O turismo no Rio sem Reveillón e Carnaval

Desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro (Flickr / Terry George)

A indústria do turismo foi uma das mais afetadas com a pandemia de coronavírus, e, para a retomada, muitas empresas e operadoras apostam em viagens que permitam ao turista ter experiências mais isoladas ou em ambientes mais controlados. Mas como fazer se a essência de algum destino é a aglomeração de pessoas? É o problema que o Rio de Janeiro vem enfrentando em um mundo em que é recomendável evitar a folia do Carnaval, passar o Reveillón com uma multidão na praia ou mesmo fazer rodas de samba na calçada.

Uma reportagem de Ana Paula Grabois para o El País mostra a situação do setor cultural carioca. De acordo com o site, bares e restaurantes teriam fechado 9 mil dos 110 mil (8,2%) postos de trabalho no Rio de Janeiro. No setor hoteleiro o cenário seria ainda pior: 20% de cortes.

A crise também chegou às escolas de samba, que fecharam seus ensaios no que seria a época de escolha dos sambas-enredo para o ano seguinte, sempre um período em que a comunidade se mobiliza e os barracões enchem. No meio, não se imagina realizar o Carnaval de 2021 sem a chegada da vacina. Um adiamento da festa é possível, mas mesmo para isso haveria limite, pois poderia prejudicar a preparação apra 2022.

Vale a pena ver a reportagem completa neste link.

Um mapa que mostra a marca mais valiosa das principais economias do mundo

Qual a marca mais valiosa do mundo? De acordo com a Fortune, o Google ultrapassou a Apple nessa disputa em fevereiro. Essa é uma resposta relativamente fácil de encontrar, pois essa medição é feita periodicamente por veículos que cobrem economia e negócios. Mas qual é a marca mais valiosa de cada país? Qual a do Brasil? Petrobrás? Itaú? Bradesco? Rede Globo? Biscoitos Globo?

O site How Much responde a essa pergunta da melhor maneira possível: com um mapa. Eles utilizaram dados da Brand Finance para elaborar essa ilustração, com as dimensões geográficas dos países seguindo a proporção do valor de sua principal marca.

Os Estados Unidos (Google, claro) seriam o maior país do mundo, mas a China ficaria atrás dos vizinhos Coreia do Sul (Samsung) e Japão (Toyota). A Holanda (Shell) está na frente de França (Orange), Itália (Enichem) e Reino Unido (Vodafone). E o Brasil? Bem, o Itaú nos deixaria atrás do México (Pemex) como maior nação latino-americana.

Em relação a atividades econômicas, os bancos dominam, com oito empresas como maior marca de nações. Em seguida está o setor petrolífero/energia, com sete. A internet tem apenas um, nos EUA, mas isso é compreensível: a maior parte das potências da área são norte-americanas e ficam ofuscada pelo Google.

Abaixo está o mapa completo. Para ver em um tamanho maior, clique aqui.

Mapa_Marcas mundiais

Como a economia de Oakland explica a trajetória dos times profissionais locais

Torcedor dos Raiders pede para o time não se mudar de Oakland (Stay in Oaktown / Facebook)
Torcedor dos Raiders pede para o time não se mudar de Oakland (Stay in Oaktown / Facebook)

Ainda não se sabe por quanto tempo, mas há elementos de sobra para cravar que o Oakland Raiders como conhecemos está com os dias contatos. A franquia está em negociações abertas em busca de um novo estádio e dificilmente haverá algum arranjo que faça o time permanecer na cidade onde vive desde 1995. A candidata mais forte é Las Vegas, ainda que os últimos acontecimentos afastaram a equipe da terra dos cassinos. San Antonio também já conversou com a direção da equipe e até uma mudança bizarra para San Diego (ex-terra do rival Chargers) foi cogitada. Só a continuidade na Baía de São Francisco parece descartada.

Se ou quando isso se concretizar, Oakland dará mais um passo para seu enfraquecimento esportivo. Afinal, já está certo que, em 2019, o Golden State Warriors inaugurará um novo ginásio em São Francisco. Há até especulações de que o time voltaria a se chamar San Francisco Warriors, reforçando a identificação com a nova casa – e se afastando ainda mais da antiga. De repente, Oakland perderia um time que ensaia uma dinastia no basquete e uma das equipes mais tradicionais e de personalidades mais marcantes no futebol americano.

A história do esporte em Oakland tem ligação direta com a dinâmica da economia da região. São Francisco foi a primeira metrópole no litoral norte da Califórnia e sua vizinha, do outro lado da baía, servia apenas como cidade-dormitório para quem não tinha dinheiro para viver perto do trabalho ou para indústrias. Na década de 1960, o cenário mudou. O aumento do uso de contêineres exigiu reforma e ampliação nos portos, e São Francisco não tinha como adaptar o seu. Melhor para o Porto de Oakland, que rapidamente se tornou o principal do estado.

Oakland não deixou de ser uma cidade operária para a rica São Francisco, mas passou a ter uma força econômica própria. O dinheiro do porto atraiu mais empresas, que atraiu mais gente e, no final das contas, atraiu mais times profissionais. Na NFL, o Oakland Raiders foi fundado em 1960 (entre 1982 e 94, jogou em Los Angeles). Na MLB, o Kansas City Athletics se mudou para a Califórnia em 1968. Na NBA, o San Francisco Warriors pegou a Bay Bridge, ponte que atravessa a baía, e se tornou o Golden State em 1971.

Coliseum, casa de A’s e Raiders, ao lado da Oracle Arena, ginásio dos Warriors (Flickr / Shawn Clover)
Coliseum, casa de A’s e Raiders, ao lado da Oracle Arena, ginásio dos Warriors (Flickr / Shawn Clover)

Desde então, muita coisa mudou. O Porto de Oakland perdeu relevância para o de Los Angeles e o de Long Beach e os problemas urbanos passaram a dominar a cidade, tida como uma das mais violentas dos Estados Unidos. Não era mais um ambiente animador para se investir em esportes, ainda mais porque as arenas esportivas já estavam mais do que defasadas. Uma hora a corda ia romper e algumas acabariam migrando.

Neste século, a Baía de São Francisco enriqueceu assustadoramente devido às empresas de tecnologia. O centro disso era São Francisco e a região de San José, ao sul da baía, apelidado de Vale do Silício. Há potenciais torcedores com dinheiro sobrando nesses lugares e, principalmente, empresas e empresários dispostos a patrocinar ou comprar camarotes corporativos de equipes profissionais. Para os Warriors, uma equipe que virou a queridinha dos novos-ricos de São Francisco, atravessar a baía de novo era uma decisão óbvia. Alguma franquia também acabaria buscando o Vale do Silício, que só era representado pelo San Jose Sharks, da NHL. O San Francisco 49ers tomou a dianteira e se mudou para Santa Clara, ainda que tenha mantido seu nome. Essa mudança dos Garimpeiros impediu qualquer movimentação dos Raiders que não fosse a luta por um estádio novo na sua atual sede (a prefeitura e a população rejeitaram financiar) ou partir para outra região metropolitana.

Dessa forma, Oakland provavelmente ficará apenas com os Athletics. E o time, que já tentou se mudar para Santa Clara (o San Francisco Giants barrou por ser o “dono” da área de San José/Santa Clara na divisão de mercados da MLB), dá sinais de que vai ficar. A diretoria até já anunciou que procura investidores para bancar um novo estádio sem uso de dinheiro público. Uma atitude e um comprometimento local muito diferente do visto com Warriors e Raiders. Mas faz sentido.

Sem ter de dividir os torcedores – e os dinheiro de patrocinadores locais – com outras duas franquias, os A’s estarão em situação privilegiada dentro de sua cidade. Além disso, todo o dinheiro que a tecnologia injetou em São Francisco e no Vale do Silício começou a chegar a Oakland. Claro, empresas do setor querem abrir sedes no norte da Califórnia, onde está boa parte da cadeia produtiva dessa indústria, e algumas já começam a buscar a cidade mais desvalorizada da região em busca de imóveis baratos. Um exemplo é o Uber, que inaugurará uma sede gigantesca em Oakland em 2018.

Assim, as perspectivas em longo prazo são relativamente boas para a economia da cidade. O boom trazido pelo porto nos anos 60 talvez não voltem, mas a fama de cidade violenta e sem esperança deve acabar. Os A’s perceberam isso e já se articulam para aproveitar a oportunidade, ainda mais com seus vizinhos de basquete e futebol americano indo embora.

Veja uma empresa americana até a medula mostrando seu patriotismo. Só que não

Difícil encontrar alguma empresa mais americana que a Redneck Riviera. A começar pelo nome, que exalta o glamour do interiorzão dos Estados Unidos. Mas não é apenas aí. Um dos principais garotos-propaganda desse fabricante de botas e roupas é John Rich, ídolo da música country e uma das celebridades mais entusiasmadas na defesa do jeito americano de ser (e também na do Partido Republicano). E, diacho, olha na imagem acima como é a home do site deles.

Em um momento em que o presidente dos Estados Unidos fala em fechar toda a fronteira com o México e em taxar mais os produtos fabricados no vizinho do sul para valorizar a indústria legitimamente americana, nada como dar uma olhada na loja online da Redneck Riviera. Donald Trump ia gostar dessa atitude.

Bem, uma passada rápida no catálogo de roupas femininas já deixa evidente o quanto eles amam os Estados Unidos. Só de ver essas estampas e já dá para ouvir ao fundo um “Oh, say can you see…”.

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Mas a Redneck Riviera quer que o americano seja americano da cabeça aos pés. E as botas não devem nada às roupas. Para texano nenhum botar defeito.

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Vamos olhar umas botas masculinas. Um modelo me chamou a atenção. Tem uma águia desenhada na frente, mais americana que comer um cachorro quente enquanto vê um jogo de beisebol.

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O preço pode soar salgado em reais, mas ela deve valer isso tudo. Basta olhar as especificações. Mas… espera aí! O que é aquilo no final? “Fabricado em León, México”. COMO ASSIM?????

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Deve ser alguma confusão, um produto especialmente para mexicanos. Afinal, a águia também é um símbolo do México, né? Até está na bandeira. Talvez por isso esteja um pouco mais barata. Vamos ver uma outra, com nome de patriótica e estrelas no cano.

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Bonitona. Essa aí certamente é fabricação americana. Nashville? San Antonio? Oklahoma? Talvez Mississippi. Mas… mas… mas… León de novo?

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Assim não dá! Vamos voltar às botas femininas, lá dava para ver o patriotismo americano exalando pelos poros. É calçar a bota e já sair recitando a Declaração da Independência. Olha só essa, até se chama “Bota da Liberdade”.

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Sem dúvida, é com uma dessa que Sarah Palin sai quando pega sua espingarda e vai caçar algum alce nos bosques do Alasca. Deve ser “Handcrafted in Idaho”, no máximo em Montana.

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De novo, León. Está desanimando. Última chance: a bota de franjinha. Os caras não ousariam desamericanizar a bota de franjinha. Afinal, é uma bota. E tem franjinha! Os americanos amam tanto isso que fizeram até a camisa mais feia da história do futebol só porque queriam botar franjinha de algum jeito.

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Fazer essas franjinhas deve ter encarecido a bota, mas é tão americana quanto o discurso de Bill Pullman na caçamba de uma caminhonete em Independence Day (e aqueles alienígenas achavam que conquistariam o planeta em um 4 de Julho, tolinhos…).

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MÉXICO DE NOVO!!! Ah, esses patriotas americanos já foram melhores…

O post acima contém altas doses de ironia. A Redneck Riviera, como qualquer empresa, tem o direito de abrir suas fábricas onde quiser, desde que dentro dos limites permitidos pela lei. Afinal, há algo mais americano do que buscar reduzir o custo de produção para aumentar sua competitividade em um ambiente capitalista? Até Donald Trump sabe disso.

Rio precisa conquistar mais turistas, não cobrar imposto dos que já tem

Marcelo Crivella não deu detalhes, pois ainda é uma ideia embrionária, mas já mostrou a intenção de colocar na conta do turista uma parte das medidas de recuperação do caixa da cidade. O novo prefeito do Rio de Janeiro afirmou que estuda criar uma taxa de “R$ 4 ou 5” para quem se hospedar na cidade. Uma iniciativa simplista, imediatista e, principalmente, potencialmente nociva.

Esse imposto para turistas não é novidade no mundo. Ele é cobrado em cidades italianas (imposta di soggiorno) e francesas (taxe de séjour) e em estados norte-americanos (occupancy tax), por exemplo. Crivella, inclusive, usou o fato de ser cobrado “no mundo inteiro” como argumento para defender a criação de um similar carioca. Mas isso não torna a ideia mais válida ou mais adequada, simplesmente porque a realidade desses lugares é diferente.

Com 6,43 milhões de visitantes estrangeiros, o Brasil foi apenas o 43º destino turístico mais procurado no mundo em 2014 de acordo com o ranking da Organização Mundial do Turismo. O cenário melhorou em 2016, com 6,6 milhões de turistas (o que não deve resultar em uma subida considerável no ranking, diga-se), mas o turismo representa apenas 0,3% do PIB nacional, um percentual menor que o do Iraque. Isso já mostra quanto o país tem potencial para crescer nesse setor, sobretudo considerando o apelo que possui em várias áreas e à boa avaliação (não na organização, mas na hospitalidade) como anfitrião de eventos como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos.

O Rio de Janeiro deveria se concentrar em atrair mais gente, em convencer milhares ou milhões de turistas a irem à Cidade Maravilhosa ao invés de buscarem destinos como Tailândia, México ou África do Sul (países à frente do Brasil no ranking da OMT). Esses turistas deixariam seu dinheiro no comércio, na bilheteria em atrações turísticas e, no final das contas, reforçariam o caixa da prefeitura e do governo estadual.

O problema é que isso dá trabalho. Seria necessário montar uma estratégia para elevar ainda mais o Rio como destino internacional, aumentando a promoção (propaganda) no exterior, desenvolvendo mais as atrações existentes na cidade (melhorando as que existem e criando novas) e atacando os pontos negativos do ponto de vista do turista (violência, desorganização nos serviços públicos, zika). Ao cobrar um imposto, por mais baixo que ele pareça, só se cria uma atitude antipática que pode atrapalhar na hora de um visitante escolher entre o Rio ou outro destino.

Itália, França e Estados Unidos não precisam se esforçar tanto para convencer o turista. Esses países ocupam três das cinco primeiras posições no ranking da OMT, sinal de que sua indústria do turismo já está bem estruturada e várias de suas atrações turísticas são conhecidas mundialmente. Pessoas de todos os cantos do globo têm como sonho conhecer lugares como o Coliseu, a Torre Eiffel e o Grand Canyon, comer uma legítima massa italiana, tomar um vinho francês recém-saído do barril ou tirar uma foto com o Mickey Mouse. E elas se dispõem a pagar uma taxa para cada noite dormida se for o caso.

O pior é que o tal imposto teria pouco efeito prático no caixa municipal. O Rio de Janeiro recebeu 1,9 milhão de turistas estrangeiros em 2014, segundo o Euromonitor. Se cada um pagar os tais “cinco reais” mencionados por Crivella, seriam R$ 9,5 milhões. Se a taxa for cobrada por noite dormida – como é na Itália, na França e nos EUA -, o ganho seria de R$ 113,05 milhões. Se a taxa for para todos os turistas, estrangeiros e os 7,3 milhões vindo de outras regiões do Brasil, a arrecadação seria de R$ 46 milhões para a cobrança única e R$ 259,05 milhões para a cobrança diária.

As contas acima consideram quatro dias de estadia média para o turista brasileiro e 11,9 para o estrangeiro, números levantados em pesquisa contratada pela TurisRio.

O imposto seria até justificável como atitude para resolver um problema imediato, mas ele está longe de resolver o problema de caixa da prefeitura. Os números parecem altos, sobretudo os R$ 259 milhões, mas são nanicos perto do orçamento do município (R$ 29,5 bilhões) e do gasto com dívidas (R$ 1,3 bilhão) previstos para 2017. E, se a medida em si não resolve, vale mais a pena fazer o turismo trazer dinheiro como uma atividade econômica em crescimento, e não como taxa para seus consumidores.

O retrato de uma Buenos Aires sob os efeitos da crise

O mundo anda em uma fase de descrença da população com as autoridades tradicionais e a capacidade delas de melhorar a vida das pessoas. O mau humor dá o tom quando se fala de política, por exemplo. Mas já houve momentos piores, sobretudo para os latino-americanos. A segunda metade da década de 1980 teve crise econômica atrás de crise econômica em vários países, hiperinflação era comum, greves gerais ocorriam com constância e após uma ou outra revolta popular, pintavam manchetes chamando algum lugar de “cidade da fúria”. Tudo por causa de Buenos Aires, e de uma música que assim batizou aquele momento da capital argentina.

A virada da década foi cruel com os argentinos. O Plano Austral, pacote econômico que criou uma nova moeda (o austral) em 1985, começou a fazer água em 1987. No ano seguinte, o governo de Raúl Alfonsín decretou moratória e, em 1989, o Banco Mundial suspendeu a ajuda ao país. A inflação, que já era alta, disparou: foi de 9,6% em fevereiro para quase 200% em julho. No total, o aumento de preços somou 3.079% em 1989 e 2.314% em 1990. Era esse o clima do país quando a banda Soda Stereo gravou o álbum Doble Vida, que teve como primeiro single “En la Ciudad de la Furia”.

A música é uma alegoria em que um homem alado representa os jovens portenhos. Eles tentam voar e se sentem cada vez mais amarrados e sem perspectivas em uma sociedade nervosa e tensa com sua situação (Nada mudará / Com um alerta de curva / Em suas caras vejo o temor / Já não há fábulas / Na cidade da fúria). O cenário se torna tão crônico que é tratado quase como um destino, algo incontornável (Buenos Aires se vê / Tão suscetível / É o destino de fúria / O que persiste em suas caras). No final, fica ainda um suspiro de esperança de que um dia chegará a vez dessa juventude (Me verá voltar…).

“En la Ciudad de la Furia” talvez tenha sido a principal composição de Gustavo Cerati, um dos maiores nomes da história do rock latino-americano. O guitarrista faleceu em 2014, após passar quatro anos em coma como consequência de um AVC sofrido em Caracas.

Veja o clipe de “En la Ciudad de la Furia”, do Soda Stereo. Aqui está a letra, com tradução.

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.

Inflação durante grandes eventos é mais nociva do que parece

É a oportunidade de ouro, quase literalmente. Um grande evento vem para a sua cidade, pessoas de todo o mundo chegam com dólares e euros para gastar. Hora de tirar a lei da oferta e da procura do bolso e elevar os preços para faturar o máximo possível.

Trata-se de uma sequência de eventos comuns em locais que recebem grandes eventos internacionais, em diversos países. Mas há um limite do bom senso, em que o reajuste se torna eticamente discutível. Um problema que se tornou recorrente no Brasil nos últimos anos, quando foi sede da Rio+20 (2012), Jornada Mundial da Juventude (2013), Copa do Mundo (2014) e Jogos Olímpicos (2015).

A Cerimônia de Abertura da Rio-2016 ocorreu nesta sexta, mas já surgiram relatos de preços extorsivos em parte do comércio e do setor de hospedagem. São notícias muito semelhantes às que vimos há dois anos na Copa do Mundo, envolvendo várias cidades brasileiras.

Preço da comida no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Preço da comida no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Por uma lógica de mercado, o comerciante está liberado para praticar o preço que quiser e, eventualmente, terá como retorno a fuga de clientes. Mas, quando quase todo um setor adota essa medida, o consumidor está cercado. No caso de turistas, mais vulneráveis pelo pouco conhecimento da área e dos preços normalmente adotados, é difícil buscar opções.

Algumas das maiores cidades brasileiras entenderam que a organização de eventos é uma fonte de renda importante, por atrair turistas, negócios e investimentos. Por isso, é preciso também trabalhar para entender que receber continuamente feiras, congressos, competições esportivas e espetáculos musicais dependem de entender o funcionamento desse setor. E elevar agressivamente os preços só afastam organizadores e visitantes. E ainda atingem os locais.

Preço dos picolés no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)
Preço dos picolés no Rio de Janeiro (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Turista não é necessariamente um estrangeiro endinheirado que aproveitou seus recursos de sobra para atravessar o mundo. Turista também pode ser alguém com dinheiro contado, pode ser um outro brasileiro e pode até ser seu vizinho. Afinal, os pontos turísticos do forasteiro são os pontos de lazer do nativo.

Na época da Rio+20, o governo federal chegou a intervir para reduzir o preço das diários dos hotéis, pois membros de delegações estrangeiras estavam desistindo de vir ao Brasil. Durante a Copa do Mundo, vários comerciantes e até donos de imóveis cobravam quantias irreais para alugar suas casas para emissoras de TVs interessadas em montar estúdios próximos a estádios ou mesmo para torcedores. Acabaram ficando na mão.

É um pouco o pensamento, alimentados pelas próprias autoridades, de achar que grandes eventos são como ganhar na loteria, o momento mágico em que chegará um dinheiro fácil e rápido para resolver a vida de todos. Seria muito melhor investir em longo prazo, e construir a imagem de uma cidade ou um país adequado para receber o resto do mundo.

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Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Gibraltar sairá da UE, pior para algumas cidades no sul da Espanha

A preferência era clara: os gibraltinos queriam seguir na União Europeia. No referendo que decidiu a situação do Reino Unido no bloco, 95,9% dos votos de Gibraltar eram favoráveis à permanência do país ao lado dos vizinhos europeus. Apesar de proporcionalmente forte, a vitória era numericamente pequena – placar de 19.322 a 823 – e teve pouquíssima influência no resultado final (vitória da saída), definido basicamente pelos 24,4 milhões de eleitores da Inglaterra.

A derrota nas urnas pode colocar em xeque a situação desse território ultramarino, basicamente uma península com uma cidade de 30 mil habitantes e um morro rochoso, em relação ao Reino Unido. O governo espanhol aposta nisso, na esperança de tomar Gibraltar para si. Os gibraltinos preferem seguir separados da Espanha e cogitam conversar com a Escócia – que também votou pela permanência na UE e perdeu – para criar um mecanismo para seguir no bloco continental e ligados ao Reino Unido ao mesmo tempo.

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Mas quem tem mais motivos para estar de olho no destino gibraltino é Campo de Gibraltar, comarca espanhola composta por sete cidades em torno da península, ao sul da Andaluzia. Para essa região, a relação com o território britânico é fundamental para a saúde econômica.

Carros espanhóis fazem fila diante da Rocha de Gibraltar para entrar no território britânico (AP Photo/Marcos Moreno)
Carros espanhóis fazem fila diante da Rocha de Gibraltar para entrar no território britânico (AP Photo/Marcos Moreno)

Gibraltar é uma cidade rica. Com incentivos fiscais, acabou atraindo empresas de serviços bancários, seguros e casas de apostas. A economia cresce 10% ao ano e não deve sofrer tanto o eventual impacto da saída da União Europeia, pois 90% do comércio já é com a Inglaterra. No entanto, estar no bloco é importante pelo mercado de trabalho. Para dar conta desse bom momento, a economia gibraltina depende de milhares de espanhois que atravessam a fronteira todo dia para trabalhar.

FRONTEIRAS: Brexit cria apreensão na cidade que sofreu o Bloody Sunday de 1972

Os empregos oferecidos em Gibraltar se tornaram uma importante fonte de renda para as cidades vizinhas, sobretudo La Línea de la Concepción (onde fica a fronteira anglo-espanhola) e São Roque. Atualmente, 25% da economia de Campo de Gibraltar vem do território britânico. Com a saída do Reino Unido da UE, a fronteira se tornará mais fechada e muitos espanhóis podem perder o emprego. um problema especialmente grave quando se vê que a Andaluzia tem taxa de desemprego de 32%.

Por isso, a pequena cidade britânica pode até estar desgostosa com o resultado do referendo do Brexit, mas quem pode realmente sofrer são milhares de espanhóis.

Por que Paris e Frankfurt estão de olho na saída do Reino Unido da UE

Os números são astronômicos. A produção anual é de US$ 255 bilhões, gerando US$ 97 bilhões em impostos. No comércio de câmbio, são cerca de US$ 1 trilhão (isso mesmo, com “tr”) trocando de mãos por dia. Há vários outros exemplos, sempre com muitos zeros à direita. Esse é o tamanho do mercado de serviços financeiros de Londres, disparado o mais robusto da Europa e um dos maiores do mundo. Um gigantismo que pode sofrer abalos a partir desta quinta (23), depende apenas da opinião dos cidadãos britânicos.

O Reino Unido irá às urnas decidir se fica ou sai da União Europeia, o Brexit (abreviação de “British Exit”, “saída britânica”). As pesquisas mostram um equilíbrio maior que esperado, e cresce a preocupação dos bancos sobre o efeito disso. Afinal, Londres se tornou essa potência no setor bancário pela tradição e solidez de suas instituições centenárias, mas ela ganhou mais impulso quando se estabeleceu como capital financeira informal da Europa unificada.

Para uma empresa financeira trabalhar em todo o Espaço Econômico Europeu a partir de Londres, precisa ter a autorização de agências reguladoras britânicas, que concede uma permissão chamada de “passporting rights” (algo como “direitos de passaporte”). Esse mecanismo atrai vários bancos com sede fora da UE, como o JP Morgan Chase (americano), o Credit Suisse (suíço) e o Nomura (japonês). Todos estabeleceram um escritório na capital inglesa e comandam de lá suas operações no continente.

O problema é que, se o Reino Unido deixar a União Europeia, há uma boa chance de o passporting acabar. Afinal, os outros países da UE dificilmente abririam uma excessão aos britânicos, mantendo alguns dos privilégios de um membro do grupo. Afinal, isso poderia incentivar outras nações a deixarem o bloco.

Se isso ocorrer, vários bancos já disseram que reduzirão suas operações em Londres. O JP Morgan pode mudar-se para outra cidade. O Morgan Stanley e o Citigroup ameaçaram reduzir suas equipe na capital inglesa para deslocar certas áreas para algum país da UE.

Essa possibilidade já deixou algumas cidades com água na boca. A primeira a se pronunciar fortemente foi Paris. O vice-prefeito parisiense, Jean-Louis Missika, já disse que estende o tapete vermelho para qualquer empresa que se interessar em mudar suas operações para lá. A capital francesa tem a vantagem de ter uma posição central na Europa, ser uma metrópole global e servir como atrativo para funcionários de cargos altos e clientes. O HSBC já informou que realocaria mil postos de trabalho para a França caso o Brexit seja aprovado.

Frankfurt também aparece com força. A cidade alemã tem a vantagem de já sediar representações de vários bancos por ser sede do Banco Central Europeu e a capital financeira do país mais rico da UE. Além disso, também tem uma posição central no continente. No entanto, não se trata de uma megalópole global, mas uma metrópole regional de 2,2 milhões de habitantes em sua área urbana. O mercado imobiliário e a rede de transportes teriam dificuldade de absorver um afluxo grande de corporações e talvez não fosse o destino mais apetitoso para altos executivos.

Quem corre por fora na briga é Dublin. A Irlanda tem a seu favor o fato de ser um país de língua inglesa – para uma empresa que pretende transferir sua sede, seria uma mudança muito mais suave – e ter impostos mais baixos que França e Alemanha. O Citigroup já definiu que a capital irlandesa seria sede de suas operações europeias caso o Reino Unido deixe a UE.

O fato de três cidades estarem brigando e de instituições já terem demonstrado preferência por locais diferentes dão a entender que o brexit poderia descentralizar o mercado financeiro europeu. Cada banco poderia migrar para um lugar diferente, talvez com uma ou outra metrópole tendo um pouco mais de destaque. E é por esse posto que muita gente já está brigando. Seriam muitos bilhões de euros em busca de uma nova casa.

Como os Panama Papers explicam o boom da Cidade do Panamá

Um arranha céu atrás do outro. Apenas gruas parecem concorrer por espaço, mas elas estão ali justamente para erguer mais um arranha céu. São sinais claros de uma economia em expansão, com setor corporativo em crescimento e mercado imobiliário aquecido. É uma paisagem comum em cidades chinesas, mas também pode ser vista na América Latina. Não é em São Paulo, Rio de Janeiro Cidade do México, Buenos Aires, Santiago ou Bogotá. É na Cidade do Panamá, a cidade que mais cresce na região.

A capital panamenha viveu um boom no mercado imobiliário nos últimos anos, reflexo de uma economia que chegou a crescer mais de 10% ao ano. Por um tempo, esse era o motivo principal para se falar de Panamá na imprensa internacional. Até que, no início deste mês, a revelação de diversos documentos sobre como o país era usado por empresas offshore que buscavam fugir dos impostos em seus países de origem roubou a cena.

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O desenvolvimento do Panamá e de sua capital sempre tiveram por característica esse papel de intermediário em atividades econômicas. Localizada no trecho mais estreito de terra entre o Oceano Atlântico e o Pacífico, e bem no meio das duas Américas, era um ponto comercialmente estratégico.

No período colonial, os espanhóis fundaram a cidade como uma parada no caminho do ouro retirado no Peru em direção à Espanha. Na década de 1850, era mais rápido e menos desgastante descer de barco ao Panamá, atravessar o istmo e subir pelo Pacífico até a Califórnia durante a Corrida do Ouro do que atravessar todos os Estados Unidos por terra. Por isso, era evidente que havia uma demanda pela construção de um canal, e foi o que aconteceu (em um processo que teve, antes, a separação do Panamá da Colômbia).

O canal foi construído em 1914 e rapidamente a economia panamenha começou a criar o modelo que a caracteriza até hoje. A Standard Oil, maior petrolífera da época, usava o Panamá como ponto de travessia de seus navios. Em 1919, o país começou a registrar navios da empresa. Com isso, o serviço de transporte da Standard não respondia mais às leis tributárias, trabalhistas e civis americanas. Ou seja, menos impostos, salários menores e até permissão de consumo de bebida alcoólica durante a Lei Seca nos EUA. Outras empresas passaram a adotar a mesma prática e, em 1927, o governo panamenho criou leis para que Wall Street também usassem o país para contornar as leis americanas. Assim surgia um paraíso fiscal.

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Essa política fiscal começou a dar resultados mais concretos na década de 1970, com mais um pacote de leis para atrair empresas e empresários dispostos a fugir de impostos e esconder suas atividades. Em seguida, o Panamá se tornou destino do dinheiro de cartéis de tráfico de Colômbia e México e de ditadores como Ferdinando Marcos (Filipinas) Papa Doc Duvalier (Haiti) e Augusto Pinochet (Chile), uma relação que sujou o nome do país no mercado internacional e motivou os Estados Unidos a derrubar o presidente/ditador Manuel Noriega.

Obs.: Aproveitando o momento, o advogado alemão Jürgen Mossack criou uma empresa de serviços corporativos em 1977. Em 1986, ele se associou ao panamenho Ramón Fonseca.

O cenário começou a mudar na década de 1990, mas a economia sempre manteve a vocação panamenha de facilitar o caminho dos outros. O canal recebeu um projeto de expansão (inauguração prevista para junho deste ano) e a Copa Airlines se transformou na segunda maior empresa do país ao assumir o papel de principal hub entre as Américas do Norte e do Sul. O avanço da companhia aérea também ajudou o turismo, se aproveitando das belezas naturais e históricas da capital e arredores.

Avioes da Copa Airlines no aeroporto de Tocumén, na Cidade do Panamá (AP Photo/Arnulfo Franco)
Avioes da Copa Airlines no aeroporto de Tocumén, na Cidade do Panamá (AP Photo/Arnulfo Franco)

Mas o maior crescimento foi nos serviços bancários, atraídos pelos baixos impostos. O aumento de empresas com sede no Panamá impulsionou o setor imobiliário. No final da década de 2000, nove dos dez arranha céus mais altos da América Latina estavam na Cidade do Panamá. Entre 2009 e 2014, o estoque de conjuntos comerciais na cidade triplicou e a oferta de quartos de hotéis cresceu 61% apenas em 2012 e 2013.

O problema é que uma economia como a panamenha não precisa de estrutura física para tantas empresas. Muitas delas são apenas documentos em companhias como a Mossack Fonseca. Não houve demanda para responder à especulação imobiliária e, desde 2015, a Cidade do Panamá vê excesso de imóveis comerciais vazios. Uma crise que pode ficar ainda pior dependendo dos efeitos da revelação dos Panama Papers na imprensa mundial.