É um barato ver os nomes dos soldados britânicos que lutaram a Guerra dos Cem Anos

As instituições inglesas são organizadas e apegadas a sua história, e é assim há muitos anos. E talvez a maior prova disso seja uma base de dados organizada e disponibilizada pelas Universidades de Reading e Southampton. Chamada “The Soldier in Later Medieval England“, ela lista os indivíduos que serviram ao exército real entre 1369 e 1453.

Só de o registro desses militares ter sido preservado por seis séculos já é um feito impressionante – e esse registro existe porque os indivíduos eram profissionais pagos por esse serviço. Mas essa base fica ainda mais interessante se considerarmos que a Guerra dos Cem Anos, entre Inglaterra e França, ocorreu entre 1337 e 1453. Ou seja, temos os nomes de uma parcela considerável dos soltados britânicos que lutaram nesse conflito, com nome, sobrenome, título, patente, a quem era subordinado e em que período serviu. A lista conta ainda com a presença de alguns milhares de combatentes do lado francês, sobretudo os envolvidos na Batalha de Agincourt (1415).

Entre as pessoas de língua inglesa, uma das graças é ver se algum ancestral esteve na guerra. Um esforço que vale pela brincadeira, pois, considerando que o conflito se estendeu por onze gerações, virtualmente todo descendente de inglês teve algum familiar distante — bota distante nisso — envolvido nas batalhas, ainda que o sobrenome tenha se perdido ao longo do tempo.

Mas também dá para um brasileiro sem nenhuma relação familiar com a Inglaterra brincar. O nome original dos soldados dão um recorte raramente  tratado nos livros de história. Estes costumam falar dos grandes líderes políticos e das figuras mais influentes, muitas vezes com nomes modernizados. No caso da “Soldier in Later Medieval England”, podemos ver como se chamavam de verdade as pessoas comuns.

O interessante disso é perceber como o inglês era diferente. A grafia de vários sobrenomes tem diferenças que lembram um pouco as palavras de línguas célticas como o galês e o gaélico escocês. É o caso de Notyngham, Wythewyk, Elys, Thrynskewe e Wythgynuvill. Alguns desses nomes sumiram ou se tornaram extremamente raros, outros tiveram grafias modernizadas.

Favorito à eleição presidencial da França não sabe bem o que é a segunda maior região do país

Emmanuel Macron é o nome mais forte na corrida presidencial francesa. O líder do En Marche! (assim mesmo, com exclamação), partido de centro, luta ponto a ponto com Marine Le Pen nas pesquisas para o primeiro turno, programado para 23 de abril, mas tem folga considerável nas projeções para o segundo (varia entre 60 e 64%). Por isso, a chance de o ex-funcionário público e diretor de um banco de investimentos comandar a França é grande. Mas ele precisará estudar um pouco geografia.

Nas últimas semanas, a Guiana Francesa tem sido palco de diversas greves e manifestações devido aos problemas econômicos e à alta taxa de criminalidade da região. A paralisação de trabalhadores tem prejudicado diversos serviços, o que motivou Macron a se pronunciar (vídeo abaixo, em francês): “O que está acontecendo na Guiana Francesa nos últimos dias é sério. Minha primeira resposta é pedir por calma, porque bloquear as pistas e as decolagens do aeroporto – e às vezes até bloqueando o funcionamento da própria ilha – não é a resposta para a situação”.

 

Ilha? Ilha? Como qualquer região ultramarina, a Guiana Francesa tem o mesmo status de qualquer parte do território principal da França (sim, a França faz fronteira com o Amapá). Por área, é a segunda maior região do país, atrás apenas da Nova-Aquitânia, e seus cidadãos têm direito a voto como qualquer parisiense. São credenciais suficientes para receber um pouco mais de atenção do candidato, ainda mais quando ele está fazendo campanha por regiões ultramarina, o que ocorria no momento da entrevista.

Mas, se considerar o que o último vencedor da eleição presidencial francesa fez, Macron pode estar no caminho certo. Afinal, François Hollande, atual chefe de estado da França, já confundiu o Japão com a China e o Egito com a Tunísia em pronunciamentos.

Paris perdeu 1,5 milhão de turistas em 2016 (algo a ver com o terrorismo?)

Janeiro de 2015, a redação do jornal Charlie Hebdo, em Paris, é invadida por um terrorista descontente com a forma de o veículo retratar Maomé e vários cartunistas são mortos. Novembro do mesmo ano, uma série de atentados ocorre na capital francesa, matando mais de cem pessoas em alvos que foram de uma casa de shows a um estádio de futebol. Era esperado que tudo isso impactasse o turismo na cidade. E realmente impactou.

Números divulgados pelo Comitê Regional de Turismo mostra que hotéis na Île-de-France (região em torno de Paris) tiveram uma queda de 1,5 milhão de pessoas hospedadas de 2015 para 2016. Apesar de o índice anunciado não vir com uma pesquisa que justifique o declínio, o medo do terrorismo é apontado como causa mais provável.

O impacto nos números nacionais é nítido. A França recebeu 85 milhões de turistas estrangeiros em 2015, número que caiu para em torno de 82,5 milhões em 2016. A queda parisiense é mais da metade da queda de todo o país, que ainda teve o atentado terrorista em Nice em julho último.

Ainda assim, há motivos para otimismo. Por mais significativa que seja a queda de turistas, ela ainda é proporcionalmente pequena dentro do total recebido pela França (menos de 5%). O próprio comitê admitiu que a queda foi menor que a esperada.

De qualquer forma, o país continua sendo o principal destino turístico de estrangeiros no mundo. Os números globais só saem em março, mas os Estados Unidos, segundos colocados no ranking da Organização Mundial de Turismo, receberam 77,5 milhões em 2015 e é improvável que tenham ganhado 6 milhões em um ano.

Veja só o efeito da Mona Lisa no mapa de postagens do Louvre no Instagram

É difícil ver com atenção a Mona Lisa ao vivo. O quadro é pequeno (73 cm de altura e 53 de largura) e fica em uma sala relativamente pequena e absurdamente lotada do Museu do Louvre, em Paris. Por segurança, os visitantes ainda são obrigados a guardar uma distância da obra de Leonardo da Vinci, que ainda é protegida por um vidro blindado. Em bom português, a experiência de vê-la tem tanto de cultura quanto de luta corporal.

Ainda assim, é o ponto alto de quase todas as visitas ao Louvre, por mais que o museu parisiense tenha obras espetaculares em tudo quanto é ala. E agora é fácil ter uma medida de quão importante é a Mona Lisa para os visitantes. O Maps.Me postou em sua conta no Twitter um mapa das postagens no Instagram feitas em algum ponto do Museu do Louvre.

Por mais que não seja um método de precisão científica, é só olhar a densidade de bolinhas amarelas para ter uma ideia de como todos querem mostrar que viram a Mona Lisa, que estiveram lá. E, bem, esse mapa também ajuda a dar uma ideia da muvuca que fica em torno da obra, uma muvuca proporcional à importância do retrato feito por Da Vinci.

Mapa do Museu do Louvre com pontos amarelos a cada postagem no Instagram, com destaque para a Mona Lisa (Twitter / Maps.Me)
Mapa do Museu do Louvre com pontos amarelos a cada postagem no Instagram, com destaque para a Mona Lisa (Twitter / Maps.Me)

Por que as fronteiras da Itália com a Áustria e a Suíça mudam todo ano

Divisas naturais normalmente são as preferidas de quem precisa realizar algum tipo de controle fronteiriço. E só acompanhar a linha de rios, mares, montanhas ou lagos para saber onde se separa um território do outro. Quase sempre é algo visual e intuitivo, não precisa de um GPS como no caso de uma fronteira política no meio de um território plano e seco. Mas essa lógica fica meio complicada quando o acidente geográfico começa a se mover sozinho.

É o caso do norte da Itália. Partes da fronteira com França, Suíça, Áustria e Eslovênia são definidas de acordo com o topo de determinados picos dos Alpes. No entanto, vários desses pontos são tomados por neve, e as mudanças climáticas do globo fizeram as geleiras diminuírem 50% desde 1850. Com isso, novos picos acabaram emergindo e o traçado fronteiriço se torna mais difícil de definir.

Para não haver muita discussão, o governo italiano entrou em acordo com o austríaco em 2008 e o suíço no ano seguinte para aceitarem que as fronteiras entre os países são realmente móveis. A cada ano, elas podem sofrer pequenas alterações de acordo com a linha dos picos alpinos.

Esse acordo não é necessário com a Eslovênia, pois não há geleiras móveis na região de fronteira com a Itália. No caso da fronteira franco-italiana, ainda há uma discussão por causa da posse do Mont Blanc, o ponto mais alto da Europa (se é 100% francês ou compartilhado entre os países).

Para acompanhar com precisão as alterações, foi criado um projeto para fazer um mapeamento quase em tempo real dos picos que definem a fronteira italiana. O Italian Limes instalou uma rede 25 sensores em torno de uma geleira no Monte Similaun, o mesmo onde Ötzi foi encontrado em 1991 (evento que motivou uma nova medição da fronteira na época, determinando que a múmia de 5.300 anos era italiana, não austríaca). Os aparelhos enviam dados topográficos a cada duas horas, identificado qualquer mudança na altitude local.

A ideia dos idealizadores do projeto não é criar polêmica ou mesmo forçar uma definição absoluta da fronteira entre Itália e Áustria e entre Itália e Suíça, mas mostrar como as geleiras alpinas estão diminuindo rapidamente e alertar para os efeitos da mudança climática.

Veja mais na Vice e no CityLab (ambos em inglês).

Rio precisa conquistar mais turistas, não cobrar imposto dos que já tem

Marcelo Crivella não deu detalhes, pois ainda é uma ideia embrionária, mas já mostrou a intenção de colocar na conta do turista uma parte das medidas de recuperação do caixa da cidade. O novo prefeito do Rio de Janeiro afirmou que estuda criar uma taxa de “R$ 4 ou 5” para quem se hospedar na cidade. Uma iniciativa simplista, imediatista e, principalmente, potencialmente nociva.

Esse imposto para turistas não é novidade no mundo. Ele é cobrado em cidades italianas (imposta di soggiorno) e francesas (taxe de séjour) e em estados norte-americanos (occupancy tax), por exemplo. Crivella, inclusive, usou o fato de ser cobrado “no mundo inteiro” como argumento para defender a criação de um similar carioca. Mas isso não torna a ideia mais válida ou mais adequada, simplesmente porque a realidade desses lugares é diferente.

Com 6,43 milhões de visitantes estrangeiros, o Brasil foi apenas o 43º destino turístico mais procurado no mundo em 2014 de acordo com o ranking da Organização Mundial do Turismo. O cenário melhorou em 2016, com 6,6 milhões de turistas (o que não deve resultar em uma subida considerável no ranking, diga-se), mas o turismo representa apenas 0,3% do PIB nacional, um percentual menor que o do Iraque. Isso já mostra quanto o país tem potencial para crescer nesse setor, sobretudo considerando o apelo que possui em várias áreas e à boa avaliação (não na organização, mas na hospitalidade) como anfitrião de eventos como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos.

O Rio de Janeiro deveria se concentrar em atrair mais gente, em convencer milhares ou milhões de turistas a irem à Cidade Maravilhosa ao invés de buscarem destinos como Tailândia, México ou África do Sul (países à frente do Brasil no ranking da OMT). Esses turistas deixariam seu dinheiro no comércio, na bilheteria em atrações turísticas e, no final das contas, reforçariam o caixa da prefeitura e do governo estadual.

O problema é que isso dá trabalho. Seria necessário montar uma estratégia para elevar ainda mais o Rio como destino internacional, aumentando a promoção (propaganda) no exterior, desenvolvendo mais as atrações existentes na cidade (melhorando as que existem e criando novas) e atacando os pontos negativos do ponto de vista do turista (violência, desorganização nos serviços públicos, zika). Ao cobrar um imposto, por mais baixo que ele pareça, só se cria uma atitude antipática que pode atrapalhar na hora de um visitante escolher entre o Rio ou outro destino.

Itália, França e Estados Unidos não precisam se esforçar tanto para convencer o turista. Esses países ocupam três das cinco primeiras posições no ranking da OMT, sinal de que sua indústria do turismo já está bem estruturada e várias de suas atrações turísticas são conhecidas mundialmente. Pessoas de todos os cantos do globo têm como sonho conhecer lugares como o Coliseu, a Torre Eiffel e o Grand Canyon, comer uma legítima massa italiana, tomar um vinho francês recém-saído do barril ou tirar uma foto com o Mickey Mouse. E elas se dispõem a pagar uma taxa para cada noite dormida se for o caso.

O pior é que o tal imposto teria pouco efeito prático no caixa municipal. O Rio de Janeiro recebeu 1,9 milhão de turistas estrangeiros em 2014, segundo o Euromonitor. Se cada um pagar os tais “cinco reais” mencionados por Crivella, seriam R$ 9,5 milhões. Se a taxa for cobrada por noite dormida – como é na Itália, na França e nos EUA -, o ganho seria de R$ 113,05 milhões. Se a taxa for para todos os turistas, estrangeiros e os 7,3 milhões vindo de outras regiões do Brasil, a arrecadação seria de R$ 46 milhões para a cobrança única e R$ 259,05 milhões para a cobrança diária.

As contas acima consideram quatro dias de estadia média para o turista brasileiro e 11,9 para o estrangeiro, números levantados em pesquisa contratada pela TurisRio.

O imposto seria até justificável como atitude para resolver um problema imediato, mas ele está longe de resolver o problema de caixa da prefeitura. Os números parecem altos, sobretudo os R$ 259 milhões, mas são nanicos perto do orçamento do município (R$ 29,5 bilhões) e do gasto com dívidas (R$ 1,3 bilhão) previstos para 2017. E, se a medida em si não resolve, vale mais a pena fazer o turismo trazer dinheiro como uma atividade econômica em crescimento, e não como taxa para seus consumidores.

Por que Paris e Frankfurt estão de olho na saída do Reino Unido da UE

Os números são astronômicos. A produção anual é de US$ 255 bilhões, gerando US$ 97 bilhões em impostos. No comércio de câmbio, são cerca de US$ 1 trilhão (isso mesmo, com “tr”) trocando de mãos por dia. Há vários outros exemplos, sempre com muitos zeros à direita. Esse é o tamanho do mercado de serviços financeiros de Londres, disparado o mais robusto da Europa e um dos maiores do mundo. Um gigantismo que pode sofrer abalos a partir desta quinta (23), depende apenas da opinião dos cidadãos britânicos.

O Reino Unido irá às urnas decidir se fica ou sai da União Europeia, o Brexit (abreviação de “British Exit”, “saída britânica”). As pesquisas mostram um equilíbrio maior que esperado, e cresce a preocupação dos bancos sobre o efeito disso. Afinal, Londres se tornou essa potência no setor bancário pela tradição e solidez de suas instituições centenárias, mas ela ganhou mais impulso quando se estabeleceu como capital financeira informal da Europa unificada.

Para uma empresa financeira trabalhar em todo o Espaço Econômico Europeu a partir de Londres, precisa ter a autorização de agências reguladoras britânicas, que concede uma permissão chamada de “passporting rights” (algo como “direitos de passaporte”). Esse mecanismo atrai vários bancos com sede fora da UE, como o JP Morgan Chase (americano), o Credit Suisse (suíço) e o Nomura (japonês). Todos estabeleceram um escritório na capital inglesa e comandam de lá suas operações no continente.

O problema é que, se o Reino Unido deixar a União Europeia, há uma boa chance de o passporting acabar. Afinal, os outros países da UE dificilmente abririam uma excessão aos britânicos, mantendo alguns dos privilégios de um membro do grupo. Afinal, isso poderia incentivar outras nações a deixarem o bloco.

Se isso ocorrer, vários bancos já disseram que reduzirão suas operações em Londres. O JP Morgan pode mudar-se para outra cidade. O Morgan Stanley e o Citigroup ameaçaram reduzir suas equipe na capital inglesa para deslocar certas áreas para algum país da UE.

Essa possibilidade já deixou algumas cidades com água na boca. A primeira a se pronunciar fortemente foi Paris. O vice-prefeito parisiense, Jean-Louis Missika, já disse que estende o tapete vermelho para qualquer empresa que se interessar em mudar suas operações para lá. A capital francesa tem a vantagem de ter uma posição central na Europa, ser uma metrópole global e servir como atrativo para funcionários de cargos altos e clientes. O HSBC já informou que realocaria mil postos de trabalho para a França caso o Brexit seja aprovado.

Frankfurt também aparece com força. A cidade alemã tem a vantagem de já sediar representações de vários bancos por ser sede do Banco Central Europeu e a capital financeira do país mais rico da UE. Além disso, também tem uma posição central no continente. No entanto, não se trata de uma megalópole global, mas uma metrópole regional de 2,2 milhões de habitantes em sua área urbana. O mercado imobiliário e a rede de transportes teriam dificuldade de absorver um afluxo grande de corporações e talvez não fosse o destino mais apetitoso para altos executivos.

Quem corre por fora na briga é Dublin. A Irlanda tem a seu favor o fato de ser um país de língua inglesa – para uma empresa que pretende transferir sua sede, seria uma mudança muito mais suave – e ter impostos mais baixos que França e Alemanha. O Citigroup já definiu que a capital irlandesa seria sede de suas operações europeias caso o Reino Unido deixe a UE.

O fato de três cidades estarem brigando e de instituições já terem demonstrado preferência por locais diferentes dão a entender que o brexit poderia descentralizar o mercado financeiro europeu. Cada banco poderia migrar para um lugar diferente, talvez com uma ou outra metrópole tendo um pouco mais de destaque. E é por esse posto que muita gente já está brigando. Seriam muitos bilhões de euros em busca de uma nova casa.