O lugar de onde é preciso fugir para ter sucesso

“O maior embaixador de Nova Jersey.” Foi essa uma das formas utilizadas por Barack Obama para descrever a importância de Bruce Springsteen ao dar ao ícone do rock a Medalha Presidencial da Liberdade, no início desta semana. De fato, a imagem de The Boss é intimamente ligada à de Nova Jersey. Ele sempre falou do ambiente e das pessoas que vivem em um estado em crise de identidade por ser visto por muita gente apenas como um punhado de municípios da periferia de Nova York (ao norte) e da Filadélfia (ao sul).

Uma das músicas mais famosas de Springsteen, que serve até de título de uma de suas biografias, fala de Nova Jersey: Born to Run. No entanto, ela não faz uma declaração de amor ou exalta algum elemento da cultura ou da natureza do estado. A letra fala da angústia de se morar nele, e da necessidade de se sair de lá para melhorar vida (“Garota, esta cidade arranca os ossos do corpo / É uma armadilha mortal, é um ritmo suicida / Nós temos que cair fora enquanto somos jovens”).

A música fala do momento por que Springsteen passava, com a dificuldade de fazer sucesso fora de sua terra natal. Mas foi justamente com o álbum “Born to Run” que ele se tornou uma figura nacional, sem precisar sair de Jersey. Ano depois, com a carreira já consolidada, ele morou alguns anos em Los Angeles, mas retornou depois para esse pequeno estado que se define pelas metrópoles coladas a ele ao norte e ao sul.

Ouça “Born to Run” (letra com tradução):

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.

Filadélfia cria taxa do refrigerante, mas motivação é duvidosa

Há poucas coisas mais americanas do que o refrigerante. Eles foram criados na Europa, mas foi nos Estados Unidos que se transformaram em uma indústria poderosa a ponto de criar algumas das marcas mais reconhecíveis do mundo (sim, estou falando da Coca-Cola e da Pepsi). Mas as bebidas gaseificadas começam a ter problemas, com várias cidades cogitando formas de inibir seu consumo. O caso mais recente foi da Filadélfia, que aprovou um projeto de lei que cria um imposto em cima desses produtos.

A taxa do refrigerante é polêmica. Ela prevê o pagamento de US$ 0,015 a cada onça fluida (30 ml) de bebidas com açúcar ou diet. Se esse valor for repassado ao consumidor, uma lata deve ficar US$ 0,18 mais cara. O imposto só entra em vigor em 1º de janeiro de 2017. Não é uma medida completamente inédita. Entre as grandes cidades americanas, Chicago já tem uma lei similar.

O motivo desse ataque às bebidas gaseificadas é, teoricamente, a saúde pública. E aí cria-se a polêmica. Os Estados Unidos têm um problema real e sério de obesidade. Na Filadélfia, 68% dos adultos e 41% das crianças estão acima do peso.

Os defensores do imposto alegam que o poder público apenas está ajudando as pessoas a terem uma vida mais saudável sem obrigar ninguém a nada. Os críticos consideram que não é papel do governo induzir os hábitos de consumos da população, pois é direito de cada um beber o que quiser. Além disso, alegam que a taxação prejudicaria as pessoas de menor poder aquisitivo, tradicionalmente os maiores consumidores de comidas industrializadas no país.

Para evitar que o debate caia na questão do direito de escolha, a prefeitura tem mudado o enfoque. Mas tornou o conceito do imposto ainda mais estranho. Ele foi colocado apenas como mais um imposto, e que os benefícios à saúde da população seria apenas um “bônus”. O dinheiro arrecadado será utilizado para projetos sem nenhuma ligação com a saúde pública, como pagar benefícios aos funcionários municipais e aumentar as reservas da cidade.

Nesse cenário, o imposto do refrigerante fica com cara de uma ideia de boas intenções, mas que não tem muito sentido. Se é para aumentar o caixa municipal e tratar melhor os funcionários, há diversos outros bens que poderiam ser taxados sem afetar mais um grupo social – justamente o mais vulnerável – do que outro. Se for pela saúde pública, que os recursos sejam destinados a isso, com melhoria no atendimento em hospitais e postos de saúde ou criação de campanhas de conscientîzação.

Mas, mais do que ir às bebidas, uma área que talvez tivesse efeito mais rápido e duradouro pelo caráter educativo seria promover o consumo de produtos locais e frescos e, principalmente, mexer nas merendas escolares. Na página do distrito escolar da Filadélfia, é possível ver o cardápio das escolas da cidade na próxima semana. As crianças e adolescentes almoçarão frango frito com molho barbecue (segunda, 21),  carne com molho (terça) e um chamativo “faça sua própria pizza” (quarta). Sempre com referências explícitas do fornecedor de cada ingrediente, invariavelmente grandes indústrias.

Tudo bem, é melhor que muita merenda escolar oferecida no Brasil e certamente as crianças adoram frango frito, carne ou pizza. Mas “saudável” não é uma palavra que vem a mente quando se pensa nesse menu. Por isso, os refrigerantes não são saudáveis e deveriam ser consumidos em quantidade mais moderada que a média americana, mas dificilmente inibir seu consumo fará diferença quando se come tanta coisa industrializada e pesada desde pequeno.

Black Friday é sinônimo de consumo, mas surgiu é do trânsito caótico

A mania chegou ao Brasil. Nesta sexta, várias lojas anunciam promoções de produtos marcando a Black Friday. É uma celebração que não faz tanto sentido por aqui, porque os descontos nem sempre são tão grandes quanto se imagina e, principalmente, porque não há ligação desse 27 de novembro com uma outra data (no caso, o Dia de Ação de Graças). Mas, se você achar algum produto legal por um preço camarada, nada o impede de aproveitar a barganha.

Mas por que estamos falando de Black Friday aqui no Outra Cidade? Vamos começar a vender alguma coisa? Não, nada disso. É que nem todos sabem, mas toda essa festa da gastança teve origem em um problema puramente urbanístico: o trânsito em uma grande cidade americana. Os nossos amigos do ExtraTime contaram essa história ano passado, e vale relembrar.

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Como um jargão policial para o trânsito da Filadélfia virou sinônimo de compras

Um dia duro de trabalho, muito trabalho. A sexta-feira após o Dia de Ação de Graças era sinônimo de problemas para os policiais da Filadélfia na década de 1960. A população aproveitava as comemorações da quarta quinta-feira de novembro para emendar um feriadão. Como sexta e sábado eram dias úteis no comércio, todos iam às lojas para começar as compras de Natal. Resultado: uma multidão nas ruas, o trânsito ficava um caos e os policiais tinham de trabalhar loucamente para organizar a bagunça. Assim, apelidaram esses dias de Black Friday e Black Saturday.

Trânsito em uma Black Friday da década de 1960
Trânsito em uma Black Friday da década de 1960

Até aquele momento “Black Friday” era uma expressão usada para simbolizar algumas sextas em que coisas graves ocorreram, como “Bloody Sunday” representa um domingo de conflitos religiosos na Irlanda. Mas o primeiro registro de “Black Friday” como o dia seguinte ao de Ação de Graças é de 1961, justamente entre policiais da Filadélfia. Não era uma expressão das mais positivas, era uma reclamação pelo excesso de trabalho. Os comerciantes reclamaram, pois era um dia de grande faturamento para eles. Houve reuniões com a prefeitura para dar uma nova cara para esses dias de tráfego intenso.

Veja o relato de uma edição de 1961 da revista Public Relations News.

“Um desestímulo para os negócios, o problema [o nome Black Friday e Black Saturday] foi discutido entre os comerciantes com o representante municipal Abe S. Rosen, um dos executivos com mais experiência em relações públicas. Ele recomendou uma abordagem mais positiva, que converteria a Black Friday [Sexta-Feira Negra] e o Big Saturday [Sábado Negro] em Big Friday [Grande Sexta] e Big Saturday [Grande Sábado]. A mídia cooperou espalhando as notícias das belas decorações de Natal no centro da Filadélfia, da popularidade do “dia de sair com a família”, das lojas de departamentos no fim de semana de Ação de Graças melhorarem a estrutura de estacionamento e do aumento de policiamento para garantir o melhor fluxo do tráfego. Rosen relatou que os negócios durante o fim de semana foram tão bons que os comerciantes da Filadélfia estavam com ‘os olhos brilhando’.”

Os nomes Big Friday e Big Saturday não pegaram, mas as ações comerciais tiveram resultados. Na década de 1970, outras cidades norte-americanas adotaram a mesma medida, e espalhou-se a ideia de que o nome “Black Friday” tinha a ver com os lucros das vendas (nos Estados Unidos, a cor preta é usada como no Brasil se usa o “azul” para simbolizar balanço financeiro positivo).

Com o tempo, as ações de marketing dos comerciantes se transformaram em grandes descontos e promoções, ajudando a marcar ainda mais a Black Friday como dia de se comprar muito e preparar o fôlego para as compras de Natal.