Veja uma empresa americana até a medula mostrando seu patriotismo. Só que não

Difícil encontrar alguma empresa mais americana que a Redneck Riviera. A começar pelo nome, que exalta o glamour do interiorzão dos Estados Unidos. Mas não é apenas aí. Um dos principais garotos-propaganda desse fabricante de botas e roupas é John Rich, ídolo da música country e uma das celebridades mais entusiasmadas na defesa do jeito americano de ser (e também na do Partido Republicano). E, diacho, olha na imagem acima como é a home do site deles.

Em um momento em que o presidente dos Estados Unidos fala em fechar toda a fronteira com o México e em taxar mais os produtos fabricados no vizinho do sul para valorizar a indústria legitimamente americana, nada como dar uma olhada na loja online da Redneck Riviera. Donald Trump ia gostar dessa atitude.

Bem, uma passada rápida no catálogo de roupas femininas já deixa evidente o quanto eles amam os Estados Unidos. Só de ver essas estampas e já dá para ouvir ao fundo um “Oh, say can you see…”.

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Mas a Redneck Riviera quer que o americano seja americano da cabeça aos pés. E as botas não devem nada às roupas. Para texano nenhum botar defeito.

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Vamos olhar umas botas masculinas. Um modelo me chamou a atenção. Tem uma águia desenhada na frente, mais americana que comer um cachorro quente enquanto vê um jogo de beisebol.

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O preço pode soar salgado em reais, mas ela deve valer isso tudo. Basta olhar as especificações. Mas… espera aí! O que é aquilo no final? “Fabricado em León, México”. COMO ASSIM?????

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Deve ser alguma confusão, um produto especialmente para mexicanos. Afinal, a águia também é um símbolo do México, né? Até está na bandeira. Talvez por isso esteja um pouco mais barata. Vamos ver uma outra, com nome de patriótica e estrelas no cano.

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Bonitona. Essa aí certamente é fabricação americana. Nashville? San Antonio? Oklahoma? Talvez Mississippi. Mas… mas… mas… León de novo?

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Assim não dá! Vamos voltar às botas femininas, lá dava para ver o patriotismo americano exalando pelos poros. É calçar a bota e já sair recitando a Declaração da Independência. Olha só essa, até se chama “Bota da Liberdade”.

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Sem dúvida, é com uma dessa que Sarah Palin sai quando pega sua espingarda e vai caçar algum alce nos bosques do Alasca. Deve ser “Handcrafted in Idaho”, no máximo em Montana.

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De novo, León. Está desanimando. Última chance: a bota de franjinha. Os caras não ousariam desamericanizar a bota de franjinha. Afinal, é uma bota. E tem franjinha! Os americanos amam tanto isso que fizeram até a camisa mais feia da história do futebol só porque queriam botar franjinha de algum jeito.

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Fazer essas franjinhas deve ter encarecido a bota, mas é tão americana quanto o discurso de Bill Pullman na caçamba de uma caminhonete em Independence Day (e aqueles alienígenas achavam que conquistariam o planeta em um 4 de Julho, tolinhos…).

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MÉXICO DE NOVO!!! Ah, esses patriotas americanos já foram melhores…

O post acima contém altas doses de ironia. A Redneck Riviera, como qualquer empresa, tem o direito de abrir suas fábricas onde quiser, desde que dentro dos limites permitidos pela lei. Afinal, há algo mais americano do que buscar reduzir o custo de produção para aumentar sua competitividade em um ambiente capitalista? Até Donald Trump sabe disso.

A luta por serviços públicos nas pequenas cidades sem nação

O que é? Seis de junho de 2015 é uma data histórica para milhares de moradores na fronteira entre Índia e Bangladesh. Foi o dia em que os governos dos dois países assinaram um acordo para resolver os problemas de sua bizarra fronteira. No entanto, seis meses depois, muitos deles continuam lutando para ter acesso aos serviços públicos mais básicos.

Mais de 50 mil pessoas sem cidadania

O rei de Cooch Behar e o marajá de Rangpur, então parte do Império Mogol, disputavam uma partida de xadrez – ou de cartas, há divergências. No calor da disputa, os governantes colocaram parte de seus territórios em jogo e, ao final de tantas apostas, os dois estados haviam ganhado e perdido terras de forma quase aleatória. Pedaços de Cooch Behar estavam dentro do território mogol, e vice-versa.

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É assim que se conta a história da exótica fronteira entre Índia e Bangladesh. Uma confusão criada há séculos e que se manteve mesmo depois da ocupação britânica e da independência dos dois países. Um problema tão grande que transformou a fronteira indo-bengali no maior arquipélago de enclaves do mundo. São 102 enclaves indianos dentro de Bangladesh, 21 deles com contra-enclaves (um enclave dentro de um enclave) bengalis e um com contra-contra-enclave (enclave dentro de um enclave que está dentro de um enclave) indiano, o único no mundo. Também há 71 enclaves bengalis dentro da Índia, três deles com contra-enclave.

Não entendeu? O mapa abaixo mostra um pedaço dessa fronteira e permite que se tenha uma ideia do drama (o território bengali está em verde):

Trecho cheio de enclaves na fronteira entre Índia e Bangladesh
Trecho cheio de enclaves na fronteira entre Índia e Bangladesh

Uma divisão entre duas nações como essa é exótica, e lembra o caso da cidade de Baarle-Nassau, que fica dentro da Holanda, mas tem pedaços pertencentes à Bélgica (formando o município de Baarle-Hertog). Mas, no caso belgo-holandês, a relação entre os países é ótima e a fronteira é aberta. Não há problemas para a circulação e o acesso a serviços dos belgas que estão isolados dos demais compatriotas.

Isso não ocorre no Sul da Ásia. A relação entre Índia e Bangladesh é aceitável para os padrões locais, mas tem atritos em algumas áreas. E a fronteira é uma delas. Desde a independência de Bangladesh, em 1971, bengalis migram para a Índia, enquanto que produtos não registrados fazem o caminho contrário. O governo de Daca já acusou a polícia indiana de fronteira de atirar em cidadãos bengalis e invadir o território do vizinho.

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Isso criou um problema para as vilas localizadas dentro dos enclaves (chamados chhitmahal e criados após uma batalha – nada de partida de xadrez – em 1713, quando o Império Mogol pegou um terço do território do reino de Cooch Behar, mas não conseguiu expulsar todos os chefes de clãs do vizinho, que seguiram fieis ao lado derrotado). Como as autoridades indianas não podem entrar em território bengali e vice-versa, não havia como o estado marcar presença.

Houve tentativa de acordos em 1974, mas isso nunca foi para frente. Com isso, 37 mil indianos e 14 mil bengalis viviam em pequenas cidades quase anárquicas (no sentido literal, “sem governo”). Não havia forças de segurança pública, sistema judiciário, hospitais, eletricidade, saneamento, escolas e até emissão de documentos. Não era possível nem vender a produção agrícola no mercado mais próximo, se esse estivesse do outro lado da fronteira. Em entrevista ao jornal Times of India em 2012, Akbar Ali Sheikh, morador de um enclave bengali dentro da Índia, conta como era a vida nesses territórios:

    Embora residamos em Bangladesh, não temos nenhum direito ou privilégio dos bengalis. Bangladesh não nos dá nada. Não podemos ir até lá e somos considerados estrangeiros pela Índia, que diz não ter obrigação sobre nós. Somos cidadãos sem estado. Fomos largados por Bangladesh, nosso país, e pela Índia para nos virarmos por nós mesmos. Não há administração civil ou policial. Se qualquer crime é cometido em um chhitmahal, os moradores não podem ir à polícia indiana e não há hipótese de cruzar a fronteira e contatar a polícia bengali, porque ela não poderia atravessar o território da Índia. As pessoas nos enclaves precisam resolver os problemas por conta própria.

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Essas vilas viram uma saída em 6 de junho do ano passado, quando os dois países entraram em um acordo para trocar os enclaves. Bangladesh recebeu quase 70 km² da Índia, enquanto cedeu 29 km². Mas isso ainda não resolveu completamente a questão das vilas e de seus moradores.

Pelo tratado, os moradores desses territórios podiam escolher em que nação morar. Cerca de mil indianos escolheram continuar como indianos, abandonando a vila no enclave que se tornou território bengali. A Índia ainda não sabe como absorver essas pessoas, que têm vivido em acampamentos há meses. Não é muito melhor que a vida de quem ficou na sua vila, pois os serviços públicos demoram a chegar e muitas pessoas seguem sem documentos. Os papéis são necessários para receber atendimento em um hospital e para matricular o filho em uma escola.

Na prática, essas pequenas cidades ainda não têm nação. Mas, após mais de 40 anos, ao menos há perspectiva de algo mudar nos próximos meses.

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O que é? San Diego e Tijuana estão no extremo oeste da divisa entre Estados Unidos e México. As duas cidades formam uma mancha urbana que reúne quase 5 milhões de pessoas. É comum moradores de uma irem à outra para trabalhar, estudar ou resolver coisa do dia a dia. Uma viagem sempre demorada pelo fato de que, no meio do caminho, têm de passar por postos de imigração. Mas uma passarela permitirá uma maior integração entre os dois lados, facilitando aos residentes nos EUA acessarem o aeroporto do lado mexicano.

Soluções para uma metrópole binacional

Donald Trump tem sido o candidato mais caricato da campanha à presidência dos Estados Unidos. O empresário baseia sua candidatura a frases fortes e polêmicas, com tom que soa exageradamente conservador até para uma parte dos eleitores conservadores. Ainda assim, tem conseguido se manter como um dos concorrentes mais fortes do Partido Republicano. Um de seus alvos preferenciais são os imigrantes mexicanos, a ponto de se propor uma construção de um grande muro na fronteira entre os dois países. Mas uma passarela inaugurada na última quarta mostra como o caminho é integrar, não dividir.

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Foi inaugurado na última quarta o Cross Border Xpress, o terminal de passageiros do aeroporto de Tijuana localizado em San Diego. É exatamente isso: uma parte das instalações de um aeroporto mexicano em território americano. Uma obra que os dois lados sabiam ser necessária, mas que levou mais de 25 anos para sair do papel.

Imagem de satélite da região metropolitana San Diego-Tijuana. A linha vermelha marca a fronteira (Google Earth/Outra Cidade)
Imagem de satélite da região metropolitana San Diego-Tijuana. A linha vermelha marca a fronteira (Google Earth/Outra Cidade)

O aeroporto General Abelardo L. Rodríguez está localizado na região nordeste de Tijuana, a apenas alguns metros da fronteira com os Estados Unidos. Ele é bastante útil para quem quer ir ao México, pois oferece voos para locais não ligados a cidades americanas e os preços de viagens domésticas das companhias aéreas mexicanas são muito competitivos.

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No Sul da Califórnia, é uma possibilidade particularmente atraente. Milhões de mexicanos ou americanos de origem mexicana vivem entre San Diego e Los Angeles e voltam regularmente para visitar a família no México durante as férias ou feriados importantes. Todas essas pessoas eram obrigadas a pegar voos nos Estados Unidos – pegando mais caro e/ou fazendo mais conexões – ou tinham de encarar o sempre demorado e tenso – às vezes, hostil – posto de imigração terrestre na fronteira.

Obs.: Há três pontos de passagem entre San Diego e Tijuana. O San Ysidro é o posto de imigração terrestre mais movimentado do mundo, com mais de 40 milhões de pessoas indo de um lado ao outro por ano. Filas quilométricas são comuns nos dias de grande movimento.

É isso que o Cross Border Xpress elimina. Há anos as prefeituras das duas cidades chegaram à conclusão que era necessário ampliar a integração urbana e econômica. O aeroporto era uma possibilidade óbvia, pois traria benefícios rápidos os dois lados da fronteira: San Diego aumenta sua competitividade como ponto de passagem para quem quer ir ao México e Tijuana vê aumento do movimento de seu aeroporto.

Vista aérea do Cross Border XPress, com a ponte passando sobre o muro da fronteira e o terminal do aeroporto em Tijuana à esquerda
Vista aérea do Cross Border XPress, com a ponte passando sobre o muro da fronteira e o terminal do aeroporto em Tijuana à esquerda

O funcionamento é simples. Um terminal de passageiros comum foi construído do lado americano da fronteira. O passageiro pode estacionar seu carro nos EUA ou ir de transporte público normal. Faz o check in ainda em solo americano e atravessa a fronteira por uma ponte que passa por cima do muro da fronteira. Aí, é só se direcionar aos portões de embarque do aeroporto de Tijuana.

É um passo pequeno ainda diante de toda a questão entre México e Estados Unidos. Mas a parceria entre San Diego e Tijuana mostra como a força das regiões metropolitanas é maior que um muro, e que entender cidades vizinhas como uma só, buscando soluções conjuntas, é fundamental para o desenvolvimento de ambas.