Crescem casos de bullying contra alunos judeus nas escolas alemãs

School children attend a religious ceremony and observe a minute of silence at the Jewish school Kerem Menahen in Nice

A cada ano, uma média de dez estudantes judeus pedem transferência na Alemanha, deixando a rede pública para ingressar em alguma escola judaica privada. O motivo: bullying. Esse número se sustenta nos últimos anos, e reflete um perigoso crescimento nos casos de antissemitismo nas instituições de ensino alemãs.

A maior parte dos responsáveis pelos ataques seriam colegas de origem árabe e turca (mas nenhum caso registrado de refugiado, diga-se). O tema ficou particularmente preocupante porque, na última semana, até uma escola de Berlim que participa de um projeto contra o racismo no sistema educacional alemão acabou envolvida após a saída de um aluno judeu de 14 anos.

Como esta sexta (7) foi Dia Nacional de Combate ao Bullying, fiz uma nota com mais detalhes sobre esse caso no site da Gestão Escolar.

Adotar o mapa descolonizado vale pela intenção, mas também não é a solução ideal

O mapa é mais do que uma ilustração da superfície de um lugar, ele é a própria imagem que fazemos desse lugar. Pode parecer uma diferença sutil, mas não é. Isso embute uma série de conceitos na nossa cabeça, desde orientação geográfica até a forma de visualizar acontecimentos históricos ou a realidade social. Foi com base nisso que Hayden Frederick-Clarke, professor de competências culturais de educação de Boston, decidiu trocar os mapas mundi das escolas públicas da cidade.

Como é comum em vários lugares, incluindo o Brasil, as salas de aula de Boston adotavam o mapa com a projeção Mercator. Ela foi criada em 1569 para a navegação, mas se tornou uma das mais conhecidas e acabou consagrada por ser de fácil visualização. O problema é que ela distorce loucamente a área de territórios localizados em latitudes altas.

Mapa político na projeção Mercator
Mapa político na projeção Mercator

Desse modo, a Mercator apresenta a América do Norte, a Rússia e a Europa muito maiores do que realmente são na comparação com locais próximos ao Equador, como América Latina, África e Sul da Ásia. Por exemplo, a Groenlândia parece maior que a América do Sul, quando, na verdade, ela tem apenas 12,2% da área do continente. Por isso, essa versão de mapa mundi foi considerada muito eurocêntrica e colonialista, privilegiando, ainda que sem ter esse objetivo inicial, os países desenvolvidos.

LEIA MAIS: Um site para você não se enganar com as distorções da projeção Mercator

Entre as diversas projeções do planeta já criadas, a Gall-Peters teve como objetivo justamente corrigir distorções na área. Assim, ela apresenta cada continente, cada país, com a proporção correta de sua área, mostrando como países latino-americanos e africanos são realmente grandes (veja acima um mapa Gall-Peters com traços da Mercator em cima). E foi o mapa escolhido pela rede de ensino de Boston.

A intenção é boa e a mensagem é bastante válida. Mas a adoção dessa medida precisa vir acompanhado de aviso sobre os princípios desse mapa. Para igualar a proporção da área em cada parte do globo, a projeção Gall-Peters achata os territórios próximos aos polos e estica na região do Equador. Veja como fica na ilustração abaixo:

Ilustração mostrando as distorções da projeção Gall-Peters
Ilustração mostrando as distorções da projeção Gall-Peters

Em princípio, isso não chega a ser muito problemático. Mas, em um mapa com as divisões políticas, há óbvias distorções no desenho de cada país.

Mapa mundi na projeção Gall-Peters com a divisão política
Mapa mundi na projeção Gall-Peters com a divisão política

O Brasil é um dos melhores exemplos desse problema. O país aparece bastante alto e relativamente magro, sendo que, na verdade, a distância entre os pontos extremos leste-oeste (4.394 km) é ligeiramente maior do que a norte-sul (4.319). E é possível interpretar que uma imagem de um Brasil “alto” favorece a visão de que o eixo de desenvolvimento do país precisa ser nesse sentido, seguindo a costa, sem tanta necessidade de se preocupar com o interior (sobretudo regiões Norte e Centro-Oeste).

Além disso, outro problema dessa projeção é que, se usada para visualizar apenas as nações, ela simplesmente mostra um desenhos bastante errado. No final das contas, é uma informação incorreta também, e isso tem de ser considerado pelo professor ou por quem for usar o mapa para ensinar ou explicar algo.

Solução? Não há nenhuma perfeita. Todas as projeções de mapas têm algum nível de distorção, simplesmente porque não é possível passar a superfície de uma esfera para um plano sem fazer adaptações. Cada amante de mapa gosta mais de uma versão, e há quem considere que isso até diz muito sobre a personalidade de cada um. Eu gosto da Winkel-Tripel.

Por que cidades texanas gastam tanto construindo estádios para torneios escolares

Estádio para futebol americano escolar em Allen, Texas (AP, via Extratime)
Estádio para futebol americano escolar em Allen, Texas (AP, via Extratime)

Todo amante de futebol americano já sabe: “Texas” significa “amigo”. Mas, se fôssemos usar uma palavra para representar o lugar, teria de ser “grandiosidade”. Não é apenas pelo tamanho de seu território, o segundo maior entre os estados americanos, mas também pelo apreço dos locais em coisas grandes e até megalomaníacas. Não à toa, a maior arena da NFL é a do Dallas Cowboys, com 105 mil lugares. Mas um sinal de como texanos gostam de exagerar pode ser visto mesmo é no futebol americano de ensino médio. No mês passado, a cidade de McKinney começou a construção de um estádio de 12 mil lugares e US$ 87 milhões de custo para três times de high school.

Os números já dão sinais de extravagância, mas eles ficam ainda mais impressionantes se considerarmos que a cidade já tem um estádio de futebol americano para ensino médio, o Ron Poe, que foi reformado há apenas dez anos e tem 10 mil lugares. Pior, mesmo o estádio antigo nunca recebeu um público acima de 5 mil pessoas. Ou seja, o estádio atual, que recebeu investimento de US$ 10 milhões em reforma, nunca teve nem 50% de ocupação. Por que construir outro?

Poderia ser alguma fascinação de McKinney, mas o fenômeno é mais amplo. Outras cidades na Grande Dallas seguem o mesmo caminho: Plano pagou US$ 20 milhões por um estádio de 9,8 mil lugares em 2004, Allen bancou US$ 72 milhões para uma arena de 18 mil lugares (foto acima) e Frisco desembolsou US$ 90 milhões no complexo de treinamento dos Cowboys, que inclui um campo coberto com 12 mil lugares para o time da NFL e as equipes colegiais. Nenhum desses empreendimentos – nem o CT dos Cowboys – se justifica como investimento para as cidades.

A questão é mais complicada. Pela lei texana, os distritos escolares – instituições que gerenciam o ensino público, mas são independentes das prefeituras, dos condados ou dos estados – podem convocar referendos para aprovar a emissão de títulos da dívida de seus municípios como forma de captar recursos. No entanto, todo o dinheiro arrecadado nesse processo precisa ser gasto em equipamentos, construção de novas estruturas, reforma de estruturas antigas ou compra de terreno. Ou seja, essa verba não pode ser utilizada para fins diretamente educacionais, como melhorar o salário de professores, contratar novos professores ou melhorar o sistema de transporte para os alunos. Medidas necessárias para o estado que ocupa apenas a 38ª posição no ranking de qualidade de ensino nos EUA.

Claro, os distritos poderiam investir em melhoria em ampliação ou reforma das escolas, mas gastar com estádios tem mais apelo. Primeiro, porque a proposta de um estádio tem mais chance de aprovação no referendo, definido por eleitores de alto poder aquisitivo (são cidades ascendentes). Segundo, porque as próprias prefeituras querem na competição entre elas por novos empreendimentos.

Essa faixa de municípios ao norte de Dallas tem recebido muitos investimentos imobiliários e aumento da população. Ter estádios grandiosos, ainda que apenas para ficarem vazios em partidas de ensino médio, impressiona as pessoas que pretendem morar na região e estão escolhendo alguma cidade. Imaginar que seu filho pode jogar futebol americano em um enorme estádio tem seu apelo – ainda que, no final das contas, saia caro no bolso.

Olha o que os livros ensinavam sobre diferenças raciais aos nossos avós

Há racismo no Brasil, sempre houve. Talvez hoje ele se mascare de outra forma, mas o preconceito já foi algo aberto e institucional. Um exemplo veio de um achado do músico, jornalista e remista Lucas Berredo, amigo de jornadas automobilísticas. Sua prima estava vasculhando objetos que pertenceram ao avô e encontrou um livro didático de geografia e história publicado em 1936. Uma obra que revela muito sobre sua época.

Na página 17, o material mostra a seus leitores a diferença entre raças. A “raça branca” é descrita como “mais intelligente, activa, perseverante, emprehendedora e civilizada de todas”. Os “amarellos” são “intelligentes, perseverantes e emprehendedores”, mas não fala nada em civilizado e “activo”. E os negros… bem… eles “estão muito mais atrasados que os precedentes”.

Definições raciais em livro didático de 1936 (Lucas Berredo)
Definições raciais em livro didático de 1936 (Lucas Berredo)

Essas palavras são de revirar o estômago (e não vou gastar linha contra-argumentando esse horror), mas é ainda mais assustador imaginar que isso era usado como material didático no primário (atual ensino fundamental I), para crianças que não tinham repertório para contestar. O livro é colocado como referência para alunos que fossem realizar o exame de admissão no curso secundário ou “commercial”.

O papel desgastado pode até enganar, mas não faz tanto tempo que essas páginas eram usadas em sala de aula: o livro tem 81 anos, e teve novas edições depois. Ou seja, há pessoas ainda vivas que foram educadas dessa forma. Que elas tenham sabido fugir dessa “lição” para não repassá-la para frente.

Não mencionei o nome do livro e de seu autor propositalmente.

Terceirização afasta crianças sem residência fixa de escolas nos EUA

A quantidade de sem-teto cresceu acentuadamente nos Estados Unidos nos últimos dez anos, consequência natural de uma crise econômica que teve como epicentro o mercado imobiliário. Isso traz diversos problemas sociais lógicos, e alguns deles talvez sejam sentidos ainda em longo prazo. Caso de precarização da educação para as crianças que deixaram de ter uma residências fixa.

Um estudo mostrou como esses estudantes têm mais dificuldades para entrar em alguma charter school (escola administrada por uma instituição terceirizada, que recebem verba pública para isso) do que em uma escola pública normal em Nova York. A pesquisa, realizada pela NYS-Teachs (Centro de Assistência Técnica e Educacional para Estudantes Sem-Teto do Estado de Nova York), mostra que há 99.196 alunos sem residência fixa em escolas públicas, cerca de 10% do total. Em charter schools, o índice cai para 7%.

O modelo da escola não deveria causar diferença, pois ambas são bancadas pelo estado. A diferença é que, em uma, o poder público efetivamente gerencia a escola, e em outro ele paga para alguém gerir. Do ponto de vista acadêmico, as charters tendem a ser mais rigorosas com a frequência dos alunos. Mas o problema principal está nos procedimentos burocráticos adotados nos dois tipos de instituições.

As charter schools são mais procuradas pelos pais. Dessa forma, ela realiza sorteios em abril para definir os estudantes do ano letivo seguinte, que começa no final de agosto ou em setembro. No entanto, uma família sem residência fixa acaba mudando muito de um lugar para outro, entre abrigos, hoteis baratos ou casa de outros familiares. Com isso, ela pode se inscrever para o sorteio da escola terceirizada em abril e, quando o ano letivo começa, estar morando do outro lado da cidade. O estudo da NYS-Teachs apontou que 50% das crianças sem-teto estudam em bairros diferentes de onde suas famílias vivem.

Isso não impede a criança de ficar com a vaga, mas o transporte escolar tem dificuldade de lidar com essas situações e muitos estudantes levam até duas horas para chegar à escola – e mais duas para voltar. Com isso, os pais teriam de pedir transferência do filho para alguma instituição próxima de seu novo endereço, mas é uma tarefa burocraticamente difícil. As escolas públicas têm muito mais flexibilidade para aceitar alunos que mudam de endereço durante o ano letivo.

A falta de estabilidade afeta o desempenho escolar das crianças. Uma pesquisa do Institute for Children, Poverty and Homelessness (Instituto para Criança, Pobreza e Falta de Moradia) revelou que alunos em residência temporária tem o dobro de chance de faltarem constantemente às aulas e três vezes mais chances de serem transferidos durante o ano letivo. As notas, compreensivelmente, são mais baixas na média.

Os números se referem a Nova York, mas a realidade é semelhante em todo o país. Por isso, já surgem iniciativas para facilitar a ida de crianças sem-teto para a escola. Na Flórida e na Carolina do Norte, entidades ajudam esses alunos a terem transporte especial e outros tipos de assistência educacional. Em Nova York, uma instituição que gerencia uma charter school atenua o efeito colateral do modelo das escolas terceirizadas reservando um terço de suas vagas a estudantes que não tenham residência fixa.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.