças sem-teto estudam em bairros diferentes de onde suas famílias vivem.

Isso não impede a criança de ficar com a vaga, mas o transporte escolar tem dificuldade de lidar com essas situações e muitos estudantes levam até duas horas para chegar à escola – e mais duas para voltar. Com isso, os pais teriam de pedir transferência do filho para alguma instituição próxima de seu novo endereço, mas é uma tarefa burocraticamente difícil. As escolas públicas têm muito mais flexibilidade para aceitar alunos que mudam de endereço durante o ano letivo.

A falta de estabilidade afeta o desempenho escolar das crianças. Uma pesquisa do Institute for Children, Poverty and Homelessness (Instituto para Criança, Pobreza e Falta de Moradia) revelou que alunos em residência temporária tem o dobro de chance de faltarem constantemente às aulas e três vezes mais chances de serem transferidos durante o ano letivo. As notas, compreensivelmente, são mais baixas na média.

Os números se referem a Nova York, mas a realidade é semelhante em todo o país. Por isso, já surgem iniciativas para facilitar a ida de crianças sem-teto para a escola. Na Flórida e na Carolina do Norte, entidades ajudam esses alunos a terem transporte especial e outros tipos de assistência educacional. Em Nova York, uma instituição que gerencia uma charter school atenua o efeito colateral do modelo das escolas terceirizadas reservando um terço de suas vagas a estudantes que não tenham residência fixa.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

O maior pecado da vila olímpica não é o encanamento

“Não precisamos de cangurus, precisamos de encanadores.” A delegação da Austrália estava indignada com a forma como Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, reagiu aos protestos australianos sobre a situação da Vila dos Atletas. O caso rapidamente cresceu, com outros relatos da falta de acabamento das habitações em que os competidores ficarão durante a Rio-2016. As redes sociais brasileiras reagiram, muitas vezes expressando a vergonha pelo problema.

Ainda que a confusão tenha sido contornada rapidamente, com um mutirão de trabalhadores finalizando os apartamentos a toque de caixa, foi um momento constrangedor. Mas a situação da vila olímpica não pode, nem deve, ser vista apenas por esse prisma. Ela é muito mais grave que ajustes no sistema hidráulico ou elétrico de um edifício.

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A construção de um legado tem sido um dos problemas mais delicados dos Jogos Olímpicos, onde quer que eles sejam realizados. Várias estruturas são desnecessárias para o dia a dia das cidades-sede e ficam sem uso após as competições. Calcular o retorno das obras é complicado. As arenas precisam de uma demanda por eventos esportivos e culturais para atraírem algum investidor disposto a bancá-las. As obras de infraestrutura precisam ser projetadas de modo a terem relevância no cotidiano da metrópole, pois não adianta uma grande rede de transporte para o Parque Olímpico se ninguém mais for ao local – e arredores – após os Jogos.

A Vila dos Atletas, ainda que represente um percentual pequeno do investimento total para o evento, tem um legado relativamente fácil de projetar. É uma espécie de novo bairro, composto por edifícios residenciais comuns, com tecnologia construtiva comum. A necessidade social e o comportamento do mercado para esse tipo de empreendimento também é fácil de estimar, pois há exemplos similares pela cidade.

Moradores da Vila Autódromo reclamam da interrupção de serviços para quem não quis a indenização oferecida pela prefeitura do Rio (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Moradores da Vila Autódromo reclamam da interrupção de serviços para quem não quis a indenização oferecida pela prefeitura do Rio (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Ainda assim, a vila olímpica tem vários problemas em sua concepção. A estrutura foi incluída na PPP para a construção do Parque Olímpico. Assim, as construtoras responsáveis por erguer as arenas esportivas em Jacarepaguá teriam a possibilidade de construir e explorar comercialmente os imóveis que serviriam de alojamento para os atletas.

Em teoria, esse modelo deveria garantir trabalho feito a tempo, com preço competitivo e sucesso comercial. Incorporadoras acompanham o comportamento do mercado e sabem quais empreendimentos têm mais saída a cada momento e quanto as pessoas estão pegando por cada tipo de imóvel.

O mercado imobiliário teve retração nos últimos anos, uma soma da crise do país com uma normalização de uma indústria que vivia em uma bolha, mas é difícil imaginar que apartamentos de padrão médio-alto em um condomínio fechado na Barra da Tijuca não tenham interessados. Ainda mais com a garantia dada pela Olimpíada que não haverá atraso nas obras e na entrega das chaves para seus moradores. Mesmo assim, só 50% dos 3,6 mil apartamentos, divididos em 31 torres, haviam sido vendidos até a última sexta.

O modelo comercial está mostrando problemas, mas ele é particularmente pior se imaginarmos o contexto em que a Vila dos Atletas se insere. Como qualquer investimento para os Jogos, poderia ser feito de modo a trazer algum retorno para a comunidade, o legado. Ainda que a prefeitura não tenha colocado dinheiro na construção dos prédios, ela bancou a infraestrutura de acesso e elaborou uma lei aumentando de 12 para 18 andares o gabarito para edificações na região. Por isso, era cabível imaginar uma contrapartida social.

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A vila olímpica precisa ter um nível de isolamento durante os Jogos, uma medida de segurança lógica após o atentado de um grupo terrorista à delegação de Israel na Olimpíada de 1972. Mas ela poderia ser concebida de modo a, terminadas as competições olímpicas e paralímpicas, se inserir no entorno, até como forma de dar à cidade um pouco daquilo que os Jogos trouxeram. A Vila dos Atletas não terá isso, pois ficará fechada como o condomínio Ilha Pura.

Edifícios da Vila dos Atletas e área comum do futuro condomínio (AP Photo/Leo Correa, via Outra Cidade)
Edifícios da Vila dos Atletas e área comum do futuro condomínio (AP Photo/Leo Correa, via Outra Cidade)

Outra possibilidade seria colocar os edifícios em si dentro de um contexto social. O terreno da vila olímpica não era ocupado, mas, logo ao lado, as comunidades de Vila Autódromo e Vila União foram removidas por ocuparem a área em que hoje está o Parque Olímpico. A retirada desses moradores, alguns com autorização para viverem no local, foi recheada de problemas e irregularidades. A Vila dos Atletas poderia ser projetada como habitação de interesse social e receber esses moradores ou, dentro de uma perspectiva comercial, ter em seu contrato a exigência que seus incorporadores também se responsabilizassem por atender a essas pessoas. Até porque os responsáveis pelo empreendimento da vila olímpica também farão condomínios no local de algumas arenas do Parque Olímpico. Há investimento imobiliário de sobra nesse pacote.

No final das contas, a vila olímpica não representará nenhum legado ao Rio de Janeiro, apenas aos moradores do Ilha Pura. Um problema muito mais grave que as falhas de encanamento, uma situação relativamente fácil de remediar e que, no fundo, tem impacto mais pelo constrangimento que traz do que algo mais sério e de longo prazo.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Crise na Venezuela deixa um rastro de casas abandonadas em Caracas

A economia está em baixa, as oportunidade de trabalho rareiam, as instituições se deterioram e não há perspectiva de melhora em curto prazo. O cenário na Venezuela não dá muitas razões para otimismo, e muitos venezuelanos decidiram se mudar para o exterior e recomeçar a vida. E acabaram criando o estranho fenômeno de casas abandonadas em Caracas.

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Não há números oficiais, mas o sociólogo Iván de la Vega, professor da Universidade Simón Bolívar, de Caracas, calcula que 1,2 milhão de pessoas deixaram o país entre 2004 e 2014. Os principais destinos seriam Estados Unidos, Espanha, Panamá e Costa Rica. Muitos deles são profissionais com formação universitária e poder aquisitivo médio ou alto e deixaram para trás suas casas.

Em uma situação normal, esses imóveis seriam colocados no mercado. Mas não é o que tem acontecido. A crise econômica murchou o setor imobiliário, pois poucas pessoas têm condições de investir em um imóvel.

Colocar para aluguel seria uma opção, mas essa prática é fortemente regulada, com uma agência estatal – a Sunavi, Superintendência Nacional de Aluguel de Moradia – criada para controlar a relação locatário-locador. A lei do aluguel, criada em 2011, é fortemente favorável aos inquilinos. A ideia é interessante, protegendo o lado mais fraco da relação, mas acabou alimentando ainda mais a especulação.

Para muita gente, vale mais a pena deixar o imóvel vazio na esperança de tê-lo disponível para um eventual retorno à Venezuela. Com isso, amigos e familiares são designados para ajudar a manter as casas vazias, que começam a se multiplicar pelos bairros de classe média do país.

Enquanto isso, a sociedade venezuelana vai se tornando ainda mais desfuncional. Comunidades se quebram com o aumento de casas vazias, e não há mecanismos práticos para incentivar a ocupação delas. A não ser que se repitam operações como a de abril em Los Cerritos, Ilha Margarida, quando a Guarda Nacional Bolivariana (força armada responsável por ações internas) inspecionou imóveis para se verificar 11 imóveis suspeitos de estarem vazios.

Já há mais londrinos morando de aluguel do que em casa própria

O “sonho da casa própria” foi um medidor de estabilidade financeira e de vida no Brasil por vários anos. Para muita gente, ainda é. Pois, atualmente, ele é algo muito mais palpável para os brasileiros do que para os ingleses. Um levantamento realizado pelo governo britânico mostra que a quantidade de imóveis ocupados por inquilinos já ultrapassou a de ocupados por seus proprietários. Um fenômeno que tende a piorar nos próximos anos.

De acordo com o English Housing Survey (Pesquisa de Moradia na Inglaterra), 898 mil famílias vivem em imóvel alugado, mais que o dobro (405 mil) em relação a 2003/04. Enquanto isso, o número de residências ocupadas por proprietários – com o pagamento quitado ou financiado – está em 883 mil, bem abaixo do 1 milhão registrado há 12 anos.

Só como parâmetro, segundo a edição de 2014 do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE, 74,4% dos imóveis no Brasil pertenciam a seus moradores, 17,9% eram alugados; 7,4% estavam cedidos e 0,4%, tinham outra condição. Os números das grandes cidades não são tão diferentes desses, ainda que também haja aumento de inquilinos nos últimos anos. Mas, claro, os critérios do instituto brasileiro podem ser diferentes do adotado pelos britânicos e os números servem como referência, não como comparação.

O principal motivo da inversão – a primeira desde 2005, quando a pesquisa foi criada – em Londres é o aumento do valor dos imóveis na capital inglesa, mesmo fenômeno observado em várias cidades do mundo. Só em janeiro, houve um aumento em 5,4% no preço médio dos imóveis, chegando a £ 644 mil (quase US$ 1 milhão). Reforçando: US$ 1 milhão é a média.

Colocamos os valores em dólares porque a cotação do real tem flutuado muito nas últimas semanas e pode causar distorção na percepção do leitor

A inflação do setor tem tornado os imóveis cada vez menos acessíveis às classes média-baixa e média, sobretudo jovens que acabaram de entrar no mercado de trabalho. Se o setor imobiliário seguir em alta acentuada, a tendência é que comprar sua própria residência se torne cada vez mais algo restrito a pessoas perto dos 40 anos, com vida profissional já consolidada e com muitos anos economizando dinheiro.

Placas anunciando imóveis para aluguel em Londres (AP Photo/Simon Dawson)
Placas anunciando imóveis para aluguel em Londres (AP Photo/Simon Dawson)

A dificuldade para a compra de imóveis não tem pressionado os valores para baixo porque o interesse por locação segue alto. Com isso, investidores compram várias residências e as colocam no mercado, com preços cada vez mais altos devido à alta procura e até à concorrência de ferramentas como o Airbnb. Um quarto em apartamento compartilhado sai, em média, £ 743 (cerca de US$ 1 mil).

Em outros países da Europa, a quantidade de inquilinos já supera a de moradores em imóvel próprio, mas há mecanismos de proteção a quem vive de aluguel. Uma análise da PricewaterhouseCoopers vê um lado positivo no fenômeno londrino: com uma massa de inquilinos grande, há mais força para brigar por políticas públicas que os projetam mais.

Isso pode até ocorrer, mas há um preço a se pegar. O tempo médio de contrato de aluguel em Londres é de um ano, o que dá margem para os proprietários reajustarem o valor a qualquer flutuação de mercado. Com uma tendência de alta acentuada, muitos inquilinos são obrigados a trocar constantemente de casa por incapacidade de absorver os constantes aumentos, o que pode, em médio prazo, prejudicar o sentido de comunidade em certos bairros e diminuir o poder de articulação por melhorias.

Por que estão destruindo carros de luxo nas ruas de Berlim

O que? Na última semana, 28 carros foram destruídos nas ruas de Berlim. Dois Mercedes e dois BMWs foram queimados, enquanto os demais foram vandalizados. Um dia depois, outros 20 veículos foram atacados. A quantidade de automóveis destruídos em 24 horas chamou a atenção, mas ver carros queimados na rua se tornou estranhamente comum na capital alemã, em uma prática que já misturou protesto social com oportunismo de vândalos.

Bandeja de papel alumínio e carvão

Klaus-Jürgen Rattay era um dos milhares de jovens da Berlim Ocidental que, insatisfeitos com o aumento de preços dos imóveis na cidade, passaram a ocupar edifícios abandonados. Em setembro de 1981, a polícia berlinense fez uma ação coletiva de desocupação desses imóveis, muitos deles indústrias desativadas. Protestos se espalharam pela cidade e, durante uma investida dos policiais, Rattay foi fatalmente atropelado por um ônibus. Tinha 18 anos.

Mais de 34 anos depois, seu nome volta a aparecer com força nos debates sobre moradia em Berlim, já uma cidade unificada. Na semana do Carnaval, 48 veículos (28 no sábado e outros 20 no domingo) foram destruídos pelo grupo de extrema-esquerda Comando da Bicicleta da Social Democracia Popular, que assumiu a autoria em uma carta assinada (veja aqui, em alemão) pelo Comando Klaus-Jürgen Rattay. Protestavam contra a gentrificação de diversos bairros da cidade, que está se tornando inacessível a uma parcela cada vez maior da população. Um ataque violento, mas que está longe de ser inesperado pelas autoridades berlinenses.

ENTENDA:
– Como evitar abusos na relação entre inquilino e proprietário
Airbnb é lucrativo para anfitriões e pesadelo para quem mora de aluguel

No início do ano, o grupo havia prometido destruir € 1 milhão em propriedade privada a cada tentativa da polícia de desocupar algum imóvel invadido por sem-teto ou manifestantes. Entre 19 e 24 de janeiro, as autoridades realizaram diversas operações desse tipo, prendendo mais de cem pessoas. Então, era questão de tempo para aparecerem carros incendiados ou vandalizados. E o Comando atingiu seu objetivo, pois o prejuízo causado no Carnaval foi estimado em € 1,1 milhão.

A região atingida no sábado foi em torno da Potsdamer Platz, uma das mais importantes da cidade. Nos últimos anos, os imóveis da região valorizaram quase 500%, com o metro quadrado chegando a € 5,5 mil. O ataque do domingo ocorreu no bairro de Neukölln.

Para entender o ataque da última semana, é importante ressaltar que não se trata de uma prática incomum na relação entre manifestantes antigentrificação e as autoridades na capital alemã. Desde 2008, são mais de 200 veículos incendiados por ano. Só em 2011 foram 403. De acordo com a própria polícia, nem todos os casos têm motivação política. Para as autoridades, vândalos com diversas motivações se aproveitam da onda criada por manifestantes para atear fogo em mais automóveis e aumentar o caos.

Mapa indicado cada caso de carro incendiado em Berlim nos últimos anos (ver mapa completo em www.brennende-autos.de)
Mapa indicado cada caso de carro incendiado em Berlim nos últimos anos (ver mapa completo em Brennende-autos.de)

A natureza desses ataques dificulta seu combate. Os ativistas agem na madrugada, colocando bandejas de papel alumínio com carvão embebido em combustível sob os veículos. O carro demora alguns minutos a pegar fogo em relação ao momento em que o fogo é aceso. Isso dá ao incendiário tempo de sobra para deixar o local e ficar virtualmente impossível de ser identificado. Até porque a Alemanha é reticente em adotar a vigilância eletrônica nas ruas com a mesma intensidade de Reino Unido e Estados Unidos.

De qualquer forma, esses “protestos” estão longe de atingir seu objetivo. A opinião pública é favorável a medidas que controlem os altos e baixos do mercado imobiliário, mas tem sido pouco receptivas aos incêndios de carros em bairros nobres.