Por que as fronteiras da Itália com a Áustria e a Suíça mudam todo ano

Divisas naturais normalmente são as preferidas de quem precisa realizar algum tipo de controle fronteiriço. E só acompanhar a linha de rios, mares, montanhas ou lagos para saber onde se separa um território do outro. Quase sempre é algo visual e intuitivo, não precisa de um GPS como no caso de uma fronteira política no meio de um território plano e seco. Mas essa lógica fica meio complicada quando o acidente geográfico começa a se mover sozinho.

É o caso do norte da Itália. Partes da fronteira com França, Suíça, Áustria e Eslovênia são definidas de acordo com o topo de determinados picos dos Alpes. No entanto, vários desses pontos são tomados por neve, e as mudanças climáticas do globo fizeram as geleiras diminuírem 50% desde 1850. Com isso, novos picos acabaram emergindo e o traçado fronteiriço se torna mais difícil de definir.

Para não haver muita discussão, o governo italiano entrou em acordo com o austríaco em 2008 e o suíço no ano seguinte para aceitarem que as fronteiras entre os países são realmente móveis. A cada ano, elas podem sofrer pequenas alterações de acordo com a linha dos picos alpinos.

Esse acordo não é necessário com a Eslovênia, pois não há geleiras móveis na região de fronteira com a Itália. No caso da fronteira franco-italiana, ainda há uma discussão por causa da posse do Mont Blanc, o ponto mais alto da Europa (se é 100% francês ou compartilhado entre os países).

Para acompanhar com precisão as alterações, foi criado um projeto para fazer um mapeamento quase em tempo real dos picos que definem a fronteira italiana. O Italian Limes instalou uma rede 25 sensores em torno de uma geleira no Monte Similaun, o mesmo onde Ötzi foi encontrado em 1991 (evento que motivou uma nova medição da fronteira na época, determinando que a múmia de 5.300 anos era italiana, não austríaca). Os aparelhos enviam dados topográficos a cada duas horas, identificado qualquer mudança na altitude local.

A ideia dos idealizadores do projeto não é criar polêmica ou mesmo forçar uma definição absoluta da fronteira entre Itália e Áustria e entre Itália e Suíça, mas mostrar como as geleiras alpinas estão diminuindo rapidamente e alertar para os efeitos da mudança climática.

Veja mais na Vice e no CityLab (ambos em inglês).

Um site para você não se enganar com as distorções da projeção Mercator

A projeção Mercator fica no limite entre coisas que adoramos odiar ou odiamos adorar. É só olhar um mapa mundi nesse método que várias coisas conflitantes nos chamam a atenção: ele deixa os países com desenhos bonitos, é claro, tem fácil visualização e ajuda demais quem ainda navega orientado por bússola (OK, esse é um público bastante reduzido atualmente), ao mesmo tempo que cria monstrengos, sobretudo no hemisfério norte, com a Groenlândia maior que a América do Sul e a Noruega parecendo uma tripa quase tão longa quanto o Chile.

As distorções da Mercator crescem na medida em que se afasta do Equador e sua intensidade não deve ser menosprezada. O Brasil, por ficar perto do Equador, tem dimensões bastante reais (ainda que o Rio Grande do Sul apareça meio “gordinho”) e parece diminuído na comparação com regiões mais ao norte, como a Europa (que tem mais área que o Brasil, mas só um pouco).

Para desmascarar um pouco o gigantismo do Canadá, da Groenlândia, da Rússia e de qualquer território que se aproxime de um círculo polar, criaram o site The True Size. Você escolhe o país e joga seu desenho pelo mapa mundi, distorcendo seu tamanho de acordo com a projeção Mercator.

Dá para se divertir um pouco, mas também pode ser útil para enviar àquela pessoa que ainda toma o método criado pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator como verdade absoluta.