Por que cassinos pagaram milhões para ter independência energética

A MGM Resorts é uma empresa de lazer e entretenimento que atinge um faturamento anual na casa de US$ 10 bilhões. Mesmo para um monstro desse, pagar US$ 87 milhões apenas para romper um contrato é bastante coisa. Ainda assim, a dona de alguns dos principais hoteis-cassinos de Las Vegas decidiu pagar esse valor para acabar com seu vínculo com a NV Energy, distribuidora de energia elétrica, para ter liberdade para usar sua própria energia e comprar o que precisar no mercado aberto.

A decisão da MGM chamou a atenção pelo montante envolvido e pela relevância da empresa (dona de MGM Grand, Mandalay Bay, Mirage e Bellagio), mas não foi isolada. A Wynn Resorts, que opera o Wynn e o Encore, desembolsará US$ 17 milhões pelo mesmo motivo. Um sinal de que o perfil do consumo e da compra de energia está mudando rapidamente.

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Devido a incentivos econômicos e de imagem corporativa de manter operações energeticamente mais eficientes, os cassinos passaram a adotar políticas para se tornarem mais verdes. Pode parecer curioso falar isso de um dos lugares que tem na iluminação artificial extravagante uma de suas marcas, mas Las Vegas também é uma metrópole no meio do deserto com vários estabelecimentos ocupando terrenos imensos. Ou seja, combinação ideal para produzir energia solar.

A MGM Resorts e a Wynn decidiram tomar esse caminho. No Mandalay Bay, por exemplo, o complexo de paineis solares será capaz de produzir 8,3 megawatts, suficiente para atender a 25% das necessidades do cassino, quando finalizado. O restante será comprado no mercado aberto, com produtores que busquem fontes alternativas e ofereçam a energia com valores que flutuam de acordo com a oferta e a procura. Por isso, era importante romper o contrato com a NV Energy.

Esses fatores podem mudar o perfil da produção e do fornecimento de energia na cidade que transformou luzes piscantes e máquinas fazendo barulho em um estilo de vida. E podem inspirar outras, com grandes consumidores produzindo a própria energia e buscando o que faltar no mercado aberto, sem o vínculo com as grandes distribuidoras.

 

Olimpíada de Tóquio já prepara seu legado: a energia do hidrogênio

A indústria tem investido no desenvolvimento de carros com energia limpa, mas esse mercado ainda sofre um obstáculo: a infraestrutura. O público desses veículos sempre será limitado enquanto houver pouca oferta de locais para reabastecimento. O Japão já tomou a dianteira nos postos de recarga de automóveis elétricos e agora quer fazer o mesmo para os movidos a hidrogênio. Mais que isso, querem usar essa tecnologia para a matriz energética do país. E pretendem usar os Jogos Olímpicos para isso.

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Criar postos de reabastecimento de hidrogênio é muito mais caro e trabalhoso que unidades de recarga para baterias, utilizadas pelos carros elétricos. Além disso, normas de segurança exigem o dobro de distância de outros edifícios na comparação com postos de gasolina tradicionais. Isso explica por que os veículos movidos a hidrogênio demoram mais para decolar (não é trocadilho com o fato de foguetes terem essa mesma fonte de energia). Era necessário um fato novo que permitisse abater o investimento nessa área. E é isso o que a Olimpíada oferece.

Algumas obras para os Jogos de Tóquio, marcados para 2020, já estão em andamento segundo uma reportagem do site norte-americano CityLab. O plano dos japoneses é fazer da Vila Olímpica um bairro todo adaptado à energia produzida por hidrogênio. Um bairro novo, com 6 mil apartamentos comercializados ao público depois das competições, é possível planejar a ocupação de espaço e a infraestrutura pensando nessa lógica. A ideia não é apenas para os veículos, mas também para a energia elétrica utilizada no bairro. Já foi separado um fundo de US$ 350 milhões apenas para isso.

Clarity, modelo movido a hidrogênio da Honda, tem seu motor convertido para bateria para iluminar árvores de Natal em, shopping de Tóquio (AP Photo/Koji Sasahara)
Clarity, modelo movido a hidrogênio da Honda, tem seu motor convertido para bateria para iluminar árvores de Natal em, shopping de Tóquio (AP Photo/Koji Sasahara)

A ideia do Japão é reforçar o papel do hidrogênio – que produz energia elétrica a partir da eletrólise do hidrogênio, um processo que não polui por ter como subproduto apenas água – na matriz energética do país. Para o país, seria uma opção interessante, pois a produção de eletricidade teve um baque com as medidas que restringem as usinas nucleares após o acidente de Fukushima, aumentando a dependência de combustível fóssil. Para piorar, todo o petróleo, carvão e gás natural usado no arquipélago precisa ser importado.

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No entanto, a escolha não é tão simples assim. Ainda que ele não seja poluente, há quem conteste a ideia de “energia limpa” do hidrogênio pelo seu processo de produção. Além disso, carros elétricos já estão mais estabelecidos – e baratos – no mercado internacional, ainda que os movidos a hidrogênio tenham mais autonomia e sejam reabastecidos/recarregados mais rapidamente. Montadoras japonesas estão entre as que mais investem nas duas tecnologias.

Ainda não dá para saber se o plano japonês dará certo. Mas usar as obras necessárias para os Jogos Olímpicos como forma de impulsioná-lo é interessante. Algo que nem todas as sedes do evento souberam fazer.

Alemanha gerou tanta energia limpa que pagou para que a usassem

Uma hora da tarde em durante o fim de semana é um dos momentos em que menos se consome energia elétrica durante a semana. Mas alguns alemães que faziam isso no último domingo tiveram uma boa notícia: gastar energia foi lucrativo. Tudo porque, perto da hora do almoço, o país teve um momento que uniu sol e ventos fortes.

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O clima criou uma condição extraordinária para as usinas de energia eólica e solar. Houve um pico de produção e o sistema recebeu 55 GW de energia renovável – que ainda considera produção hidrelétrica e biomassa –, 87% dos 63 GW que eram consumidos no país naquele momento. Com o excesso de oferta e a falta de procura, o preço da energia despencou durante quase toda a tarde, chegando a valores negativos. Ou seja, o gerenciador do sistema pagou para a energia ser utilizada.

Flutuação de geração, consumo e preço da energia no fim de semana na Alemanha (Quartz/Agora Energiewende)
Flutuação de geração, consumo e preço da energia no fim de semana na Alemanha (Quartz/Agora Energiewende)

Parece uma ótima notícia: a produção de energia limpa é forte e o custo flutuante da energia funcionou ao ponto de ficar negativo quando houve pico de oferta. Mas não é bem assim. O estranho fenômeno do último domingo expõe alguns ajustes que o sistema precisa.

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De fato, a Alemanha tem bons motivos para se orgulhar de seu estágio no desenvolvimento sustentável. Em 2015, os alemães tiveram recorde de produção e exportação de energia renovável. Cerca de 33% da eletricidade consumida no país veio de fontes limpas e o preço do quilowatt/hora teve queda média de 10%. A meta do governo é que 100% da energia seja renovável até 2050.

Manifestação do Greenpeace em favor de energia limpa diante do Portão de Brandemburgo, em Berlim (AP Photo/Michael Sohn)
Manifestação do Greenpeace em favor de energia limpa diante do Portão de Brandemburgo, em Berlim (AP Photo/Michael Sohn)

O problema é que o sistema ainda não é flexível. Usinas de gás conseguem reduzir ou interromper bruscamente sua produção durante uma alta repentina de energia renovável, mas outras fontes “tradicionais”, como nuclear e carvão, não têm a mesma capacidade. Com isso, elas seguem sua operação normal, mantendo o consumo de recursos naturais e criando superoferta de energia no mercado – que acabou levando ao preço negativo.

Outro lado ruim é que o usuário comum não tem a conta de luz condicionada às flutuações do preço da energia. Para ele, a baixa repentina do último domingo teve efeito muito pequeno. Os principais beneficiados foram as indústrias.

Fica para o próximo dia de sol e vento forte.

Franceses pretendem fazer 1.000 km de pavimentos com painéis solares

O que? A ministra de meio ambiente, desenvolvimento sustentável e energia (aliás, que ótima ideia juntar energia, desenvolvimento e meio ambiente na mesma pasta) da França, Ségolène Royal, anunciou que o governo francês pretende pavimentar 1 mil km de pistas com painéis solares desenvolvidos especialmente para suportar o tráfego de veículos. Uma iniciativa que, se trouxer os resultados previstos, pode ajudar a mudar o perfil energético do país.

Sem necessidade de reconstruir a pista

A França é um dos países que mais dependem de energia nuclear no mundo. Em 2012, o presidente François Hollande anunciou um plano para baixar de 75 para 50% a participação dessa fonte na matriz energética do país até 2025. Uma meta ousada, mas que ainda deixaria os franceses dependendo demais de usinas atômicas. Mas um passo importante para atingi-la pode estar a caminho: a transformação de estradas em superfícies para produção de energia solar.

A ministra de meio ambiente, desenvolvimento sustentável e energia do país, Ségolène Royal, anunciou no final de janeiro o projeto de instalar pavimentos de painéis solares em mil quilômetros de pistas. Para isso, o governo francês conta com o desenvolvimento do Wattway, um sistema de painel solar capaz de suportar o tráfego de veículos de grande porte (como caminhões e ônibus) e fornecer energia para 5 mil pessoas a cada quilômetro.

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A tecnologia, desenvolvida pela empresa Colas, é composto por painéis fotovoltaicos de silicone policristalino de 7 mm de espessura. O material pode ser colocado diretamente sobre o pavimento já existente, dispensando a reconstrução das pistas e mantendo a aderência necessária para a circulação dos veículos.

Caminhão passando sobre pavimento de painéis solares (Joachim Bertrand/Divulgação Colas)
Caminhão passando sobre pavimento de painéis solares (Joachim Bertrand/Divulgação Colas)

 

Os recursos para viriam de impostos sobre os combustíveis, que levantariam de € 200 a 300 milhões para diversos projetos de melhoria das estradas. A ministra Royal considera que, dessa forma, o impacto da taxa seria menor. Como o valor do petróleo está caindo no mercado internacional, a taxa absorveria a queda do preço final da gasolina e do diesel.

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Se a meta inicial de mil quilômetros for atingida, as estradas produziriam energia suficiente para abastecer a casa de 5 milhões de pessoas, equivalente a 8% da população francesa. Mas, se houver sucesso no projeto, ele pode ser ampliado para cobrir uma parcela maior dos 1,03 milhão de quilômetros da malha rodoviária francesa. Isso não significa que toda a energia da França seria produzida nas vias, pois a contagem do potencial de abastecimento não considera a energia gasta por aquecedores e, principalmente, no uso em indústrias. De qualquer modo, poderia ajudar bastante na meta de redução de energia nuclear.

O projeto francês não é o primeiro nessa linha. Em 2015, a cidade holandesa de Krommenie fez uma faixa de 100 metros de pavimento de painéis solares em uma ciclovia. Os resultados foram melhores que o esperado, mas a tecnologia utilizada é mais custosa que a francesa, pois exige a reconstrução do piso.