Cervejaria americana faz propaganda pró-imigração e é ameaçada de boicote

Veicular uma propaganda durante o Super Bowl é algo grande para o mercado norte-americano, muito grande. Com metade da audiência nacional, a empresa sabe que tem exposição e repercussão imediata, tanto que pagam US$ 5 milhões só para aparecer por 30 segundos durante a final da NFL. Por isso, o peso de qualquer mensagem é gigantesco, e também uma eventual reação negativa. A Budweiser está sentindo isso.

Como é comum na semana do Super Bowl, a cervejaria também aproveitou o evento para lançar uma nova campanha publicitária. No caso, o vídeo mostra Adolphus Busch deixando a Alemanha, entrando nos Estados Unidos e sofrendo preconceito até chegar a St. Louis, onde conheceu Eberhard Anheuser, também alemão. Dessa parceria nasceu a Anheuser-Busch, a criadora da Budweiser.

É óbvia a mensagem pró-imigração do filme, ainda mais seu lançamento em um momento em que o presidente dos EUA quer mudar fortemente a política imigratória do país. Claro, defensores das ideias de Donald Trump tentam mobilizar um boicote contra a empresa, alguns até se manifestando em redes sociais para lembrar que, atualmente, a Budweiser está dentro da AB InBev, um grupo belgo-brasileiro.

Provavelmente por coincidência (pois cada produto tem sua estratégia própria e tem de pensar no que é melhor para si próprio), a AB InBev também é dona do Grupo Modelo, responsável pela produção da cerveja Corona. Uma cerveja que também usou a política de Trump para chamar a atenção.

Propaganda mexicana provoca Trump discutindo o que é a “América”

Donald Trump anunciou que vai mesmo construir um muro dividindo toda a fronteira EUA-México, uma atitude que o transformou em pessoa mais odiada pelos mexicanos. Entre uma piada aqui e uma revolta ali, a cervejaria Corona resolveu dar uma cutucada com classe.

A empresa fez um vídeo mostrando que o slogan da candidatura de Trump, “Vamos fazer a América grande de novo”, não faz sentido porque a América sempre foi grande. Que América? O continente todo, do Alasca à Terra do Fogo.

O vídeo é muito bem feito, mas, claro, levanta a discussão que é para a geografia o que a briga pelas Taça de Bolinhas ou pontos corridos x mata-mata é no futebol: afinal, os Estados Unidos têm direito a se chamar “América” ou não? E, como no caso das argumentações futebolísticas, não há uma razão clara.

O México se chama “Estados Unidos Mexicanos” e o Brasil se chamou “Estados Unidos do Brasil” (não chama mais, viu, Serra?). Pela mesma lógica, o país ao sul do Canadá pode dizer que “América” é o nome dele. É essa interpretação que eles usam, e é a mais comum em países de língua inglesa. Para diferenciar, o continente é chamado no plural – “the Americas” – ou por suas partes – “North America”, “Central America” ou “South America”.

No entanto, dá também para argumentar que América é o continente e que o nome “Estados Unidos da América” apenas descreve o fato que aqueles estados (originalmente as 13 colônias britânicas) estão unidos em uma nação e ficam na América. Essa é a interpretação mais comum na América Latina, incluindo o Brasil.

Ou seja, as duas possibilidades estão certas, mas cada uma faz mais sentido dependendo do idioma. Como normalmente estou conversando em português com um brasileiro, prefiro “América” para o continente e “Estados Unidos” para o país, mas ninguém precisa se matar por causa disso. Vamos aproveitar e curtir o vídeo da Corona e como moramos em um continente espetacular, tendo seu nome no singular ou no plural.

Veja uma empresa americana até a medula mostrando seu patriotismo. Só que não

Difícil encontrar alguma empresa mais americana que a Redneck Riviera. A começar pelo nome, que exalta o glamour do interiorzão dos Estados Unidos. Mas não é apenas aí. Um dos principais garotos-propaganda desse fabricante de botas e roupas é John Rich, ídolo da música country e uma das celebridades mais entusiasmadas na defesa do jeito americano de ser (e também na do Partido Republicano). E, diacho, olha na imagem acima como é a home do site deles.

Em um momento em que o presidente dos Estados Unidos fala em fechar toda a fronteira com o México e em taxar mais os produtos fabricados no vizinho do sul para valorizar a indústria legitimamente americana, nada como dar uma olhada na loja online da Redneck Riviera. Donald Trump ia gostar dessa atitude.

Bem, uma passada rápida no catálogo de roupas femininas já deixa evidente o quanto eles amam os Estados Unidos. Só de ver essas estampas e já dá para ouvir ao fundo um “Oh, say can you see…”.

Redneck Riviera 2

Mas a Redneck Riviera quer que o americano seja americano da cabeça aos pés. E as botas não devem nada às roupas. Para texano nenhum botar defeito.

Redneck Riviera 3

Vamos olhar umas botas masculinas. Um modelo me chamou a atenção. Tem uma águia desenhada na frente, mais americana que comer um cachorro quente enquanto vê um jogo de beisebol.

Redneck Riviera 4

O preço pode soar salgado em reais, mas ela deve valer isso tudo. Basta olhar as especificações. Mas… espera aí! O que é aquilo no final? “Fabricado em León, México”. COMO ASSIM?????

Redneck Riviera 5

Deve ser alguma confusão, um produto especialmente para mexicanos. Afinal, a águia também é um símbolo do México, né? Até está na bandeira. Talvez por isso esteja um pouco mais barata. Vamos ver uma outra, com nome de patriótica e estrelas no cano.

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Bonitona. Essa aí certamente é fabricação americana. Nashville? San Antonio? Oklahoma? Talvez Mississippi. Mas… mas… mas… León de novo?

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Assim não dá! Vamos voltar às botas femininas, lá dava para ver o patriotismo americano exalando pelos poros. É calçar a bota e já sair recitando a Declaração da Independência. Olha só essa, até se chama “Bota da Liberdade”.

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Sem dúvida, é com uma dessa que Sarah Palin sai quando pega sua espingarda e vai caçar algum alce nos bosques do Alasca. Deve ser “Handcrafted in Idaho”, no máximo em Montana.

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De novo, León. Está desanimando. Última chance: a bota de franjinha. Os caras não ousariam desamericanizar a bota de franjinha. Afinal, é uma bota. E tem franjinha! Os americanos amam tanto isso que fizeram até a camisa mais feia da história do futebol só porque queriam botar franjinha de algum jeito.

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Fazer essas franjinhas deve ter encarecido a bota, mas é tão americana quanto o discurso de Bill Pullman na caçamba de uma caminhonete em Independence Day (e aqueles alienígenas achavam que conquistariam o planeta em um 4 de Julho, tolinhos…).

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MÉXICO DE NOVO!!! Ah, esses patriotas americanos já foram melhores…

O post acima contém altas doses de ironia. A Redneck Riviera, como qualquer empresa, tem o direito de abrir suas fábricas onde quiser, desde que dentro dos limites permitidos pela lei. Afinal, há algo mais americano do que buscar reduzir o custo de produção para aumentar sua competitividade em um ambiente capitalista? Até Donald Trump sabe disso.

Um vídeo que ajuda a entender a dinâmica da fronteira EUA-México

A questão fronteiriça entre México e Estados Unidos normalmente é vista como algo que mexicanos tiram proveito para entrar no território norte-americano e conseguir trabalho nas grandes cidades. Sim, isso ocorre. Mas não é apenas isso. Na região da fronteira, o convívio entre os dois países e seus habitantes faz parte da dinâmica econômica e cultural. É uma região quase misturada.

Não à toa, a maioria dos condados fronteiriços, inclusive no republicaníssimo Texas, votaram em favor de Hillary Clinton na disputa com Donald Trump. Para eles, a construção de um muro para separar EUA de México é algo muito mais complexo do que apenas reforço de segurança.

Ainda que seja apenas um retrato parcial do contexto geral, o chef, escritor e apresentador Anthony Bourdain fez um belo programa sobre essa região em 2006. Confiram o vídeo na íntegra (só achei em inglês, desculpe-me):


Anthony Bourdain- No Reservations – S02E08… por james-oliver

O ressentimento do operário de Detroit com Wall Street

Mais uma eleição presidencial se passou nos Estados Unidos e o mapa seguiu as mesmas características dos pleitos mais recentes: os democratas ganham nos grandes centros urbanos, os republicanos vencem no interior. A diferença está na vantagem que cada um consegue nas áreas em que domina e em quão urbana ou rural é a população de cada estado. Dessa vez, foi melhor para os republicanos. Donald Trump venceu, e uma das razões foi o aumento de votos para seu partido no Rust Belt, faixa entre o nordeste e o Meio-Oeste americano, próximo aos Grandes Lagos, onde a desindustrialização americana deixou um rastro de fábricas fechadas e trabalhadores desempregados.

Detroit é um grande símbolo disso. A capital do automóvel sofreu com a mudança das fábricas para outros lugares, e o município chegou a decretar falência. Hillary Clinton venceu na cidade, mas com uma vantagem menor que Barack Obama há quatro anos (37 pontos percentuais, contra 47). Na região metropolitana, a diferença foi ainda menor (em Flint, foi por 9 pontos, enquanto Obama bateu Mitt Romney por 28). Assim, a Grande Detroit não deu aos democratas uma grande vantagem, e o interior sacramentou a vitória republicana no estado.

Essa migração de votos das áreas industriais foi uma marca da eleição. E uma música retrata bem o fenômeno: “Shuttin’ Detroit Down”, de John Rich. O cantor country reforça o contraste entre o operário da fábrica do Meio-Oeste, que trabalha por décadas na mesma empresa, e o engravatado de Nova York. O segundo perde dinheiro por fazer bobagem no mercado financeiro, e quem paga o pato é o primeiro, que vive no “mundo real” e fica até “sem dinheiro para morrer”. Enquanto isso, os políticos em Washington sustentam os banqueiros.

ENTENDA: Priorizar os carros parecia natural para Detroit, mas foi sua ruína

Rich é uma figura conhecida pelo posicionamento político. Declaradamente republicano, já ajudou a criar músicas para a campanha de vários candidatos do partido, sobretudo no Tennessee, seu estado natal. Não fez isso com Donald Trump, a quem conheceu quando participou do “Celebrity Apprendice”, versão de “O Aprendiz” com celebridades. Trump foi o apresentador. Por isso, a letra reflete bastante o discurso dos republicanos sobre a situação do Rust Belt. Um discurso que teve muita aceitação neste ano, e que fez a diferença na definição do futuro presidente dos Estados Unidos.

Veja o clipe de “Shuttin’ Detroit Down”. Aqui tem a letra original, em inglês.

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.

Pesquisas erraram nos EUA também. Por que isso tem sido mais comum?

Mais uma eleição ocorreu, e mais uma vez as pesquisas se mostraram bastante enganadas. Dessa vez, Donald Trump contrariou previsões que davam de 71 a  99% de chance de vitória para Hillary Clinton e conquistou a presidência dos Estados Unidos após uma grande recuperação na reta final. Foi um cenário parecido em várias corridas eleitorais do Brasil e mesmo na decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia. Mesmo com margem de erro, os institutos de pesquisas não estão conseguindo rastrear o comportamento dos eleitores nos últimos dias antes da votação.

Em 5 de outubro, após João Doria Jr. ser eleito prefeito de São Paulo no primeiro turno (uma possibilidade ignorada pelas pesquisas), entrevistamos o cientista político Antônio Lavareda para falar sobre o aumento de casos de arrancadas eleitorais repentinas. Veja abaixo a reportagem completa:

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Eleitorado mais volátil exige que pesquisas sejam mais imediatas

João Doria Jr estava subindo, e bastante. As pesquisas de Datafolha e Ibope mostravam como o candidato do PSDB crescia na última semana. No entanto, a possibilidade de o empresário ser eleito ainda no primeiro turno só pareceu real na pesquisa de boca de urna, quando ele atingiu 48%. Ainda assim, seus 53% finais foram acima da margem de erro de qualquer levantamento realizado, inclusive os publicados no fim de semana da votação.

Não foi algo inédito, sobretudo em primeiro turno. Em 2012, também na eleição municipal de São Paulo, Celso Russomanno caiu e Fernando Haddad subiu em curvas acima da margem de erro das pesquisas apresentadas nos jornais do dia do pleito. Dois anos depois, Aécio Neves e Marina Silva estavam em empate técnico na briga por um lugar no segundo turno da eleição presidencial até o último levantamento, mas a apuração mostrou o candidato do PSDB 11 pontos à frente da candidata do PSB.

Para ilustrar isso, fizemos um gráfico com as pesquisas do último mês dessas três corridas eleitorais. Pegamos apenas do Datafolha, por questão de padronização. O penúltimo número de cada gráfico é sempre o do levantamento publicado no dia da eleição e o último é o resultado final em votos totais (não votos válidos).

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É nítido como a pesquisa não antecipou até onde subiriam ou cairiam alguns candidatos, mas, nos dias anteriores, elas já indicavam suas trajetórias ascendentes ou descendentes. Para entender por que os eleitores têm mudado tanto de comportamento de última hora, entrevistamos o cientista político Antônio Lavareda, especialista em análise do comportamento do eleitorado e presidente do conselho científico do Instituto de Pesquisas Sociais Políticas e Econômicas (Ipespe).

Para Lavareda, o principal motivo dessas distorções não é erro da pesquisa, mas uma volatilidade maior do eleitor devido à mudança das corridas eleitorais nos últimos anos. O tempo de campanha é menor, e o volume de informação jogado nas mídias (e agora ainda há as redes sociais para reforçar) é muito grande e leva o público a mudar muito de opinião. Uma realidade que poderia até levar os institutos a mudaram um pouco o fluxo de trabalho entre entrevistas e publicação.

Tem sido cada vez mais comum o resultado das eleições fugirem bastante das pesquisas, mesmo a que é publicada no dia da votação. O que tem ocorrido?

Nesse ano a campanha foi muito curta, com muita ênfase em propaganda em TV, rádio e redes sociais. O volume de informação é muito grande e concentrado em pouco tempo, as mudanças acabam ocorrendo de forma mais rápidas. O público fica mais volátil.

Antonio Lavareda, cientista político especializado em análise do comportamento do eleitorado (Divulgação)

Antonio Lavareda, cientista político especializado em análise do comportamento do eleitorado (Divulgação)

Campanhas mais longas mudariam de que forma o cenário?

Não mudariam o resultado final, mas as curvas de subidas e descidas de cada candidato seriam mais alongadas, teriam ângulos menos acentuados no gráfico. As informações que chegariam aos eleitores seriam as mesmas, mas elas apareceriam gradualmente e o efeito dela na opinião do eleitorado também seria gradual.

Diante dessa realidade, de público volátil devido a campanhas curtas com muita informação, os institutos de pesquisa deveriam mudar sua abordagem?

Em um eleitorado mais volátil, a pesquisa precisa ser feita em um período de tempo mais estreito para representar um retrato mais fiel de um determinado momento. Se possível, realizar as entrevistas na véspera da divulgação dos números. Caso contrário, os resultados podem ser relativos ao cenário anterior, e não ao do presente.

Já dá para dizer que essa volatilidade é uma tendência?

Sim. Os eleitores estão decidindo seu voto de última hora e os últimos dias têm variações grandes. É esperado isso para uma democracia com as características do Brasil. O voto é mais enraizado quando está vinculado a partidos, mas a ligação do eleitor com os partidos não é forte. Nos Estados Unidos, simplificando um pouco, um terço dos eleitores é democrata e um terço é republicano. Esses sempre votam no mesmo partido. O terço restante é de eleitores independentes, que acabam variando e decidindo as eleições. Aqui no Brasil, é como se quase todo mundo fosse eleitor independente.