Brexit: veja o tamanho da encrenca na negociação da fronteira das Irlandas

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Um dos problemas mais delicados das negociações do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, é a fronteira da Irlanda com a Irlanda do Norte. Durante décadas foi uma região quente, pois comunidades católicas e protestantes travaram diversos conflitos sobre a situação norte-irlandesa (se deve se unir à Irlanda ou seguir no Reino Unido).

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A União Europeia foi importante para esfriar os ânimos, pois as fronteiras se abriram e ser formalmente parte da Irlanda ou do Reino Unido deixou de ser tão importante assim. Até que os ingleses decidiram separar o país do resto da Europa, fazendo que a fronteira das Irlandas volte a ter uma função prática.

Veja no mapa abaixo (ou clique aqui para ver maior) quantos pontos de passagem estão abertos e deverão ser fechados para checagem de imigração de cada pessoa que atravesse essa linha. Não é pouco, tanto que há quem defenda que a negociação do Brexit adote um modelo que preserve o livre trânsito entre as Irlandas.

Mapa da Irlanda do Norte com destaque (em X) para os pontos de passagem na fronteira com a Irlanda (Assembleia da Irlanda do Norte)
Mapa da Irlanda do Norte com destaque (em X) para os pontos de passagem na fronteira com a Irlanda (Assembleia da Irlanda do Norte)

Como entrar nos Estados Unidos sem passar pela imigração – e nem infringir a lei

Juntar documentação, pagar uma taxa salgada, pedir o visto, passar por uma entrevista, conseguir o visto, pagar uma passagem aérea (ou ficar dias na estrada ou em um navio) e passar pela imigração no aeroporto ou na fronteira, com nova entrevista e eventual vistoria. Entrar em território norte-americano não é fácil para um estrangeiro. Mesmo para quem seja de algum país que dispense visto, ainda terá de passar por alguns desses processos e correr o risco de ser barrado.

Mas há uma maneira de entrar nos EUA sem passar por nenhum desses trâmites. Não que se possa fazer muita coisa com isso, mas vale mais pela curiosidade e pelo eventual fetiche que alguém pode ter apenas em pisar em território americano.

A fronteira americana é completamente aberta em um ponto: Hyder, uma cidade de 87 (sim, oitenta e sete. Não há erro de digitação) habitantes na fronteira entre o Alasca e o estado de Colúmbia Britânica, no Canadá. O melhor acesso à vila é por terra, e qualquer um que vier pela estrada terá passagem livre, sem inspeção de documentação ou do veículo.

Localização de Hyder na fronteira entre o Alasca e o Canadá (Reprodução)
Localização de Hyder na fronteira entre o Alasca e o Canadá (Reprodução)

Essa abertura ocorre por uma questão prática. O governo americano mantinha um posto de imigração na cidade até a década de 1950. No entanto, o gasto era desproporcional para uma fronteira pouco usada e de pouco risco.

O acesso por terra é pela rodovia 37A, que vem de Stewart, Canadá. Depois de passar por Hyder, a estrada se transforma na NFD 88, uma via que segue pela floresta (NFD é “National Forest Development”) em direção ao norte e depois retorna ao território canadense, para as minas Premier (ouro, já desativada) e Granduc (cobre). Ou seja, Hyder está ilhada do resto dos Estados Unidos e sua única comunicação por terra é com o Canadá.

Detalhe mostrando o acesso de Stewart, Canadá, a Hyder, EUA (Reprodução)
Detalhe mostrando o acesso de Stewart, Canadá, a Hyder, EUA (Reprodução)

Essa característica sempre fez Hyder depender muito de suas vizinhas canadenses, tanto que seu auge foi na época de funcionamento da mina Premier. Da mesma forma, o isolamento dá ao governo norte-americano a garantia que um imigrante não entrará ilegalmente no país por esta fronteira.

Toda a comunicação de Hyder com o resto dos EUA se dá por avião, com voos periódicos para Ketchikan, cidade mais próxima (distância de 102 km de florestas, montanhas e mar) e ponto de partida para o resto do Alasca. É nessa conexão que ocorre toda a vistoria de estrangeiros.

Todo avião que chega de Hyder é tratado como voo internacional no aeroporto de Ketchikan e seus passageiros estão sujeitos à vistoria das autoridades norte-americanas. Ou seja, até dá para entrar nos EUA sem passar pela imigração, desde que a pessoa se contente em ficar em uma cidade de menos de 100 habitantes.

Propaganda mexicana provoca Trump discutindo o que é a “América”

Donald Trump anunciou que vai mesmo construir um muro dividindo toda a fronteira EUA-México, uma atitude que o transformou em pessoa mais odiada pelos mexicanos. Entre uma piada aqui e uma revolta ali, a cervejaria Corona resolveu dar uma cutucada com classe.

A empresa fez um vídeo mostrando que o slogan da candidatura de Trump, “Vamos fazer a América grande de novo”, não faz sentido porque a América sempre foi grande. Que América? O continente todo, do Alasca à Terra do Fogo.

O vídeo é muito bem feito, mas, claro, levanta a discussão que é para a geografia o que a briga pelas Taça de Bolinhas ou pontos corridos x mata-mata é no futebol: afinal, os Estados Unidos têm direito a se chamar “América” ou não? E, como no caso das argumentações futebolísticas, não há uma razão clara.

O México se chama “Estados Unidos Mexicanos” e o Brasil se chamou “Estados Unidos do Brasil” (não chama mais, viu, Serra?). Pela mesma lógica, o país ao sul do Canadá pode dizer que “América” é o nome dele. É essa interpretação que eles usam, e é a mais comum em países de língua inglesa. Para diferenciar, o continente é chamado no plural – “the Americas” – ou por suas partes – “North America”, “Central America” ou “South America”.

No entanto, dá também para argumentar que América é o continente e que o nome “Estados Unidos da América” apenas descreve o fato que aqueles estados (originalmente as 13 colônias britânicas) estão unidos em uma nação e ficam na América. Essa é a interpretação mais comum na América Latina, incluindo o Brasil.

Ou seja, as duas possibilidades estão certas, mas cada uma faz mais sentido dependendo do idioma. Como normalmente estou conversando em português com um brasileiro, prefiro “América” para o continente e “Estados Unidos” para o país, mas ninguém precisa se matar por causa disso. Vamos aproveitar e curtir o vídeo da Corona e como moramos em um continente espetacular, tendo seu nome no singular ou no plural.

Por que as fronteiras da Itália com a Áustria e a Suíça mudam todo ano

Divisas naturais normalmente são as preferidas de quem precisa realizar algum tipo de controle fronteiriço. E só acompanhar a linha de rios, mares, montanhas ou lagos para saber onde se separa um território do outro. Quase sempre é algo visual e intuitivo, não precisa de um GPS como no caso de uma fronteira política no meio de um território plano e seco. Mas essa lógica fica meio complicada quando o acidente geográfico começa a se mover sozinho.

É o caso do norte da Itália. Partes da fronteira com França, Suíça, Áustria e Eslovênia são definidas de acordo com o topo de determinados picos dos Alpes. No entanto, vários desses pontos são tomados por neve, e as mudanças climáticas do globo fizeram as geleiras diminuírem 50% desde 1850. Com isso, novos picos acabaram emergindo e o traçado fronteiriço se torna mais difícil de definir.

Para não haver muita discussão, o governo italiano entrou em acordo com o austríaco em 2008 e o suíço no ano seguinte para aceitarem que as fronteiras entre os países são realmente móveis. A cada ano, elas podem sofrer pequenas alterações de acordo com a linha dos picos alpinos.

Esse acordo não é necessário com a Eslovênia, pois não há geleiras móveis na região de fronteira com a Itália. No caso da fronteira franco-italiana, ainda há uma discussão por causa da posse do Mont Blanc, o ponto mais alto da Europa (se é 100% francês ou compartilhado entre os países).

Para acompanhar com precisão as alterações, foi criado um projeto para fazer um mapeamento quase em tempo real dos picos que definem a fronteira italiana. O Italian Limes instalou uma rede 25 sensores em torno de uma geleira no Monte Similaun, o mesmo onde Ötzi foi encontrado em 1991 (evento que motivou uma nova medição da fronteira na época, determinando que a múmia de 5.300 anos era italiana, não austríaca). Os aparelhos enviam dados topográficos a cada duas horas, identificado qualquer mudança na altitude local.

A ideia dos idealizadores do projeto não é criar polêmica ou mesmo forçar uma definição absoluta da fronteira entre Itália e Áustria e entre Itália e Suíça, mas mostrar como as geleiras alpinas estão diminuindo rapidamente e alertar para os efeitos da mudança climática.

Veja mais na Vice e no CityLab (ambos em inglês).

Brexit cria apreensão na cidade que sofreu Bloody Sunday de 1972

Londonderry, mas pode chamar de Derry. A cidade ao norte da Irlanda do Norte, quase na fronteira com a Irlanda, é chamada mais pelo nome não-oficial do que pelo formal. Não é um apelido, um diminutivo carinhoso. É uma questão de ajudar a manter uma paz que já foi de frágil a inexistente em uma das regiões mais tensas da Europa Ocidental. E que já está apreensiva com o que pode vir com o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.

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A decisão entre permanecer ou não no bloco tinha contornos muito particulares na Irlanda do Norte. Ao contrário de Inglaterra, Escócia e Gales, que dividem uma ilha, os norte-irlandeses têm uma fronteira física com outra nação. Uma divisão que foi motivo de disputa por décadas entre católicos e protestantes, entre os favoráveis à unificação com a República da Irlanda e os defensores da manutenção dos laços com a Coroa.

Londonderry estava no centro disso. A cidade de cerca de 240 mil habitantes (a segunda maior da Irlanda do Norte) tem forte presença católica – parcela da população que prefere o uso de Derry City, para ‘desbritanizar’ o nome – e foi palco de diversas manifestações nacionalistas irlandesas. Em 30 de janeiro de 1972, o exército atirou em civis desarmados durante um protesto, 14 morreram. O dia ficou conhecido como Bloody Sunday* (Domingo Sangrento) e motivou a banda U2 a criar uma de suas músicas mais famosas.

Os problemas se arrastaram por décadas, de atentados terroristas do IRA (Exército Republicano Irlandês) em Londres a coisas supostamente triviais, como jogos de futebol. O time da cidade, o Derry City, é ligado aos católicos e várias de suas partidas eram marcadas por brigas com as torcidas de maioria protestantes de outros clubes norte-irlandeses. Para evitar mais conflitos, a equipe passou a disputar o campeonato da Irlanda em 1985.

A União Europeia foi fundamental para mudar o clima. Com Reino Unido e Irlanda fazendo parte de um mesmo bloco político e econômico, o trânsito de pessoas e mercadoria se tornou livre. Estar do lado britânico ou irlandês da fronteira se tornou menos relevante quando todos estavam dentro de uma fronteira maior, a da UE.

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É o eventual fim dessa situação que cria apreensão entre os norte-irlandeses, sobretudo os que vivem perto da fronteira com a Irlanda. Hoje, é até difícil perceber quando se muda de nação. Placas de boas-vindas na estrada marcam a divisa e a linguagem visual da sinalização de ruas é diferente de um lado e do outro. De resto, é quase como uma coisa só. Há até casos de estradas rurais, usadas apenas por fazendeiros da área que atravessam a fronteira sem chamar a atenção.

Com a saída do Reino Unido da UE, a fronteira irlandesa se tornaria novamente relevante. Pessoas que moram de um lado e trabalham do outro teriam de passar pela imigração todo dia, duas vezes. O mesmo ocorreria a cada visita a familiares no fim de semana, a uma ida à cidade vizinha para comprar algo. Mas, pior que isso, a recriação de um aparato de controle policial reforçaria a percepção entre norte-irlandeses católicos que eles não vivem no país que gostariam, recriando uma insatisfação histórica que andava adormecida.

Esse foi um dos motivos para a Irlanda do Norte ter votado em favor da permanência do Reino Unido na UE. Uma votação que ficou mais reforçada pelos votos dos distritos que ficam na região de fronteira, sobretudo Londonderry, o pontinho azul escuro no noroeste da Irlanda do Norte no mapa abaixo.

Mapa eleitoral do Brexit por distritos. Em azul os que preferiram a permanência na UE. Em vermelho, os que votaram pela saída. Quando mais escura a mancha, maior o percentual de votos para cada lado (New York Times)
Mapa eleitoral do Brexit por distritos. Em azul os que preferiram a permanência na UE. Em vermelho, os que votaram pela saída. Quando mais escura a mancha, maior o percentual de votos para cada lado (New York Times)

Em geral, os unionistas, defensores da permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido, foram favoráveis à saída da UE, enquanto que os nacionalistas (defensores da unificação com a Irlanda) e os neutros ficaram do lado da continuidade no bloco. Mas o resultado geral na região foi pró-União Europeia, e o fato de os votos ingleses terem definido a retirada do país causou um misto de revolta com preocupação.

Líderes nacionalistas já falam em articular a saída da Irlanda do Norte do Reino Unido, o que seria um primeiro passo à reunificação com a Irlanda (algo que os unionistas não gostariam). Mas, para o dia a dia das pessoas e das cidades que ficam na região de fronteira, o grande debate é o que será feito para controlar o trânsito de pessoas. Tanto que britânicos pró-UE que têm direito à nacionalidade irlandesa já estão correndo atrás do passaporte com medo de perder os direitos de cidadãos europeus.

O destino depende das negociações do Reino Unido com a União Europeia. Uma das possibilidades seria manter a fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte aberta, mais reforçando o controle em portos e aeroportos do tráfego entre Irlanda do Norte e a ilha da Grã-Bretanha. Essa opção ajudaria a manter a calmaria, mas possivelmente desagradaria os unionistas, pois o território norte-irlandês ficaria mais isolado do resto do país e se tornaria uma área de regime especial, quase intermediária, entre duas nações.

Mas talvez seja a melhor opção. Ao menos, reduziria o risco de reforçar as divisões das maiores cidades norte-irlandesas, ainda marcadas em muros e grafites que já se tornaram parte da paisagem urbana da região.

*O termo Bloody Sunday é usado para diversos conflitos violentos ocorridos em domingos. O de Derry em 1972 foi um dos mais famosos, mas não o único