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O Santos abusou da referência histórica ao apresentar seu time em jogo no Piauí

O Santos enfrentou o Altos, clube da cidade homônima localizada na Grande Teresina, nesta terça na capital piauiense. Fez 7 a 1, se recuperando de goleada sofrida para o Ituano no domingo. Placar contundente, mas a viagem já tinha sido proveitosa antes mesmo de o jogo começar.

Para anunciar a escalação da equipe que entraria em campo, as redes sociais santistas fizeram uma belíssima homenagem à história do Piauí se inspiraram nas pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara. O resultado é muito legal. Que esse tipo de lembrança seja cada vez mais frequente.

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Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes e Iraque romperam relações com o Catar em junho de 2017. Essa decisão é reflexo da disputa entre sauditas e iranianos pela influência na região, um conflito em que o Catar ficava estrategicamente em cima do muro (o que acabou incomodando alguns dos vizinhos). Por isso, era de se esperar problemas quando catarianos tivessem de viajar aos Emirados Árabes, mesmo que fossem para competições esportivas. Foi o que aconteceu.

Contei essa história na Trivela. Confira.

A melhor forma de ver gols de um Equador x Peru no Atahualpa: em quéchua

A seleção peruana de futebol vive um grande momento nas Eliminatórias da Copa do Mundo. Na última semana, venceu os vizinhos Bolívia e Equador e subiu para a quarta posição do grupo sul-americano. Se a classificação se confirmar, seria a primeira desde 1982.

E que forma de sentir a emoção dos peruanos do que ouvir a narração dos gols contra o Equador no idioma comum a ambos os países? Não, não me refiro ao espanhol, mas ao quéchua, oficial no Peru e na Bolívia e “de uso oficial para povos indígenas” no Equador. Nada mais adequado para uma partida que foi disputada no estádio Olímpico Atahualpa, cujo nome homenageia o último imperador inca (o quéchua era o idioma do império).

Uma bela curiosidade linguística. Dica da comunidade secreta do Facebook para colaboradores do podcast Xadrez Verbal.

A competição entre escolas de samba lembra o futebol, e isso não é coincidência

Cada equipe tem suas cores e sua torcida, contratam profissionais para competir pelo título de campeã da cidade ou para evitar o rebaixamento para a segunda divisão. Nos níveis mais baixos, a disputa é muito menos estruturada, com times amadores se unindo pelo amor àquele universo e o sonho de um dia estar entre os grandes.

Os desfiles de escolas de samba têm vida própria, mas é muito fácil traçar paralelos entre sua forma de disputa e a do futebol. E não há a menor coincidência nisso. é apenas consequência natural de como a disputa carnavalesca surgiu.

Na década de 1920, o samba começou a tomar a cidade como modo de se celebrar e festejar. Rodas se formavam em diversos pontos do Rio de Janeiro, mas ainda não era algo consagrado. Aos poucos, grupos foram se organizando na forma de blocos e tinham no Carnaval o momento de ir às ruas. Em 1928, o bloco Deixa Falar foi criado no Largo do Estácio, em frente a uma escola, motivo para eles se intitularem “escola de samba” como maneira de se diferenciar da instituição de ensino tradicional.

Aquele universo crescia e, em 1929, até houve uma disputa entre blocos. No caso, apenas para eleger o melhor samba do ano. A competição não teve sequência nos anos seguintes, até que, em 1932, o jornalista Mário Filho viu nas escolas de samba uma oportunidade de aumentar as vendas do jornal Mundo Sportivo, onde trabalhava.

No período do Carnaval, o futebol e o remo – principais modalidades esportivas do Rio na época – não tinham competições. Na falta de assunto para preencher páginas e convencer pessoas a comprarem as edições, Mário Filho (hoje nome do Maracanã e irmão de Nelson Rodrigues) teve a ideia de tratar as crescentes escolas de samba como se fossem times de futebol em uma competição mais estruturada. O fato de muitos redatores da publicação serem ligados ao samba foi mais um impulso.

Em 1932, o jornal organizou o primeiro desfile de escolas de samba. Os blocos passaram na rua Marquês de Pombal, apresentando três sambas inéditos cada um. Um grupo de seis jurados ficaria no coreto da Praça Onze para avaliar os desfiles de acordo com critérios pré-definidos e, ao final do Carnaval, anunciar o campeão. Foram 19 participantes, e a Mangueira ficou com o título.

No ano seguinte, o Mundo Sportivo havia fechado as portas, mas a ideia de Mário Filho tinha sido tão boa que o jornal O Globo assumiu a organização do desfile. Nesse ano, a Unidos da Tijuca fez um desfile temático, de acordo com o tema de seu samba. Foi o primeiro “samba enredo”.

Desde então, muitos elementos do desenvolvimento do desfile das escolas de samba lembram o futebol. Houve brigas entre ligas, houve dois campeões no mesmo ano, houve desenvolvimento de regras para diminuir a margem de polêmicas, houve criação de divisões de acesso quando a quantidade de participantes ficou grande demais para uma disputa apenas. 

Torcida única mostra que poder público não gosta de lidar com gente

A Polícia Militar de São Paulo determinou que, até o final de 2016, todos os clássicos do futebol paulista serão realizados apenas com torcedores de um dos times. É uma reação à briga entre corintianos e palmeirenses no último domingo em dois pontos da capital, que causou a morte de uma pessoa (ainda não identificada, mas que seria um inocente atingido por uma bala perdida no tiroteio).

Esse tipo de medida já foi tentado várias vezes em outros países, como Argentina (onde o histórico de violência de torcidas é pior que aqui), Holanda e até mesmo no Brasil. Apesar de ser instintivamente lógico pensar que não há brigas se um dos lados do conflito não irá ao jogo, a prática se mostrou diferente. Como muitas das batalhas ocorrem longe dos locais dos jogos – as do último domingo foram no Brás (centro) e São Miguel Paulista (extremo leste), bem distantes do estádio do Pacaembu -, ter ingresso é algo secundário.

No ano passado, quando essa medida quase foi implementada antes de um Palmeiras x Corinthians, escrevi na Trivela (site do F451) como excluir uma torcida é apenas um sintoma do modus operandi das autoridades, sobretudo no Brasil, em relação a segurança pública em geral. Ao invés de entender a sociedade, estudar o motivo que leva as pessoas a terem determinados comportamentos, elas preferem excluir, separar, dividir.

Confira o texto aqui.

 

Governantes, parem de construir estádios com dinheiro público

O que é? O Coliseu do Sertão, uma das obras mais extravagantes dos últimos tempos no Brasil, começou a ser pintado em Alto Santo-CE. Na mesma semana, a Confederação Brasileira de Futebol informa que pode realizar o jogo Brasil x Uruguai no estádio do Arruda, em Recife, e a NFL (liga de futebol americano) vê três clubes pedirem para mudar de sede porque suas cidades relutavam em bancar a construção de novos estádios. Três histórias, de características muito diferentes entre elas, que mostram que o poder público não deve se meter a botar dinheiro em arenas para esporte profissional, mas continua fazendo isso.

Se você construir, ele (nem sempre) virá

Alto Santo está ganhando um novo marco. A cidade do interior cearense começou a pintura da fachada do Coliseu do Sertão, estádio com arquitetura inspirada no xará romano e um custo acima de R$ 1,5 milhão. Tudo para ter uma arena de 20 mil lugares para ser a casa do futebol (e de outros eventos) na cidade de 16 mil habitantes. Isso mesmo, não é erro de digitação. O estádio tem capacidade maior que a população local.

VEJA TAMBÉM: Pacaembu deve servir a quem precisa dele, não virar arena moderna

A obra do estádio – chamado oficialmente Arena Coliseu Mateus Aquino – chamou a atenção da imprensa nacional por sua extravagância. Ainda mais considerando que o Alto Santo Esporte Clube, único time profissional da cidade, estava inativo desde 2008. Acabou retornando em 2015, na terceira divisão do Ceará, para justificar o investimento em um estádio.

Obs.: Veja mais sobre o coliseu aqui. É uma pérola.

O Coliseu do Sertão está marcado como exemplo de obra faraônica, algo comum na história da gestão pública brasileira. Mas suas características caricatas não devem ofuscar o fato de que projetos como esses são comuns em todo o mundo, inclusive em grandes cidades. O que ocorreu em vários estádios da Copa do Mundo de 2014, com arenas incrivelmente superdimensionadas, e até em países em que o esporte profissional é um setor economicamente relevante.

Esse último é o caso dos Estados Unidos. Na última semana, a NFL (liga de futebol americano profissional) encerrou uma longa disputa entre Oakland Raiders, St. Louis Rams e San Diego Chargers. As três equipes estavam descontentes com seus antiquados estádios. Os donos dos clubes consideravam que uma arena nova atrairia mais público e aumentaria o faturamento. Era a desculpa necessária para abandonar suas sedes e se mudar para Los Angeles, segunda maior cidade dos EUA (que, incrivelmente, está sem time na liga há 20 anos).

ENTENDA: A NFL tomou a melhor decisão possível: Los Angeles é dos Rams

No final das contas, os Rams foram selecionados para ir a LA, com a possibilidade de os Chargers seguirem os mesmos passos. A equipe (ou as equipes) mandará suas partidas em um estádio que será construído com recursos da iniciativa privada, o que é merecedor de elogios. No entanto, esse é o final relativamente feliz de um processo que teve, durante todas as etapas anteriores, inúmeras chantagens dos dirigentes com os prefeitos de suas cidades. Tanto que St. Louis chegou a apresentar uma proposta de novo estádio construído a partir de verbas públicas, tudo para manter seu representante na NFL.

A conta dos governantes norte-americanos é semelhante à dos brasileiros que achavam justificável bancar as obras de estádios modernos para a Copa: eles permitem o desenvolvimento de um time local forte, que geraria riqueza (e impostos) pelo dinheiro que movimentaria, e dão à cidade um palco para eventos culturais de grande porte. O problema é que, muitas vezes, essa conta não fecha.

No Brasil, estádios de Natal, Manaus, Cuiabá e Brasília já sofrem com dificuldades de se viabilizar economicamente. O futebol local não cresceu (em Natal, o problema é que o clube mais popular da cidade, o ABC, já tinha sua própria casa) e não houve um boom de eventos para pagar as contas.

NA TRIVELA: Como o capitalismo brasileiro explica o colapso da gestão das novas arenas

Mesmo onde o futebol local gera recursos para supostamente viabilizar obras mais pesadas há problemas. No Rio de Janeiro, a concessionária que administrava o estádio o devolveu ao governo estadual. Em São Paulo, o Corinthians está com dificuldade de bancar as parcelas de sua nova casa. Em Pernambuco, a arena em São Lourenço da Mata raramente lota e, para se viabilizar, estabeleceu um aluguel alto demais para receber Brasil x Uruguai nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. Com isso, o jogo, programado para março, pode ser realizado no Arruda, um estádio grande, mas antigo.

Nos Estados Unidos é um pouco diferente, ainda que a conclusão seja semelhante. É comum clubes profissionais ameaçarem mudar de sede como forma de convencer as prefeituras a construírem novos estádios com recursos públicos. Muitas acabam cedendo.

É relativamente fácil medir o tamanho do esporte norte-americano como setor econômico, o que ajuda a explicar por que investir em uma nova arena dá retorno. Ainda mais com a quantidade de eventos extras realizados nas grandes cidades do país mais rico do planeta. O problema é: com ligas bilionárias, formadas por clubes bilionários pertencentes a empresários bilionários, por que o poder público é que tem de pagar pelos estádios?

O caso dos Rams mostra isso. Stan Kroenke, dono do time, tinha nas mãos a possibilidade de ficar em St. Louis com um estádio novo, pago pelo governo local. Mas decidiu se mudar para Los Angeles, para uma arena que terá de bancar com seu próprio bolso. Tudo porque ele sabe que a diferença econômica entre a cidade californiana e a do Missouri é tão grande que ele terá mais lucro se gastar no estádio.

O resultado disso é que construir estádios não é uma saída interessante para a cidade em quase nenhum caso. Se o esporte profissional local gera riqueza suficiente para dar retorno ao investimento, ele próprio deveria bancar sua estrutura. Se a ideia é apostar em um crescimento no futuro, algum empreendedor que se apresente para bancar essa aposta.

VEJA TAMBÉM: A colocação de casas populares em estádios da Copa não é proposta, é arte

Para o poder público, obras de instalações esportivas só são realmente válidas se houver interesse social nas instalações. Por exemplo, para incentivar a prática de esportes que não conseguem se sustentar com as próprias pernas ou para dar apoio a políticas mais amplas de educação e cultura. Ainda assim, o custo precisa ser proporcional ao retorno que o espaço dará à sociedade, sem extravagâncias ou luxos.

O Japão mostra bem isso. Os milhões gastos em estádios para a Copa do Mundo de 2002 se pagaram com a realização de diversas competições escolares. Isso foi possível porque trata-se de um raro país em que a população dá apoio forte ao esporte no ensino fundamental e médio. E, mesmo assim, os japoneses abandonaram o primeiro projeto para o estádio principal dos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio, porque o custo estimado de sua construção era muito alto. Preferiram jogar fora a proposta e buscar uma outra, dentro da realidade econômica de sua capital.

Por isso, os gestores públicos precisam entender que não faz sentido gastar dinheiro do contribuinte com estádios. E a sociedade tem de se lembrar disso para cobrar seus governantes.

Pacaembu deve servir a quem precisa dele, não virar arena moderna

O que é?

O estádio do Pacaembu foi construído em 1940 como o grande palco do futebol em São Paulo. Seu papel diminuiu com o tempo, mas até 2014 ele era bastante utilizado, sobretudo como casa do Corinthians. Com a inauguração de uma arena própria e os términos das obras do estádio do Palmeiras, o estádio mais central da capital paulista não tem usuário permanente. A prefeitura fez um chamamento público para atrair grupos interessados em administrar o complexo em forma de concessão. Ubiratan Leal argumenta que o estádio precisa continuar sendo um estádio, mas não para grandes clubes. Ele precisa ser uma maternidade de torneios e competições.

Libertadores da várzea

Gente e mais gente chega, muito mais do que qualquer um esperava. São 16,3 mil pessoas, todas se dirigindo ao estádio do Pacaembu no último 20 de setembro. Eram torcedores de Jardim Brasil e Sedex que iam empurrar seus times na decisão da primeira edição da Copa Libertadores da Várzea. O primeiro venceu por 4 a 3 nos pênaltis após empate por 1 a 1 no nono jogo de mais público do futebol brasileiro naquele fim de semana. Um feito incrível para o esporte amador, e que chama a atenção para um dos rumos que o estádio mais tradicional da capital paulista pode tomar.

Desde o segundo semestre de 2014, quando o Corinthians inaugurou sua arena em Itaquera e o Palmeiras reinaugurou a sua em Perdizes, o estádio mais antigo de São Paulo não tem um usuário permanente. A prefeitura da capital luta para manter essa estrutura viva. Em janeiro deste ano, foi feito um chamamento público para atrair potenciais investidores. A empresa que apresentar a melhor proposta explorará comercialmente o estádio, em troca de arcar com reforma, modernização e manutenção do espaço.

Entre outras coisas, a empresa que gerir o Pacaembu terá de:

– restaurar o centro poliesportivo (o clube localizado atrás do estádio e que faz parte do complexo);
– propor um modelo de exploração comercial do estádio como espaço multiuso que privilegie atividades esportivas (ainda que tenha margem para realizar eventos de outra natureza que ajudem a gerar receitas);
– estacionamento com 2 mil vagas;
– wi-fi gratuito para 40 mil torcedores;
– restaurar, modernizar e manter a tribuna do prefeito; e
– recuperar todo o estádio, o deixando apto a receber competições internacionais de acordo com as exigências da Fifa.

Seriam intervenções significativas e, principalmente, custosas. A própria prefeitura estima em R$ 300 milhões os investimentos. De fato, o estádio teria nível internacional para receber grandes eventos. Mas há uma desproporção dos itens acima com algumas das condições apresentadas. Por exemplo:

– o concessionário deverá manter nas mãos do município o centro poliesportivo e a tribuna do prefeito;
– o nome do estádio não poderá ser negociado comercialmente;
– a prefeitura terá direito ao uso gratuito do estádio para dez eventos dentro do calendário anual do município (desde que não se choque com o futebol profissional); e
– continua o impasse em relação ao uso do estádio para a realização de shows (vetada por liminar obtida por moradores da região há dez anos).

De um ponto de vista comercial, é difícil viabilizar os gastos necessários sem ter uso tão frequente da estrutura. Uma saída seria fazer uma parceria com o Santos, que poderia usar o Pacaembu como sua principal casa e conseguiria colocar entre 25 e 30 partidas por ano com público médio de 15 a 20 mil. Caso contrário, a conta não fecha. E é fácil entender o motivo.

O eventual concessionário teria a obrigação de tornar o Pacaembu um estádio de alto nível para a realização de eventos de uma forma que o município mantivesse o caráter público. As duas coisas são positivas, mas o histórico de gestão de arenas no Brasil é desencorajador. Muitas são deficitárias, mesmo em condições economicamente muito mais favoráveis às que o Pacaembu teria sob concessão. Não à toa, apenas três empresas apresentaram propostas para gerir o estádio páulistano, metade do que a própria prefeitura considerava ideal.

O futuro do estádio não é como uma arena moderna. As grandes receitas em estádios estão em manter uma agenda recheada de grandes eventos esportivos e shows. No momento, não há um grande clube disposto a assumi-lo como sua casa (o Santos até considera utilizá-lo mais, mas continuaria mandando parte de seus jogos na Vila Belmiro). Pior, a agenda de show é nula por causa da Justiça, e derrubar a liminar da associação de moradores do (bairro) Pacaembu não mudaria nada. O Allianz Parque já virou o grande palco para apresentações internacionais. A casa do Palmeiras tem capacidade de público e localização similares ao estádio municipal, mas ganha em infraestrutura.

O destino do Pacaembu talvez seja servir a quem precisa dele hoje, e não buscar quem já está em outro momento. O Santos é um caso claro, que já foi mencionado várias vezes aqui de tão óbvio. Assim como abrigar Corinthians, Palmeiras e São Paulo quando suas casas estiverem emprestadas para um show ou outro evento. Mas há outros caminhos. O Flamengo já falou em mandar alguns jogos na capital paulista, aproveitando seus torcedores na cidade. O futebol amador e o feminino também podem realizar partidas esporádicas que tenham apelo acima do normal de público, como mostrou a Libertadores da Várzea e os torneios internacionais de futebol feminino. O rúgbi e o futebol americano são dois esportes em crescimento que poderiam usar o Pacaembu também (o que vai acontecer no caso do primeiro, com um amistoso entre Brasil e Alemanha marcado para dezembro). O UFC é polêmico, mas também levaria bom público em um evento especial anual.

Marta faz gol de pênalti em Pacaembu lotado para ver Brasil e Canadá decidirem torneio de futebol feminino em 2010 (Divulgação/SportPromotion)

Marta faz gol de pênalti em Pacaembu lotado para ver Brasil e Canadá decidirem torneio de futebol feminino em 2010 (Divulgação/SportPromotion)

O caráter do Pacaembu é público, e o que ele precisa é de investidores dispostos a abraçar essa característica e fazer melhorias compatíveis com esse perfil comercial. Ele tem um apelo natural por sua história, capacidade e localização. Não pela modernidade.

Por isso, apesar de bem intencionadas, as propostas de transformar o estádio em parque, como às vezes é cogitado, ou em arena multiuso não levam em conta sua estrutura, sua história e o potencial de incubar torneios e criar memórias esportivas, o que também é um serviço à sociedade. O Pacaembu tem de emprestar seu brilho esportivo a quem precisa dele. Afinal, um estádio municipal pode servir aos cidadãos não apenas como arquibancada – mas como palco. É o lugar para quem vive em São Paulo brilhar.

Uma curiosidade histórica

A várzea virou uma imagem tão forte no mundo do futebol que muita gente nem relaciona o termo com seu significado real. Para torcedores e jogadores, “várzea” é um campo em más condições, feito de forma improvisada para a prática de partidas amadoras (normalmente em bairros da periferia das grandes cidades). Um sentido bem distante de planície de inundação, uma área em torno de corpos d’água que alaga na época das chuvas. Um exemplo é o Rio Nilo, cujas várzeas serviram da área de cultivo que possibilitou o surgimento de uma das primeiras grandes civilizações da humanidade.

Digressões egípcias à parte, a várzea geográfica virou a várzea do futebol devido a um local de São Paulo. A Várzea do Carmo era uma região alagadiça em torno do rio Tamanduateí, onde atualmente está a Rua do Gasômetro e o Parque Dom Pedro. Naquele espaço foi realizada a primeira partida de futebol oficialmente reconhecida do Brasil, entre funcionários da Companhia de Gás e da Companhia Ferroviária. O duelo foi organizado por Charles Miller (introdutor do esporte no Brasil e atacante dos ferroviários naquela tarde) em 18 de fevereiro de 1895. Com a estruturação do futebol, os clubes passaram a ter seus estádios e a Várzea do Carmo passou a ser utilizada por equipes sem campo próprio. E aí a “várzea” virou sinônimo de futebol amador.

A cidade que tanto gosta de um concreto canalizou seus rios e acabou com suas áreas alagadiças na década de 1960. A várzea futebolística também agoniza devido à explosão imobiliária que diminuiu muito o espaço para campos amadores, inclusive nos bairros mais afastados do centro. Mas o futebol amador respira, ele quer respirar. A final da Libertadores amadora mostra isso.

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