Nevou no Deserto do Saara, um fenômeno que está se tornando corriqueiro

As imagens são surpreendentes e até fazem parecer que é notícia falsa. Mas não é. No último dia 7, nevou em uma parte do Deserto do Saara, que viu suas dunas alaranjadas de areia ficarem brancas. Um fenômeno que ainda pode ser considerado raro, mas vem se tornando mais frequente nos últimos anos.

A neve caiu perto da cidade argelina de Aïn Séfra, localizada em um trecho da cordilheira do Atlas, no extremo norte do Saara. Não à toa, um dos apelidos da cidade é “Porta de Entrada do Deserto”. 

Ainda que a temperatura ultrapasse os 40ºC no verão, já se registrou -10,2ºC no inverno. O maior obstáculo às neves não é a temperatura em si, mas a falta de umidade. Ainda assim, nevou na região quatro vezes nos últimos seis anos, incluindo em 2017. No vídeo abaixo, é possível ver a cobertura da TV argelina (vídeo com trechos em francês e em árabe) para uma nevasca em 2012.

A neve não durou muito e derreteu ao longo do dia. Ainda assim, foi captada pelos satélites da Nasa, que fotografaram o deserto com as inusitadas manchas brancas –sobretudo nos picos — no meio do mar de areia.

Foto feita por satélite da neve no Deserto do Saara (Divulgação / Nasa)
Foto feita por satélite da neve no Deserto do Saara (Divulgação / Nasa)

Londres teme poeira do Saara, mas tem de olhar para própria poluição

Ar limpo e céu aberto nunca fizeram parte das virtudes de Londres. Em uma mistura de poluição de uma metrópole com um clima que oferece naturalmente muitas nuvens e neblina, a paisagem típica da capital britânica sempre inclui um fundo cinza. Uma situação que ficou particularmente delicada nas últimas semanas, devido ao aumento da sujeira e de um componente inesperado: poeira vinda do deserto do Saara.

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Na última semana, a Nasa divulgou uma imagem mostrando uma nova onda de detritos deixando o norte da África rumo à Europa. O fenômeno já acendeu o alerta no Reino Unido, onde os ventos do Saara ajudaram a criar algumas das piores ondas de poluição no sul do país nos últimos anos. Duas delas foram particularmente fortes, uma entre março e abril de 2014 e outra em dezembro do ano passado.

Essa sentido sul-norte não é tão comum nas viagens da poeira do Saara. O trajeto mais comum é leste-oeste, atravessando o Oceano Atlântico. A influência do deserto africano nas Américas já é bastante documentada, causando efeitos positivos – como inibir a formação de furacões e fertilizar o solo da Amazônia – e negativos – como levando doenças para os corais do Caribe. Ainda ajuda a embelezar os cartões postais de Miami, avermelhando o nascer do sol na Flórida.

No entanto, a participação do Saara na poluição londrina não pode ser superestimada. Um estudo da Universidade de Edimburgo, Escócia, publicado em 26 de março desde ano mostra que a onda de poluição de 2014 teve grande contribuição de fontes mais “tradicionais”, como gases emitidos por indústrias e fertilizantes utilizados pelos fazendeiros da Europa continental.

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De acordo com os pesquisadores, a poeira do Saara (vídeo abaixo) foi mais relevante no sul da Grã-Bretanha. Na maior parte da ilha, o deserto foi responsável por menos de 20% das partículas poluentes. O estudo é enfático ao dizer que a participação do deserto deva ser relativizada: “A poluição da primavera de 2014 foi largamente atribuída pela imprensa do Reino Unido à poeira do Saara, colocando uma (falsa) ênfase em um fenômeno natural, que não pode ser resolvido com alguma ação”.

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Em entrevista ao jornal Guardian, o advogado da ClientEarth (escritório de advocacia especializado em questões ambientais) foi bastante duro. “Ao invés de lutar em Bruxelas [onde fica a sede da União Europeia] por metas menores de poluição, nosso governo deveria trabalhar com os vizinhos europeus para cortar a poluição pelo continente e agir para reduzir a poluição que sufoca nossas cidades diariamente”, afirmou.

No final das contas, a onda de ventos vindos do Saara na última semana merece atenção dos ingleses e dos europeus em geral. Mas não tanto quanto suas próprias atitudes ambientais.