A disputa entre Catar e seus vizinhos árabes chegou ao futebol

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Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes e Iraque romperam relações com o Catar em junho de 2017. Essa decisão é reflexo da disputa entre sauditas e iranianos pela influência na região, um conflito em que o Catar ficava estrategicamente em cima do muro (o que acabou incomodando alguns dos vizinhos). Por isso, era de se esperar problemas quando catarianos tivessem de viajar aos Emirados Árabes, mesmo que fossem para competições esportivas. Foi o que aconteceu.

Contei essa história na Trivela. Confira.

A Copa do Mundo começará bem no Ramadã. Isso afetará as seleções de maioria muçulmana?

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O técnico da Tunísia, Nabil Maaloul, se disse aliviado ao ver que o sorteio da próxima Copa do Mundo não colocou sua equipe nos Grupos A ou B. O motivo: o Mundial da Rússia começará em 14 de junho, justamente o último dia do Ramadã. Sorte dos tunisianos, mas essas duas chaves, que têm partidas programadas para os dias 14 e 15 de junho, têm quatro times de países de maioria muçulmana: Arábia Saudita, Egito, Marrocos e Irã. Como eles vão fazer? Escrevi um artigo na Trivela sobre isso. Confiram.

Liga de hóquei no gelo tenta influenciar resultado de eleição municipal. E se dá mal

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Times profissionais pressionarem a prefeitura de sua cidade para construir uma nova arena, toda ou quase toda com dinheiro público, não é novidade nos Estados Unidos e no Canadá. Mas o Calgary Flames e a NHL, liga de hóquei no gelo, levaram essa prática a um novo patamar. Ambos pediram para a população votar contra o prefeito Naheed Nenshi na campanha pela reeleição. Contei essa história aqui.

Da língua à sinalização, o Japão já se prepara para se fazer entender nos Jogos Olímpicos de 2020

A comunicação com milhões de estrangeiros é um dos desafios perenes do turismo no Japão. Ainda que a população seja conhecida pelo esforço e simpatia na tentativa de receber bem, o conhecimento do inglês ainda é restrito no arquipélago. Um problema grave quando se pensa que a escrita também é um desafio e Tóquio está a três anos e meio de receber o maior evento poliesportivo do planeta. Mas os japoneses já estão se mexendo. E em várias áreas da comunicação.

A primeira meta é fazer que todos os 90 mil voluntários (estimativa do comitê organizador) consigam atender aos visitantes. Para isso, sete universidades especializadas em estudos internacionais e de idiomas (espalhadas por Chiba, Kioto, Kobe, Nagasaki, Nagoia, Osaka e Tóquio) uniram forças para realizar programas bienais de ensino de idiomas. O programa é centrado em ferramentas básicas para tradução e interpretação e abrange inicialmente cinco idiomas: inglês, chinês, espanhol, coreano e português (sim, português).

Os cursos são voltados não apenas às línguas em si, mas também à cultura, religião, esportes e temas na área de hospitalidade. A intenção não é apenas haver uma conversa, mas evitar que surjam ruídos por diferenças na forma de japoneses e estrangeiros interpretarem cada situação. Quem pretende trabalhar em setores mais específicos, como atendimento médico, também está recebendo cursos de idiomas focados nesses temas.

Outra preocupação dos japoneses é permitir que um estrangeiro se oriente facilmente pelo país. O Japão ganhou fama entre visitantes de ter placas divertidas, quase um cartum (até há um blog sobre isso), mas o problema maior é o padrão adotado para a sinalização, diferente do internacional. Ainda que muitos símbolos sejam intuitivos, outros alguns podem criar confusão.

Por isso, o governo criou um comitê para revisar todos os símbolos do padrão japonês, que toma como base uma linguagem criada em 1964 justamente para a primeira vez que Tóquio recebeu os Jogos Olímpicos. Alguns pictogramas serão criados, enquanto outros serão substituídos pelo utilizado internacionalmente.

Em estabelecimentos comerciais, a adoção dos novos símbolos não será obrigatória, apenas recomendada. A dúvida é grande em casas termais, os onsen, que consideram que a marca atual já é consagrada e não vêem motivos para troca pelo símbolo mundial.

Símbolo de casas termais adotado no Japão (à esquerda) e o internacional (à direita)
Símbolo de casas termais adotado no Japão (à esquerda) e o internacional (à direita)

 

Um jogo demorado fez o metrô de Washington ser xingado em rede nacional

O jogo chegava ao final e a tensão crescia. O duelo valia uma vaga na semifinal do campeonato para o vencedor, e as férias antecipadas para o perdedor. Técnicos vão fazendo substituições para ter as melhores condições para a vitória e a torcida local já temia pelo pior quando via a reação da equipe adversária. De repente, os torcedores se unem em um grito, que pôde ser ouvido até pelos que acompanhavam a partida pela TV: “O metrô é uma droga! O metrô é uma droga!”.

Parece um jeito meio estranho de se manifestar durante um evento esportivo, mas foi o que ocorreu nesta quinta durante o jogo entre Washington Nationals e Los Angeles Dodgers na liga de beisebol dos Estados Unidos. Na reta final do encontro, parte dos 43.936 torcedores abandonaram o que acontecia em campo por alguns instantes para desabafar contra o sistema de transporte público da capital norte-americana.

A força do protesto foi grande, mas já se esperava alguma manifestação. O estopim foi a negativa da administração do metrô de estender o horário de funcionamento da linha que atende ao estádio dos Nationals. Quem quisesse voltar para casa, teria de chegar à estação mais próxima às 11h40, sendo que a perspectiva era de a partida terminar bem depois desse horário (o jogo demorou 4h32, um recorde, e terminou apenas à 0h32 de sexta).

Esse tipo de conflito é comum no Brasil. Na capital paulista, o metrô concordou em estender o horário de funcionamento para permitir o retorno de torcedores após jogos de futebol. Ainda assim, é comum ver pessoas deixando o estádio nos minutos finais para voltar para casa. Não houve essa possibilidade em Washington e, como a partida era decisiva, ninguém abandonou seu assento. Por isso, a imprensa local chegou até a brincar com isso, fazendo reportagens sobre quais as opções para sair do estádio dos Nationals, indo de pagar US$ 200 por uma vaga de estacionamento colocada até alugar um quarto no Airbnb (afinal, saía mais barato passar a noite fora de casa que estacionar o carro).

Placar eletrônico avisa torcedores do horário de funcionamento do metrô em Washington (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais via Outra Cidade)
Placar eletrônico avisa torcedores do horário de funcionamento do metrô em Washington (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais via Outra Cidade)

Seria um caso pontual, mas o metrô de Washington ganhou fama de pior dos Estados Unidos. E aí se justifica a manifestação em massa contra o sistema.

A pontualidade é a menor das grandes cidades americanas. Além disso, em março, foi descoberta uma série de problemas elétricos que colocavam em risco a segurança dos usuários. Os danos eram tão grandes que não foi possível fazer a manutenção convencional, de madrugada. Todas as linhas tiveram de ser fechadas por um dia inteiro, e ainda há quem defenda que essa medida drástica precisará ser repetida em breve. Um ano antes, um usuário morreu após um trem ficar parado por 40 minutos no túnel, com fumaça dentro dos vagões. Em 2009, um acidente entre duas composições deixou nove mortos.

Não à toa, o número de usuários tem caído no metrô, por mais que a prefeitura de Washington anuncie de políticas de incentivo ao transporte público. Aproveitar um jogo com quase 45 mil torcedores seria uma boa maneira de trazer novas pessoas aos trens. Mas acabou virando mais um motivo para deixar o público ressentido por ficar na mão e precisar usar o táxi e o Uber. Até porque todos estavam de cabeça quente com a derrota de virada – e a eliminação – do time da cidade.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Maior legado paraolímpico seria ver um país com cidades mais acessíveis

Os Jogos Paraolímpicos de 2016 foram bem sucedidos em vários tipos de medição. O público nas arenas chegou a superar um dia dos Jogos Olímpicos, a audiência da TV foi marcante (ao menos na Sportv, pois ficou quase esquecida na TV aberta) e o Brasil teve recorde de medalhas, ainda que não tenha atingido a meta de ficar no quinto lugar no quadro. Mas o sucesso real não apareceu na TV, não subiu ao pódio, não se definiu com a extinção do fogo da pira paraolímpica no Maracanã. Ele se verá nas ruas.

Durante uma semana e meia, o público e a imprensa aprenderam a ver o para-atleta como um esportista capaz de competir em alto nível dentro de sua categoria. Mas o para-atleta e a Paraolimpíada representam um universo maior, que se celebra nesse 21 de setembro, o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência. A briga aí não é por condições de treinamento ou atenção de público e mídia, é pelo direito de se locomover com autonomia.

VEJA MAIS: Como as pessoas com deficiência podem melhorar as cidades

A cena final da Cerimônia de Abertura dos Jogos representaram isso, com uma escadaria se transformando em rampa para Clodoaldo Silva subir com sua cadeira de rodas e acender a pira paraolímpica. Mas o cenário montado no Maracanã não representa a realidade das cidades brasileiras (e de boa parte do mundo).

A estrutura para essas pessoas ainda é muito falha. Faltam calçadas niveladas e com boa pavimentação, faltam pisos podotáteis, faltam rampas. E, quando há essas coisas, às vezes não é feito com o cuidado necessário – e previsto por lei. Como no caso desse piso que leva um deficiente visual a dar uma cabeçada na árvore, no dessa rampa que derruba um cadeirante ou na falta respeito a vagas de estacionamento para deficientes. Os exemplos foram pinçados no Twitter, mas não precisa de muito esforço para qualquer brasileiro encontrar situações parecidas em sua cidade.

LOJAS: Aplicativo indica nível de acessibilidade de estabelecimentos comerciais

Nem no Rio de Janeiro, que viveu os Jogos Paraolímpicos de perto e refez parte de sua infraestrutura urbana, a situação está longe do ideal. O BRT e o VLT, feitos para os Jogos, são a aposta da prefeitura como exemplos de transporte público acessível. O jornal Extra fez uma experiência com um cadeirante dias antes da Paraolimpíada e o resultado não foi dos melhores, ainda que a secretaria municipal de transportes calcule em 91% os ônibus (incluindo 100% dos BRTs) com elevadores para cadeiras de rodas.

Em São Paulo, a prefeitura afirma que 49,9% dos ônibus tenham estrutura para cadeirantes após uma renovação da frota em 2015. É uma evolução considerável, mas, no fundo, significa que um usuário de cadeira de rodas não consegue acessar normalmente metade dos ônibus da maior cidade do país, quando o ideal era poder pegar todos. E, de qualquer modo, não adianta adaptar os ônibus, BRTs, VLTs, trens e metrôs se as calçadas continuam sendo armadilhas para quem tem dificuldade de locomoção (o que não considera apenas cadeirantes, mas quem tem muletas ou caminha com dificuldade, mesmo sem usar algum equipamento de auxílio).

É o caso de Londres, a cidade que recebeu a edição mais bem sucedida dos Jogos Paraolímpicos em 2012. Quatro anos depois, a infraestrutura para portadores de deficiência ainda precisa melhorar na capital inglesa. Em entrevista ao jornal O Globo, Brett Smith, professor da Escola de Esporte, Exercício e Reabilitação da Universidade de Birmingham, afirmou que a Paraolimpíada “falhou, e muito, em tornar Londres um lugar melhor e mais acessível para as pessoas com deficiência”.

TRANSPORTE: Rio terá ponto que avisa deficientes visuais que o ônibus chegou

De fato, ainda há o que melhorar. O metrô de Londres se orgulha em dizer que 50% do sistema está adaptado. É verdade, mas o dado é utilizado de forma bastante generosa. Basta olhar um mapa recente para perceber que as estações acessíveis estão fortemente concentrada nas linhas de DLR (veículo leve sobre trilho), construídas recentemente em regiões de urbanização recente (com menos usuários) e com capacidade de transporte muito menor que um trem ou metrô convencional. No centro, a área 1 do mapa, onde há mais concentração de usuários, só 11 das 53 paradas (20,8%) têm elevador ou estrutura para cadeiras de rodas.

As dificuldades de Londres, mesmo quatro anos após os Jogos, mostra como a luta por mais acessibilidade nas cidades é dura e longa. Mas é fundamental que a inspiração dos para-atletas não se limite ao desempenho esportivo, mas também em alertar que há milhões de pessoas em situação parecida apenas querendo a oportunidade de mostrar que, se um portador de deficiência pode brilhar na piscina e nas pistas, não há motivo para ele não conseguir ir sozinho à padaria ao lado de sua casa.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

O que Tóquio vai fazer para os Jogos de 2020 (e o que já tem pronto)

Shinzo Abe não é o chefe de governo mais popular do mundo. Longe disso. O primeiro ministro japonês sofre com a dificuldade de fazer a economia de seu país recuperar o crescimento e por defender ideias como o aumento no investimento militar. Mas, aos olhos do mundo, o líder da terceira nação mais rica do planeta  é um senhor simpático que topou aparecer no meio do Maracanã fantasiado de Mario. Tóquio aproveitou bem seus oito minutos durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2016, realizados no Rio de Janeiro, e deixou uma mostra do que pretendem fazer para a próxima edição, em 2020.

Pelo clima apresentado no último domingo, no Rio, a capital japonesa tentará mostrar uma cara jovem, leve e pop. Mas esse deve ser o clima e a linguagem adotada. Na organização dos Jogos em si, os japoneses estão demonstrando muito cuidado para serem austeros e olharem no passado. No caso, na Olimpíada de 1964, também realizada em Tóquio e marco para a mudança da imagem internacional do país, da nação destruída pós-guerra para a futura líder mundial no processo tecnológico e industrial.

Veja abaixo o que Tóquio prepara para receber o maior evento poliesportivo do planeta, e como muita coisa já está pronta há mais de 50 anos.

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Se quiser dar um passeio aéreo pela Tóquio de 2020, confira o vídeo abaixo, com um resumo das estruturas olímpicas da capital japonesa.

A gambiarra ajudou Olimpíada, mas não pode virar filosofia de trabalho

“Gambiarra rocks, gambiarra é maravilha, gambiarra é pura criação.”

A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2016 teve como tema oficial a cultura brasileira e a preservação do meio ambiente. No entanto, um tema subliminar foi a capacidade dos brasileiros de improvisarem, fazerem muito com pouco. Por isso, a diretora criativa do evento, Daniela Thomas, fez uma ode à gambiarra como recurso para resolver problemas. De fato, toda a Rio-2016 tem mostrado isso, mas em um nível preocupante.

Os primeiros dias olímpicos foi de muita confusão. Desde coisas ligadas ao evento em si, como filas para entradas de torcedores no Parque Olímpico até falta de comida nas arenas, até ao transporte público para as áreas de competição. No final das contas, a organização está se virando: colocaram food trucks no Parque Olímpico, aumentaram a quantidade de entradas e reduziram o rigor da revista, ampliaram o horário de operação de uma linha de metrô e criaram um bilhete unitário para o BRT olímpico.

LEIA MAIS: Rio corrige erro do bilhete olímpico, mas confusão ainda reina

Houve até elogios à capacidade de adaptação do Rio de Janeiro e constatações que foram entre “as coisas melhoraram” e “agora está funcionando”. OK, o incêndio foi momentaneamente apagado e, piscinas verdes à parte, os Jogos estão acontecendo e mostrando todas as possibilidades criadas pela cultura da gambiarra. Mas não é suficiente.

Usar o improviso para encontrar soluções é uma virtude quando surgem problemas inesperados ou imprevisíveis, mas vários erros da Rio-2016 surgiram por falhas claras de planejamento (como imaginar que as pessoas teriam fome se ficassem horas em uma arena sem lanchonete ou que o transporte olímpico precisa considerar que alguns eventos terminam perto da 0h30). O que explica muito da dificuldade em usar os Jogos como forma de trazer melhorias efetivas para a cidade. Certas coisas não são resolvidas na gambiarra.

O problema do transporte é um exemplo. Aumentar a quantidade de BRTs circulando nas áreas olímpicas e o horário de funcionamento do metrô atendem às necessidades emergenciais dos Jogos, mas não mudam o fato de que moradores de regiões como Santa Cruz, Campo Grande e Paciência, continuam se espremendo no TransOeste em trajetos que poderiam ser servidos por um modal com mais capacidade de carga. Do mesmo jeito que o monitoramento da Baía de Guanabara impediu que sardinhas descartadas por pescadores atrapalhassem regatas da vela, mas não a deixará limpa.

Grandes projetos como o legado de Jogos Olímpicos precisam de planejamento. A gambiarra fica para a bela cerimônia de abertura.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Inflação durante grandes eventos é mais nociva do que parece

É a oportunidade de ouro, quase literalmente. Um grande evento vem para a sua cidade, pessoas de todo o mundo chegam com dólares e euros para gastar. Hora de tirar a lei da oferta e da procura do bolso e elevar os preços para faturar o máximo possível.

Trata-se de uma sequência de eventos comuns em locais que recebem grandes eventos internacionais, em diversos países. Mas há um limite do bom senso, em que o reajuste se torna eticamente discutível. Um problema que se tornou recorrente no Brasil nos últimos anos, quando foi sede da Rio+20 (2012), Jornada Mundial da Juventude (2013), Copa do Mundo (2014) e Jogos Olímpicos (2015).

A Cerimônia de Abertura da Rio-2016 ocorreu nesta sexta, mas já surgiram relatos de preços extorsivos em parte do comércio e do setor de hospedagem. São notícias muito semelhantes às que vimos há dois anos na Copa do Mundo, envolvendo várias cidades brasileiras.

Preço da comida no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Preço da comida no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Por uma lógica de mercado, o comerciante está liberado para praticar o preço que quiser e, eventualmente, terá como retorno a fuga de clientes. Mas, quando quase todo um setor adota essa medida, o consumidor está cercado. No caso de turistas, mais vulneráveis pelo pouco conhecimento da área e dos preços normalmente adotados, é difícil buscar opções.

Algumas das maiores cidades brasileiras entenderam que a organização de eventos é uma fonte de renda importante, por atrair turistas, negócios e investimentos. Por isso, é preciso também trabalhar para entender que receber continuamente feiras, congressos, competições esportivas e espetáculos musicais dependem de entender o funcionamento desse setor. E elevar agressivamente os preços só afastam organizadores e visitantes. E ainda atingem os locais.

Preço dos picolés no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Preço dos picolés no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Turista não é necessariamente um estrangeiro endinheirado que aproveitou seus recursos de sobra para atravessar o mundo. Turista também pode ser alguém com dinheiro contado, pode ser um outro brasileiro e pode até ser seu vizinho. Afinal, os pontos turísticos do forasteiro são os pontos de lazer do nativo.

Na época da Rio+20, o governo federal chegou a intervir para reduzir o preço das diários dos hotéis, pois membros de delegações estrangeiras estavam desistindo de vir ao Brasil. Durante a Copa do Mundo, vários comerciantes e até donos de imóveis cobravam quantias irreais para alugar suas casas para emissoras de TVs interessadas em montar estúdios próximos a estádios ou mesmo para torcedores. Acabaram ficando na mão.

É um pouco o pensamento, alimentados pelas próprias autoridades, de achar que grandes eventos são como ganhar na loteria, o momento mágico em que chegará um dinheiro fácil e rápido para resolver a vida de todos. Seria muito melhor investir em longo prazo, e construir a imagem de uma cidade ou um país adequado para receber o resto do mundo.

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Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Era para ser um tema olímpico, virou ícone da nova Barcelona

Os Jogos Olímpicos são muito ligados às cidades em que eles são realizados. Ainda assim, é raro encontrar alguma música-tema olímpica que tenha marcado como ícone de suas sedes (na verdade, é raro alguma música-tema ficar marcada como qualquer coisa, ou você se lembra do hino de Sydney-2000 ou Atenas-2004?). Para encontrar alguma canção olímpica que acabou vinculada a um lugar, temos de voltar mais de 20 anos.

“Amigos para Siempre” virou tema quase obrigatório de festas de formatura e tem letra para lá de grudenta. Mas ela conseguiu criar uma conexão forte com Jogos de 1992 e o que eles representaram para Barcelona. O tema foi tocado na cerimônia de encerramento, com um dueto formado por Sarah Brightman e José Carreras, e virou trilha sonora de tudo quanto é clipe mostrando os grandes momentos daquela Olimpíada (até mais que outro hino do evento, “Barcelona”, interpretado por Freddie Mercury e Montserrat Caballè).

A música composta por Andrew Lloyd Webber e Don Black fala da despedida de amigos, uma amizade que a cidade de Barcelona estabelecia com o resto do mundo e que não deveria durar apenas um verão. Era essa a grande missão daquela Olimpíada: colocar a capital catalã como um dos grandes centros culturais e turísticos do planeta. Por mais grudenta e clichê que tenha se transformado, “Amigos para Siempre” simboliza esse momento.

Obs.: a letra original, com tradução em português, está aqui.

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.