A Copa do Mundo começará bem no Ramadã. Isso afetará as seleções de maioria muçulmana?

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O técnico da Tunísia, Nabil Maaloul, se disse aliviado ao ver que o sorteio da próxima Copa do Mundo não colocou sua equipe nos Grupos A ou B. O motivo: o Mundial da Rússia começará em 14 de junho, justamente o último dia do Ramadã. Sorte dos tunisianos, mas essas duas chaves, que têm partidas programadas para os dias 14 e 15 de junho, têm quatro times de países de maioria muçulmana: Arábia Saudita, Egito, Marrocos e Irã. Como eles vão fazer? Escrevi um artigo na Trivela sobre isso. Confiram.

Abertura mostrou o que toda a Rio-2016 poderia ser para o Brasil

Quando o Brasil foi definido como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, rapidamente veio o discurso de “fazer o possível”, fazer eventos “com cara e limitações do Brasil”. Tudo isso foi esquecido, termos como “Padrão Fifa” surgiram no noticiário para argumentar que o único jeito de realizar tais competições era gastar uma fortuna.

No final, os brasileiros viram bilhões serem gastos em várias arenas esportivas superdimensionadas ou desnecessárias e pouco dinheiro para a essência, a infraestrutura que geraria o legado. Duas enormes oportunidades perdidas, que talvez jamais sejam recuperadas.

Ao menos, temos um exemplo para mostrar como tudo poderia ser feito. A Cerimônia de Abertura da Rio-2016 primou por fazer o que todo o resto evento (e a Copa também) não fez: mostrou que é possível realizar uma apresentação de alto nível, dentro dos padrões internacionais, aceitando as limitações orçamentárias óbvias de qualquer país em desenvolvimento.

A abertura olímpica carioca custou metade da londrina, quatro anos atrás. E os ingleses já haviam sido muito mais econômicos em relação a Pequim-2008. No final, o Brasil entregou um espetáculo com sua cara, tanto ao expor sua cultura quanto por aceitar suas limitações. E o resultado foi aceito por todos. Não precisávamos do “Padrão Fifa”. Precisávamos fazer as coisas do nosso jeito. Mas agora já não dá para mudar.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

O legado que não virá e o fim definitivo do sonho olímpico

Vamos voltar um pouco no tempo. Outubro de 2007, Zurique, o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, vai ao púlpito com um envelope na mão. Lá estava o nome do país que organizaria a Copa do Mundo de 2014. Nenhuma surpresa, já que havia candidatura única: o Brasil estava escolhido. Dois anos depois, a cena se repetiu. Jacques Rogge, presidente do COI, abre o envelope e anuncia a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Ali havia apreensão devido à concorrência espanhola, mas o resultado foi parecido e a incumbência era do Rio de Janeiro.

Ninguém ganharia um prêmio por supor, já naquela época, que havia um enorme potencial de problemas na organização dos dois megaeventos esportivos. O modus operandi dos dirigentes brasileiros são conhecidos há décadas, e era de se esperar uso político, clientelismo e toda sorte de artifícios para usar o esporte de forma duvidosa. Mas havia quem mantivesse a esperança de algo diferente.

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O Brasil de hoje é um país em crise econômica, dividido politicamente e sem confiança em si próprio. Mas o Brasil de outubro de 2007 e de outubro de 2009 era diferente do atual. A economia dava bons sinais e acreditava-se que seria uma das cinco maiores do mundo no momento desses grandes eventos. No final das contas, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos poderiam reforçar aos olhos do público internacional a posição brasileira entre as nações mais poderosas do século 21.

Por isso que a palavra “legado” foi tão forte desde o início do processo. Ele que faria esse papel. O Brasil de 2007 e o de 2009 tinha vários problemas de gestão política, mas poderia isolar esses grandes eventos e aproveitar seu potencial midiático para torná-los exemplos. O próprio país poderia ver que era possível fazer algo de forma planejada, profissional e sem os vícios do passado.

Manifestantes protestam contra a poluição da Baía de Guanabara (AP Photo/Felipe Dana)
Manifestantes protestam contra a poluição da Baía de Guanabara (AP Photo/Felipe Dana)

O fracasso em concretizar esse legado se vê em nossas cidades. Afinal, elas que receberiam a maior parte das melhorias prometidas para os grandes eventos: infraestrutura viária, transporte de massa, revitalização de bairros e promoção turística e cultural. Mas o Brasil do passado falou mais alto, a barganha política foi mais forte que os conceitos de boa gestão e muito projeto ficou pelo caminho, do VLT de Cuiabá à expansão do metrô de São Paulo, do BRT de Porto Alegre à despoluição da Baía de Guanabara, do novo polo urbano em São Lourenço da Mata (Grande Recife) ao trem-bala Campinas-São Paulo-Rio de Janeiro.

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Tudo isso se desenhou aos poucos, com notícias surgindo a cada dia sobre problemas, atrasos ou erros que faziam os planos serem esquecidos. Mas, para os sonhadores que ainda restam, o alarme já está tocando. Esta quarta marcou a contagem regressiva para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro: faltam 30 dias, um mês.

Obras foram feitas, mas muita coisa está em andamento e parte delas não ficarão pronta quando a pira olímpica for acesa (nem quando for apagada 16 dias depois). Não há mais tempo para alguma surpresa ou para esperar que as coisas se alinhem repentinamente. O sonho de repetir Barcelona-1992 ou Alemanha-2006 não é mais possível. O Brasil de 2007, 2009, 2014 e 2016 não soube realizá-lo. A Copa de 2014 foi fantástica como festa (goleada para a Alemanha à parte), tomara que os Jogos do Rio sejam também sejam, mas sabemos que, em um contexto maior, um enorme potencial de mudança foi desperdiçado. Nossas cidades são o retrato disso.

Estudo descarta ideia de que vírus do zika entrou no Brasil durante a Copa

Milhões de pessoas chegando ao Brasil para ver futebol, festejar, injetar alguns milhões na nossa indústria do turismo e serem picadas pelo Aedes aegypti. É fácil perceber como a Copa do Mundo de 2014 está diretamente relacionada à entrada do vírus da febre zika no País. Só que… não está. É o que identificou um estudo realizado por 57 cientistas de diversas nacionalidades sobre como a doença chegou em território brasileiro e se espalhou.

A versão de que a Copa do Mundo de 2014 ou uma competição de canoagem realizada no Rio de Janeiro em agosto do mesmo ano teriam sido os vetores do zika era sustentada pela cronologia conhecida. Os primeiros casos identificados da doença datam de maio do ano passado, e o próprio Ministério da Saúde sustentava a tese de que o vírus teria entrado no Brasil entre o segundo semestre de 2014 e o começo de 2015. Considerando o fluxo de turistas vindo de todas as partes do globo, incluindo Polinésia Francesa e Sudeste Asiático, regiões que tiveram surtos recentes do zika, para ver o Mundial de futebol, era fácil ligar os pontos.

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É essa linha do tempo que caiu por terra no estudo “Zika virus in the Americas: Early epidemiological and genetic findings” (“Vírus zika nas Américas: primeiras descobertas epiodemiológicas e genéticas”), publicado na revista Science na última semana. A pesquisa, que contou com a participação de cientistas de Brasil (do Instituto Adolfo Lutz, da Fundação Oswaldo Cruz, do Instituto Evandro Chagas, do Ministério da Saúde e da Universidade Estadual de Feira de Santana), Reino Unido, Canadá e Estados Unidos, fez o mapa genético do vírus em diferentes pacientes para se definir uma trajetória de contaminação.  Outro objetivo da pesquisa era descobrir em que momentos da gestação o zika pode causar danos ao desenvolvimento do feto.

Mãe segura bebê com microcefalia em Alcantil, Paraíba (AP Photo/Felipe Dana)
Mãe segura bebê com microcefalia em Alcantil, Paraíba (AP Photo/Felipe Dana)

Foram coletadas amostras em sete pacientes brasileiros: quatro casos comuns, um de um bebê que nasceu com microcefalia, um de um adulto que morreu de complicações de encefalite após contrair o zika e um de uma pessoa que havia doado sangue. Os dados genéticos foram comparados com nove casos em outros países: seis no surto recente nas Américas, um na Polinésia Francesa, um na Tailândia e um nas Ilhas Cook.

Os dados mostraram que o vírus encontrado no Brasil é muito semelhante ao das Américas, e bastante diferente do caso tailandês. Isso é consistente com a versão de que a epidemia de zika nas Américas teve início no Brasil, aonde ela provavelmente teria chegado por meio de poucos portadores, eventualmente um só.

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Pela análise das mutações sofridas, os cientistas estabeleceram como momento dessa entrada seria entre maio e dezembro de 2013, um ano antes do imaginado até então. O motivo dessa demora em detectar a doença seria o pequeno número de casos nos primeiros meses, induzindo médicos a diagnosticá-los como dengue.

A cronologia descoberta pelo estudo descarta a versão de que a Copa do Mundo teria sido o vetor do zika, mas abre a possibilidade para a Copa das Confederações. Até porque o torneio, disputado em junho de 2013, teve a participação da seleção do Taiti, um dos locais que mais sofreram com o zika naquele ano. E os taitianos fizeram uma partida em Recife, uma das cidades que mais sofrem com a epidemia. No entanto, o surto da doença na Polinésia Francesa ocorreu do final de 2013, depois da realização do torneio de futebol.

Seleção taitiana agradece apoio da torcida brasileira após perder para o Uruguai na Arena Pernambuco, na Grande Recife (AP Photo/Eugene Hoshiko)
Seleção taitiana agradece apoio da torcida brasileira após perder para o Uruguai na Arena Pernambuco, na Grande Recife (AP Photo/Eugene Hoshiko)

Por isso, os pesquisadores tratam como improvável que o vírus tenha entrado no Brasil durante a Copa das Confederações. Para eles, a maior chance é que o zika foi transmitido a partir de um turista comum. Entre o segundo semestre de 2013 e o começo de 2014, houve um aumento de 50% no número de visitantes de regiões afetadas pelo zika em relação aos 12 meses anteriores. Só das Filipinas, foram mais de mil visitantes mensais em 2013. A pesquisa não tem dados suficientes do vírus filipino, mas aprofundar as análises genéticas e cruzar com dados de voos e cruzeiros com esses turistas pode apontar os prováveis pontos de entrada da doença em solo brasileiro.

As informações tiram o zika da lista de legados negativo da Copa do Mundo do Brasil, e isso é importante. Não pelo evento esportivo em si – ainda mais porque o Rio de Janeiro sediará outro em agosto, os Jogos Olímpicos –, mas porque dá mais elementos para compreender onde e como a doença chegou ao País e quanto tempo levou para o primeiro caso se transformar em epidemia. Um dado fundamental para o desenvolvimento de vacinas e futuras políticas de saúde pública para controle dos vetores de transmissão.

Avenida das Torres: como autoridades não sabem antecipar seus passos

O eixo Centro-São José dos Pinhais é um dos mais importantes de Curitiba. Não apenas pelo fato de a cidade vizinha abrigar o aeroporto Afonso Pena, mas também pelo desenvolvimento econômico e imobiliário. São José é sede de várias grandes empresas e abrigou muitos empreendimentos residenciais novos. Com isso, o fluxo de pessoas indo nos dois sentidos para trabalhar é grande.

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A ligação é feita pela avenida Comendador Franco, conhecida como Avenida das Torres pelas 25 gigantescas torres de energia e 20 grandes postes que decoram seu canteiro central. Uma marca que está perto do final. Nesta terça, a Copel (Companhia Paranaense de Energia Elétrica) anunciou o plano de enterrar os fios da via. A obra teria custo de R$ 157 milhões e levaria 18 meses, mas depende de licença ambiental para começar.

A intervenção em si é interessante. Sem as torres e superpostes no canteiro central, é possível realizar diversos tipos de melhorias: de paisagismo para tornar o caminho mais bonito e eventualmente pitoresco a incremento da capacidade de tráfego, com a criação de corredor para BRT. Seria muito importante para uma via que já é bastante exigida.

Torres de energia na Avenida Comendador Franco, que liga Curitiba a São José dos Pinhais (Divulgação/Copa 2014)
Torres de energia na Avenida Comendador Franco, que liga Curitiba a São José dos Pinhais (Divulgação/Copa 2014)

O problema é que a Avenida das Torres acabou de passar por uma grande reforma. As pistas foram alargadas em 2014, como parte das obras de mobilidade para a Copa do Mundo. O primeiro esboço da reforma, de 2009, previa o enterro dos cabos. Era uma sugestão do Ministro das Cidades da época, Márcio Fortes, mas essa intervenção foi retirada dos projetos seguintes. No total, os trabalhos custaram R$ 149,7 milhões em recursos do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento).

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O fato de um importante corredor passar por duas grandes obras em tão pouco tempo expõe a dificuldade que o poder público tem em antecipar seus passos. Um problema comum a várias cidades brasileiras. Obras são feitas como elementos fechados em si próprio, muitas vezes sem prever eventuais modernizações. Por isso, ainda é comum avenidas novas sem espaço adequado para futura implantação de corredor de ônibus e ciclovia ou pontes que não têm espaço para pedestres.

Ainda que enterrar as torres pudessem representar um custo extra à reforma da Comendador Franco, possivelmente seria menor do que fazer as duas obras separadamente, como deve ocorrer. Além disso, as novas obras podem exigir demolição ou interdição de partes da avenida, provocando custo de retrabalho e/ou reduzindo a capacidade de fluxo de carros.

Um dos pontos mais importantes para ter cidades modernas é fazer, no presente, intervenções que facilitem atualizações futuras. É mais rápido e, principalmente, barato.