Rodínia

Tag: Carnaval

Cortar verba do Carnaval é sinal de incompreensão do papel da gestão pública na economia

Tirar dinheiro de uma área não essencial, potencialmente autossustentável, para colocar nas creches. Difícil não concordar com isso batendo o olho de primeira na notícia, mas os detalhes mostram como a situação não é tão simples assim. O que torna a ideia da prefeitura do Rio de Janeiro de cortar 50% dos R$ 26 milhões repassados às escolas de samba para o Carnaval de 2018 em um equívoco, mesmo que seja para ajudar nas verbas da pré-escola.

A gestão pública ainda é vista por muita gente como pegar o dinheiro dos impostos e distribuir para as diversas ações custeadas pelo governo. Bota uma parcela na educação, uma outra na segurança, e na infraestrutura, e na saúde, e nos gastos de gabinete dos parlamentares… Nesse sentido, tirar dinheiro de escola de samba e colocar em creche está correto.

Mas o gestor, qualquer que seja o nível, precisa também mover a economia de sua área. Isso gera empregos, gera investimentos e gera até arrecadação de impostos. No caso do Rio de Janeiro de Marcelo Crivella, o turismo é um dos setores mais importantes, sobretudo no Carnaval. Assim, os recursos colocados no desfile de escolas de samba (por maior que seja o carinho dos crescentes blocos de rua, o grande atrativo para o turista, sobretudo o estrangeiro, ainda é a Sapucaí) dão retorno. Não é tirar dinheiro das creches, é ajudar a chegar mais.

O problema é que esse tipo de retorno é muito diluído: uma parte vem na indústria hoteleira, outra na de bares e restaurantes, outra no comércio… Cada loja, cada hotel, cada bar fica com um pouco disso e o benefício à cidade se vê na soma de tudo. É difícil criar um modelo de privatização ou de concessão disso. O poder público precisa, de alguma forma, participar. Isso ocorre em todo o mundo, até nos Estados Unidos, onde governos municipais e estaduais bancam a construção de estádios esportivos para ter uma equipe profissional na cidade.

É a mesma lógica, aliás, que torna os gastos no autódromo de Interlagos em algo válido para São Paulo, pois a Fórmula 1 traz muito dinheiro à capital paulista.

Isso não significa que Crivella não possa discutir a forma como o dinheiro é repassado às escolas de samba. Por exemplo, a prefeitura poderia – e deveria – estabelecer mecanismos de controles para ter certeza que essa verba será bem utilizada. O município também pode estabelecer um debate para que as escolas de samba criem novas fontes de renda e sejam mais atrativas para investidores ou patrocinadores, até que se tornem autossustentáveis.

O Carnaval de 2018 já está em pleno andamento em várias escolas, talvez todas. A prefeitura afirmou que “estuda o desenvolvimento de mecanismos para que sejam captados investimentos da iniciativa privada”, mas a verdade é que não há tempo de fazer isso já para o ano que vem sem que se afete os preparativos.

A crise econômica é forte no Brasil, e o Rio de Janeiro tem sido uma das cidades que mais têm sentido isso por causa da situação do governo municipal e do estadual. E precisará de inteligência e incentivo à economia para sair disso, não fazer o orçamento como se o único objetivo fosse pagar conta.

A competição entre escolas de samba lembra o futebol, e isso não é coincidência

Cada equipe tem suas cores e sua torcida, contratam profissionais para competir pelo título de campeã da cidade ou para evitar o rebaixamento para a segunda divisão. Nos níveis mais baixos, a disputa é muito menos estruturada, com times amadores se unindo pelo amor àquele universo e o sonho de um dia estar entre os grandes.

Os desfiles de escolas de samba têm vida própria, mas é muito fácil traçar paralelos entre sua forma de disputa e a do futebol. E não há a menor coincidência nisso. é apenas consequência natural de como a disputa carnavalesca surgiu.

Na década de 1920, o samba começou a tomar a cidade como modo de se celebrar e festejar. Rodas se formavam em diversos pontos do Rio de Janeiro, mas ainda não era algo consagrado. Aos poucos, grupos foram se organizando na forma de blocos e tinham no Carnaval o momento de ir às ruas. Em 1928, o bloco Deixa Falar foi criado no Largo do Estácio, em frente a uma escola, motivo para eles se intitularem “escola de samba” como maneira de se diferenciar da instituição de ensino tradicional.

Aquele universo crescia e, em 1929, até houve uma disputa entre blocos. No caso, apenas para eleger o melhor samba do ano. A competição não teve sequência nos anos seguintes, até que, em 1932, o jornalista Mário Filho viu nas escolas de samba uma oportunidade de aumentar as vendas do jornal Mundo Sportivo, onde trabalhava.

No período do Carnaval, o futebol e o remo – principais modalidades esportivas do Rio na época – não tinham competições. Na falta de assunto para preencher páginas e convencer pessoas a comprarem as edições, Mário Filho (hoje nome do Maracanã e irmão de Nelson Rodrigues) teve a ideia de tratar as crescentes escolas de samba como se fossem times de futebol em uma competição mais estruturada. O fato de muitos redatores da publicação serem ligados ao samba foi mais um impulso.

Em 1932, o jornal organizou o primeiro desfile de escolas de samba. Os blocos passaram na rua Marquês de Pombal, apresentando três sambas inéditos cada um. Um grupo de seis jurados ficaria no coreto da Praça Onze para avaliar os desfiles de acordo com critérios pré-definidos e, ao final do Carnaval, anunciar o campeão. Foram 19 participantes, e a Mangueira ficou com o título.

No ano seguinte, o Mundo Sportivo havia fechado as portas, mas a ideia de Mário Filho tinha sido tão boa que o jornal O Globo assumiu a organização do desfile. Nesse ano, a Unidos da Tijuca fez um desfile temático, de acordo com o tema de seu samba. Foi o primeiro “samba enredo”.

Desde então, muitos elementos do desenvolvimento do desfile das escolas de samba lembram o futebol. Houve brigas entre ligas, houve dois campeões no mesmo ano, houve desenvolvimento de regras para diminuir a margem de polêmicas, houve criação de divisões de acesso quando a quantidade de participantes ficou grande demais para uma disputa apenas. 

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén