Por que cidades texanas gastam tanto construindo estádios para torneios escolares

Estádio para futebol americano escolar em Allen, Texas (AP, via Extratime)
Estádio para futebol americano escolar em Allen, Texas (AP, via Extratime)

Todo amante de futebol americano já sabe: “Texas” significa “amigo”. Mas, se fôssemos usar uma palavra para representar o lugar, teria de ser “grandiosidade”. Não é apenas pelo tamanho de seu território, o segundo maior entre os estados americanos, mas também pelo apreço dos locais em coisas grandes e até megalomaníacas. Não à toa, a maior arena da NFL é a do Dallas Cowboys, com 105 mil lugares. Mas um sinal de como texanos gostam de exagerar pode ser visto mesmo é no futebol americano de ensino médio. No mês passado, a cidade de McKinney começou a construção de um estádio de 12 mil lugares e US$ 87 milhões de custo para três times de high school.

Os números já dão sinais de extravagância, mas eles ficam ainda mais impressionantes se considerarmos que a cidade já tem um estádio de futebol americano para ensino médio, o Ron Poe, que foi reformado há apenas dez anos e tem 10 mil lugares. Pior, mesmo o estádio antigo nunca recebeu um público acima de 5 mil pessoas. Ou seja, o estádio atual, que recebeu investimento de US$ 10 milhões em reforma, nunca teve nem 50% de ocupação. Por que construir outro?

Poderia ser alguma fascinação de McKinney, mas o fenômeno é mais amplo. Outras cidades na Grande Dallas seguem o mesmo caminho: Plano pagou US$ 20 milhões por um estádio de 9,8 mil lugares em 2004, Allen bancou US$ 72 milhões para uma arena de 18 mil lugares (foto acima) e Frisco desembolsou US$ 90 milhões no complexo de treinamento dos Cowboys, que inclui um campo coberto com 12 mil lugares para o time da NFL e as equipes colegiais. Nenhum desses empreendimentos – nem o CT dos Cowboys – se justifica como investimento para as cidades.

A questão é mais complicada. Pela lei texana, os distritos escolares – instituições que gerenciam o ensino público, mas são independentes das prefeituras, dos condados ou dos estados – podem convocar referendos para aprovar a emissão de títulos da dívida de seus municípios como forma de captar recursos. No entanto, todo o dinheiro arrecadado nesse processo precisa ser gasto em equipamentos, construção de novas estruturas, reforma de estruturas antigas ou compra de terreno. Ou seja, essa verba não pode ser utilizada para fins diretamente educacionais, como melhorar o salário de professores, contratar novos professores ou melhorar o sistema de transporte para os alunos. Medidas necessárias para o estado que ocupa apenas a 38ª posição no ranking de qualidade de ensino nos EUA.

Claro, os distritos poderiam investir em melhoria em ampliação ou reforma das escolas, mas gastar com estádios tem mais apelo. Primeiro, porque a proposta de um estádio tem mais chance de aprovação no referendo, definido por eleitores de alto poder aquisitivo (são cidades ascendentes). Segundo, porque as próprias prefeituras querem na competição entre elas por novos empreendimentos.

Essa faixa de municípios ao norte de Dallas tem recebido muitos investimentos imobiliários e aumento da população. Ter estádios grandiosos, ainda que apenas para ficarem vazios em partidas de ensino médio, impressiona as pessoas que pretendem morar na região e estão escolhendo alguma cidade. Imaginar que seu filho pode jogar futebol americano em um enorme estádio tem seu apelo – ainda que, no final das contas, saia caro no bolso.

Como a economia de Oakland explica a trajetória dos times profissionais locais

Torcedor dos Raiders pede para o time não se mudar de Oakland (Stay in Oaktown / Facebook)
Torcedor dos Raiders pede para o time não se mudar de Oakland (Stay in Oaktown / Facebook)

Ainda não se sabe por quanto tempo, mas há elementos de sobra para cravar que o Oakland Raiders como conhecemos está com os dias contatos. A franquia está em negociações abertas em busca de um novo estádio e dificilmente haverá algum arranjo que faça o time permanecer na cidade onde vive desde 1995. A candidata mais forte é Las Vegas, ainda que os últimos acontecimentos afastaram a equipe da terra dos cassinos. San Antonio também já conversou com a direção da equipe e até uma mudança bizarra para San Diego (ex-terra do rival Chargers) foi cogitada. Só a continuidade na Baía de São Francisco parece descartada.

Se ou quando isso se concretizar, Oakland dará mais um passo para seu enfraquecimento esportivo. Afinal, já está certo que, em 2019, o Golden State Warriors inaugurará um novo ginásio em São Francisco. Há até especulações de que o time voltaria a se chamar San Francisco Warriors, reforçando a identificação com a nova casa – e se afastando ainda mais da antiga. De repente, Oakland perderia um time que ensaia uma dinastia no basquete e uma das equipes mais tradicionais e de personalidades mais marcantes no futebol americano.

A história do esporte em Oakland tem ligação direta com a dinâmica da economia da região. São Francisco foi a primeira metrópole no litoral norte da Califórnia e sua vizinha, do outro lado da baía, servia apenas como cidade-dormitório para quem não tinha dinheiro para viver perto do trabalho ou para indústrias. Na década de 1960, o cenário mudou. O aumento do uso de contêineres exigiu reforma e ampliação nos portos, e São Francisco não tinha como adaptar o seu. Melhor para o Porto de Oakland, que rapidamente se tornou o principal do estado.

Oakland não deixou de ser uma cidade operária para a rica São Francisco, mas passou a ter uma força econômica própria. O dinheiro do porto atraiu mais empresas, que atraiu mais gente e, no final das contas, atraiu mais times profissionais. Na NFL, o Oakland Raiders foi fundado em 1960 (entre 1982 e 94, jogou em Los Angeles). Na MLB, o Kansas City Athletics se mudou para a Califórnia em 1968. Na NBA, o San Francisco Warriors pegou a Bay Bridge, ponte que atravessa a baía, e se tornou o Golden State em 1971.

Coliseum, casa de A’s e Raiders, ao lado da Oracle Arena, ginásio dos Warriors (Flickr / Shawn Clover)
Coliseum, casa de A’s e Raiders, ao lado da Oracle Arena, ginásio dos Warriors (Flickr / Shawn Clover)

Desde então, muita coisa mudou. O Porto de Oakland perdeu relevância para o de Los Angeles e o de Long Beach e os problemas urbanos passaram a dominar a cidade, tida como uma das mais violentas dos Estados Unidos. Não era mais um ambiente animador para se investir em esportes, ainda mais porque as arenas esportivas já estavam mais do que defasadas. Uma hora a corda ia romper e algumas acabariam migrando.

Neste século, a Baía de São Francisco enriqueceu assustadoramente devido às empresas de tecnologia. O centro disso era São Francisco e a região de San José, ao sul da baía, apelidado de Vale do Silício. Há potenciais torcedores com dinheiro sobrando nesses lugares e, principalmente, empresas e empresários dispostos a patrocinar ou comprar camarotes corporativos de equipes profissionais. Para os Warriors, uma equipe que virou a queridinha dos novos-ricos de São Francisco, atravessar a baía de novo era uma decisão óbvia. Alguma franquia também acabaria buscando o Vale do Silício, que só era representado pelo San Jose Sharks, da NHL. O San Francisco 49ers tomou a dianteira e se mudou para Santa Clara, ainda que tenha mantido seu nome. Essa mudança dos Garimpeiros impediu qualquer movimentação dos Raiders que não fosse a luta por um estádio novo na sua atual sede (a prefeitura e a população rejeitaram financiar) ou partir para outra região metropolitana.

Dessa forma, Oakland provavelmente ficará apenas com os Athletics. E o time, que já tentou se mudar para Santa Clara (o San Francisco Giants barrou por ser o “dono” da área de San José/Santa Clara na divisão de mercados da MLB), dá sinais de que vai ficar. A diretoria até já anunciou que procura investidores para bancar um novo estádio sem uso de dinheiro público. Uma atitude e um comprometimento local muito diferente do visto com Warriors e Raiders. Mas faz sentido.

Sem ter de dividir os torcedores – e os dinheiro de patrocinadores locais – com outras duas franquias, os A’s estarão em situação privilegiada dentro de sua cidade. Além disso, todo o dinheiro que a tecnologia injetou em São Francisco e no Vale do Silício começou a chegar a Oakland. Claro, empresas do setor querem abrir sedes no norte da Califórnia, onde está boa parte da cadeia produtiva dessa indústria, e algumas já começam a buscar a cidade mais desvalorizada da região em busca de imóveis baratos. Um exemplo é o Uber, que inaugurará uma sede gigantesca em Oakland em 2018.

Assim, as perspectivas em longo prazo são relativamente boas para a economia da cidade. O boom trazido pelo porto nos anos 60 talvez não voltem, mas a fama de cidade violenta e sem esperança deve acabar. Os A’s perceberam isso e já se articulam para aproveitar a oportunidade, ainda mais com seus vizinhos de basquete e futebol americano indo embora.

Veja astronauta fazer o mais longo passe de futebol americano da história

O Super Bowl deste ano foi realizado em Houston, e é claro que deram um jeito de colocar a Nasa dentro das ações promocionais da decisão da temporada da NFL. E um dos elementos mais interessantes foi um vídeo, em que a agência espacial mostrou que o maior passe de futebol americano da história não foi feito por Tom Brady, Joe Montana, Peyton Manning, Johnny Unitas, Dan Marino ou Mark Sanchez (haha). O responsável foi Tim Kopra.

Quem? Tim Kopra é quarterback de um time da NFL, muito menos alguma promessa que jamais se confirmou na NCAA. E o palco do recorde não foi um estádio lotado em jogo com transmissão em rede nacional. Ele é um astronauta, realizou seu feito na Estação Espacial Internacional (ISS em inglês) e as imagens só foram reveladas agora, sem informação de quando foram gravadas (mas Kopra voltou à Terra em junho de 2016).

O astronauta não teve de fazer força, apenas soltou a bola. Com a gravidade zero do espaço, ela seguiu seu rumo por inércia, até bater em uma parede. Foi um voo de 80 jardas (73,15 metros) a partir do ponto de lançamento, mas, considerando que a ISS orbita a Terra a 8.046 m/s (28.966 km/h), a bola viajou 564.664 jardas (516.328 metros), equivalente a 5.646 campos de futebol americano, em relação ao solo.

Governantes, parem de construir estádios com dinheiro público

O que é? O Coliseu do Sertão, uma das obras mais extravagantes dos últimos tempos no Brasil, começou a ser pintado em Alto Santo-CE. Na mesma semana, a Confederação Brasileira de Futebol informa que pode realizar o jogo Brasil x Uruguai no estádio do Arruda, em Recife, e a NFL (liga de futebol americano) vê três clubes pedirem para mudar de sede porque suas cidades relutavam em bancar a construção de novos estádios. Três histórias, de características muito diferentes entre elas, que mostram que o poder público não deve se meter a botar dinheiro em arenas para esporte profissional, mas continua fazendo isso.

Se você construir, ele (nem sempre) virá

Alto Santo está ganhando um novo marco. A cidade do interior cearense começou a pintura da fachada do Coliseu do Sertão, estádio com arquitetura inspirada no xará romano e um custo acima de R$ 1,5 milhão. Tudo para ter uma arena de 20 mil lugares para ser a casa do futebol (e de outros eventos) na cidade de 16 mil habitantes. Isso mesmo, não é erro de digitação. O estádio tem capacidade maior que a população local.

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A obra do estádio – chamado oficialmente Arena Coliseu Mateus Aquino – chamou a atenção da imprensa nacional por sua extravagância. Ainda mais considerando que o Alto Santo Esporte Clube, único time profissional da cidade, estava inativo desde 2008. Acabou retornando em 2015, na terceira divisão do Ceará, para justificar o investimento em um estádio.

Obs.: Veja mais sobre o coliseu aqui. É uma pérola.

O Coliseu do Sertão está marcado como exemplo de obra faraônica, algo comum na história da gestão pública brasileira. Mas suas características caricatas não devem ofuscar o fato de que projetos como esses são comuns em todo o mundo, inclusive em grandes cidades. O que ocorreu em vários estádios da Copa do Mundo de 2014, com arenas incrivelmente superdimensionadas, e até em países em que o esporte profissional é um setor economicamente relevante.

Esse último é o caso dos Estados Unidos. Na última semana, a NFL (liga de futebol americano profissional) encerrou uma longa disputa entre Oakland Raiders, St. Louis Rams e San Diego Chargers. As três equipes estavam descontentes com seus antiquados estádios. Os donos dos clubes consideravam que uma arena nova atrairia mais público e aumentaria o faturamento. Era a desculpa necessária para abandonar suas sedes e se mudar para Los Angeles, segunda maior cidade dos EUA (que, incrivelmente, está sem time na liga há 20 anos).

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No final das contas, os Rams foram selecionados para ir a LA, com a possibilidade de os Chargers seguirem os mesmos passos. A equipe (ou as equipes) mandará suas partidas em um estádio que será construído com recursos da iniciativa privada, o que é merecedor de elogios. No entanto, esse é o final relativamente feliz de um processo que teve, durante todas as etapas anteriores, inúmeras chantagens dos dirigentes com os prefeitos de suas cidades. Tanto que St. Louis chegou a apresentar uma proposta de novo estádio construído a partir de verbas públicas, tudo para manter seu representante na NFL.

A conta dos governantes norte-americanos é semelhante à dos brasileiros que achavam justificável bancar as obras de estádios modernos para a Copa: eles permitem o desenvolvimento de um time local forte, que geraria riqueza (e impostos) pelo dinheiro que movimentaria, e dão à cidade um palco para eventos culturais de grande porte. O problema é que, muitas vezes, essa conta não fecha.

No Brasil, estádios de Natal, Manaus, Cuiabá e Brasília já sofrem com dificuldades de se viabilizar economicamente. O futebol local não cresceu (em Natal, o problema é que o clube mais popular da cidade, o ABC, já tinha sua própria casa) e não houve um boom de eventos para pagar as contas.

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Mesmo onde o futebol local gera recursos para supostamente viabilizar obras mais pesadas há problemas. No Rio de Janeiro, a concessionária que administrava o estádio o devolveu ao governo estadual. Em São Paulo, o Corinthians está com dificuldade de bancar as parcelas de sua nova casa. Em Pernambuco, a arena em São Lourenço da Mata raramente lota e, para se viabilizar, estabeleceu um aluguel alto demais para receber Brasil x Uruguai nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. Com isso, o jogo, programado para março, pode ser realizado no Arruda, um estádio grande, mas antigo.

Nos Estados Unidos é um pouco diferente, ainda que a conclusão seja semelhante. É comum clubes profissionais ameaçarem mudar de sede como forma de convencer as prefeituras a construírem novos estádios com recursos públicos. Muitas acabam cedendo.

É relativamente fácil medir o tamanho do esporte norte-americano como setor econômico, o que ajuda a explicar por que investir em uma nova arena dá retorno. Ainda mais com a quantidade de eventos extras realizados nas grandes cidades do país mais rico do planeta. O problema é: com ligas bilionárias, formadas por clubes bilionários pertencentes a empresários bilionários, por que o poder público é que tem de pagar pelos estádios?

O caso dos Rams mostra isso. Stan Kroenke, dono do time, tinha nas mãos a possibilidade de ficar em St. Louis com um estádio novo, pago pelo governo local. Mas decidiu se mudar para Los Angeles, para uma arena que terá de bancar com seu próprio bolso. Tudo porque ele sabe que a diferença econômica entre a cidade californiana e a do Missouri é tão grande que ele terá mais lucro se gastar no estádio.

O resultado disso é que construir estádios não é uma saída interessante para a cidade em quase nenhum caso. Se o esporte profissional local gera riqueza suficiente para dar retorno ao investimento, ele próprio deveria bancar sua estrutura. Se a ideia é apostar em um crescimento no futuro, algum empreendedor que se apresente para bancar essa aposta.

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Para o poder público, obras de instalações esportivas só são realmente válidas se houver interesse social nas instalações. Por exemplo, para incentivar a prática de esportes que não conseguem se sustentar com as próprias pernas ou para dar apoio a políticas mais amplas de educação e cultura. Ainda assim, o custo precisa ser proporcional ao retorno que o espaço dará à sociedade, sem extravagâncias ou luxos.

O Japão mostra bem isso. Os milhões gastos em estádios para a Copa do Mundo de 2002 se pagaram com a realização de diversas competições escolares. Isso foi possível porque trata-se de um raro país em que a população dá apoio forte ao esporte no ensino fundamental e médio. E, mesmo assim, os japoneses abandonaram o primeiro projeto para o estádio principal dos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio, porque o custo estimado de sua construção era muito alto. Preferiram jogar fora a proposta e buscar uma outra, dentro da realidade econômica de sua capital.

Por isso, os gestores públicos precisam entender que não faz sentido gastar dinheiro do contribuinte com estádios. E a sociedade tem de se lembrar disso para cobrar seus governantes.